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“Sobre o lado esquerdo”, de Carlos de Oliveira

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme pensa: “o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu coração, esmagar o coração.”

Do livro Sobre o lado esquerdo, na edição Trabalho poético,
Lisboa, Assírio & Alvim

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Soneto XIX, de Rainer Maria Rilke

 

Ainda que se mude rápido o mundo
como figuras de nuvens,
todo o perfeito tomba
de volta ao primordial.

Por sobre a mudança e a marcha,
mais longe e mais livremente,
dura ainda o teu pré-canto,
deus com a lira.

Os sofrimentos não são reconhecidos,
o amor não é aprendido,
e o que na morte nos afasta

não é desvelado.
Unicamente a canção por sobre o campo
santifica e celebra.

 

De Sonetos de Orfeu, Tradução de José Miranda Justo,
Lisboa, Assírio & Alvim

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“Porquê ler os clássicos”, de Zbigniew Herbert

 

1.

no quarto livro da guerra do Peloponeso
Tucídedes conta-nos entre outras coisas
a história da sua mal sucedida expedição

entre os longos discursos dos chefes
batalhas cercos pestes
uma densa rede de intrigas de diligências diplomáticas
o episódio é como uma agulha
na floresta

a colônia grega Anfípolis
caiu nas mãos de Brasidos
porque Tucídedes chegou atrasado com o socorro

devido a isso foi condenado pela sua cidade
ao exílio eterno

os exilados de todos os tempos
conhecem que preço é esse

 

2.

os generais das guerras mais recentes
se algo de semelhante lhes acontece
choram de joelhos perante a posteridade
e louvam o seu heroísmo e inocência

acusam os subordinados
os colegas invejosos
os ventos desfavoráveis

Tucídedes diz apenas
que tinha sete barcos
que era Inverno
e que navegou com celeridade

 

3.

se a arte tivesse uma jarra quebrada
por assunto
uma pequena alma quebrada
com uma grande pena de si própria

o que permaneceria de nós
seria o choro dos amantes
num pequeno e sujo hotel
quando o papel de parede amanhece

 

Do livro Escolhido pelas estrelas, antologia poética, de Zbigniew Herbert
Tradução de Jorge Sousa Braga, Lisboa, Assírio & Alvim

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“Uma velha cristã de tom altivo”, de Wallace Stevens

A poesia é a ficção suprema, madame.

Tome a lei moral e faça dela uma nave

E da nave construa o céu assombrado. Assim,

A consciência é convertida em palmas,

Como cítaras de vento ansiando por hinos.

Em princípio concordamos. É claro. Mas tome

A lei oposta e faça um peristilo,

E do peristilo projete uma mascarada

Para lá dos planetas. Assim, a nossa indecência,

Não expurgada por epitáfio, praticado por fim,

É igualmente convertida em palmas,

Meneando-se como saxofones. E palma por palma,

Madame, estamos onde começamos. Permita,

Portanto, que na cena planetária

Os seus flageladores desafetos, bem-comidos,

Em parada, batendo nas barrigas entontecidas,

Orgulhosos de tais novidades do sublime,

Tais trrran-tan-tan e trrrum-tum-tum,

Possam, meramente possam, madame, arrancar de

si mesmos,

Uma jovial algazarra entre as esferas.

Isto fará crispar as viúvas. Mas coisas fictícias

Piscam quando querem. Piscam mais quando as

viúvas se crispam.

Do livro Ficção suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz Campos,
Lisboa, Assírio & Alvim

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“Seis paisagens significativas”, de Wallace Stevens

 

I

Um velho está sentado
À sombra de um pinheiro
Na China.
Vê esporas,
Azuais e brancas,
Na orla da sombra,
Moverem-se ao vento.
A sua barba move-se ao vento.
O pinheiro move-se ao vento.
Assim flui a água
Sobre as algas.

 

II

A noite é da cor
Do braço de uma mulher:
Noite, a fêmea,
Obscura,
Fragrante e flexível,
Encobre-se.
Uma lagoa brilha,
Como uma pulseira
Agitada numa dança.

III

Meço-me
Contra uma árvore alta.
Acho que sou muito mais alto,
Pois chego mesmo até ao sol,Com os meus olhos;
E chego à praia do mar
Com os meus ouvidos.
Todavia não gosto
Do modo como as formigas rastejam
Para dentro e para fora da minha sombra.

 

IV

Quando o meu sonho estava perto da lua,
As pregas brancas da tua túnica
Encheram-se de luz amarela.
As plantas dos seus pés
Ficavam vermelhas.
O seu cabelo encheu-se
De certas cristalizações azuis
De estrelas,
Não distantes.

 

V

Nem todas as facas dos postes de luz,
Nem os cinzéis das longas estradas,
Nem os maços das abóbodas
E torres altas,
Podem esculpir
O que uma estrela pode esculpir,
Brilhando através das folhas da videira.

 

VI

Racionalistas, de chapéus quadrados,
Pensam, em salas quadradas,
Olhando para o chão,
Olhando para o teto.
Restringem-se
A triângulos retos.
Se experimentassem rombóides,
Cones, linhas ondulantes, elipses –
Como, por exemplo, a elipse da meia lua –
Os racionalistas usariam sombreros.

 

De Ficção suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos,
Lisboa, Assírio & Alvim

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“já não tenho tempo para ganhar o amor, a glória ou a”, de Herberto Helder

já não tenho tempo para ganhar o amor, a glória ou a

Abissínia,

talvez me reste um tiro na cabeça,

e é tão cinematográfico e tão sem número o número

dos efeitos especiais,

mas não quero complicar coisas tão simples da terra,

bom seria entrar no sono como num saco maior que

o meu tamanho,

e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude,

e eu de dentro o não pudesse desfazer:

um saco sem qualquer explicação,

que ficasse para ali num sítio ele mesmo sítio bem

amarrado

– não um destino à Rimbaud,

apenas longe, sem barras de ouro, sem amputação de

pernas,

esquecido de mim mesmo num saco atado cegamente,

num recanto pela idade fora,

e lá dentro os dias eram à noite bem no fundo,

um saco sem qualquer salvação nos armazéns obscuros

Do livro Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim

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“hoje, que eu estava conforme ao dia fundo,”, de Herberto Helder

 

hoje, que eu estava conforme ao dia fundo,
fui-me a reler alguns dos meus poemas,
e então caí abaixo de mim mesmo,
e era só o que faltava:
sáfara safra
– nem as mãos me serviam,
nem a dor escrita e lida me serve para nada

 

Do livro Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim

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