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“Uma velha cristã de tom altivo”, de Wallace Stevens

A poesia é a ficção suprema, madame.

Tome a lei moral e faça dela uma nave

E da nave construa o céu assombrado. Assim,

A consciência é convertida em palmas,

Como cítaras de vento ansiando por hinos.

Em princípio concordamos. É claro. Mas tome

A lei oposta e faça um peristilo,

E do peristilo projete uma mascarada

Para lá dos planetas. Assim, a nossa indecência,

Não expurgada por epitáfio, praticado por fim,

É igualmente convertida em palmas,

Meneando-se como saxofones. E palma por palma,

Madame, estamos onde começamos. Permita,

Portanto, que na cena planetária

Os seus flageladores desafetos, bem-comidos,

Em parada, batendo nas barrigas entontecidas,

Orgulhosos de tais novidades do sublime,

Tais trrran-tan-tan e trrrum-tum-tum,

Possam, meramente possam, madame, arrancar de

si mesmos,

Uma jovial algazarra entre as esferas.

Isto fará crispar as viúvas. Mas coisas fictícias

Piscam quando querem. Piscam mais quando as

viúvas se crispam.

Do livro Ficção suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz Campos,
Lisboa, Assírio & Alvim

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“Seis paisagens significativas”, de Wallace Stevens

 

I

Um velho está sentado
À sombra de um pinheiro
Na China.
Vê esporas,
Azuais e brancas,
Na orla da sombra,
Moverem-se ao vento.
A sua barba move-se ao vento.
O pinheiro move-se ao vento.
Assim flui a água
Sobre as algas.

 

II

A noite é da cor
Do braço de uma mulher:
Noite, a fêmea,
Obscura,
Fragrante e flexível,
Encobre-se.
Uma lagoa brilha,
Como uma pulseira
Agitada numa dança.

III

Meço-me
Contra uma árvore alta.
Acho que sou muito mais alto,
Pois chego mesmo até ao sol,Com os meus olhos;
E chego à praia do mar
Com os meus ouvidos.
Todavia não gosto
Do modo como as formigas rastejam
Para dentro e para fora da minha sombra.

 

IV

Quando o meu sonho estava perto da lua,
As pregas brancas da tua túnica
Encheram-se de luz amarela.
As plantas dos seus pés
Ficavam vermelhas.
O seu cabelo encheu-se
De certas cristalizações azuis
De estrelas,
Não distantes.

 

V

Nem todas as facas dos postes de luz,
Nem os cinzéis das longas estradas,
Nem os maços das abóbodas
E torres altas,
Podem esculpir
O que uma estrela pode esculpir,
Brilhando através das folhas da videira.

 

VI

Racionalistas, de chapéus quadrados,
Pensam, em salas quadradas,
Olhando para o chão,
Olhando para o teto.
Restringem-se
A triângulos retos.
Se experimentassem rombóides,
Cones, linhas ondulantes, elipses –
Como, por exemplo, a elipse da meia lua –
Os racionalistas usariam sombreros.

 

De Ficção suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos,
Lisboa, Assírio & Alvim

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“já não tenho tempo para ganhar o amor, a glória ou a”, de Herberto Helder

já não tenho tempo para ganhar o amor, a glória ou a

Abissínia,

talvez me reste um tiro na cabeça,

e é tão cinematográfico e tão sem número o número

dos efeitos especiais,

mas não quero complicar coisas tão simples da terra,

bom seria entrar no sono como num saco maior que

o meu tamanho,

e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude,

e eu de dentro o não pudesse desfazer:

um saco sem qualquer explicação,

que ficasse para ali num sítio ele mesmo sítio bem

amarrado

– não um destino à Rimbaud,

apenas longe, sem barras de ouro, sem amputação de

pernas,

esquecido de mim mesmo num saco atado cegamente,

num recanto pela idade fora,

e lá dentro os dias eram à noite bem no fundo,

um saco sem qualquer salvação nos armazéns obscuros

Do livro Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim

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“hoje, que eu estava conforme ao dia fundo,”, de Herberto Helder

 

hoje, que eu estava conforme ao dia fundo,
fui-me a reler alguns dos meus poemas,
e então caí abaixo de mim mesmo,
e era só o que faltava:
sáfara safra
– nem as mãos me serviam,
nem a dor escrita e lida me serve para nada

 

Do livro Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim

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“O boneco de neve”, de Wallace Stevens

 

Há que ter um espírito de Inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros encrostados de neve;

E ter tido frio muito tempo
Para ver os zimbros encrespados com gelo,
Os abetos eriçados ao brilho distante

Do sol de Janeiro; e não pensar
Em qualquer desgraça no som do vento,
No som de algumas folhas,

Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar deserto

Para o ouvinte, que ouve na neve,
E, ele mesmo nada, não vê
Nada que lá não está e sim o nada que é.

Do livro Ficção suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos, Lisboa, Assírio & Alvim

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“O POETA CHORAVA…”, de Mário Cesariny

O poeta chorava
o poeta buscava-se todo
o poeta andava de pensão em pensão
comia mal tinha diarreias extenuantes
nelas buscava Uma estrela (talvez a salvação?)
O poeta era sinceríssimo honesto total
raras vezes tomava o eléctrico
em podendo
voltava
não podendo
ver-se-ia
tudo mais ou menos
a cair de vergonha
mais ou menos
como os ladrões

E agora o poeta começou por rir
rir de vós ó manutensores
da afanosa ordem capitalista
depois comprou jornais foi para casa leu tudo
quando chegou à página dos anúncios
o poeta teve um vómito que lhe estragou
as únicas que ainda tinha
e pôs-se a rir do lôgro, é um tanto sinistro
mas é inevitável, é um bem, é uma dádiva.

Tirai-lhe agora os versos que êle próprio despreza
negai-lhe o amor que êle mesmo abandona,
caçai-o entre a multidão.
Subsistirá. É pior do que isso.
Prendei-o. Viverá de tal forma
que as próprias grades farão causa com êle.
E matá-lo não é solução.
O poeta
O Poeta
O POETA
destroi-vos

Mário Cesariny
in Nobilíssima visão, Assírio & Alvim

[Via Poesia Incompleta]

 

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“Herberto Helder publica ‘Servidões'”

Matéria sobre a publicação do novo livro de Herberto Helder [via Carlos Mendes de Sousa], publicada no Público:

Chega na segunda-feira às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim, do grupo Porto Editora, um novo livro de Herberto Helder, Servidões , que reúne largas dezenas de poemas inéditos.

Chega na segunda-feira às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim, do grupo Porto Editora, um novo livro de Herberto Helder, Servidões, que reúne largas dezenas de poemas inéditos. A notícia foi avançada nesta terça-feira pelo grupo Porto Editora, que presumivelmente obedeceu aos desejos do autor ao só anunciar agora a existência do livro e ao dispensar qualquer sessão de lançamento.

Tal como os anteriores títulos de Herberto Helder, Servidões não será reeditado autonomamente, embora seja de admitir que venha a integrar uma próxima edição de Ofício Cantante, a sua poesia completa. Dado que a tiragem deste novo livro não excederá os cinco mil exemplares, tudo indica que terá o mesmo destino de A Faca Não Corta o Fogo, de 2008, que se esgotou num mês.

A primeira impressão que Servidões provoca em quem acabou de ler o livro talvez se deixe dizer melhor numa expressão inglesa: he did it again. Mais uma vez, depois de a energia e a capacidade de inovação de A Faca Não Corta o Fogo terem assombrado os que não julgavam possível uma tal voltagem poética num autor de 80 anos, Herberto Helder repete o milagre.

Servidões abre com um texto em prosa construído a partir de três textos anteriores: o mais antigo aparecia a abrir Edoi Lelia Doura, a “antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa” que o autor organizou em 1985, e os restantes tinham surgido respectivamente na publicação brasileira Cult e na Telhados de Vidro, a revista da editora Averno. É significativo que Herberto Helder tenha querido iniciar este livro com um texto marcadamente autobiográfico, que começa com a sua infância na Madeira, povoada de “visões” e “vozes” que terão contribuído para selar precocemente o seu destino de poeta, e não por acaso de um poeta que acredita, sem ironia, nos poderes da poesia, como outrora, em criança, acreditou nas “enigmáticas figuras” de animais que a seiva das bananeiras deixava na lâmina de uma faca, ou nos raios que atingiriam os espelhos se não houvesse a prudência, “em tempo de trovoadas”, de os cobrir com lençóis.

O texto termina com esta passagem: “Cumprira-se aquilo que eu sempre desejara – uma vida subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava. Era uma vida que absorvera o mundo e o abandonara depois, abandonara a sua realidade fragmentária. Era compacta e limpa. Gramatical”.

Nada de muito diferente do que há muito escrevera num texto hoje recolhido em Photomaton & Vox: “(…) As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivo do tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu.” Mas é verdade que se sente em Servidões, talvez mais do que noutros livros do autor, um certo desejo de revelar, de esclarecer, talvez de corrigir leituras exteriores que lhe terão parecido equívocas. Não se trata nunca, note-se, de propor a sua própria leitura da obra, mas antes de tentar aclarar a natureza do trajecto de que ela é a face visível.Este é também um livro em que Herberto Helder vai mais longe do que nunca na sua determinação de sair da literatura, de desprezar todo o ornamento. E o livro parece ir acelerando, até atingir, em muitos dos poemas finais, uma violenta energia: “dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila/ arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,/ a ideia de paraíso é apenas um apoio/ para o salto soberano,/ não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,/ púberes putinhas das favelas,/ mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,/ um inferno à medida de cada qual dificílimo (…)”.

Embora a proximidade da morte seja um tópico recorrente em Servidões, nem há aqui melancolia alguma, nem o corpo que se lê nestes poemas dá grandes sinais de decadência física. Mas a verdade é que nenhum corpo real, tivesse ele 30 ou 80 anos, pôde alguma vez plausivelmente corresponder à energia sexual desta escrita. O que é realmente digno de assombro não é tanto isso, é um cérebro de 82 anos ser capaz desta intensidade criativa.

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“Jonas”, de Zbigniew Herbert

E Deus fez que aparecesse um grande peixe que engoliu Jonas

Jonas filho de Amitai
fugindo de uma missão perigosa
embarcou num navio que se dirigia
de Jopa para Tarquish

toda a gente conhece o que aconteceu depois
um tufão uma tempestade
a tripulação atira Jonas ao abismo
o mar de súbito fica calmo
o peixe previsto aproxima-se nadando
durante três dias e três noites
Jonas reza nas entrenhas do peixe
que por fim o vomita na terra seca

o Jonas moderno
afunda-se como uma pedra
se encontra uma baleia
nem tempo tem de suspirar

uma vez salvo
age com mais astúcia
que o seu colega bíblico
não volta a envolver-se
em missões perigosas
deixa crescer a barba

e longe do mar
longe de Nínive
sob um nome falso
lança-se no comércio
de gado e antiguidades

os agentes de Leviatã
são venais
não têm o sentido do destino
são funcionários da fortuna

num hospital limpo
Jonas morre de cancro
sem mesmo ele saber
quem era na realidade

a parabólica
aplicada na sua cabeça
expira
e o bálsamo da lenda
não se agarra à sua carne

(Escolhido pelas estrela. Tradução de Jorge Sousa Braga. Lisboa: Assírio & Alvim)

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“Escolhido pelas estrelas”, de Zbigniew Herbert

 

Ele não é um anjo
é um poeta

não tem asas
tem apenas a mão
direita coberta de penas

agita o ar com ela
levita durante três segundos
e cai de seguida

quando está quase pousado
ganha de novo impulso com as pernas
paira por um instante
agitando a mão coberta de penas

oh se só ele pudesse vencer a atração
da terra
poderia viver num ninho de estrelas
poderia saltar de raio em raio
poderia –

mas as estrelas
à simples ideia
de serem a sua terra
quase morrem de medo

o poeta cobre os olhos
com a mão coberta de penas
não sonha mais com voar
sonha com uma queda
aquela que como um relâmpago desenha
o perfil do infinito

Escolhido pelas estrelas. Tradução de Jorge Sousa Braga. Lisboa: Assírio & Alvim

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“Quando fores velha”, de W.B. Yeats

 

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

Uma antologia. Tradução de José Agostinho Baptista.
Lisboa, Assírio & Alvim.

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