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Suportar a verdade, por Vladimir Safatle

Texto enviado por Paloma Vidal. Foi publicado hoje, na coluna Opinião da Folha de S. Paulo:

VLADIMIR SAFATLE

Suportar a verdade

Nos próximos dias, o governo deve conseguir aprovar, no Congresso, seu projeto para a constituição de uma Comissão da Verdade. O que deveria ser motivo de comemoração para aqueles realmente preocupados com o legado da ditadura militar e com os crimes contra a humanidade cometidos neste período será, no entanto, razão para profundo sentimento de vergonha.
Pressionado pela Corte Interamericana de Justiça, que denunciou a situação aberrante do Brasil quanto à elucidação e punição dos crimes de tortura, sequestro, assassinato, estupro e ocultação de cadáveres perpetrados pelo Estado ilegal que vigorou durante a ditadura militar, o governo brasileiro precisava mostrar que fizera algo.
No caso, “algo” significa uma Comissão da Verdade aprovada a toque de caixa, sem autonomia orçamentária, sem poder de julgar, com apenas sete membros que devem trabalhar por dois anos, sendo que comissões similares chegam a ter 200 pessoas.
Tal comissão terá representantes dos militares, ou seja, daqueles que serão investigados. Como se isso não bastasse, a fim de tirar o foco e não melindrar os que se locupletaram com a ditadura e que ainda dão o ar de sua graça na política nacional, ela investigará também crimes que porventura teriam ocorrido no período 1946-64. Algo mais próximo de uma piada de mau gosto.
Um país que, na contramão do resto do mundo, tende a compreender exigências amplas de justiça como “revanchismo” não tem o direito de se indignar com a impunidade que se dissemina em vários setores da vida nacional.
Aqueles que preferem nada saber sobre os crimes do passado ainda estão intelectualmente associados ao espírito do que procuram esquecer.
O povo brasileiro tem o direito de saber, por exemplo, que os aparelhos de tortura e assassinato foram pagos com dinheiro de empresas privadas, empreiteiras e multinacionais que hoje gastam fortunas em publicidade para falar de ética. Ele tem o direito de saber quem pagou e quanto.
Esta é, sem dúvida, a parte mais obscura da ditadura militar. Ou seja, espera-se de uma Comissão da Verdade que ela exponha, além dos crimes citados, o vínculo incestuoso entre militares e empresariado. Vínculo este que ajuda a explicar o fato da ditadura militar ter sido um dos momentos de alta corrupção na história brasileira (basta lembrar casos como Capemi, Coroa Brastel, Lutfalla, Baumgarten, Tucuruí, Banco Econômico, Transamazônica, ponte Rio-Niterói, relatório Saraiva acusando de corrupção Delfim Netto, entre tantos outros).
Está na hora de perguntar, como faz um seminário hoje no Departamento de Filosofia da USP: Quanta verdade o Brasil suporta?

VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.

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A carta e o e-mail, por Fred Coelho

Texto de Fred Coelho sobre cartas e e-mails, tempo-espaço, lirismo e antilirismo:
I
Não é a poeira que repousa nas coisas. São as coisas que se agarram à poeira.
II

 A prova esmagadora da compressão do tempo dentre os homens é a correspondência. A carta era parte de um ritual temporal. Escrever solitário, enviar, esperar paciente, receber, abrir um envelope, pegar a carta nas mãos e, com tempo, ler. Hoje, com os emails e as mensagens sms, tudo tornou-se instantâneo, invasivo, exigente, resumido. Nada contra os emails, pois resolveram a comunicação profissional e incrementou a insanidade das comunicações afetivas. A reflexão é sobre tempo-espaço, já que a carta expandia o ser pelo mundo e o email nos comprime. A carta é literatura, o email é jornalismo. Uma fabula, o outro informa. Claro, há emails escritos como cartas – aliás, o email tornou-se, como já dizem os especialistas em comunicação e tecnologia, o espaço escritural da longa mensagem. Redes sociais, sms e talks da vida já suprem o compromisso de “apenas” se comunicar pontualmente. Escrever emails está no limite do tempo que tínhamos de ter para escrever cartas. Porque esprememos nossa capacidade reflexiva de escrita em uma necessidade utilitária de nos comunicarmos em tempo real. Um excesso de comunicação que, como tudo, gera um alto nível de redundância do que se fala. Dizemos demais hoje em dia, porém cada vez mais brevemente. Tomara que isso abra portas para uma vontade de ser extenso através da escrita, transformando pessoas em prosadores, ficcionistas de si mesmo, em epopéias do efêmero.

III
As cartas eram uma forma de vivermos para além do tempo e do espaço. Pois sabíamos que nossos sentimentos, ideias e planos, culpas, desculpas e enganos estavam em trânsito, pelo mundo (tempo), e que algum dia indeterminado chegariam ao destino (espaço). O email é duro e anti-poético, pois ele aparece do “outro lado da vida” automaticamente. Exige-se velocidade no entendimento da mensagem, ao contrário das cartas, que demandavam depuração, leitura repetida e inspiração para a volta. A carta não recorta um pedaço da vida. A carta era o balanço momentâneo da vida, onde quando e porquê dos dias entre uma correspondência e outra. O email é uma foto do que lhe interessa naquele momento, naquele assunto, naquele tormento. Aliás, cartas e emails são em imensa parte sem comparação além do fato de escrevermos informações em ambos. E por que a carta perdeu  para a mensagem eletrônica? Porque ficamos felizes em apenas nos comunicar. A vida não é literatura. Literatura é um espaço cavado no oco da vida, no avesso do tempo e espaço, na folga dos constrangimentos da nossa linguagem utilitária. A internet (há de chegar o tempo em que vamos desnaturalizar esse meio tão “natural”) inventou um novo homem, fora da literatura, fora da contemplação. Um homem ativo, criativo, propostivo, comunicativo, massivo e genial. Um gênio digital que, porém, não troca mais cartas.

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Em busca da Alma Americana

Px
Reproduzo aqui o artigo de Paulo Nogueira sobre Liberdade, de Franzen. O artigo foi publicado no site da revista Bravo!:

Liberdade é o quarto romance do norte-americano Jonathan Franzen, 51 anos. Se a sua obra anterior, As Correções (2001), faturou com um pé nas costas o mais cobiçado prêmio literário dos EUA, o National Book Award, Liberdade desencadeou uma pirotecnia que reduz os fogos de artifício do Réveillon do Rio a um anêmico vagalume. Um episódio mostra como o autor aumentou de tamanho entre uma e outra obra. Em 2001, a tentacular apresentadora de TV Oprah Winfrey selecionou As Correções para o seu Clube do Livro, um privilégio que garante a venda de muitas baciadas de exemplares. Só que o escritor deu um chá de cadeira na mulher mais influente dos Estados Unidos. ”As escolhas dela são piegas e unidimensionais”, esnobou o autor. A apresentadora cancelou a participação de Franzen no seu talk-show, alegando que ele “iria se sentir desconfortável”. Dez anos depois, esgrimindo um espírito esportivo digno do Barão de Coubertin, o idealizador dos jogos olímpicos, Oprah selecionou Liberdade para o seu Clube do Livro, reverenciando-o: “É uma obra-prima”. Se ninguém leva a mal um elogio, quanto mais dois – e, desta vez, Franzen não emburrou: passou do chá de cadeira para a colher de chá.

E fez bem, pois era só a ponta do iceberg. Em suas férias, o presidente Barack Obama desfilou com um exemplar do romance sob a axila. E disse do autor: “Ele é o cara!” (talvez esteja na hora de Obama virar o disco). A revista Time fez capa com o criador e a criatura, não regateando chiliques na manchete: “O Grande Romance Americano”. Vantagens de jogar em casa? Que nada. Do outro lado do Atlântico, o diário inglês The Guardian se derreteu todo e ronronou: “É o livro do século”. Os leitores brasileiros que anseiam por ver em carne e osso esse prodígio, podem ir desembainhando as suas Bics: Franzen já confirmou que vai bater ponto na Festa Literária de Paraty em 2012.

Antes de entrar no mérito de Liberdade, convém passar a pente fino aquele rótulo da Time – até para avaliarmos devidamente a dimensão da proeza. De que diabo falamos quando falamos do “Grande Romance Americano”? O termo surgiu num ensaioescrito pelo romancista da Guerra Civil Americana, John William de Forest, publicado em 9 de janeiro de 1888 – e se referia a um tipo de obra que conseguisse captar o sentimento e a psique tipicamente norte-americanos. A segunda metade do século 19 assinala não apenas a gênese dessa demanda (ou gincana) literária – são também outorgados os primeiros prêmios. De um lado, Mark Twain, com o seu As Aventuras de Huckleberry Finn, banhava a escrita da ex-colônia inglesa no realismo, no humor, no coloquialismo. Já em 1891, o crítico britânico Andrew Lang proclamou as lambanças de Huck e Tom Sawyer “o grande romance americano”. Do outro lado da barricada, dois escritores atormentados, doidinhos por sugestões simbólicas – e amigos do peito: Herman Melville (Moby Dick) e Nathaniel Hawthorne (A Letra Escarlate).

Moby Dick seria entronizado como clássico apenas em 1926, quando o ensaísta Lawrence Buell escreveu The Unkillable Dream of the Great American Novel: Moby Dick as a Test Case (em tradução livre, O Sonho Imortal do Grande Romance Americano: Moby Dick Como um Estudo de Caso). Como todo o símbolo que preste, a baleia Moby Dick era metafórica. Daí que até hoje exegetas e leitores gastem o seu latim jurando por Netuno que o animal representa a ânsia humana do Absoluto, ou aquilo a que os existencialistas chamavam de “a força das coisas”, ou um Santo Graal cetáceo. Menos, menos. Tendo em conta que o autor mobiliza mais de 100 páginas para descrever a técnica e a tecnologia da pesca à baleia, talvez seja simplesmente a maior história de pescaria de todos os tempos. Por sua vez, A Letra Escarlate, com uma ressonância quase gótica, ajuda o circo a pegar fogo ao introduzir um tema que se tornará longevo na literatura dos Estados Unidos, com múltiplos avatares: o puritanismo norte-americano.

ROL DE DESAVENÇAS

Mas é em 1925 que sai a síntese mais convincente das pulsões e poéticas que povoam a melhor literatura norte-americana: O Grande Gatsby, de Francis Scott Fitzgerald. Jay Gatsby é um anti-herói, contrabandista de bebidas. Mas o capitalista selvagem que tenta ser não passa de mera cascata: Gatsby torra toda a grana aos pés da sua idolatrada (e casada) Daisy, que o ignora. O protagonista acaba assassinado pelas costas por um crime que não cometeu (ele, que cometera tantos). O outdoor de uma ótica, como uns olhos que tudo veem, preside o romance – quem sabe a metáfora mais fecunda e inquietante da ficção norte-americana. Por outras palavras, Fitzgerald reconcilia momentaneamente as duas tendências acima mencionadas: a simbólica e a realista. Proeza digna de nota.

Para ter uma noção da vitalidade da literatura norte-americana, basta lembrar que, apenas quatro anos depois de Gatsby, desponta O Som e a Fúria, de William Faulkner. Com uma técnica modernista, brandindo numerosos pontos de vista (volta e meia, simultaneamente), Faulkner – no melhor estilo Balzac – coloniza todo um território imaginário, o condado de Yoknapatawpha. E inaugura um filão que dará pano para mangas: a temática do “Sul profundo”, com os fantasmas da Guerra Civil vivinhos da silva – tanto que chegam e sobram para puxar o pé (ou a mão) de escritoras tão admiráveis como Harper Lee, Flannery O’Connor e Tony Morrison. A partir daí, as correntes se espraiam em um dédalo de tendências. Se a trilogia USA, de John Dos Passos, e As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, são demasiado esquemáticos e sentimentais, O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, e O Homem Invisível, de Ralph Ellison, correspondem à representação romanesca de alguns supremos arquétipos norte-americanos: a traumática perda da inocência e as vicissitudes do individualismo. É uma diversidade de temas queespelha a galopante complexidade da sociedade norte-americana. O que um judeu nova-iorquino tem em comum com um mórmon de Salt Lake City? Brotam não propriamente efusões regionais (os Estados Unidos não têm aquilo que no Brasil se intitula de “literatura regionalista”), mas testemunhos e experiências contrastantes.

Cheguemos a Liberdade. Como em As Correções, no âmago do romance estão três décadas de uma família e os seus satélites emocionais. Desta vez, são os Berglund: Walter (“o cara mais legal do Minnesota”), a sua mulher, Patty, e os filhos, Joey e Jessica. Gravita em redor deles Richard, um veterano astro do folk-rock, ex e futuro amor de Patty – os norte-americanos o descreveriam como um “frenemy” de Walter, contração de amigo (friend) com inimigo (enemy). Enfim, um amigo da onça.Walter, a aparente efígie da decência e da responsabilidade, tem um lado negro que é um verdadeiro breu. Saliva pela sua jovem secretária – tão jovem que Franzen a batiza de Lalitha, uma óbvia homenagemà ninfeta de Vladimir Nabokov. Pior: advogado ambientalista e um apaixonado por aves (o próprio Franzen é um inveterado observador de pássaros), ele trabalha para uma empresa carbonífera de alto teor poluente.Walter e Patty, rebentos de pais disfuncionais, fazem das tripas coração para criar os seus filhos com a melhor das intenções. Mas não conseguem evitar um rol de desavenças e amarguras entre todos osintegrantes da família.

ERROS FORAM COMETIDOS

Se As Correções se ocupava das relações familiares quando o autor ainda estava na faixa etária dos filhos, em Liberdade, Franzen, aos 51 anos, emparelha claramente com os pais – mas não forçosamente para vestir a camisa deles. O romance começa nos anos 1980 e avança aos ziguezagues até 2004 e depois até o presente. Geograficamente, transita de Saint Paul, no Meio-Oeste (o berço de Franzen), para a capital, Washington.Há mais paralelismos obra/autor: o músico Richard (o “artista” do livro), depois de uma ascese estética mais ou menos voluntária, tira o pé da jaca e alcança a notoriedade em 2001, o mesmo ano em que Franzen ganhou o National Book Award com As Correções e se tornou uma (talvez “a”) figurinha carimbada das letras norte-americanas. Richard e Jonathan se locupletam com a mesma idade: aos 40 anos. Patty é uma das criaturas mais poliédricas do romance, desenhada até a mais ínfima filigrana. O título do diário dela, uma das seções narrativas de Liberdade, diz tudo: Erros Foram Cometidos. Botem erros nisso. Ex-estrela do basquete universitário, uma típica princesa do Minnesota e indefectível imperatriz do seu bairro chique, a partir daí a vida de Patty vai ladeira abaixo – sem freios de pé ou de mão (e vem uma jamanta no cruzamento).

Liberdade revolve laboriosamente os conteúdos e significados de “juventude” e “maturidade”, liberalismo e libertarismo. Assim, embora o cenário do romance seja a mais completa tradução do livre-mercado, a sacrossanta palavra do título acaba por assumir um inopinado sentido semipejorativo. Franzen celebra implicitamente os valores da responsabilidade e da probidade e relativiza uma liberdade à moda da casa. Por exemplo, a liberdade de impingir ao mundo Bush ou Sarah Palin, ou de infestar o planeta com os McDonald’s da vida. É, erros foram cometidos. Aquilo que o romancista escreve sobre outro personagem também se aplica a Walter, o mocinho/bandido da história: “A personalidade suscetível de sonhar com uma liberdade ilimitada é uma personalidade igualmente propensa à misantropia e à ira”. Apesar de o enredo sugerir isso, Franzen transcende a sátira, por mais impagável e virótica que esta seja. Os personagens de Liberdade são muito mais do que fantoches hilários. E, se acabamos por conhecer o clã Berglund e sua constelação como a palma da mão, algo neles permanece enigmático e intangível. São seres humanos, prismáticos e camaleônicos, gente como a gente.

Liberdade, com mais de 600 páginas, ganhava com uma lipoaspiração, como fungaram alguns críticos? Talvez. Mas não choremos de barriga cheia. A humanidade, a destreza, o humor e a tristeza do autor (que em alguns momentos lembram os filmes de Frank Capra) compensam esses hipotéticos pneuzinhos. Antes sobrar que faltar. E antes as calorias de Liberdade do que a anorexia de forma e conteúdo de tantos romances que bruxuleiam por aí.

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As gavetas do escritor

Walnice Nogueira Galvão – O Estado de S.Paulo

Parece fatal, mas em alguma esquina da História os pecadilhos de juventude podem emboscar o escritor consagrado.

Em cuidada edição da Nova Fronteira, com as ilustrações originais, sai Antes das Primeiras Estórias, treino inaugural de Guimarães Rosa ainda em 1929-1930. É bom lembrar que dezesseis anos se passariam até sua estreia oficial, com o livro Sagarana, em 1946. É provável que nesse lapso de tempo resida o segredo, que vai destes contos até um estilo estabilizado e com marca registrada.

A imaginação do escritor alça voo para a Escócia, os Alpes suíços, a Alemanha e os fenícios de antanho. Não seria difícil localizar o sinete de suas numerosas leituras, por exemplo a de Edgar Allan Poe num texto gótico para ninguém botar defeito ou a do Flaubert de Salammbô em outro. Mas ainda não é isso o mais interessante, e sim o preciosismo da linguagem, entre parnasiana e simbolista, perseguindo um léxico raro e esdrúxulo. Pouca invenção há, e assim mesmo num ou outro neologismo (“esmeraldejava”, “acorcundados”) de raso lavor.

Mas deixa entrever como se encanta com os imponentes topônimos celtas, aqueles de consoantes dobradas e jeito impronunciável, ou então com os onomásticos fenícios. O autor deleita-se em falar de “Tragywyddol, guardião de Duw-Rhoddoddag”, e de Kartpheq, Narr-Baal, Quaimph, Asdoth-Pisga. O fantástico predomina como clima geral, com insinuações de eflúvios do diabo, lado a lado com a precisão vocabular amaneirada ao descrever paisagem e fauna.

Outro escritor pilhado em semelhante armadilha foi Fernando Pessoa. Tendo publicado apenas um livro em vida, Mensagem, morreria deixando dispersos e esparsos em periódicos. Toda a sua rica e numerosa obra levaria décadas para sair, e seria póstuma. Assim foram aparecendo volumes que traziam os heterônimos e mais o ortônimo, os poemas dramáticos, os poemas em inglês, a prosa e o Livro do Desassossego. Tudo o que se encontrava no famoso baú em vias de ser desentranhado, hoje na Biblioteca Nacional, aos poucos tem sido publicado, gerando, como não podia deixar de ser, muita polêmica.

Até aí, nada demais. Mas chegou um dia em que publicaram suas quadrinhas, à moda espontânea e popular. De fato, nada acrescentam à reputação do poeta, muito pelo contrário: críticos, como o grande pessoano Adolfo Casais Monteiro, protestaram devidamente, em vão. E lá vieram somar-se a uma alta poesia as rimas fáceis e as pieguices das quadrinhas.

Euclides da Cunha tampouco escapou. Grande controlador de tudo que escrevia, nunca viu mérito em transferir para páginas de livro as reportagens que fez sobre a Guerra de Canudos, hoje publicadas e republicadas. E, recentemente, veio à luz sua poesia juvenil, que repudiou até explicitamente, em observação manuscrita no caderno Ondas, atribuindo-a às ilusões da tenra idade.

Mas há escritores a quem a falta de cerimônia dos pósteros não prejudica. O caso notório é Mário de Andrade, cuja obra editada conforme sua vontade é pouco mais da metade da que existe hoje. Aconselhava aos confrades que não se desperdiçassem e que escrevessem para jornal “pensando em livro” – e seguia seu conselho. Graças à curadoria de seu acervo no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), tornou-se um exemplo de como esse tipo de resgate de fundo de gaveta pode vir a beneficiar um escritor e sua obra, em vez de deprimi-los. Completando as pesquisas interrompidas pela morte precoce, contidas em dossiês, pastas, recortes, folhas avulsas e fichas, as equipes do IEB prepararam novos livros de sua autoria discutindo estética, música, arte popular, o Bumba-meu-Boi, o cantador nordestino, entre outros.

Quanto a Guimarães Rosa, sempre cioso e bom juiz da própria obra, nunca quis que sua poesia abandonasse o ineditismo, pois, tanto quanto Euclides da Cunha, sabia bem o que ela valia: mas Magma acabou saindo. O estudo que Maria Célia Leonel dedicou a essa poesia sequestrada, em Magma e Gênese da Obra, debruçou-se sobre os indícios estilísticos que a uniriam ao restante dos escritos.

Todavia, nenhum dos casos que examinamos se reduz ao porte da reputação e à infelicidade de vir à luz material de ordem inferior. É preciso ponderar que um escritor, ao tornar-se figura pública, deixa de ter em sua vontade o árbitro exclusivo da obra e se torna patrimônio coletivo.

Por mais radicais que sejamos, nada se pode comparar à curiosidade que temos e ao interesse que despertam fundos de gaveta de grandes escritores. A pesquisa exige que esses materiais não sejam escamoteados mas sim revelados para alimentar os estudos, propiciando, não diria uma nova avaliação, mas elementos para alicerçar teorias e hipóteses.

É o que se verifica agora com estes primeiros contos, publicados antes dos livros, em revistas de outrora. Como poderíamos negar que lançam uma nova luz sobre a obra? Canhestros, tateantes, vertidos de uma pena ainda em busca de um caminho próprio, que demoraria a encontrar: trata-se de um escritor tardio, que publicaria seu primeiro livro, Sagarana, já perto dos 40 anos.

Mesmo que não esclarecessem mais nada, basta lê-los para perceber que o escritor, limitado a seu país, era presa de sua imaginação, que o arrebatava para o exotismo de países distantes, como estes contos deixam entrever, reiterando seu fascínio por geografia e mapas na infância. No entanto, depois que foi palmilhar os lugares de seus devaneios, e após viver temporadas no exterior, o escritor percebeu que o exotismo estava aqui, e acabou por construir sua obra sobre o sertão, as entranhas do país. Só por isso, esta edição já estaria justificada.

WALNICE NOGUEIRA GALVÃO, PROFESSORA TITULAR DE TEORIA LITERÁRIA E LITERATURA COMPARADA NA USP, É AUTORA DE EUCLIDIANA: ENSAIOS SOBRE EUCLIDES DA CUNHA (COMPANHIA DAS LETRAS), ENTRE OUTROS TÍTULOS

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Caminhos da crítica

Extraída do PublisNews a notícia a respeito de nova edição dos Caminhos da Crítica, do Itaú Cultural, uma excelente iniciativa que já rendeu alguns belos trabalho:

Vai ter reedição, em dezembro deste ano, o grande debate sobre crítica literária que o Itaú Cultural realizou em 2008, informa a coluna Painel das Letras. A lista de participantes reúne já mais de 20 nomes. Entre os estrangeiros, vêm ao Brasil os críticos e ensaístas Marjorie Perloff (EUA), Berthold Zilly (Alemanha), Mario Perniola (Itália), Leonor Arfuch e Josefina Ludmer (Argentina). Os escritores David Toscana (México), Gonçalo M. Tavares (Portugal) e Martín Kohan (Argentina) também estão confirmados.

E por falar nos caminhos da crítica, Francisco Foot Hardman escreveu sobre a crítica brasileira no último sábado, no Estadão:

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Só é louco quem não é

No jornal Rascunho, Claudia Lage escreveu sobre a obra de Campos de Carvalho:

Ao ler o primeiro livro do escritor mineiro Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia, lá por volta de 1956, o escritor baiano Jorge Amado ficou tão impressionado que entrou numa livraria em Salvador e comprou todos os exemplares disponíveis, para presentear os amigos. Entusiasmado, exaltou Campos de Carvalho como uma grande revelação na literatura brasileira, dono de uma voz narrativa inusitada e original. A exaltação, porém, de um escritor longe do regionalismo e da tradição realista não teve muita repercussão em um país que enfrentava graves questões políticas. A prosa alucinada de vôos surrealistas, como a crítica dizia, não encontrou espaço em meio as ditaduras políticas vigentes na época de publicação de seus livros, durante quase uma década. Nem o primeiro, em 1954, nem o último, O púcaro búlgaro, em 1964. Tampouco teve repercussão no próprio meio literário, voltado para uma literatura demasiadamente conectada com a realidade e as questões sociais. Alguns de seus pares chegaram mesmo a considerar a sua escrita alienada e sem propósito. “E Campos de Carvalho?”, exclamou Mario de Andrade numa carta a Fernando Sabino, “Você já o leu? Mas…o que é aquilo?”. O escritor modernista considerava o texto de Carvalho fora de seu tempo e desconectado das suas principais temáticas. Mais tarde, ciente do isolamento que seu trabalho começou a sofrer, o próprio Carvalho retrucou na voz do narrador em O púcaro búlgaro: “Não sou eu que ando um pouco fora de época: é a época!”.

A narrativa inusitada, delirante, unida ao temperamento contestador e arredio, à franca oposição ao regionalismo vigente e a recusa à militância política cobrada pelos seus pares, assim como os constantes conflitos com os editores levaram Campos de Carvalho a se afastar e, de certa forma, a ser afastado da literatura. Ao não se encaixar nos princípios ideológicos e estéticos nem destes nem daqueles, acabou sendo ignorado, passando ao largo dos grandes escritores da época.

Inconformado, Jorge Amado não entendia como um escritor tão talentoso recebia críticas tão injustas a respeito de sua obra, curta, mas altamente criativa e excepcional. Na intenção de confortá-lo, lhe disse uma vez: “Você só será compreendido daqui a 30 anos”. O escritor baiano quis dizer que a obra de Campos de Carvalho estava além da compreensão do seu tempo, limitada pelas circunstâncias e perspectivas da época. Campos de Carvalho recebeu a declaração porém como uma triste profecia. Décadas depois, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, pouco antes de morrer, declarou amargurado: “Eu não sabia que 30 anos demoravam tanto a passar”.

Mas as palavras de Jorge Amado foram, realmente, proféticas. Em 1995, 31 anos justos após a publicação de seu último livro, O púcaro búlgaro, a José Olympio relançou a obra completa do autor. Foi o profeta baiano o autor do prefácio: “Poucas notícias me alegraram tanto nos últimos tempos quanto esta que recebo por fax da Maria Amélia Mello, gerente editorial da José Olympio Editora: a José Olympio vai reeditar os quatro romances publicados por Campos de Carvalho. Tenho vontade de sair gritando aleluia pelo Rio Vermelho afora: uma das obras maiores da literatura brasileira, por tantos anos esquecida, fora das montras das livrarias, reencontra o caminho do público e do reconhecimento da crítica”.

Mas antes mesmo de os livros voltarem às livrarias, o escritor já tomava novo alento, planejando pôr fim a um silêncio de três décadas. Campos de Carvalho não só havia desaparecido da cena literária, mas havia também parado de escrever. O consolo do padrinho literário se tornara profecia, e a profecia se tornou maldição, a despeito das melhores intenções. “Perdi o tom”, o escritor mineiro explicou em uma entrevista. “Eu tentei várias vezes”, ele diz, “mas de tudo o que eu escrevia saía tragédia. Eu queria escrever humor, mas ficava sério”.

O humor tinha significado profundo para Campos de Carvalho. Ao dar uma entrevista ao escritor Mario Prata, Campos de Carvalho recebeu-o em seu apartamento com um pedaço de papel mal datilografado. Eram as perguntas e as respostas da entrevista já feitas. A rápida autoentrevista terminava justamente com uma pergunta sobre o humor: “O que significa o humor para você?” E a resposta: “Significa o auge de qualquer ficção ou de qualquer outra arte, no sentido de sublimação do sublime, da efervescência do fervor ou da originalidade do original. É um passo à frente de qualquer vanguarda, que se arrisca ao hermetismo da própria linguagem, ao desconhecido, ao inefável. É o caso de Finnegans Wake’ por exemplo, ou do mais nebuloso poema de Mallarmé, cujo humor intrínseco sempre nos escapa (tão-me estranho, tão-me intrínseco) por mais que o tentemos desvendar. É o caso também do extenso poema em prosa Hebdomeros, de Giorgio de Chirico, cuja facilidade aparente é apenas a maneira que o autor encontrou para melhor se disfarçar e não se expor ao ridículo, que nele é apenas o humor verdadeiro e sutil. Note-se que não estou sequer tentando comparar-me a esses luminares da literatura de ontem, mas apenas tentando justificar meu total apreço pelo humor como forma de arte, mesmo partindo de uma pequena experiência como O púcaro búlgaro”.

Não é difícil entender por que, sem conseguir o acesso ao próprio humor nonsense e corrosivo, sem a expressão do narrador desestabilizador assumindo o lugar daquele que comumente organiza o relato, na narrativa convencional, o escritor mineiro tenha preferido o silêncio. Tinha esperanças, entretanto, de voltar à ativa após o relançamento de seus livros. Campos de Carvalho intuía que as novas gerações poderiam compreender melhor o seu trabalho. Repetia e confirmava, talvez sem perceber claramente, as palavras proféticas de Jorge Amado. A sua proposta artística, que o distanciou dos seus contemporâneos, era conscientemente avessa à lógica cartesiana na construção narrativa e às referências realistas, uma experiência literária que permanece inovadora ainda nos dias de hoje. As noções de mensagem, conteúdo, enredo, narrador onisciente, espaço e tempo são totalmente desconstruídas por Campos de Carvalho, por meio do nonsense e do humor. Nas primeiras linhas de A lua vem da Ásia, o autor escreveu: “Aos 16 anos matei meu professor de lógica, invocando legítima defesa. E que defesa seria mais legítima?”. Sim, o que seria mais legítimo do que, morto o professor de lógica, morta a lógica, abrir espaço para a imaginação?

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Conan Doyle por José María Guelbenzu

No caderno Babelia do jornal El País, José María Guelbenzu escreveu sobre Rodney Stone e El valle del miedo, de Conan Doyle, o pai de Shelock Hommes: “Conan, que es tan imperial como Kipling en su mentalidad, nos obsequia con una historia de buenos y malos donde triunfa la Inglaterra de generosos y abnegados luchadores y guerreros siempre dispuestos a demostrar su coraje y valía por el ancho mundo que hicieron suyo. El relato es una suma de episodios muy entretenidos y bien contados, engarzados en una trama de boxeo que, a su vez encierra una subtrama con un enigma digno de las mejores novelas de aventuras.” E mais, acerca de El valle del miedo: “No puede faltar en la casa de ningún amante de las aventuras de Sherlock Holmes. Y dicho esto, añadamos que, en efecto, quizá sea esta la mejor novela de Holmes, menos conocida que las demás. Está dividida en dos partes: en la primera se desarrolla el misterio y se resuelve; en la segunda, se retrocede veinte años atrás para conocer la historia que sostiene la resolución del enigma de la primera. La primera parte responde al esquema clásico: Holmes recibe una carta, parte a un rincón rural a resolver una muerte, desarrolla sus calidades deductivas y resuelve el problema. En la segunda cambia el escenario: estamos en América, donde una sociedad secreta de las que tanto le gustan a Conan y que es, en realidad, un Sindicato del Crimen, opera impunemente en un lugar conocido como El Valle del Miedo. Amores y rufianes se mezclan para ofrecernos un escenario trepidante que, desde el pasado, vendrán a confluir en el presente. Y siempre, la sombra fatídica de Moriarty representando a un Mal absoluto que, sin embargo, puede ser derrotado en batallas concretas, lo mismo que el Bien, pero dentro de una guerra sin fin. Esa visión del Absoluto, que ha pervivido hasta hoy en las novelas de acción, sea la Espectra de Bond o los detestables psicópatas de la novela negra o de terror, procede de una concepción religiosa que continúa instalada en nuestro interior contra viento y marea, aunque sin la gracia, en general, con que caballeros como sir Arthur eran capaces de hacerlo antaño y hacernos estremecidamente felices.” Para ler a matéria completa, acesso o caderno do El País.

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Ainda em torno do ensino, da leitura e do ENEM

Havia reproduzido no blog a matéria do Estadão em torno da pesquisa sobre a média de leitura de estudantes de universidades federais; em seguida, o professor Jorge Fernandes da Silveira, nos comentários, reproduziu o excelente texto de Luis Augusto Fischer a respeito do ENEM e do ensino de literatura nas escolas. O texto foi copiado para o centro do blog, de modo que ganhasse mais visibilidade. Agora, no PublishNews, quem analisa o texto de Fischer é Felipe Lindoso, jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura.
“Há algo de muito errado no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio)”, diz Luís Augusto Fischer em artigo publicado no Prosa e Verso do jornal O Globo do sábado, dia 13 de agosto. O errado que o escritor e professor assinala diz respeito especificamente às perguntas sobre literatura feitas no exame e como essas terminam por induzir determinadas práticas em sala de aula, e o resultado disso.
Fischer pergunta sobre a natureza e a qualidade das perguntas sobre literatura no ENEM que, na prática, hoje é o grande portal de acesso ao ensino superior nas universidades federais e nas que aderem ao PROUNI, o sistema de bolsas que facilita o ingresso de estudantes nas faculdades particulares.
Diz Fischer que “o ENEM tende a tratar o texto literário como um texto qualquer. Forçando um pouco, dá para dizer que o ENEM tende a tratar um poema de Drummond ou um conto de Machado de Assis no mesmo nível de uma reportagem de jornal, uma tira em quadrinhos ou um anúncio publicitário”.
Fischer não pretende assumir a postura de “leiturólogos” que acham que a formação dos ditos “leitores críticos” é o paradigma essencial do ensino de literatura, o que transformaria todos os leitores em cidadãos “conscientes” e atuantes. E muito menos defende o ensino tradicionalista da literatura, com a apologia do cânone dominante. Ele apenas levanta a questão de que o ensino da literatura nos cursos médios deve atender à especificidade da matéria. De fato, diz ele, sobre a questão: “Examinando a filosofia da prova da área que abrange a literatura, “Linguagens, códigos e suas tecnologias” (nome aborrecidamente tecnocrático para um ajuntamento de Português, Literatura, Tecnologia da Informação e, sim, Linguagem Corporal!) se percebe que quem comanda é o variacionismo, que pouca atenção dá à tradição literária culta, preferindo uma abordagem que avalia a destreza de leitura operacional, nada mais”.
Sabemos que a eficiência do letramento, essa “leitura operacional” é uma das tragédias do ensino brasileiro. A alfabetização – como chamávamos antigamente – é extremamente precária e leva ao surgimento dos “analfabetos funcionais”, que saem do ensino fundamental incapazes de compreender um texto escrito até bem simples. Por outro lado, essa capacidade de leitura é requisito essencial para que se avance em qualquer outra área do conhecimento. Isso certamente conduz à postura de centrar a avaliação na compreensão do texto – qualquer texto – e admitir, na escrita, “erros” que vão contra a norma culta mas que são expressão de formas populares (vide a recente polêmica sobre o livro para a EJA que foi injustamente acusado de ensinar errado).
Mas essas questões dizem respeito especificamente ao ensino do português como idioma e forma de expressão “funcional”. O absurdo, me parece, consiste em “ampliar” as questões do ensino do português para o ensino de literatura.
Mas antes de avançar, permitam-me recordar outra façanha tecnocrática do MEC.
A cartilha “Caminho Suave”, da prof. Branca Alves de Lima, foi o instrumento de alfabetização de milhões de brasileiros. Alguns dos que foram alfabetizados por esse livro, ocupando depois cargos de responsabilidade no MEC, aderiram de forma radical ao construtivismo pedagógico. E, lá pelos meados dos anos 90, alicerçados nessa sabedoria, tiraram a “Caminho Suave” da lista dos livros adquiridos pelo MEC. Mais ainda, fizeram-no de forma muito agressiva, desqualificando a cartilha em termos praticamente desrespeitosos, esquecendo-se do que ela representou para todos os que foram por ela alfabetizados. A prof. Branca Alves de Lima morreu alguns anos depois disso, profundamente desgostosa e deprimida pelo tratamento que recebeu.
A insistência do MEC em aprovar com louvor os livros didáticos da corrente construtivista acabou prevalecendo. Não sou pedagogo nem especialista na análise dos livros didáticos, mas, pelo que me informo, praticamente não existem mais, hoje, livros que não estejam de alguma forma enquadrados nessa corrente.
O construtivismo pedagógico, com sua insistência em fazer que o aluno aprenda a partir da “construção” do aprendizado de seu entorno, tem evidentemente muitos méritos, inclusive e particularmente o de fazer que a realidade social, política e econômica dos estudantes assuma um papel crucial no processo. Palmas e elogios para esse esforço, e jamais me ocorreria defender o método do “Ivo viu a uva”. Mas é bom lembrar que, sociologicamente, o processo educacional tem como objetivo transmitir para a geração seguinte o conhecimento acumulado na história da humanidade, e não fazer que cada geração “redescubra” tudo novamente.
Essa mixórdia para a qual Fischer chama atenção, de misturar português, literatura, tecnologia da informação, linguagem corporal nessa rubrica de “Linguagens, códigos e suas tecnologias”, me parece ter raiz em uma visão que quero crer seja distorcida da postura construtivista, e abdicar, por esse viés, de uma herança do humanismo: a do ideal que o homem deva ter uma compreensão ampla de cada uma das áreas do conhecimento, e que isso seja o fundamento de sua prática como ser humano e racional.
Na sociedade moderna nem um gênio como Michelangelo ou Leonardo conseguiriam ter excelência em tantas áreas do conhecimento humano como os dois: pintores, escultores, arquitetos, urbanistas, estrategistas militares e inventores (especialmente Leonardo). E confesso ter certa nostalgia desse momento da história da humanidade em que era possível para uma pessoa abarcar “o conhecimento disponível” em si mesmo.
Hoje isso não é mais possível, certamente.
Mas será correto misturar literatura com “linguagem corporal” e “tecnologia da informação”?
Não acredito que todas as pessoas devem se tornar “leitores críticos” e muito menos que gostar de literatura seja uma condição sine qua non para o exercício da cidadania. Mas me é difícil aceitar que a escola abdique de ser o local onde se ensina que a dimensão cultural, para além do ensino utilitário, é importante. E ensinar implica em conduzir os alunos para a descoberta dessas dimensões culturais, sem imposições autoritárias, mas com a clara visão de que, sem esses componentes, o ensino “prático” perde muito de sua eficácia. Inclusive porque diminui a autonomia crítica do estudante diante dos postulados vigentes nas diferentes áreas das ciências. O espírito crítico não é “funcional” para a simples execução de tarefas dentro do corpus científico e tecnológico vigente, mas sem esse espírito crítico não se avança no conhecimento, em área nenhuma.
Certamente não seria apenas o ensino mais dinâmico e rico da literatura o caminho a possibilitar isso. Filosofia, sociologia – tudo aquilo que, não gratuitamente, se coloca no terreno de “humanidades” – são componentes da criação dessa visão crítica do mundo. E a literatura, certamente, oferece caminhos riquíssimos para que “transversalmente” (como está na moda dizer) os alunos apreendam a complexidade e a diversidade do mundo.
Luís Augusto Fischer termina seu artigo chamando atenção para a força institucional no ENEM. De fato, as diretrizes emanadas no MEC terminam por condicionar a atitude dos professores, a elaboração dos livros escolares e a própria postura das escolas diante do desafio que os alunos enfrentam, de ingressar no ensino superior. Por isso mesmo, os componentes das provas do ENEM devem necessariamente ser objeto de um escrutínio atento por parte da sociedade: se o objetivo da avaliação é tecnocrático, despido do humanismo e do conteúdo propriamente cultural, estaremos formando gerações de alunos aos quais faltará o componente crítico humanista essencial para o desenvolvimento da sociedade. .
Autores e editores acabam condicionados por essas diretrizes oficiais, consciente ou inconscientemente. E o resultado irá transparecer no material elaborado para que os alunos tenham um bom desempenho no ENEM. Os autores, e as editoras, na elaboração do material didático, acabam seguindo e consolidando essas tendências.

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O Enem pode prejudicar o ensino de literatura nas escolas?

Nos comentários do post sobre a média de leitura dos alunos universitários brasileiros, de instituições federais, Jorge Fernandes da Silveira reproduziuo texto de Luis Augusto Fischer publicado no jornal O Globo, caderno Prosa & Verso, de 13 de agosto de 2011. As considerações de Fischer são muito relevantes.

O Globo –
Prosa & Verso – 13.08. 01
O Enem pode prejudicar o ensino de literatura nas escolas?

Por Luis Augusto Fischer*

Há algo de muito errado no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). É verdade, ele veio junto com ótimas iniciativas do MEC: um enorme aumento de oferta de vagas das universidades federais; uma saudável horizontalização do exame de ingresso nas universidades, puxando para diante regiões conservadoras e oferecendo mobilidade para milhares de jovens; programas multidisciplinares que tendem a abolir questões dependentes de mera decoreba e a propor outras mais criativas, que privilegiam a leitura atenta e o raciocínio.

Mas o Enem (ele mesmo e seu papel institucional) carrega muitos e graves problemas. Ao se impor como exame quase universal de acesso ao ensino federal superior, ele na prática bloqueia experiências inventivas; ele passou de exame diagnóstico do ensino médio para exame de ingresso à universidade sem a devida reflexão sobre as consequências disso; e, finalmente, no mesmo processo de horizontalização que criou, impôs a existência de um mercado nacional que tem gerado concentração de vagas, para os cursos mais procurados, na mão de candidatos das regiões mais ricas, que em regra oferecem ensino mais exigente.

O caso aqui abordado, envolvendo a literatura, se soma aos problemas anteriores. É menos visível, mas pode botar a perder esforços importantes. Mas antes de entrar no detalhe, é preciso reter uma preliminar, óbvia para quem trabalha no ensino médio mas invisível para quem vive apenas na universidade ou nos gabinetes de Brasília: desde os anos 1960, quando a universidade no Brasil passou a ser procurada massivamente, há sempre mais candidatos do que vagas, e os vestibulares passaram a ser o paradigma maior do ensino médio. O que cai no vestibular entra no programa de ensino da escola; o que não cai, deixa de existir, com raríssimas exceções. Então cabe a indagação: o que o Enem está cobrando em literatura?

Entre a leitura e a cultura

O Enem apresenta perguntas sobre literatura? Sim. Mas a natureza e a qualidade dessas perguntas fazem pensar que o futuro do ensino nessa área está em vésperas de sofrer um golpe.

O caso é que o Enem tende a tratar o texto literário como um texto qualquer. Forçando um pouco, dá para dizer que o Enem tende a tratar um poema de Drummond ou um conto de Machado de Assis no mesmo nível de uma reportagem de jornal, uma tira em quadrinhos ou um anúncio publicitário. Examinando a filosofia da prova da área que abrange a literatura, “Linguagens, códigos e suas tecnologias” (nome aborrecidamente tecnocrático para um ajuntamento de Português, Literatura, Tecnologia da Informação e, sim, Linguagem Corporal!), se percebe que quem comanda é o variacionismo, que pouca atenção dá à tradição literária culta, preferindo uma abordagem que avalia a destreza de leitura operacional, nada mais. O Enem quer da literatura a proficiência de leitura, sem ação detida ao ambiente cultural letrado; e nós, professores de literatura, queremos da literatura isso mas também a cultura, o contexto, as relações entre os textos e os autores. Simplificadamente: o Enem examina a literatura-leitura, e nós queremos também a literatura-cultura.

É ótimo que o Enem despreze as perguntas cretinas de certos vestibulares, que querem a mera decoreba e os clichês, que lamentavelmente ainda têm força em colégios e cursinhos. Ocorre que o bom ensino de literatura há tempos não faz isso, e se o fazia era para atender exatamente à cretinice de certos vestibulares. Certo, há questões mais delicadas: é que o ensino formal existe no Brasil, a área de literatura foi governada pela visão escolástica, primeiro jesuítica, depois nacionalista, depois determinista etc. Não foi o vestibular de massas que inventou essa imbecilidade de que ensinar literatura é igual a impor interpretações canônicas sobre os livros: desde 1500 estamos nas antípodas do ensino emancipador na área.

Parêntese: um graduado agente do MEC defendeu em público o estilo das provas do Enem por serem, na visão dele, um antídoto contra os nefastos cursinhos, encarnações do capeta. Uma tolice, obviamente: em sociedade livre, quando há mais candidatos-vagas tendem a se criar mecanismos de preparação, como os cursinhos. Que eles não devem dar o tom da prova nem dos programas de ensino, é óbvio; mas que uma filosofia de prova possa acabar com eles, é fantasia esquerdista.

A tal prova de “Linguagens etc.” inclui literatura, mas em seu programa não define qualquer escritor, gênero literário, período de tempo, nada. O que cai na prova são itens abstratos, pertinentes (por exemplo “relações entre a dialética cosmopolitismo/localismo e a produção literária nacional”), mas imprecisos e até obscuros se vistos desde o ensino médio; este, é claro, já está tratando de preparar os alunos para a prova do Enem, mas na prática as escolas estão tentando adivinhar o que cai no exame.

Pesquisa revela tendências do exame

Quer saber o que cai? Bem: lemos todas as provas da área de “Linguagens etc.” do Enem (de 1998 a 2010, até a prova vazada em 2009, num total de 164 questões), série histórica na qual se pode encontrar tendências. Procuramos o que havia de literatura, num levantamento que acolheu todas as menções a qualquer coisa ligada à literatura, desde os gêneros literários clássicos (romance, conto, poesia) e os para ou semiliterários (crítica, drama, canção, quadrinhos e textos de jornal), até menções ao universo digital e mesmo pintores. E vimos o seguinte:

(a) Há, por ano, 13% de questões, em média, que mencionam textos literários e semiliterários; em torno de metade delas são de fato ligadas à literatura-cultura; em 2010 caíram pela metade os dois números, abrindo perspectiva assustadora;

(b) Poesia e letra de canção somadas comparecem em 42% das questões; romance, medíocres 12%; conto, apenas 3%; em contraste, histórias em quadrinhos têm gordos 19%. O que a escola pergunta é: vai ser mesmo necessário o candidato ler um romance sequer para fazer o Enem?

(c) Por épocas, a soberania inconteste é do Modernismo: a literatura produzida nas décadas de 20 e 30 aparece em 30% das questões! Toda a literatura brasileira anterior a 1920 alcança só 17% — e isso inclui Gregório, Cláudio, Alencar, Machado, Euclides, Lima Barreto!

(d) Frequências: Drummond é quem mais aparece, 19 vezes; em segundo vêm Machado de Assis e Bandeira, 7; depois, nenhum autor aparece mais de 5 vezes. Graciliano Ramos e João Cabral aparecem 3 vezes cada, menos do que Jim Davis (do Garfield) e Bob Thaves (da tira “Frank e Ernest”), com 4 vezes cada.

Com este Enem, por sua filosofia e por sua força institucional, estamos caminhando para programas de literatura no ensino médio desencarnados, sem densidade cultural, tendo no centro princípios abstratos que parecem poder ser atendidos praticamente sem leitura direta dos textos literários. Nada auspicioso para quem quer formar leitores destros e cultos, e por isso autônomos.

*LUÍS AUGUSTO FISCHER é professor de Literatura Brasileira da UFRGS. A pesquisa foi feita por Gabriela Luft, Karina Lucena, Carla Vianna, Guto Leite, Marcelo Frizon e Daniel Weller, alunos do PPG Letras da UFRGS e professores de literatura.

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Transformações no mundo árabe

Luz Gomes García escreveu um artigo, no caderno Babelia do El País, discutindo as transformações contemporâneas do mundo árabe e o novo papel do Ocidente: “En las reacciones que vienen suscitando las revueltas populares de Túnez a Yemen, hay algo que Occidente no acaba de comprender: la tutela a la que se ha sometido al mundo árabe debe llegar a su fin. Las masas árabes están demostrando una entraña democrática que echa por tierra las tradicionales excusas de Occidente para regatearles una democracia digna de tal nombre. Apoyándose en la principal de ellas, el miedo al islamismo, Occidente ha amparado una y otra vez la violación de los derechos humanos, la corrupción y la autocracia. El statu quo regional se ha garantizado a expensas de las posibilidades democráticas de las naciones árabes. La tutela exterior, ejercida por Estados Unidos y en menor medida por la Unión Europea, ha sido posible, desde luego, gracias a la tutela interior ejercida por los dictadores nacionales, que han tratado a sus pueblos como menores de edad. Sin embargo, los árabes no pueden ser rehenes de las necesidades geopolíticas de Estados Unidos y sus aliados.” Para ler o artigo completo, acesse o site do jornal.

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