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Lançamento – A poesia e a crítica, de Antonio Cicero

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17/06/2017 · 19:50

Inauguração do Laboratório da Palavra

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Com palestras de

Cristiane Costa | Edição  (9h)
Luiz Tatit | Canção (11h)
Antonio Cicero e Angélica Freitas | Poesia (14h)

Terça-feira, 11 de outubro, ocorrerá a abertura do Laboratório da palavra – PACC/UFRJ

O laboratório é um centro de pesquisa em poéticas contemporâneas na Faculdade de Letras da UFRJ, com pesquisa em teoria, ensino,  técnicas e tecnologias em humanidades e arte.

Atualmente, ele é composto por três núcleos:

O Laboratório da palavra

O laboratório da palavra (PACC-UFRJ) é um espaço de pesquisa e desenvolvimento localizado na Faculdade de Letras da UFRJ. Sua missão é explorar a relação entre humanidades e cultura contemporânea, ampliando o repertório técnico, tecnológico e teórico ao dispôr da comunidade acadêmica em suas atividades críticas, de ensino ou de criação. Especialmente, no laboratório são testadas as fronteiras — mais porosas do que rígidas — entre uma ética muito antiga do trabalho intelectual, seja em seu aspecto crítico, seja criativo, e o “nó” tecnológico que a cultura digital e as novas formas de sociabilidade impuseram a essa ética.

núcleo edição (laboratório de edição)

O Laboratório de Edição é um espaço dedicado à pequisa e educação sobre o livro, a leitura e a edição. O laboratório oferece cursos e oficinas, produz livros e cuida de projetos específicos relacionados à prática de edição e à história do livro e da leitura.

núcleo canção

O Núcleo de Canção do Laboratório da Palavra é um espaço dedicado à reflexão sobre canção brasileira, que reúne professores, alunos e demais interessados no tema, sejam eles da academia ou não. Através de seminários, oficinas, revistas, livros e eventos especiais, o NUC pretende ser uma instância de mediação crítica entre o público e a produção artística.

núcleo poesia

O Núcleo Poesia do Laboratório da Palavra é um espaço destinado sobretudo ao potencial criativo dos alunos da Faculdade de Letras e a todos os interessados. Por meio de oficinas, palestras e seminários, objetiva estimular a formação de críticos de poesia, de poetas e de poetas-críticos. Assim, este Núcleo está voltado para a interlocução entre teoria e prática, destacando o fazer como via de aperfeiçoamento de críticos e de poetas tanto da academia quanto de fora dela, tanto do centro quanto da periferia. Incentivar e divulgar a criação poética e a reflexão acerca da poesia é seu objetivo maior.

Informativo do Laboratório de Edição by labedicao
Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Faculdade de Letras Rio de Janeiro, RJ Brazil
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Antonio Cicero lê “Na curva deste minuto”, de Eucanaã Ferraz

Do livro Escuta (Companhia das Letras, 2015):

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“Hora”, de Antonio Cicero

Para Alex Varella

Ajax não pede a Zeus pela própria
vida mas sim que levante as trevas
e a névoa a cobri-lo e aos seus em Troia:
que tenha chegado a sua hora
sim! Mas não obscura: antes à plena
luz do dia e sua justa glória.

[Do livro Porventura, Record, 2012]

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Poesia total, de Waly Salomão

A editora Companhia das Letras publicou neste mês Poesia total, obra reunida de Waly Salomão. Entre os títulos reunidos nesse volume, encontra-se Algaravias, que sem dúvida alguma pode ser incluído entre os livros de poesia mais lindos das últimas décadas. O lançamento de Poesia total será realizado na Livraria da Travessa, conforme convite abaixo:

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“Cicero, poeta do tempo”, por José Castello

Matéria de José Castello sobre o poeta, letrista e filósofo Antonio Cicero. Foi publicada no Valor Econômico de 18 de janeiro de 2013 [via Elizama Almeida]:

Nossa vida cotidiana tornou-se quase inteiramente regida por princípios utilitários, pragmáticos, instrumentais, lamenta o poeta e filósofo carioca Antonio Cicero, de 67 anos. “Sempre foi assim, porém hoje as novas tecnologias eletrônicas potencializaram essa subordinação da vida ao princípio do desempenho.” Ele reconhece que elas mudaram a vida de todos nós, que houve um avanço e uma transformação. Mas isso será apenas bom? “Ao invés de economizarem nosso tempo, as novas tecnologias o consomem.” A tecnologia do século XXI devora o tempo. Devora o próprio século XXI. Resta-nos pouco tempo para meditar e contemplar. Para viver.

Para escapar dessa armadilha, Cicero – que no dia 11 se inscreveu para concorrer à vaga deixada pelo poeta Ledo Ivo na Academia Brasileira de Letras – se impõe certas regras pessoais, que segue com abnegação. Só consulta seus e-mails duas vezes por dia. Acessa a internet, na maior parte das vezes, apenas para fazer pesquisas, usando-a, assim, como uma antiga enciclopédia. Mantém um blog, chamado Acontecimentos (antoniocicero.blogspot.com.br), mas só o alimenta, com textos seus ou alheios, a cada dois dias. Também não participa das redes sociais, como o Facebook e o Twitter. Mesmo o celular, só o utiliza no caso de emergências, embora nele carregue também alguns dicionários e outros textos, de que eventualmente se vale. “Para mim, é imprescindível ter tempo”, diz.

No mundo instrumentalizado e pragmático em que vivemos, ele admite, “é grande o pessimismo com que muitos consideram as artes tradicionais e, em particular, a poesia”. Nosso mundo é veloz, obcecado por índices e resultados, quer as coisas sempre “para ontem”. Tem como ideal, portanto, devorar o tempo, não usufruí-lo. “As artes tradicionais têm perdido sentido na medida em que deixaram de corresponder à exaltação contemporânea da atividade veloz, multifuncional, polivalente.” Ninguém pode ler poesia, Cicero lembra, como quem lê um e-mail ou uma bula. A poesia não se lê apressadamente, mas, ao contrário, exige lentidão e entrega, paciência e concentração, devaneio e tempo. A poesia exige de seu leitor uma entrega absoluta. “Para ler poesia, o leitor deve entregar-se incondicionalmente, por um tempo determinado, aos caprichos semânticos, sintáticos, sonoros do poema.” Mais uma vez: a leitura da poesia exige tempo. Dizendo de outra forma: a matéria da poesia é o próprio tempo.

O mais grave: essa entrega incondicional não oferece ao leitor garantia alguma de que ele terá, ao fim da leitura, um resultado palpável. A verdade é que não o terá. Em consequência, lembra Cicero, para a maioria das pessoas a poesia guarda um aspecto anacrônico. Extemporâneo, intempestivo, inoportuno. A poesia parece estar “fora do tempo” quando, ao contrário, ela é, por excelência, o lugar do tempo. Avisa Cicero, desde logo, que não partilha desse pessimismo em relação à poesia e às artes. “Ao contrário, penso que, ao abrir para o leitor uma dimensão do ser oposta à utilitária, pragmática, instrumental, uma dimensão do tempo que não é regida pelo princípio do desempenho, a literatura lhe oferece a possibilidade de um enorme enriquecimento vital.” A poesia é um sopro que nos desperta. Mas é também uma brisa lenta e sutil, que exige paciência e serenidade. Quem chega a ela, porém, se vitaliza.

Assim é Antonio Cicero em pleno terceiro milênio: um homem que, justamente porque tem como matéria o tempo, está, de certo modo, fora do tempo ou, pelo menos, contra o momentâneo. Sim: é preciso aqui distinguir tempo e instante. O tempo é um fio, o instante é um corte. O tempo é uma longa estrada, o instante um semáforo que nos leva a parar para, logo depois, partir em disparada. Precisamos reaprender a respirar. Tudo isso vem… com o tempo! O pai de Cicero tinha uma grande biblioteca. Desde adolescente, ele pôde ler muito. Os portugueses, os russos, os franceses, os ingleses, os alemães, os italianos. Admite: “Hoje leio muito pouca ficção”. Hoje lê, sobretudo, poesia e ensaio. Poesia e filosofia. “Acho que é uma questão de administração do tempo. Escrever sobre filosofia exige de mim um bom tempo de leitura, estudo e reflexão.” Outra vez, e mais uma vez, o tempo, que deve ser curtido, alongado, prorrogado – isso em um século regido pelo culto ao instantâneo e ao “tempo real”, que nada mais é que uma lasca do tempo, uma sucessão louca de fatias muito finas. E nos entulhamos dessas fatias finas e avulsas e ao fim (do tempo) estamos intoxicados, sem poder dizer o que engolimos. Não é assim nosso século?

Cicero lê também, é claro, muita poesia. E é a leitura da poesia, como em um círculo mágico, que o leva a escrever poesia. Que o empurra de volta a ela. Em seu livro mais recente, “Porventura” (Record), no poema “Auden e Yeats”, como se estivesse dialogando com o poeta irlandês William B. Yeats (1865-1939), ele escreve: “possa a leitura da tua/ poesia, pura Musa,/ inspirar a minha arte”. Outra vez a respiração. Mais uma vez o tempo, com seu ritmo mais natural, o inspirar e expirar. “A grande poesia, como a de Yeats, funciona para mim como uma Musa, que me impele a escrever.” Logo: a poesia não é soprada desde fora, pelas filhas de Zeus, deusas distantes da Grécia antiga. É na própria poesia que a Musa habita. A poesia é a Musa da poesia, nos leva Cicero a pensar.

Entre todos os poetas, ele diz ainda, aquele com quem continua mais a aprender é Horácio (65 a.C.-8 a.C.), o poeta e filósofo da Roma antiga. “Cada vez que releio um de seus poemas, maravilho-me como se estivesse lendo pela primeira vez.” Surpreende-se, sobretudo, com o modo como, nos poemas de Horácio, cada palavra modifica e é modificada pelas demais. Como se o poema estivesse vivo. (E não está?) Com seu olhar exigente, Antonio Cicero – embora leia os poetas brasileiros contemporâneos – acredita que a melhor poesia brasileira foi produzida no século XX. “Sobretudo a partir do modernismo.” Pensa em Bandeira, Drummond, Cabral, Murilo Mendes, Cecília Meireles, poetas que constituem uma base muito forte para a poesia contemporânea. “E penso que há poetas contemporâneos que fazem jus a essa tradição.” Discreto, prefere não citar nomes. Quanto a si mesmo, porém, não consegue se situar “em nenhum cenário literário”. E, na verdade, nem faz questão disso. “Parece-me que, para fazê-lo, seria preciso tentar ver-se como que pelos olhos dos outros, e desconfio que quem consegue fazer tal coisa diminui a própria espontaneidade e potência”. Um poeta deve contar apenas com o próprio olhar, ainda que esse olhar, a rigor, seja o da cegueira.

Cicero está cercado de livros. Lista que considera “nada original”: Shakespeare, Hölderlin, Leopardi, Baudelaire, Rilke, Brecht, Yeats, Pessoa, Bandeira, Drummond e tantos outros. “Com eles aprendi que um poema é um objeto de palavras que merece existir por si.” Adverte, porém, que essa afirmação não significa uma adesão ao formalismo. “Não é apenas a forma das palavras que interessa num poema, mas tudo aquilo de que ele é composto, inclusive os significados que ele suportar.” Apesar dessa ressalva, insiste: um poema merece existir por si. “Sua apreciação mobiliza e confunde, isto é, atualiza, num jogo singular, as nossas mais diversas faculdades.” Não apenas o intelecto, mas a imaginação, a razão, a sensibilidade, a sensualidade, a emoção – pensa Cicero – são afetadas pela leitura de um poema. O leitor se agita por inteiro. O poema (uma faca de palavras) o atravessa. A leitura do poema o interroga e transforma.

Ainda na adolescência, recorda-se, descobriu o conselho do russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930), considerado o maior poeta do futurismo, que recomendava aos jovens poetas carregarem sempre um caderninho de notas e uma caneta. Até recentemente, cumpriu-o à risca. Depois descobriu que podia usar o telefone celular não tanto como telefone, mas como bloco de notas. “Eu o uso mais para isso, e como dicionário, do que como telefone”.

Também abandonou o papel: hoje escreve já as primeiras versões de seus poemas no computador. Contudo, a sombra do papel permanece inalterável: não consegue ler bem um poema e corrigi-lo, se o conserva na tela do computador. Precisa imprimi-lo: só consegue mexer nele quando o deixa de volta deitado no papel. Depois, retorna ao computador, mais uma vez ao papel, outra ao computador etc., até o dia em que, por fim, dá o poema por terminado. É um processo longo e lento, em que, pouco a pouco, muitas palavras são abandonadas e muitas outras incorporadas, uma longa gestação que exige persistência e paciência. De fato, nos mostra Cicero, não existe poeta impaciente. Pelo menos, não para ele.

A poesia lhe surge de repente e em qualquer lugar. Pode surgir quando já está deitado, quase dormindo ou quase acordando, e nesses casos precisa se levantar correndo e anotá-la ou ela se perderá. “Caso não o faça, ela será, em 99% dos casos, esquecida. As palavras são, como dizia Homero, aladas, e voam para longe.” Nada disso, contudo, o afeta ou cansa. A poesia (mesmo o mais árduo dos poemas) sempre deu a Cicero grande prazer e alegria. Entende assim: “A escrita é uma forma de enfrentar e superar a dor ou o sofrimento”. Nesse caso, enfim, a poesia tem, sim, uma utilidade. Um uso íntimo, pessoal, secreto – que relação alguma estabelece com as vantagens de mercado ou com os objetivos da produção. Cada poema a seu tempo. Cada poeta com seu tempo. Matéria da poesia, o tempo é uma experiência singular e particular. Tempo de cada um, sempre assim.

Cicero prepara, no momento, uma coletânea de ensaios. Ao mesmo tempo, planeja escrever um livro sobre o niilismo. “Tento mostrar que a filosofia radicalmente ambiciosa, que é aquela em que a razão busca a verdade absoluta e universal, inevitavelmente conduz ao niilismo” (do latim “nihil”, isto é, nada). Hoje, apesar de seu apego à poesia, são, sobretudo, as preocupações filosóficas que o movem. Embora considere poesia e filosofia “atividades opostas”, apega-se às duas. Enquanto a filosofia depende de uma argumentação que a sustente, a poesia basta a si mesma. São duas paixões antagônicas que, no entanto, ele não consegue separar.

A preocupação central de Cicero, nos dois casos, é sempre com a passagem do tempo. Depois dos 60 anos de idade, começou a se preocupar cada vez mais – como é natural – com a idade, a velhice e a morte. O tempo, mais uma vez, está no coração do poeta. Em seu último livro, “Porventura”, ele aparece no centro de poemas como “Balanço”, “Palavras Aladas”, “Meio Fio” e “Presente”. Matéria da poesia, o tempo é também, no caso de Cicero, seu objeto. O tempo que, em seu caso, quase chega a ser um sinônimo de poesia.

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“O espelho da entrada”, de Caváfis

Extraído do blog de Antonio Cicero, Acontecimentos:
À entrada da mansão
havia um grande espelho muito antigo,
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.

Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atleta diletante)
estava ali com um pacote.

Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.

Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.

Mas o antigo espelho, que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.

CAVÁFIS, Constantinos. In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

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