Arquivo da tag: A voz do Brasil – notícias sobre autores e livros de além-mar

Coluna A voz do Brasil

Publico aqui, atrasado, a minha coluna de abril da revista portuguesa Ler.

Experiências do deslocamento

O caderno Prosa & Verso do jornal O Globo convidou, no fim do ano passado, alguns dos mais atuantes e respeitados críticos da literatura brasileira para fazer um balanço da década, apresentando então uma lista dos dez melhores livros publicados nos anos 2000. Podiam entrar nessa escolha quaisquer títulos nacionais de ficção ou de poesia.

Entre os selecionados, Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, vem ocupando destaque crescente na história da literatura contemporânea. Ter sido escolhido nessa enquete de especialistas é mais um sinal consistente de que ele está se tornando um clássico da nova prosa ficcional.

Questionado sobre a recepção desse romance, Ruffato comenta, em entrevista exclusiva para a Ler: “Quando entreguei esse livro à editora (na época, a Boitempo, de São Paulo) a recepção, embora calorosa, foi realista: ‘Esse livro é incompreensível… é anticomercial… é difícil…’ E eu também achava isso… No entanto, naquele ano ele ganhou os principais prêmios da crítica (da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Fundação Biblioteca Nacional), recebeu destaque em todos os grandes jornais, em quatro meses já circulava com uma nova edição (está na 6.a e em breve sairá a 7.a), em edição de bolso, foi traduzido (para o francês, italiano e em breve para o espanhol, além de ter sido publicado em Portugal – uma edição pirata, diga-se de passagem, sem contrato e sem pagamento de direitos autorais), ganhou as universidades (tem diversas teses no Brasil e no exterior)…” Para o autor, o sucesso de Eles eram muitos cavalos é um “mistério”.


A princípio, em função das cacterísticas desse romance, onde se encontra um mosaico complexo da diversidade cultural, econômica e social do Brasil, numa tentativa de registro de personagens geralmente anônimos na grande cidade que é São Paulo, tal sucesso parece mesmo um mistério. Conforme depoimento do próprio autor, trata-se de um livro “difícil”, ou seja, suas estratégias narrativas não coadunam com as formas da prosa linear, tradicional, com enredo unívoco delineando uma trama clara e previsível. Ao contrário, Eles eram muitos cavalos buscam justamente os interstícios de São Paulo, traçando perfis fragmentados, comoventes, de quem sofre de invisibilidade social. Um romance formado de muitas vozes discursivas, que se posicionam de vários modos frente à realidade de quem precisa matar um leão por dia.

Nesse sentido, Luiz Ruffato revelou, antecipadamente, um aspecto que foi se tornando cada vez mais central nos anos 2000: as margens urbanas, seus personagens, tramas e traumas. Justamente aqui talvez seja possível evidenciar um dos motivos de seu sucesso: Eles eram muitos cavalos mostram, sem abandono da profundidade comum aos personagens do romance burguês, as dificuldades, problemas e sentimentos da classe trabalhadora no Brasil. Ruffato tira-os então do domínio dos estigmas e lhes dá a visibilidade de que precisam para humanizar-se. Em outras palavras, talvez seja pela capacidade de nos mostrar o que sempre ficou escondido que Luiz Ruffato tenha conseguido alcançar um lugar de destaque na ficção brasileira contemporânea.


Mas não apenas. É também muito significativo o seu intento laborioso para estabelecer um contato frontal com os projetos literários de José de Alencar e de Mário de Andrade, escritores fundamentais para compreender o Brasil através da ficção. No entanto, o diálogo que Ruffato estabelece com eles não é estilístico nem formal: ele busca reproduzir a capacidade que esses dois autores tiveram – e ainda têm, de certa maneira – de lançar reflexões sobre as estruturas culturais, econômicas, políticas e sociais do Brasil. Além disso, há, com finalidades distintas, um interesse comum entre eles no que diz respeito ao aproveitamento dos mitos norteadores do país. E no caso da ficção de Luiz Ruffato, o grande mito é a própria grande cidade, São Paulo, síntese de diversidades, foca de brutalidade, injustiça e violência típicas dos centros urbanos. Trata-se portanto do mito de quem se lançou – e ainda se lança – ao movimento migratório do campo para a cidade, tão característico do Brasil durante todo o século XX, com ele se pretendendo conquistar, dessa maneira, uma vida mais digna.

Em seu romance recém-lançado, Estive em Lisboa e lembrei de você, da coleção Amores Expressos da editora Companhia das Letras, Luiz Ruffato driblou a proposta original: criar histórias de amor que se passam em alguma capital do mundo. A história do personagem Serginho em Lisboa é de desamor, desgraça e sobretudo deslocamento, confirmando assim o projeto literário de Ruffato, que reúne a ficção e o documental, a poesia e a prosa, para mostrar uma literatura que não é indiferente ao seu povo. Ao procurar o amor e a riqueza em outro país, Serginho é colocado numa situação radical de deslocamento (afetivo, emocional, linguístico, por exemplo), em que é possível vislumbrar uma outra forma de esse fantástico autor redimensionar a sua própria literatura.


Não gosto de plágio

Denise Bottmann faz parte do melhor time de tradutores brasileiros. Seu currículo conta, entre outras, com as traduções de Compreender, de Hannah Arendt; Freud – uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay, e O amante, de Marguerite Duras. Trabalha para editoras de prestígio, com reconhecido cuidado na seleção do catálogo e na produção dos seus livros, como Cosac & Naify e Companhia das Letras. Se não bastasse, desde 2007 Bottmann se dedica a tornar públicos, no seu blog Não gosto de plágio, algumas cópias ilícitas de traduções.

No dia 6 de janeiro deste ano, denunciou a editora Landmark de ter plagiado a tradução de Persuasão, de Jane Austen, assinada por Fábio Cyrino, que também é diretor editorial dessa casa: “[…] a Persuasão do sr. Fábio Cyrino apresenta um grau de similaridade com a tradução de Isabel Sequeira, publicada pela Europa-América em 1996, que lhe dá credenciais suficientes ao título de plágio”, afirmou a tradutora. Até mesmo as gralhas e os erros de tradução se repetem de uma edição para outra.

Em outro post, de 15 de janeiro, Denise constatou o plágio da mesma Landmark, agora surrupiando a tradução que Vera Pedroso fez de O morro dos ventos uivantes, de Emile Brontë, da editora Bruguera. No ficha catalográfica do livro, diz ela, “a suposta tradução consta em nome de uma misteriosa ‘Ana Maria Oliveira Rosa’”.

O mais surpreendente, contudo, foi o desdobramento da denúncia: “Numa ação movida pela editora Landmark e pelo sr. Fábio Cyrino, estou sendo processada por pretensas calúnias contra os reclamantes, por ter publicado no nãogostodeplágio provas mostrando a prática de plágio […]”, afirmou Denise a 23 de fevereiro em seu blog. As consequências dessa ação trazem novos indícios da inteligência apurada do sr. Fábio Cyrino: o caso ganhou repercussão nacional e internacional.

Heloisa Jahn, Ivo Barroso, Ivone C. Benedetti e Jorio Dauster, respeitados tradutores brasileiros, lançaram o Manifesto de Apoio a Denise Bottmann, buscando “desmascarar” a prática do plágio, que: “1. fere a Lei de Direitos Autorais, que considera o tradutor como autor de obra derivada e salvaguarda seus direitos morais e patrimoniais; 2. configura concorrência desleal, pois as editoras de má-fé, não arcando com os custos dos direitos de tradução ou não pagando por uma retradução, põem em desvantagem as editoras que, pautando-se pela idoneidade, assumem tais custos; 3. atenta contra nosso patrimônio cultural, ao disseminar a cópia fraudulenta de obras muitas vezes assinadas originalmente por nomes reconhecidos e estimados de nossa literatura.” Apoio ao manifesto: http://www.petitiononline.com/Bottmann/petition.html!

 Saraiva no varejo

A editora Saraiva anunciou sua entrada no mercado de edição de livros de ficção e não-ficção. Uma das maiores livrarias do Brasil, com venda de 22 milhões de exemplares em 2009, a Saraiva lançará 65 livros até o fim deste ano.

 

A cara nova da Gryphus

A editora Gryphus mudou-se para a Gávea, no Rio de Janeiro e apresentou novos sócios. Agora Gisela Zincone divide os negócios com Alfredo Gonçalves (um dos fundadores da Objetiva) e Augusto Manso. Entre os livros planejados para 2010, A traça feiticeira, de Senna Fernandes.

 

Finalmente, um tempo para leitura

O caderno Cultura, do jornal Estado de S. Paulo, foi substituído pelo Sabático – Um tempo para leitura. O novo caderno vai se dedicar exclusivamente à literatura e ao mercado editorial, com ilustrações, notas, perfis e resenhas.

Deixe um comentário

Arquivado em Coluna

Coluna da revista Ler – abril de 2010

Reproduzo aqui a coluna “A voz do Brasil” que escrevi para o número do mês passado da revista portuguesa Ler:

AMOR À LEITURA E AOS LIVROS

José Ephim Mindlin nasceu em São Paulo, em 1914. Com apenas 13 anos começou a frequentar os sebos da cidade, a princípio sem qualquer pretensão de formar a maior biblioteca particular do Brasil. Em maio de 1930, por intermédio de seu pai, integrou a equipe de redação do jornal O Estado de S. Paulo, convivendo então com alguns importantes escritores, como Antônio de Alcântara Machado e Guilherme de Almeida. Mais tarde cursou a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, de 1932 a 1936, passando a exercer a profissão de advogado. Casou-se com Guita, futura especialista em encadernação e restauração de livros, além de companheira entusiasta na aquisição de obras raras. Convidado para redigir um contrato de sociedade, terminou se associando aos seus clientes, tornando-se um dos fundadores da empresa Metal Leve, marco industrial brasileiro na fabricação de peças automotivas. Autor de Uma vida entre livros (Cia. das Letras, 1997), Reinações de José Mindlin (Ática, 2008) e No mundo dos livros (Agir, 2009), o bibliófilo também foi membro da Academia Brasileira de Letras, tendo ocupado a cadeira 29.

José Mindlin foi admirado sobretudo pela sua generosidade. Estava sempre disposto a inocular nos outros, como dizia, o “vírus” do amor à leitura e aos livros. Não se considerava um colecionador, mas especialmente um leitor apaixonado, o que fazia toda a diferença: ter uma das maiores coleções de livros raros do mundo era, para Mindlin, uma maneira de expandir sua paixão e “contaminar” outras pessoas. Muito mais do que um fetiche, a sua valiosa biblioteca tinha uma função social.

Defendia que a leitura nunca deve ser tratada como obrigação, mas fonte de conhecimento e de prazer. Foi dele a sugestão de incluir-se no currículo dos colégios do estado de São Paulo uma hora informal dedicada à leitura, o que serveria como um “segundo recreio”. Em No mundo dos livros, Mindlin explicou: “Nessa hora, o professor se transformaria num amigo dos alunos, lendo textos e pedindo comentários ou comentando textos lidos pelos alunos. Não haveria nota escolar.” A ação foi adotada no primário das escolas públicas paulistas. Daí observamos a principal obsessão de José Mindlin: criar oportunidades para o surgimento de novos leitores, que estabelecessem uma relação especial, de uma amizade sem abalos.

Em torno das garimpagens de livros, há uma série de histórias curiosas e divertidas, que foram relatadas em seus livros. Entre as mais especiais, estão os Sonetos, de Petrarca, editados em Veneza, em 1533, que revelavam partes do texto censuradas, cobertas com tinta naquim. O tempo, contudo, foi mais forte que a censura e levou ao desaparecimento da tinta. Hoje é possível ler os trechos que foram então condenados.

Outra história interessante – um épico com direito a trapalhadas – se passou com a busca pela primeira edição de O guarani, romance de José de Alencar. Quando começou a caçá-lo entre livreiros, Mindlin conhecia apenas dois exemplares dessa edição. Nem a Fundação Biblioteca Nacional, que reúne o maior acervo de livros brasileiros do mundo, tinha a preciosidade tão sonhada pelo bibliófilo. Um dia, no entanto, ele ficou sabendo de um livreiro grego, no Rio de Janeiro, que oferecia um exemplar para os colecionadores. Tentou encontrar o tal livreiro, mas não conseguiu achá-lo, nem telefone, nem endereço, apenas uma referência em torno da figura misteriosa: o Banco Morgan, de Paris. José Mindlin, “cismado”, escreveu para o banco.

Certo dia o bibliófilo recebeu um catálogo de Londres e lá constava O guarani, primeira edição. Em entrevista durante a Festa Literária de Paço Fundo, Mindlin contou: “Mandei um telegrama para um livreiro que conhecia, pedindo para ele comprar. E estava querendo tanto o livro, que telefonei a ele perguntando quanto que ele achava que O guarani alcançaria no leilão. E ele me disse: ‘Ah, acho que vai ser umas 20 libras’, o que seria um preço ridículo. Mas disse a ele que se tivesse brasileiros assistindo ao leilão, provavelmente iria a muito mais. Mas queria que comprasse mesmo assim. No dia do leilão, telefono outra vez para saber por quanto ele tinha comprado. E ele me disse: ‘Olha, eu não comprei, porque quando chegou a 60 libras – e eu tinha falado para você 20 –, achei que ficaria muito aborrecido.’ ‘Aborrecido eu estou agora’, eu disse.”

A história se desdobra e volta para a Paris: soube de um leilão de livros brasileiros raros. Por coincidência, havia recebido um convite da Air France para um voo inaugural Buenos Aires-Paris. Nas palavras dele, foi “sopa no mel”. Em Paris, Mindlin encontrou o dono da livraria Kosmos, muito seu amigo, que disse: “’Tenho uma surpresa para você: o grego está em Paris e O guarani está comigo. Peguei para ele não fazer negócio com outra pessoa, então você se entenda com ele, não quero comissão, nem nada.’ Eu me entendi com o grego, foi uma verdadeira epopéia, uma discussão de preços, mas acabei comprando e fiquei carregando o livro como se fosse no colo.”

Tudo parecia perfeito. José Mindlin embarcou, sentou-se em sua poltrona do avião da Air France, deixou o livro no colo e adormeceu como as crianças que realizam seus sonhos. Contudo, quando acordou, o livro havia sumido. Nada de encontrá-lo. Volta arrasado para casa, conta a história para sua mulher, dona Guita. Dias depois, recebe a notícia da Air France de que o livro tinha sido achado dentro do próprio avião.

Estas raridades foram doadas por José Mindlin, ainda em vida, para a biblioteca da Universidade de São Paulo. E se não bastasse, generoso, muito generoso o querido José Mindlin.

Cinco pérolas (primeiras edições) da biblioteca de José Mindlin

Sonetos (1533), de Petrarca.

Os lusíadas (1556), de Luís de Camões.

A moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo.

O guarani (1857), de José de Alencar.

Grande sertão: veredas (1956), de João Guimarães Rosa.

Sobre José Mindlin

“Era uma pessoa preocupada com o país, que tinha fortes sentimentos democráticos, além de um ser humano extraordinário.”

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República

“Diferente de outros ‘livreiros’, que por costume, segurança ou medo não tentam facilitar o acesso aos livros, o dr. José [Mindlin] ajudava a tudo e a todos. Não havia documento que não pudesse ser pesquisado; obra que estivesse impedida de ser consultada.”

Lilia Moritz Schwarcz, historiadora

“Mindlin era um emblema do livro, tinha com ele uma relação orgânica.”

Marcus Vinícius Vilaça, presidente da ABL

PUBLICAÇÃO NA MEDIDA CERTA

Em agosto deste ano a Língua Geral lançará Desmedida. Luanda – São Paulo e volta: crónicas do Brasil, de Ruy Duarte de Carvalho, um dos mais importantes autores contemporâneos da lusofonia. O lançamento de Desmedida será feito, conforme planos da editora, na Bienal do Livro de São Paulo.

ADAMASTOR NA ACADEMIA

Na noite da posse da professora Cleonice Berardinelli na cadeira 8 da Academia Brasileira de Letras caiu uma chuva torrencial sobre o Rio de Janeiro: ruas alagadas, deslizamento de barreiras, congestionamento de automóveis. Falava-se, depois da cerimônia de posse, que o gigante Adamastor havia comparecido para homenagear a nossa maior estudiosa de literatura portuguesa.

LEÃO AO SOL

Rodrigo de Sousa Leão nasceu em 1965, no Rio de Janeiro. Esquizofrênico, teve o primeiro surto aos 23 anos. Logo em seguida escreveu o romance Todos os cachorros são azuis, que narra o percurso de um personagem – da internação à saída do hospício, com a posterior criação de uma nova crença religiosa. Desde então foi considerado, por muitos, uma significativa revelação da literatura brasileira. Infelizmente, Sousa Leão faleceu no ano passado, com apenas 43 anos. Felizmente, o jornalista e poeta Ramon Mello – primeiro leitor a anunciar publicamente as qualidades da obra de Rodrigo – está cuidando de seu acervo. Entre mais de 5.000 propostas, o projeto de Ramon de adaptação de Todos os cavalos são azuis para o teatro acabou de ser contemplado pela empresa telefônica Oi. E a reedição dos livros está planejada para o segundo semestre pela Record, além da publicação do inédito Me roubaram uns dias contados. Ótimas notícias e grandes expectativas! (O site http://www.rodrigodesouzaleao.com.br:80/ permite conhecer um pouco de sua vida e de sua obra.)

A BOLHA DE PAULA PARISOT

Paula Parisot fez uma performance na livraria da Vila, em São Paulo, onde foi instalada uma imensa caixa de acrílico. Dentro dessa bolha, permaneceu sem falar com ninguém durante uma semana. Toda a comunicação com amigos, familiares e curiosos se estabelecia por meio de gestos e olhares. Ela podia sair apenas de manhã, antes da abertura da livraria, para tomar banho. Além dessas regras, sua alimentação dependia de terceiros.

Vestida de Baronesa Elisabeth Bachofen-Echt, da tela de Gustav Klimt, a escritora nascida no Rio de Janeiro, mestre em belas artes pela New School University e autora de A dama da solidão (Companhia das Letras, 2007), incorporava, na tal performance, aspectos relacionados com o seu romance recém-lançado pela Leya Brasil, Gonzos e parafusos. Sua única “distração” nos sete dias de enclausuramento era desenhar e escrever, produção que vai ser publicada ainda em 2010 no livro Parafusos sobressalentes. Até o fim do ano a Leya também promete lançar Gonzos e parafusos em Portugal: Parisot então vai prender-se em uma caixa com 400 borboletas; sairá dela apenas quando todas as borboletas estiverem mortas.

Em São Paulo, a grande “performance”, no entanto, não se deu dentro da caixa de acrílico, mas fora dela: Rubem Fonseca, muito conhecido pela sua discrição e reclusão, saiu do Rio de Janeiro para alimentar Paula Parisot, que é discípula do mestre da ficção brutalista. A visita provocou desdobramentos, polêmicas ainda maiores, entre as quais a revelação (ainda sem confirmações) pelo jornal Folha de S. Paulo de que Rubem Fonseca teria saído da Companhia das Letras, editora que o publicou por mais de 20 anos, em função da recusa dos originais de Gonzos e parafusos.

E o livro de Paula Parisot, Gonzos e parafusos, nesse contexto de fofocas e de hiper-exposição da autora, parece ganhar um papel de figurante. Mas o romance não é mau. Trata-se de um texto com fluxo de consciência, cuja narradora, Isabela, cria personagens para si mesmo. Às vezes o livro pode parecer irregular, contudo, em função da natureza dessa narradora, a irregularidade, as repetições e talvez qualquer aparente “defeito” funcionam como fraturas da própria protagonista. Nesse sentido, torna-se difícil criticar qualquer problema aparente, como as descrições sem brilho, sem vigor, descrições que não encantam pela beleza nem surpreendem pelo inusitado. Elas refletem, talvez, algum efeito da loucura. De certo modo, a loucura me dá a impressão, em relação a Gonzos e parafusos, de ter se tornado um mecanismo de defesa para a própria obra.

A polêmica

“Paula Parisot faz lançamento excêntrico.”

PublishNews

“Um Big Brother livresco? Ou a performance arrojada de uma escritora que prolonga na vida real a atmosfera do seu livro, vestindo literalmente a pele da sua personagem?”

José Mário Silva, Bibliotecário de Babel

“Paula foi o pivô da saída do escritor Rubem Fonseca da Companhia das Letras, no ano passado, após 20 anos na editora.”

Fabio Victor, A Folha de S. Paulo

“Aos 84 anos, Rubem Fonseca levou a sério o seu papel de mestre e, como um autêntico ‘vovô-garoto’, surpreendeu todos e viajou até São Paulo para ‘dar papinha’ à sua discípula.”

Isabel Coutinho, Ciberescritas

“É incrível que o maior escritor brasileiro venha me alimentar.”

Paula Parisot, revista Época

“Talvez seu livro, sem a performance de Paula, levasse anos para ser comprado, lido e criticado, porém sua performance recebe críticas e elogios diários.”

Ieda Magri, Jornal do Brasil

“Foi-se o tempo em que lançamento de livro era sinônimo de vinhos mais ou menos e castanhas idem. Para marcar a chegada às prateleiras de seu novo trabalho, a escritora Paula Parisot achou por bem trancafiar-se sete dias na Livraria da Vila.”

Júlio Bittencourt, revista Veja SP


LANÇAMENTOS DO MES

A estrela fria, de José Almino. São Paulo: Companhia das Letras. 80 p.

Dono de um tom coloquial, intimista e memorialístico, José Almino “desentranha” boa parte de seu lirismo a partir da experiência de perda. Nesse movimento de quem busca olhar para o passado, num reexame minucioso – ora ácido, ora melancólico –, formam-se diálogos inteligentes, intensos e sofisticados com clássicos da literatura brasileira.

A estrutura da bolha de sabão, de Lygia Fagundes Telles. São Paulo: Companhia das Letras. 184 p.

A editora Companhia das Letras tem reeditado, com um belíssimo projeto gráfico, todos os livros de Lygia Fagundes Telles, uma das maiores ficcionistas da literatura brasileira. Neste livro em que reúne oito contos, é possível encontrar personagens frágeis, em crise existencial, num embate comovente consigo mesmos e com outros personagens.

Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas. Tradução de José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac & Naify. 416 p.

Em mais um fantástico romance, Enrique Vila-Matas construiu um personagem, Andrés Pasavento, que busca tornar-se invisível e reinventar o seu passado.

No próximo mês, conheça um pouco mais a ficção de Carola Saavedra, a jovem escritora que conquistou a crítica brasileira.

1 comentário

Arquivado em Coluna

Coluna A voz do Brasil – revista Ler

Reproduzo aqui a minha coluna da revista portuguesa Ler de março de 2010:

Um guia reparador de brechas

A coleção Tramas Urbanas, publicada pela editora Aeroplano, destaca a produção cultural das periferias, relatada por alguns de seus protagonistas. Trata-se de uma “resposta editorial, política e afetiva ao direito da periferia de contar sua própria história”, conforme esclarece Heloisa Buarque de Hollanda, coordenadora desse projeto, muito bem sucedido. Porém, há quem se manifeste contra o mérito de iniciativas desse caráter e os seus produtos, mas tal posicionamento, ao menos no meio acadêmico, raramente é frontal: ele surge na alcova da vida literária. Em parte, essa “discrição” se deve ao medo da reação politicamente correta; por outro lado, alguns são mais acomodados ou preconceituosos, evitando compreender – ou mesmo experimentar – a percepção do outro.

Nessa coleção, o Guia afetivo da periferia, de Marcus Vinícius Faustini, é um dos melhores exemplos de um processo de transformação criativo, intenso e saudável, que reinventa valores historicamente consagrados. Ao entrevistá-lo, Faustini, 38 anos, carioca, afirmou: “Na partilha das expressões em nossa história até então, o que coube às camadas populares foram as expressões ligadas ao som. A oralidade, o samba, o funk, os discursos do vendedor de rua e até mesmo a buzina da Kombi que fala o destino são estratégias do som. Enquanto isso, as classes mais abastadas ficaram com a imagem e o logos. Elas é que representaram em autorretratos e outras expressões a ideia de Brasil e até mesmo de popular. A novidade é que isso vem se embaralhando no país. O acesso à produção e à fruição com a literatura é decisivo para a radicalização da democracia no país. Só podemos reconhecer a experiência do outro através da expressão de suas subjetividades.”


E as subjetividades que Faustini expressa em seu livro mostram que o belo e o desejo são uma força. Subjetividades que ganham consistência por meio de um discurso ao mesmo tempo memorialístico e ficcional, cinematográfico, fragmentado sem ser hermético, não-linear, com uma linguagem coloquial, sofisticada, ora dramática, ora humorística, que vai se enredando a partir da experiência urbana e sentimental.

Faustini é um Marco Polo das viagens urbanas – de ônibus, trem ou van. Do mapa da cidade do Rio de Janeiro, de territórios populares, às vezes dentro de meios de transporte, às vezes na rua como um flâneur, despontam amores, anseios, conflitos, conquistas, desafios, diferenças, objetos de desejo, distintas linguagens e formas de interação com o mundo. Ele vai fazendo, a partir da urbe e de seus “dispositivos”, um museu de tudo, um arquivo de sensações. Seus mecanismos criativos são absolutamente poéticos e dessa maneira que estabelece uma relação íntima e singular com as coisas: “O meu interesse maior é a cidade estar dentro da própria constituição dos sentidos deste personagem. A cidade e seus dispositivos dentro dele e ele dentro da cidade e como um de seus dispositivos. Quero pensar em novas articulações de sentidos do sujeito.” À medida que Faustini desentranha “novas articulações de sentidos”, ele universaliza suas experiências, transpondo as fraturas pessoais e sociais, sem eliminar, no entanto, as diferenças.

Assim, do início ao fim do Guia afetivo da periferia, vai se revelando que os sentidos são reparadores de brechas e expandem o espaço de ação. Exemplo disso é quando descobre que o “pôr do sol é a melhor hora do dia”: “Comecei a prestar atenção em pôr do sol muito novo, quando minha mãe me colocou num colégio interno em Paquetá, onde cada menino tinha o nome pintado na própria roupa. Final de tarde era hora de olhar pela janela e sentir o cheiro do mate fervendo e ir em direção ao refeitório, para beber o mate e comer o pão com manteiga tostado direto no garfo. Foi durante um pôr do sol que meu avô me tirou desse colégio interno. O pôr do sol é a melhor hora do dia.” Sim, o belo e o desejo são mesmo uma força. E, sim, dentro e fora da periferia o livro de Marcus Vinícius Faustini é uma das melhores revelações da literatura brasileira contemporânea.


Em traje de gala

Há mais de cinco anos a edição crítico-genética que reúne dez livros de Carlos Drummond de Andrade aguarda ser impressa. Encomendada pela Unesco ao crítico Silviano Santiago, sempre eficiente e rigoroso, essa edição sofreu com a falta de verbas. Agora ela está mais próxima de ser publicada, pela Cosac & Naify, que já contratou outros dois livros de Drummond, estes de prosa: Confissões de Minas e Passeios na ilha. Sempre em destaque pelo excelente catálogo e excepcional produção gráfica de suas obras, sem qualquer dúvida a Cosac & Naify vestirá o poeta em traje de gala.


Biobibliodiversidade

Na rua 7 de setembro, no Centro do Rio de Janeiro, inaugurou-se a sétima livraria da Travessa. Para lá foi boa parte do acervo da loja da travessa do Ouvidor, que sofreu grande reformulação tanto arquitetônica quanto em suas atividades. A mais antiga loja do grupo foi escolhida para desenvolver um novo conceito, a biobibliodiversidade: ela privilegia editoras independentes e universitárias, que tem os chamados long-sellers. A Travessa da Ouvidor também vai ser o espaço destinado a debates, saraus e shows.


O sorriso mordaz da literatura brasileira

Há 120 anos nascia Oswald de Andrade, um dos protagonistas da Semana de Arte Moderna de São Paulo. Irreverente, de forte personalidade, com um sorriso mordaz, ele era dono de uma inteligência intuitiva, rápida, capaz de lançar qualquer adversário ao desconcerto. Vanguardista de primeira ordem, fazia da piada seu modo de expressão mais autêntico e singular.

Em torno dele circulam alguns dos melhores “causos” do meio literário brasileiro, um dos quais foi relatado por Manuel Bandeira na crônica “Oswald”, do livro Flauta de papel (1957): “[…] Quando se preparava para o concurso de uma cátedra de Literatura em São Paulo, veio ao Rio conversar com vários amigos acerca de sua tese, que versava o tema dos árcades mineiros. […] E fiquei assombrado quando, falando em Sannazaro, Oswald me olhou surpreso e perguntou: – Quem é Sannazaro?” “Corri com Oswald: – Puxa, Oswald! Pois você está escrevendo uma tese sobre os árcades e não conhece o autor da Arcádia?” “Oswald não se alterou nem corou. Riu muito e depois soltou esta: – Que é que você quer? Há quarenta e dois anos que eu não abro um livro! Não tenho tempo!”


Já Sérgio Buarque de Holanda, em depoimento prestado a 14 de fevereiro de 1982, para a Folha de S. Paulo, conta que havia sempre um velho acompanhando os modernistas em seus eventos. Esse senhor manifestava grande irritação. Certa vez, perguntaram-lhe por que comparecia a tais encontros. Respondeu então que para vaiá-los. Oswald não deixou por menos: “É um burro acompanhando uma locomotiva.”

Mas a inteligência de Oswald de Andrade não se restringiu ao humor de circunstância. Embora não fosse um homem disciplinado e erudito, criou o grande mote da arte brasileira – a antropofagia –, que foi aproveitado tanto pela alta cultura (concretistas, por exemplo, como Augusto e Haroldo de Campos) quanto pela contracultura (vejam os tropicalistas e o Teatro Oficina). Publicado em 1928, no primeiro número da recém-fundada Revista de Antropofagia, o “Manifesto Antropófago” propunha a deglutição crítica do outro: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.” É a sociedade industrial que possibilitaria a volta de um primitivismo latente, capaz de selecionar os elementos mais positivos da nova civilização industrial. Propunha-se então o “bárbaro tecnizado”, que formula a capacidade de o brasileiro incorporar a tecnologia estrangeira, reinventando-a a seu modo. Era a charrete e o bonde; a política e o carnaval; o barbarismo e a tecnologia de ponta, era um Brasil que se podia ver nos anos 1920 e que ainda pode ser visto, com as suas mesmas contradições.

Em direção às contradições, Oswald de Andrade lançou a sua ponta-de-lança ou mostrou os dentes do dragão, para usar duas expressões de suas crônicas, gênero por meio do qual desferiu muitas lançar e mostrou os dentes do dragão, numa dívida declarada a Eça de Queirós, autor d’As Farpas a quem Oswald dedicava uma rara admiração.

Publicou, entre outros, Pau-Brasil (1926) e Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927), de poesia; Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933), romances; e A morta (19370 e O rei da vela (1937), peças de teatro.

Oswald de Andrade faleceu também em São Paulo, a 22 de outubro de 1954.


Encruzilhada

Nem os bandidos fogem dos best-sellers no Brasil: no último semestre, Lua nova, de Stephanie Meyer, foi o primeiro da lista entre os livros mais roubados, conforme dados da Associação Nacional de Livrarias.

Deixe um comentário

Arquivado em Revista

A voz do Brasil – fevereiro de 2010

Reproduzo aqui a coluna A voz do Brasil de feveiro de 2010, que tem como principais assuntos o novo romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Céu de origamis, e o discurso das periferias:

Twitter dos imortais

Marcos Vilaça, presidente reeleito da Academia Brasileira de Letras, manifestou-se recentemente a favor da web. Logo após a sua posse, em dezembro do ano passado, Vilaça lançou o twitter da ABL, inaugurado com esta mensagem: “Se eu tuíto, tu tuítas e eles tuítam, a academia também tuíta.” Entrevistado acerca dessa iniciativa, o chefe dos imortais argumentou: “Há quem diga que é uma ferramenta […] que atrofia. Mas eu não vejo assim. Olhe, se uma pessoa consegue passar toda uma ideia em 140 caracteres, ela é atrofiada ou possui um bom poder de síntese?”

http://twitter.com/abletras

Assim, puf

Luiz Alfredo Garcia-Roza nasceu em 1936, no Rio de Janeiro, que também é o cenário de seus romances. Formado em filosofia e psicologia, Garcia-Roza era professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas trocou a vida acadêmica para dedicar-se integralmente à ficção policial. Com O silêncio da chuva, seu livro de estreia, recebeu os prêmios Nestlé de Literatura (1996) e Jabuti de Melhor Romance (1997). Desde então o delegado Espinosa, personagem recorrente de seus livros, vem ganhando cada vez mais prestígio entre críticos e leitores. No final do ano de 2009 a editora Companhia das Letras publicou Céu de origamis, seu nono romance.

Nessa obra recém-lançada, o personagem Marcus Rosalbo, dentista, desaparece sem deixar pistas. Ao concluir um dia de trabalho, ele fecha o escritório, em Copacabana, e vai de carrro para casa, a poucas quadras dali, no Leme, onde a mulher o aguarda para jantar com amigos. No entanto, Marcus não chega ao apartamento, apesar de o carro ter sido estacionado na garagem.

Adriana Rosalbo, sua mulher, procura então o delegado Espinosa, que, de licença médica, recupera-se de uma cirurgia. Sedutora, Adriana consegue convencê-lo a acompanhar, extraoficialmente, o caso. É desse modo que o delegado, conhecido pela sua compreensão e sensibilidade – um caso especial entre os detetives, dizem pelo bairro de Copacabana, onde se encontra o departamento policial onde trabalha –, começa ao mesmo tempo a retomar gradativamente as suas atividades e a se lançar a um caso misterioso.

A secretária de Marcus Rosalbo, Cecília, que também está cursando Letras, afirma que o desaparecimento do dentista não era surpreendente: “Natural. Como se ele tivesse evaporado. Assim, puf”, o que leva Espinosa a uma análise da personalidade evanescente do dentista. Nesse sentido que vai se destacando uma das principais características dos romances de Garcia-Roza: o incorruptível delegado sabe explorar, durante as investigações, a interioridade das pessoas. Em Céu de origamis, destaca-se sobretudo a personalidade de um desaparecido discreto, enigmático e metódico, o que a princípio não ajuda muito para se chegar à solução do caso. Espinosa, porém, continua a investigar a personalidade não apenas de Rosalbo, mas também as de sua mulher, de seu advogado e de sua secretária. O detetive estaria então muito próximo de um psicanalista? Garcia-Roza, de modo muito arguto, já havia tratado dessa questão em uma entrevista: “o detetive investiga sem a cooperação do investigado, ao passo em que a análise se dá necessariamente na presença e com a cooperação do analisado”.

Ainda assim, é possível associar a psicanálise ao detetivesco e o detetivesco à psicanálise, pois tanto em uma ficção policial quanto em uma análise estão em jogo as pistas que devem ser seguidas e quais são as estratégias discursivas dos investigados/analisados. Mas, por outro lado, pensando-se assim, todo romance se torna uma obra policial.

Os arquivos do IMS

O Instituto Moreira Salles comprou, no fim do ano passado, dois incríveis arquivos pessoais: os de Erico Verissimo e Mário Quintana. Logo após, buscou compor uma equipe para organizar e dar visibilidade a todo o seu acervo arquivístico, que conta ainda com os notáveis Clarice Lispector, João Alexandre Barbosa, Otto Lara Resende e Rachel de Queiroz, entre outros. A experiente pesquisadora Élvia Bezerra foi convidada para assumir a coordenação do arquivo; para fazer a curadoria do acervo, Eucanaã Ferraz, poeta e professor incansável da UFRJ.

Para 2010, o Instituto Moreira Salles já prepara uma série de comemorações em torno do centário de Rachel de Queiroz e dos 80 anos de publicação de seu romance mais notável, O Quinze, que já se tornou um clássico da literatura brasileira. Haverá ainda cursos sobre Ana Cristina Cesar e uma série de palestras sobre correspondências de escritores brasileiros.

O discurso das periferias

As favelas, onde antes se ia para comprar samba, como disse Chico Buarque no excelente documentário Palavra (en)cantada, de Helena Solberg, com o narcotráfico tornou-se um espaço urbano dominado por bandidos, atormentado pelas drogas e embalado pela violência. Ficaram isoladas em si mesmas, como um organismo doente no centro das cidades, apesar de serem havitadas sobretudo por trabalhadores.

Mas nos anos 1990 as favelas do Rio de Janeiro começaram a retomar o seu prestígio e criar, por todo o Brasil, um movimento em que as periferias buscavam o seu lugar. Cidinho e Doca comporam então um hit nacional, o “Rap da felicidade”, cantado por todas as classes sociais, manifestando com força e irreverência o início de uma virada de jogo: “Eu só quero é ser feliz/ Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é/ E poder me orgulhar/ E ter a consciência que o pobre tem seu lugar, eu”. Tranquilidade, orgulho e consciência passaram a fazer parte do vocabulário corrente de quem vive nas periferias.

Projetos culturais como o AfroReggae, criado em 1993, são centros de irradiação dessa política em busca de igualdade e justiça por meio da arte. Buscando tirar crianças e jovens do crime, o AfroReggae assumiu até mesmo o papel de intermediar a saída de quem pretende afastar-se do tráfico. No lugar das armas e das drogras, oficinas de capoeira, dança, percussão e reciclagem, modificando a longo prazo o cenário das favelas.

Começaram a surgir também os autores das periferias, como Ferréz, Sacolinha (Ademiro Alves) e Sérgio Vaz. Influenciados pelos quadrinhos, funk, hip-hop e rap, esses autores começaram a retratar a vida nas favelas, as suas dificuldades, dramas e, ao mesmo tempo, a sua capacidade de renovação. Suas obras revelam uma linguagem urbana, com gírias, variações das normas, mistura de depoimento e ficção.

Escritores que no início eram mambembes, levavam seus livros pela cidade, liam trechos em bailes, bares e centros culturais das periferias, aos poucos chegaram também às grandes livrarias, como à Cultura e à Vila, ambas de São Paulo, e à Travessa, do Rio de Janeiro, onde fazem palestras, saraus, e vendem seus livros. Além disso, começaram a criar suas próprias editoras.

O discurso das periferias ganhou espaço, as classes C e D passaram a se autorretratar, com sua própria linguagem, compondo a história afetiva e social de seu povo. Agora, o que se tem no cenário da literatura brasileira (e da cultura num todo) é não apenas personagens atormentados por conflitos existenciais típicos da elite, mas também os anseios e os conflitos de trabalhadores braçais e intelectuais das favelas. Em função disso, a academia também precisou sofrer mudanças: antropólogos, críticos da literatura e sociólogos, por exemplo, não têm mais como estudar a produção das periferias e suas características sem contar com a participação dos seus próprios protagonistas e realizadores. Começa a haver um fluxo mais constante entre o saber científico e o conhecimento que nasce e se desenvolve das favelas.

Os artistas das periferias (DJs, MCs, rappers, poetas, contistas, romancistas, educadores sociais, entre outros) já têm o seu lugar e conseguem mostrar que as comunidades pobres não são fábricas de degenerados. É sempre muito bom saber que a arte ainda tem força para servir como antídoto da violência.

O quente de 2010

Alguns lançamentos que prometem neste ano: 2666, de Roberto Bolaño, e Invisível, de Paul Auster, pela Companhia das Letras; A estrada, de Cormac McCarthy, e A casa verde, de Mario Vargas Llosa, pela Alfaguara; Em alguma parte alguma, de Ferreira Gullar, pela José Olympio; Três vidas, de João Tordo, e Requiem para o navegador solitário, de Luís Cardoso, pela Língua Geral.

Deixe um comentário

Arquivado em Coluna

Coluna da Ler – dezembro 2009

Reproduzo aqui a minha coluna do número de dezembro da revista Ler:

Um caso de medidas extremas

Em maio deste ano foi anunciado que, “por decisão comum”, Rubem Fonseca sairia da Companhia das Letras. Sem qualquer dúvida, uma notícia que foge da normalidade. Primeiro, porque a Companhia das Letras está construindo, de modo louvável, um catálogo de escritores consagrados da literatura brasileira. Só neste ano relançou diversas obras de Jorge Amado e Lygia Fagundes Telles, as quais pertenciam, respectivamente, às editoras Record e Rocco. Segundo, pela natureza do comunicado: lacônico, sem maiores informações, sugerindo indiretamente o escamoteamento de uma razão efetiva, grave. Terceiro, os livros de Rubem Fonseca sempre entram nas listas dos mais vendidos, o que elimina a possibilidade de um fracasso comercial. Quarto, é necessário considerar que a Companhia das Letras é conhecida pelo seu excelente trabalho na parte editorial e gráfica, bem como na distribuição e no marketing, e não se pode esquecer ainda o tratamento cordial e elegante que Luiz Schwarcz dedica a seus escritores. Logo, é muito improvável que houvesse insatisfação de Rubem Fonseca.

Propostas de outras editoras foram avaliadas durante três semanas. Em seguida, Lúcia Riff – a mais competente agente literária brasileira – comunicou que Rubem Fonseca e sua vasta obra mudavam-se para a Agir. Na altura da consolidação do negócio já estava programado, para o fim do ano de 2009, o lançamento de um dos inéditos, o romane O Seminarista, que acabou de chegar às livrarias.

Em 7 de novembro, no caderno Ilustrada d’A Folha de S. Paulo, um dos jornais mais lidos no país, O Seminarista foi resenhado por Alcir Pécora, renomado professor de Teoria da Literatura da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Uma resenha pequena, na sétima página, que começa meio como um lamento: segundo o crítico, o romance recém-lançado “não traz infelizmente nenhum novo estímulo para quem tem saudade de sua prosa dos anos 60 e 70”. Pécora refere-se à época de Lúcia McCartney (contos, 1967), O caso Morel (romance, 1973), Feliz Ano Novo (contos, 1975), O cobrador (contos, 1979), entre outros. Livros por meio dos quais Rubem Fonseca criou uma nova vertente na ficção brasileira, classificada por Alfredo Bosi como “brutalista”.

A resenha vai se tornando cada vez mais implacável. No seu último parágrafo, uma das páginas d’O Seminarista é analisada, “a página interessante de todo o romance”, afirma arrasadoramente. E continua, dialogando com aspectos relacionados com o Especialista, personagem central e narrador do livro, um ex-seminarista que se tornou assassino de aluguel, sabe latim, gosta de poesia e usa uma pistola Glock: “Ocorre que, afora ela, restam as outras 180 nas quais o latinório de almanaque e a poesia gauche são a Glock a disparar, sem silenciador e sem perdão, contra toda vontade de leitura”. Vale lembrar que essa crítica sela uma tendência já apontada em relação ao livro anterior de Rubem Fonseca, Ela e outras mulheres, publicado em 2006, cuja recepção foi parcialmente negativa.

Ainda que O Seminarista esteja distante das melhores obras de Rubem Fonseca, a violência da conclusão de Alcir Pécora parece-me exagerada. A resenha busca de certo modo o mesmo tom incisivo e destruidor de alguns dos melhores contos do autor analisado. Contudo, invertendo o jogo de disparos, não é o romance que vai contra “toda vontade de leitura”, mas sim a crítica de Pécora, num movimento às vezes notável em alguns estudiosos da literatura brasileira. Refiro-me ao movimento de supervalorização de certos escritores e à posterior subvalorização dos mesmos. Sim, porque Alcir Pécora às vezes tem se apegado à obra de Rubem Fonseca, supervalorizando-a, para desqualificar a narrativa brasileira dos anos 1990, subvalorizando-a, consequentemente. Agora, com a publicação de O Seminarista, a idealização de Pécora se tornou insustentável até mesmo em função de uma das características do romance: se o problema da ficção dos anos 1990 está, para ele, no amaneiramento das técnicas da prosa de Rubem Fonseca, em O Seminarista pode ser observado um procedimento semelhante ao indicado pelo crítico. Rubem Fonseca amaneirou-se em relação a si mesmo.

A excelência dos contos de Rubem Fonseca é indiscutível. Sua reformulação do narrador naturalista – tão comum na história da ficção brasileira – propõe uma nova relação do leitor com a matéria narrada. Cria-se uma forma mais direta e incisiva, em que o discurso, agora assumido pelo próprio agente da violência, elimina a possibilidade da escrita de tom clássico, escorreita, distante do que está sendo narrado. Perde-se assim o tom científico desse tipo de literatura. Quando o próprio agente da violência conduz a narrativa, acentuam-se os conflitos de classe que a obra de Rubem Fonseca propõe tão bem, além de se dar a fala ao excluído. Dessa maneira as fraturas são expostas sem mediação.

E o ponto determinante da diferença d’O Seminarista em relação à tradição que seu próprio autor criou parece estar aí: Zé, o narrador, ex-seminarista, cita muitas frases em latim, conhece cinema, literatura, gosta de bons vinhos, enfim, tem um gosto demasiadamente burguês, exigindo do autor a adoção de uma linguagem não menos correta e normal, até mesmo pedante, apesar da recorrência do baixo calão. Tanto o discurso quanto a violência não nascem de um conflito declarado, nem se aproximam da notícia nua e crua dos contos de Feliz Ano Novo, por exemplo. A narrativa então perde força, a brutalidade é suavizada pelo profissionalismo do assassino de aluguel, o registro antes tão cinematográfico perde plasticidade, o agente da violência não pode ser classificado como um marginal. Ainda que em primeira pessoa, o narrador de O Seminarista afasta o leitor do contato mais direto com o impacto social da violência: são muitas citações em latim, muitas referências a escritores e diretores de cinema, enfim, muitas aproximações com um bom gosto por sinal afetado, tão combatido por sua literatura dos anos 1960 e 1970.

Ainda assim, é Rubem Fonseca, com alguns momentos vibrantes, sobretudo no início e no final do romance, embora eles não neutralizem as deficiências do livro. No entanto, O Seminarista merece ser lido atentamente, até mesmo porque, de certo modo, indica possivelmente um novo rumo em sua obra: a violência está disseminada por todas as classes. Mas fica, de qualquer maneira, uma sensação desconfortável de um grande autor em declínio.

A crescente recepção negativa das obras de Rubem Fonseca seria então o motivo de sua saída da Companhia das Letras, não se tratando portanto de uma decisão “comum”?

Rubem Fonseca, O Seminarista. Agir, 181 p.

Polêmicas do jogo

A Copa de Literatura Brasileira foi inspirada no Tornament of Books, criado em 2005 pela revista eletrônica norte-america The Morning News em parceria com a livraria Powell’s, explica Lucas Murtinho, organizador do prêmio. Trata-se de uma excelente proposta: se os prêmios buscam destacar os melhores livros do ano, não seria mais adequado tornar público o processo de seleção? Murtinho acredita que, dando voz aos jurados – e também a leitores, que podem comentar os resultados –, o campeonato transforma-se num campo emocionante de debates e reflexões sobre a literatura contemporânea. Alguns leitores se revelam até mesmo implacáveis nas suas observações tanto dos livros quanto das avaliações dos jurados, e por vezes até mesmo os autores envolvidos na competição se manifestam contra ou a favor de uma decisão. Contudo, como numa copa de futebol, a paixão da torcida ganha espaço nas declarações das preferências e falta observações com consistência crítica.

A disputa começa com 16 títulos selecionados arbitrariamente. Como em qualquer campeonato, a cada jogo dois livros são confrontados. Na grande final, todos os jurados votam para escolher o grande vencedor. Os livros para as quartas de final já foram selecionados e podem ser verificados no site da Copa de Literatura Brasileira.

A maior polêmica desta edição foi lançada contra O livro dos nomes, de Maria Esther Maciel (Companhia das Letras), que concorria com Cordilheira, de Daniel Galera (Companhia das Letras). O jurado Paulo Polzonoff Jr. afirmou, sem qualquer constrangimento, que o livro de Maria Esther não lhe provocava nenhum comentário: “Correndo o risco de parecer covarde para uns, preguiçoso para outros e tão-somente burro para alguém, prefiro repisar esse fato que não deixa de ser atordoante: não há absolutamente nada para ser dito sobre O livro dos nomes, de Maria Esther Maciel.” Segundo Fernando Torres, um dos melhores jurados da Copa, o posicionamento de Paulo Polzonoff Jr. nega um dos preceitos básicos da leitura: que a busca por “dissecar uma obra é um ato de amor à literatura”.

Se Polzonoff Jr. não tem nada a dizer, talvez seja melhor tornar-se gandula na próxima edição do jogo.

Copa de Literatura Brasileira 2009: http://copadeliteratura.com

Tornament of Books: http://themorningnews.org/tob/

The Morning News: http://themorningnews.org/

Powell’s: http://www.powells.com/

Cadeira 8

Cleonice Berardinelli tomará posse da cadeira 8 da Academia Brasileira de Letras, que já foi ocupada por Alberto de Oliveira, Oliveira Viana, Austregésilo de Athayde, Antonio Callado e Antonio Olinto. Com 93 anos, a professora emérita de literatura portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro desenvolveu no Brasil a primeira tese sobre Fernando Pessoa. Embora a eleição esteja marcada para 16 de dezembro, Cleonice já dispõe dos votos necessários à vitória, entregues previamente à secretaria da Academia Brasileira de Letras.

Noite de constrangimento

Fala-se que o anúncio dos vencedores do prêmio Portugal Telecom 2009 foi recebido com constrangimento até mesmo por alguns brasileiros presentes na noite da festa. Eram 15 os jornalistas portugueses, todos muito confiantes na escolha de Ontem não te vi em Babilónia (Alfaguara), de António Lobo Antunes, como grande vencedor. Esperava-se ainda a escolha de A eternidade e o desejo (Alfaguara), de Inês Pedrosa, ou Cemitério de pianos (Record), de José Luís Peixoto para a segunda ou terceira colocação. Contudo, foram três brasileiros, em baixa cotação, que levaram os prêmios: Ó (Iluminuras), de Nuno Ramos, em primeiro lugar; Acenos e afagos (Record), de João Gilberto Noll, em segundo, e A arte de produzir efeito sem causa, de Lourenço Mutarelli (Companhia das Letras), em terceiro.

Na próxima coluna, jornalistas, poetas e romancistas brasileiros recomendam os melhores livros do ano.

2 Comentários

Arquivado em Artigo