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“Cometimento da chuva”, de Laura Liuzzi

Uma beleza de poema de Laura Liuzzi, autora de Calcanhar (7Letras):

 

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Poesia de Ruy Belo publicada no Brasil

Matéria publicada no jornal português Público:

Ruy Belo e Chico Buarque vão encontrar-se finalmente. O poeta português admirava o músico e escritor brasileiro, que não chegou a conhecer. Conta Teresa Belo, sua mulher, ao jornal O Globo, que o autor de Homem de Palavra(s) encomendava muitos vinis do cantor aos amigos que viajavam para o Brasil.

Belo interessava-se muito por nomes da literatura brasileira como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, mas Chico Buarque era Chico Buarque. “Ficava muito comovido com as canções e admirava a postura política dele”, lembra Teresa Belo.

Agora, o cantor e compositor, um dos mais populares da música brasileira, é um dos convidados de um documentário sobre o poeta português que será lançado no Brasil até ao fim do ano. Vai ler dois dos seus poemas, Orla marítima e Oh as casas as casas as casas. O documentário Ruy Belo, era uma vez, de Nuno Costa Santos, reúne críticos e escritores dos dois lados do Atlântico à volta deste homem que sempre cruzou a poesia com a política ou a espiritualidade e que viria a morrer em 1978, aos 45 anos, deixando versos como estes: “É triste ir pela vida como quem/ regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro”.

Segundo o jornal brasileiro, o documentário de Costa Santos, faz parte de uma espécie de “operação Ruy Belo”, destinada a dar a conhecer ao público brasileiro um autor fundamental da poesia portuguesa da segunda metade do século XX, a que chamam com frequência “poesia pós-Pessoa”. Dessa “operação” faz parte a primeira edição brasileira de toda a bibliografia do poeta, 35 anos depois da sua morte.

Nas estantes das livrarias brasileiras os seus novos leitores já podem encontrar Aquele Grande Rio Eufrates (1961), título de estreia, e os dois seguintes – O Problema da Habitação (1962) e Boca Bilíngue (1966). Mas até ao fim do ano a editora 7Letras promete pôr à venda os seis volumes que faltam para completar a integral do autor de A Margem da Alegria (1974), o homem que traduziu Borges e Lorca e que amava o mar. “Amei a mulher amei a terra amei o mar/ amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar/ De muitas delas de resto falei”, escreveu.

Cada um dos volumes lançados pela 7Letras, numa colecção organizada pelo escritor e crítico Manoel Ricardo de Lima, terá um prefácio de um poeta brasileiro diferente, procurando fazer a ponte entre o autor português dos anos 1960 e 70 e o leitor brasileiro contemporâneo.

Para o autor de um desses prefácios (o de Boca Bilíngue), Tarso de Melo, é urgente que os grandes poetas portugueses da segunda metade do século XX, com destaque para Belo, Sophia de Mello Breyner e Herberto Helder, sejam conhecidos no Brasil. “Esses autores são capazes de nos fazer rever não apenas a forma como nos relacionamos com a poesia portuguesa, mas com nossa própria poesia”, escreve o também poeta, lembrando que em Boca Bilíngue, Belo, então com 33 anos, demonstra o seu desencanto com um país mergulhado na ditadura do Estado Novo.

É por isso que nele podemos ler poemas como Morte ao meio-dia, com versos assim: “No meu país não acontece nada/ o corpo curva ao peso de uma alma que não sente/ Todos temos janela para o mar voltada/ o fisco vela e a palavra era para toda a gente”.

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Resenha sobre “Rabo de baleia”, de Alice Sant’Anna

Resenha sobre Rabo de baleia, de Alice Sant’Anna, que publiquei na revista portuguesa Ler de junho de 2013:

OS DIAS AGITADOS

            Quando publicou seu livro de estreia, Dobradura (7Letras), em 2008, a designação jovem poeta cabia muito bem a Alice Sant’Anna, nascida no Rio de Janeiro, em 1988. Afinal, trata-se de uma obra onde a inocência pueril se revela como uma de suas principais características. Desponta assim um frescor inquestionável, o que é uma de suas qualidades, embora também se apresentem alguns conflitos encapsulados.

            Contudo, por meio do recém-lançado Rabo de baleia (Cosac & Naify), a perspectiva do sujeito torna-se mais madura – mais sofrida, consequentemente – e seus poemas excluem quase de todo a docilidade predominante nos versos de estreia. Agora, encontra-se uma poética muitas vezes até mesmo violenta, refletindo de maneira contundente o desconcerto das relações do sujeito com o mundo e com o outro. Diante disso, a classificação jovem poeta não é mais conveniente: Alice Sant’Anna, em seu novo título, mostra-se uma poeta madura e consolida-se como uma das principais autoras de sua geração.

            As diferenças entre Rabo de baleia e Dobradura já podem ser observadas no corte do verso e na estrutura sintática das frases. No livro recém-lançado, os períodos foram construídos com imensa economia de pontuação, o que em diversos momentos concede mobilidade de leitura: há sequências de versos que podem ser lidas ao menos de duas maneiras. Porém, tais características de composição dos poemas – antes de tornarem-nos mais fluidos – conduz o leitor à percepção de diversas fraturas textuais e sugerem um universo pessoal desconcertado e tortuoso. Nesse sentido, versos fragmentados auxiliam na configuração desse cenário. Mesmo recorrendo à fantasia para escapar da rotina esmagadora, o sujeito não encontra na válvula de escape uma fuga plena em torno “da exaustão dos dias/ o corpo que chega exausto em casa/ com a mão esticada em busca/ de um copo d’água/ a urgência de seguir para um terça/ ou quarta boia, e a vontade/ é de abraçar um enorme/ rabo de baleia seguir com ela” (p. 7). A necessidade de outras boias mostra ao leitor a insuficiência da fuga como via de dissolvição do “tédio pavoroso” (p. 7).

            Em Rabo de baleia, é notável a investigação acerca das fraturas e a posterior constatação da fragilidade das coisas: “dente que bate na louça e trinca/ a língua apalpa por detrás/ procurando indício de rachadura/ na porcelana/ desliza na borda da gengiva/ o chá ainda quente na boca/ incisivos erguidos como prédios/ mas frágeis feito xícara/ casca de ovo/ a asa não se firma entre os dedos/ quer escorregar e se colar à sombra” (p. 36). Geralmente associado ao conforto, a hora do chá torna-se um momento do despontar da aflição e da angústia, sentimentos que recuperam o medo da sombra que havia em sua infância: “quando criança chorava ao ver a sombra/ jurava que era alguém insistente/ que apareceu sem ser convidado” (p. 36). O simples chá torna-se, portanto, um momento de investigação do humano, escapando, no entanto, do caráter confessional típico da lírica: a investigação se desenvolve da louça trincada à sombra, da concretude à abstração. O paralelismo entre os dois momentos – da adulta com a língua sobre a rachadura e da criança observando a sombra – firma uma carga dramática intensa no poema, mas ao mesmo tempo o objetiva parcialmente. É a partir da porcelana trincada que o temor emerge: o elemento externo, a xícara, estimula o tom memorialístico, remetendo-nos ao movimento dos fragmentos da madaleine no chá de tília proustiano. A imagem de Alice Sant’Anna, contudo, é mais antilírica.

            Além dessas questões, há sintomas evidentes de melancolia, como em “Winnipeg, mon amour” (“não acordo nunca/ desse mesmo sono […]”, p. 17), ou de um sentimento indefinido entre a exaustão – um traço recorrente no livro – e o desejo (“não é bem vontade o que tenho/ mas tampouco é falta de vontade”, p. 45). Há também nessa suspensão da dúvida alguma marca melancólica, algum indício de desgaste frente à incerteza. E dessa indefinição, dessa incerteza instabilizadora, nascem muitos fantasmas que nem mesmo um rabo de baleia é capaz de afastar.

 

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“Mulheres feias sobre patins”, de Mariano Marovatto – Lançamento

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22/10/2012 · 23:31

“Elegia para uma galinha morta em minha boca”, de Ricardo Domeneck

Poucas coisas são
tão perturbadoras
quanto morder a carne
da galinha cozida
e sentir na língua
certo gosto
que meu cérebro
interpreta
como sendo das penas
desta galinha morta
como se algo nela
ainda quisesse voar
no céu da minha boca
e vejo então nítidos
diante de mim os olhos
muito arregalados
desta galinha à hora
de sua morte, o bico
arreganhado, a sede,
o susto dos gritos
das companheiras
no abatedouro
e em seu cérebro
o protótipo do que seria
seu primeiro pensamento
se lhe fosse dado tempo,
provavelmente um verbo,
um imperativo, um “voe”,
mas ela não pode voar
e abatedouros não
reservam tempo para a evolução
das espécies, e esta galinha
que agora mastigo, imagino,
mal caiu em tentação
na hora de sua morte,
e este gosto de penas
na carne persiste
e impede a semivigília
prazerosa
com que dilacero
o que antes corria
no terreiro, sorella
aviária, você parte
antes e definitiva agora
para o grande sono,
o que você sente
quando meus dentes
entram em seus músculos
é apenas a mioclonia,
senhora galinha,
aquelas contrações
involuntárias
antes do sono
e é por isso que fico
muito assustado
pelo resto da refeição,
gala, a verdade
é que estamos ambos
presos apenas
no mesmo sonho lúcido

 

[De Ciclo do amante substituível, 2012]

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Escritas da violência

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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“tudo o que lá se ocultava”

Há cerca de quatro meses eu ando pra lá e pra cá com o livro Onde o céu descasca (7Letras), de Lu Menezes. Seus poemas parecem ter conquistado um tempo proustiano, das coisas vividas e pensadas intensamente. Eis aqui mais uma razão para voltar a ele:

LINGUAGEM DE FADAS
(A Eudoro Augusto)

Tennyson
contou a Carroll ter esquecido ao acordar
um sonho que lhe parecera memoribilíssimo, “um longo
poema sobre fadas” – com versos longos
progressivamente encurtados
até terem duas
únicas
sílabas
cada

Tennyson sonhou
com linguagem de fadas – abstração quase pura
como a música instrumental
sói ser

Ele sonhou
como um músico que sonhasse com ler
nas asas brancas de uma ave de extensa envergadura
a partitura de uma fuga
esquecida
ao amanhecer…

e descobrisse, na noite seguinte,
penas brancas escapando de gaveta mal fechada
incapaz de conter, de contar
tudo o que lá se ocultava

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