“Labadee”, de Luanna Belmont

 

debaixo da copa rala da
amendoeira
os galhos finos do Haiti se enroscam
contra o sol
a praia está sonâmbula
é agora um lugar de guardar navios gigantes
que trazem gente de toda parte
mas não para olhar o Haiti
assim debaixo contra as folhas
tenras da amendoeira
não para olhar o sol
do Haiti lá em cima
além das flores miúdas
da amendoeira
centenas desembarcam para
molhar os pés noutra língua
encharcar-se de outros fugir-se
dizer que pousaram noutro país
tão estranho quanto o seu
– que graça há se não se volta
para contar o que é o Haiti sem
a igual amendoeira da infância? –
enquanto no Haiti a amendoeira
descansa invisível
sobre a areia que não é mais
a areia de 1492
onde Colombo pisou
conforme anuncia o encarte
distribuído aos visitantes que
pagaram algumas centenas de dólares
para comer hambúrgueres e
cranberry juice
com hora marcada na ilha
de Labadee
nela uma amendoeira jovem
encara de longe o navio
de dezessete andares
de uma companhia dinamarquesa
porque não o Haiti não é aqui
sob o vento da velha ilha de Labadee
very very grateful for everybody
coming here
o Haiti quem sabe
nem fale inglês
nem francês
nem espanhol
nem português
mas possa ensinar aos cruisers
enjoados com o balanço do navio
o que seja
to shake shake shake
during a fucking real
earthquake

4 Comentários

Arquivado em Poesia

120 batimentos por minuto, direção de Robin Campillo

4 Comentários

Arquivado em Cinema

“Diário de bordo”, de Cacaso

Os planos todos dispersos
os primeiros estranhamentos com o filho,
mecânico e pesado o coração destila
uma coleção de remorsos.
Fecho os olhos de horror e eis que
das obscuras raízes
do centro de minha fronte
das rendas negras da carne
esplêndida e cintilante
desponta
a aurora boreal

 

De Grupo escolar (1974)

 

Deixe um comentário

Arquivado em Poesia

Do livro Grupo escolar (1974), de Cacaso

PRÉ-HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA PERIFÉRICA OU

NINGUÉM SEGURA ESSA AMÉRICA LATINA

OU OS IMPOSSÍVEIS HISTÓRICOS OU

A OUTRA MARGEM DO IPIRANGA

 

Jamais mudar pela violência

mas manter pela violência:

morte ou dependência

Deixe um comentário

Arquivado em Poesia

Atualidades atlânticas (1979), de Bernardo Vilhena

Poema de Bernardo Vilhena que abre o livro Atualidades atlânticas (1979), reunido em Vida bandida e outras vidas (2014), pela editora Azougue:

 

É preciso viver
atualidades
reconhecer códigos
revirar noites
ser todas as raças
todas as épocas
entrar em todas
as barras
e não sujar
em nenhuma
falando o que querendo
ouvindo o que não querendo
perseguindo a realidade
e a fantasia aí

poesia é como o momento
em que a gente se encontra
sendo
não por dom
pelo entorpecente trabalho
de pensar no tempo
nos contemporâneos
obstinadamente
feito um tubarão

Deixe um comentário

Arquivado em Poesia

Brasilírica, de Nicolas Behr

Em 2017, completaram-se 40 anos da publicação de Iogurte com farinha, o primeiro dos livrinhos mimeografados de Nicolas Behr. Um pouco desses 40 anos de criação se encontra nos poemas selecionados de 1977-2017, com o título Brasilírica. O projeto gráfico é muito bonito, assinado por Gabriel Menezes e pelo próprio poeta. Apresentação de Marcelino Freire. Na metade do livro há uma linda foto de Nicolas em 1978, rodando livrinhos no mimeógrafo elétrico da marca Gestetner.

Segue aqui um dos seus poemas, “Aconteceu na 103”, seguido da capa do livro e da foto de Nicolas em 1978:

 

o porteiro do bloco I
da 103 sul pegou
a filha do síndico
do bloco O da 413 norte
com o cara da 302
do bloco D da 209 sul
dentro do carro
do zelador do bloco L
da 517 norte

 

Deixe um comentário

Arquivado em Lançamento, Poesia

“Buracos no céu”, de Chacal

quando tempo e espaço se cortam
quando nosso corpo se encontra
diga que eu perdi a cabeça
diga que eu sou uma bolha de alka seltzer

quando chove meteoro
quando os buracos se cruzam
caem fagulhas na terra
correm agulhas no sangue

desorganizado saio de casa
com um guarda-chuva de cheeseburger
com uma capa de amianto
e não me espanto

entretanto descobri:
a loucura é um sopro no ouvido

 

de América, 1975

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

“Pergunte a ele”, de Raymond Carver

 

Pergunte a ele

 

Relutante, meu filho me acompanha
através dos portões de ferro
do cemitério de Montparnasse.
“Mas que jeito de passar um dia em Paris!”,
é o que ele gostaria de dizer. E, de fato, diz.
Ele fala francês. Começou uma conversa
com o guarda de cabelos brancos que se ofereceu
para ser nosso guia informal. E então, lentamente, os três
nos movemos ao longo de fileiras e fileiras de túmulos.
Todo mundo, pelo visto, está aqui.

Está quente e calmo, e não se ouvem
os sons das ruas de Paris. O guarda quer nos levar
ao túmulo do homem que inventou o submarino
e ao de Maurice Chevalier. E ao túmulo
da cantora Nonnie, de 28 anos,
coberto por um monte de rosas vermelhas.

Eu quero ver os túmulos dos escritores.
Meu filho suspira. Ele não quer ver nada disso.
Já viu o bastante. Passou do tédio
para a resignação. Guy de Maupassant; Sartre; Saint-Beuve;
Gautier; os Goncourt; Paul Verlaine e seu velho camarada,
Charles Baudelaire. Onde nos detemos.

Nenhum desses nomes, ou túmulos, tem qualquer coisa a ver
com as vidas sem problemas do meu filho e do guarda.
Que podem, nesta manhã, conversar e fazer piadas em francês
debaixo de um belo sol.
Mas há outros nomes gravados na lápide de Baudelaire,
e eu não entendo por quê.
O nome de Charles Baudelaire está entre o de sua mãe,
que lhe emprestava dinheiro e a vida toda se preocupou
com sua saúde, e o de seu padrasto, um militar
que ele odiava e que odiava a ele e a tudo que ele representava.
“Pergunte ao seu amigo”, digo. Então meu filho pergunta.
É como se agora ele e o guarda fossem velhos amigos
e eu estivesse ali para ser tolerado.
O guarda diz alguma coisa e depois coloca
uma mão sobre a outra. Desse jeito. Faz isso
de novo. Uma mão sobre a outra. Rindo. Zombando.
Meu filho traduz. Mas eu entendi.
“Como um sanduíche, pai”, diz meu filho. “Um sanduíche de Baudelaire.”

Então nós três seguimos adiante.
O guarda tanto poderia estar fazendo isso como qualquer outra coisa.
Ele acende o cachimbo. Olha o relógio. Está quase na hora
do seu almoço, e de uma taça de vinho.
“Pergunte a ele”, digo, “se ele quer ser enterrado
neste cemitério quando morrer.
Pergunte onde ele quer ser enterrado.”
Meu filho é capaz de dizer qualquer coisa em francês.
Eu reconheço as palavras tombeau e mort
em sua boca. O guarda para.
É evidente que seus pensamentos estavam em outro lugar.
Guerra submarina. A sala de concertos, o cinema.
Algo para comer, sua taça de vinho.
Não em decomposição, não em apodrecimento.
Não em aniquilação. Não em sua morte.

Ele nos olha, para um e para o outro.
Estamos brincando? Aquilo é uma piada sem graça?
Ele nos saúda e se afasta caminhando.
Em direção a uma mesa na calçada de um café.
Onde ele pode tirar o boné, correr os dedos
pelos cabelos. Ouvir vozes e risadas.
O tilintar pesado dos talheres. O retinir
sonoro das taças. O sol nas janelas.
O sol nas folhas e na calçada.
O sol encontrando o caminho até sua mesa. Sua taça. Suas mãos.

 

Tradução de Cide Piquet

1 comentário

Arquivado em Lançamento, Poesia

Lançamento – A poesia e a crítica, de Antonio Cicero

Deixe um comentário

17/06/2017 · 19:50

João Paulo Cuenca e Godofredo de Oliveira Neto no Polo Literário

One of the 1000’s of high resolution textures available
from Mayang’s Free Textures – see
http://www.mayang.com/textures/
This texture may not be sold without permission from the authors.

Deixe um comentário

Arquivado em Evento