Arquivo da categoria: Poesia

“Mãos dadas”, de Carlos Drummond de Andrade

 

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

 

Sentimento do mundo, 1940

 

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“Quinta de tarde”, de Eudoro Augusto

Não esperava você
antes do próximo verão.
Foi precipitação de sua parte,
foi sua arte. Aquela estranha estratégia
de ferir e depois usar a língua mais doce
pra lamber as feridas.
Não podia adivinhar que você viria
nesta quinta de tarde,
sentindo no ar o velho cheiro
de sal e de sangue.
Os demônios me arranham
nesta temporada de sombras
e maçãs podres.
Estação do exílio e do desespero.
Hoje outra vez eu me escondo
em luas escusas.
De cara virada,
os olhos fixos no planeta mais obscuro,
pedindo perdão aos deuses do sono.
Então emudeço o telefone,
tranco as portas como um bandido acossado,
cancelo visitas, luzes, vozes, chaves,
interdito as emoções claras
e as cintilantes naves.
Meu pensamento trava.
Não, eu não estava
esperando você.

 

Ventura (1984-1987) in O desejo e o deserto (1989)

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“Poema azul”, de Italo Diblasi

eu reconheço a distância
calada de um coração

essa distância-oceano
que é a distância dos anos,
dos autos, dos atos de fé

do labirinto tecido
à fina seda do sonho
que sonda o poente

eu reconheço a distância
forçada do exílio

do suicídio coroado
nas laudas do tempo,
do vento, do corpo que amei

eu atravessei o grito
dos seus olhos quando até
a palavra tempo cessou
e o relâmpago profetizou,
na escuridão, o retorno

e você diz que eu fiquei mais azul

 

Do livro O limite da navalha (2016)

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“f. digita o barulho das teclas enquanto j. fala”, de Frederico Klumb

não durmo
tampouco penso
na estranha morte
de Ana Mendieta
tua filha que não nasceu
nem no deus desnudo
debaixo da cama
estou aqui
não faz frio
há poucas coisas
que garantiriam
minha melancolia
mas estou aqui
estou
a meio metro de distância
por trás da luz
da tela
enquanto você
segura minha queda
e caso a água inunde a cena.

 

Publicado nos Cadernos do CEP
volume 7, outubro de 2017

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Poema de Golgona Anghel

Antigamente os bisontes eram gente
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia.
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês.

Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar.
Líamos Tolstoi num Skoda,
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões nm UMM.

As grandes emoções
vinham das palavras longas:
astralopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc.
Isto explica tanta coisa,
mas não vem nos livros de história.
A história faz apenas ecoar o passado.
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windowns XP.

 

Do livro Nadar na piscina dos pequenos (2017)

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“Labadee”, de Luanna Belmont

 

debaixo da copa rala da
amendoeira
os galhos finos do Haiti se enroscam
contra o sol
a praia está sonâmbula
é agora um lugar de guardar navios gigantes
que trazem gente de toda parte
mas não para olhar o Haiti
assim debaixo contra as folhas
tenras da amendoeira
não para olhar o sol
do Haiti lá em cima
além das flores miúdas
da amendoeira
centenas desembarcam para
molhar os pés noutra língua
encharcar-se de outros fugir-se
dizer que pousaram noutro país
tão estranho quanto o seu
– que graça há se não se volta
para contar o que é o Haiti sem
a igual amendoeira da infância? –
enquanto no Haiti a amendoeira
descansa invisível
sobre a areia que não é mais
a areia de 1492
onde Colombo pisou
conforme anuncia o encarte
distribuído aos visitantes que
pagaram algumas centenas de dólares
para comer hambúrgueres e
cranberry juice
com hora marcada na ilha
de Labadee
nela uma amendoeira jovem
encara de longe o navio
de dezessete andares
de uma companhia dinamarquesa
porque não o Haiti não é aqui
sob o vento da velha ilha de Labadee
very very grateful for everybody
coming here
o Haiti quem sabe
nem fale inglês
nem francês
nem espanhol
nem português
mas possa ensinar aos cruisers
enjoados com o balanço do navio
o que seja
to shake shake shake
during a fucking real
earthquake

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“Diário de bordo”, de Cacaso

Os planos todos dispersos
os primeiros estranhamentos com o filho,
mecânico e pesado o coração destila
uma coleção de remorsos.
Fecho os olhos de horror e eis que
das obscuras raízes
do centro de minha fronte
das rendas negras da carne
esplêndida e cintilante
desponta
a aurora boreal

 

De Grupo escolar (1974)

 

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Do livro Grupo escolar (1974), de Cacaso

PRÉ-HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA PERIFÉRICA OU

NINGUÉM SEGURA ESSA AMÉRICA LATINA

OU OS IMPOSSÍVEIS HISTÓRICOS OU

A OUTRA MARGEM DO IPIRANGA

 

Jamais mudar pela violência

mas manter pela violência:

morte ou dependência

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Atualidades atlânticas (1979), de Bernardo Vilhena

Poema de Bernardo Vilhena que abre o livro Atualidades atlânticas (1979), reunido em Vida bandida e outras vidas (2014), pela editora Azougue:

 

É preciso viver
atualidades
reconhecer códigos
revirar noites
ser todas as raças
todas as épocas
entrar em todas
as barras
e não sujar
em nenhuma
falando o que querendo
ouvindo o que não querendo
perseguindo a realidade
e a fantasia aí

poesia é como o momento
em que a gente se encontra
sendo
não por dom
pelo entorpecente trabalho
de pensar no tempo
nos contemporâneos
obstinadamente
feito um tubarão

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Brasilírica, de Nicolas Behr

Em 2017, completaram-se 40 anos da publicação de Iogurte com farinha, o primeiro dos livrinhos mimeografados de Nicolas Behr. Um pouco desses 40 anos de criação se encontra nos poemas selecionados de 1977-2017, com o título Brasilírica. O projeto gráfico é muito bonito, assinado por Gabriel Menezes e pelo próprio poeta. Apresentação de Marcelino Freire. Na metade do livro há uma linda foto de Nicolas em 1978, rodando livrinhos no mimeógrafo elétrico da marca Gestetner.

Segue aqui um dos seus poemas, “Aconteceu na 103”, seguido da capa do livro e da foto de Nicolas em 1978:

 

o porteiro do bloco I
da 103 sul pegou
a filha do síndico
do bloco O da 413 norte
com o cara da 302
do bloco D da 209 sul
dentro do carro
do zelador do bloco L
da 517 norte

 

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