Arquivo da categoria: Memória

Istambul, de Orhan Pamuk

Qualquer que seja a quantidade de carros que caíram no Bósforo ao longo dos anos, a história é sempre a mesma: os passageiros acabam arrastados para as profundezas, de onde não existe volta. Não só já ouvi e li essas histórias como já vi alguns carros caindo com meus próprios olhos! Não importa quem sejam os passageiros – crianças aos berros; um casal de amantes brigando; um bando de bêbados incovenientes; um marido que volta para casa às pressas; um velho que não enxerga bem no escuro; um motorista sonolento que parou no cais para tomar chá com os amigos e depois saiu de primeira em vez de engatar a marcha a ré; Sefik, o velho tesoureiro, com a sua linda secretária; policiais que contavam os navios singrando o Bósforo; um motorista aprendiz que saiu com a família no carro da fábrica sem permissão; um fabricante de meias de nylon que por acaso é conhecido de um parente distante; um pai e um filho usando capas de chuva idênticas; um famoso gângster de Beyoglu e a sua amante; uma família de Konya que estava vendo pela primeira vez as pontes do Bósforo – quando os carros voam para dentro d’água, nunca afundam direto como pedras. Por um momento oscilam, como que pousados na superfície. Pode ser à luz do dia, ou a única iluminação pode ver de uma meyhane próxima, mas quando as pessoas do lado vivo do Bósforo olham para o rosto daqueles que estão a ponto de afundar, veem um terror consciente. Um instante depois o carro afunda devagar no mar profundo, escuro e cortado por rápidas correntezas.

Istambul, de Orhan Pamuk, tradução de Sergio Flaksman

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“Arraes no Palácio do Povo” – Everardo Norões

Belo texto memorialístico de Everardo Norões publicado no Jornal do Commercio de 9 de setembro de 2005 [via Retábulo de Jerônimo Bosch]:

O Palais du Peuple – Palácio do Povo – ocupa um quarteirão da cidade de Argel e faz esquina com a Avenida Franklin Roosevelt, uma das artérias mais movimentadas da cidade. O palácio, como quase todo o casario ao redor, é caiado de branco, com portas e janelas pintadas de azul. Ali, no número 21, Miguel Arraes, governador de Pernambuco, banido pelo regime militar, inaugurou, em 1965, um exílio de 15 anos. O destino assim o quis. Conforme dizem os árabes: Maktub, estava escrito. Tendo recusado submeter-se à vontade dos militares e jurado honrar o cargo que o povo pernambucano lhe outorgara, aquele palácio certamente surgira a Arraes como uma espécie de metáfora. Os aposentos anexos do Palácio do Povo, retomado dos franceses após sete anos de uma das guerras coloniais mais violentas, serviram para abrigar, por um dos acasos da História, aquele que, durante toda a sua vida, centrara o seu pensamento sobre o destino de um outro povo, o povo brasileiro.

A Avenida Franklin Roosevelt, onde residiu Arraes, desemboca numa das principais ruas do centro da cidade, a Didouche Mourad, nome de um grande herói e mártir, lugar de muitos embates durante a famosa Batalha de Argel. Muitas vezes descemos juntos aquela rua ladeirosa, em busca de notícias, chegadas sempre com atraso à caixa postal da Grande Poste – o prédio de arquitetura mourisca do correio central. As comunicações eram falhas, a vigilância policial no Brasil era cerrada, não convinha usar endereços residenciais. Caixas postais e brasileiros que chegavam à Europa eram as fontes de informação mais seguras.
No caminho de volta sentávamos no Café Bardo, vizinho ao museu de etnologia do mesmo nome, para tomar um café, falar de política, de trabalho, da situação internacional, de leituras. Arraes tinha sempre uma história para cada circunstância, uma ilustração para cada caso. Depois da conversa, seguíamos para seu escritório, simples: uma mesa de madeira e estantes improvisadas, que abrigavam documentos, livros e jornais os mais diversos, nas mais diferentes línguas. Suas anotações, numa caligrafia tortuosa e graúda, concatenavam observações que iriam desembocar, mais tarde, no livro publicado pela famosa editora parisiense François Maspero, Brésil, le pouvoir et le peuple, proibido no Brasil.
Eu gostava de olhar suas mãos quando ele escrevia. Mãos delicadas que contrastavam com sua maneira quase rude; mãos de gestos raros, que acompanhavam um falar quase silêncio, de cortes ríspidos, induzindo o interlocutor a perseguir a linha de pensamento do estrategista nato. O raciocínio, instintivamente dialético, nem sempre era fácil de ser alcançado por pessoas habituadas às categorias da lógica formal.

Quando estava exposto no Palácio das Princesas, morto, pude mais uma vez olhar suas mãos, finalmente cruzadas. E, à vista delas, chegaram-me lembranças que a História nunca irá contar, de um exilado solitário e firme, apesar de abandonado por muitos, até mesmo por alguns que depois voltaram a cercá-lo no mesmo palácio que o acolheu pela última vez. Em Argel, sonhava com um Brasil bem diferente daquele que iria encontrar no seu retorno. Nas vezes em que o futuro lhe inquietou, certamente foi por ter pressentido que a nossa tragédia coletiva poderia resvalar para uma quase comédia…

O carisma é um atributo especial de um indivíduo e Arraes teve esse dom, percebido não apenas por nós, pernambucanos e brasileiros.  No exílio ele era também observado assim, e o povo que o acolheu o considerava como um dos seus: um frére, um irmão. Fato singular, o nome Arrais, em árabe, significa cabeça, chefe, senhor do barco.

Os argelinos que o conheceram, quando cruzarem agora aquela esquina do Palácio do Povo, lembrar-se-ão dele e hão de murmurar, como fazem ao pensar num irmão defunto: “Deus é o mais alto, o Misericordioso e o Misericordiador”.
 
 
 

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De “Longos dias têm cem anos”

Extraído do livro Longos dias têm cem anos, de Agustina Bessa-Luís:

“Ainda hoje sei muito pouco de tudo, o que me causa embaraço quando vejo a tremenda bagagem de conhecimentos que têm as pessoas. Se ouvirmos tudo o que se diz nos autocarros, nas praias, nas repartições, ao fim do dia podíamos escrever uma enciclopédia em vinte volumes e até ter êxito com ela. Não há nada de mais aceitável do que a pequena sabedoria, os amores confessáveis e as histórias de doenças.”

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O Museu da Inocência

O site do Museu da Inocência de Orhan Pamuk já se encontra on-line. É o Masumiyet Müzesi. A respeito disso, leiam matéria publicada no site do Valor Econômico:

Numa casa vermelho-escura otomana no distrito de antiquários de Istambul, um bairro em acelerada ascensão social onde objetos trabalhados em bronze se espalham nas calçadas de íngremes ruas de paralelepípedos, está tomando forma um museu idiossincrático. Ao entrarmos, a primeira coisa que vemos é uma parede inteira pontilhada de pontas de cigarros uniformemente espaçadas – prova da prolongada agonia de um homem que furtivamente guardou 4.213 bitucas dos cigarros de sua amada depois que ela se casou com outra pessoa. Mas a palavra “obsessão” é desestimulada, diz Orhan Pamuk, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, enquanto supervisiona os toques finais de seu Museu da Inocência.

Pamuk, um artista “manqué”, estudou arquitetura, mas migrou para a literatura aos 23 anos. Seu “museu sentimental” foi concebido em meados da década de 1990 como contraponto a seu oitavo livro, “O Museu da Inocência” (2008) – publicado depois que ele recebeu o Nobel em 2006. Como o autor, seu herói Kemal nasceu na abastada burguesia de Istambul. Mas após um envolvimento amoroso com Füsun, bela vendedora e distante parente pobre, Kemal rompe um noivado oficial para tentar reconquistá-la. A história tem os contornos dos melodramas televisivos turcos (Pamuk passou uma temporada escrevendo roteiros na década de 1980). Mas a dor é real em um romance que, como grande parte da ficção de Pamuk, sonda as ansiedades e falsidades da vida, em que a sensação é de uma sociedade atrasada, embora imite uma modernidade ocidentalizada. A amada de Kemal morre e – incapaz de encontrar paz – ele constrói um museu com os objetos que ela tocou, enquanto Pamuk reúne lembranças para inspirar a narrativa.

Na demorada reta final até a abertura do museu, Pamuk está bastante animado, dançando em torno das escadas de pintores e da fiação ao som do ruído ensurdecedor de furadeiras e serras (“Eu não vou dizer para eles irem embora – eu quero que isso seja autêntico”, ele berra, com um sorriso). Aos 59 anos, alegria e entusiasmo o tornam ainda mais juvenil. Em 1998 ele comprou uma dilapidada casa de esquina em Cukurcuma, nas ruelas de Beyoglu, do outro lado do Chifre de Ouro, em relação aos palácios de Sultanahmet, mas foi frustrado pela lentidão da reforma.

“É como construir uma casa: a burocracia – o encanador nunca vem na hora combinada. Honestamente, muita lamentação e arrependimento foi investido nela.” Pamuk diz ter devolvido uma pequena verba destinada pela cidade de Istambul por causa de um “acirrado embate político” e bancou “95%” do projeto com dinheiro proveniente de seus direitos autorais, trabalhando com arquitetos turcos e alemães, entre eles Ihsan Bilgin e Gregor Sunder-Plassmann. Ele também teve de contratar guarda-costas, em razão de antigas ameaças de morte de facções de extrema-direita.

O pequeno museu é, predominantemente, uma sequência de pequenos nichos, cada um correspondente a um dos 83 capítulos da novela – faltam 10, que serão incluídos posteriormente. “Nossa constituição é o livro”, afirma Pamuk. “Foi uma alegria desenvolver o romance com a textura viva daquele tempo.” Embora o caso de amor de Kemal aconteça nos anos 1970 e 80 – superposto ao golpe militar na Turquia em 1980 – a mostra cobre o meio século a partir dos anos 1950.

Construída em 1894, a casa é supostamente a casa da família Füsun. A vitrine de saleiros junto ao poço da escada comemora os jantares de Kemal lá. Em destaque, vê-se o vestido que ela supostamente usava quando Kemal a seduziu. “Isso é o mais próximo que chegamos dela”, murmura Pamuk, como se falasse de um conhecido. Há largas coleções de brincos, grampos de cabelo e caixas de fósforos, surrupiados no “ritual de consolação” de Kemal e um sortimento variado de objetos: de um coração de porcelana quebrado a um triciclo de brinquedo. Muitos já estavam na coleção de Pamuk, mas ele adquiriu centenas de fotografias e cartões-postais anônimos. Seus romances, acredita ele, têm uma qualidade “eclética – milhares de pequenas coisas. Nós também estamos fazendo isso; museus têm tudo a ver com detalhes”.

Três anos atrás, vi alguns desses objetos espalhados no chão de seu escritório, nas imediações. Mas cada nicho, aqui, é composto como uma instalação de arte, surrealista, minimalista ou barroca. Pamuk, que elabora as capas de seus livros, esquematizou muitos dos nichos. “Está cada vez mais um museu de atmosfera”, diz. O efeito desejado é uma “aura ou sentimento do livro”. Felizmente, isso inclui seu humor. Um cartaz anatômico fornece uma “analogia de como começa a dor do amor”. Um surreal tubo com gravata borboleta evoca o psiquiatra que a noiva de Kemal insiste que ele consulte. As descascadas persianas verdes e um lampião, recuperados de uma mansão abandonada à beira do Bósforo, lembram Kemal das impotentes noites em que ele tentava apaziguar sua pretendida. Em “Streets that Remind Me of Her” (ruas que me fazem lembrar dela), um mapa de 1934 do bairro de Nisantasi – o bairro rico da família de Pamuk -, há áreas assinaladas com amarelo, laranja ou vermelho, dependendo do grau de angústia que suas associações despertam em Kemal.

O museu, como o romance, é em igual medida celebração da cidade natal de Pamuk, casa e lamentação por um amor perdido. “É, em parte, memória da cultura, como vamos a um piquenique como este” – Pamuk aponta para uma cesta repleta de frutas. Isso dá margem a um nicho pós-moderno de curiosidades que podem ser apreciadas sem conhecer o romance. Usando tecnologia museológica de ponta, ele mescla documentário e ficção, produzindo um efeito a um só tempo lúdico e profundo. Vídeos mostrando o Bósforo são exibidos em telas, enquanto luvas de boxe acima de uma máquina de escrever aludem ao ex-datilógrafo de Pamuk, que tinha um segundo emprego de boxeador. Pouca coisa é o que parece. Após testes com cigarros fumados por uma máquina de vácuo, as pontas de cigarro que estão sendo instaladas por uma mulher em uma escada são de autoria de um artista plástico. Até mesmo o comercial de TV para o refrigerante Meltem no estilo dos anos 1970 é uma campanha simulada por um dos maiores publicitários da Turquia em homenagem a um refrigerante fictício.

“É um museu nostálgico”, admite Pamuk. “Mas não apenas isso. O fato é que estamos preservando coisas que nunca foram representadas, evidenciando qualidades comuns, da vida cotidiana. Acreditamos fortemente em honrar essas efemérides”. Figurinhas de futebolistas que vêm com os chicletes comprados por Kemal custaram caro, porque “na Turquia, colecionadores também disputam a posse desses objetos”. Existem trenzinhos e bilhetes de viagem nas balsas. “As pessoas em Istambul, assim como em Veneza, são nostálgicas em relação às embarcações. Também serão ouvidos sons emitidos através de orifícios nas caixas” – ele imita uma sirene de nevoeiro. O relógio de parede levado escada acima (“Este é um momento importante”, anuncia Pamuk) está sendo regulado por um dos principais relojoeiros de Istambul, que se comprometeu a garantir que manterá a hora certa.

Kemal visita 1.743 museus em 15 anos, e Pamuk viu “perto desse número” durante viagens para lançamentos de livros na década de 1990, entre eles o Gustave-Moreau, em Paris, e a Casa de Thomas Mann, em Lübeck. Como escreveu no “Modest Manifesto”, havia poucos museus em Istambul, quando ele era criança, mas aqueles que ele visitou depois o convenceram de que, como os romances, podem falar em nome das pessoas e não de instituições.

Os museus, afirma agora, “deveriam ser mais como romances – menos sobre nações, tribos, instituições; mais sobre histórias pessoais”. Eles “sempre representaram o poder – um príncipe ou Estado, grupos institucionais. Bem, nós também temos um poder: esse sujeito loucamente apaixonado, chorando, colecionando cigarros. Afirmamos que sua experiência é universal, todo mundo, acreditamos, se apaixona e passa pelos estados de ânimo de Kemal”. Assim como Kemal se dá conta de que “eu também poderia ter algo digno de ser exibido orgulhosamente, e a noção me libertou”, diz Pamuk, “estamos dizendo: ‘Construa o seu museu e você terá poder’. Pelo menos você não se envergonhará de sua coleção ou de sua história”.

O romance contém um mapa de situação e um bilhete para entrada gratuita. Ele será carimbado pelos guardas em ternos de veludo “da cor de madeira escura”, como estipula Kemal. Pamuk tem um conjunto de ternos, “porque às vezes os usarei discretamente e montarei guarda aos objetos”. Assim, os visitantes não deverão se surpreender caso encontrem o agraciado com o Nobel à espreita, entre os nichos. “Vou trabalhar nisso durante 20 anos, até eu morrer; será divertido.”

O Museu da Inocência, em Istambul, será inaugurado no dia 27. (Tradução de Sergio Blum)

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Alegria em dobro, por Luiz Schwarcz

No blog da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz escreveu sobre o encontro entre Jorge Amado e José Saramago:

Blog tem destas coisas. Eu terminei de postar o texto anterior e me lembrei que esqueci de alguns detalhes. O mais importante deles é o traje do José que aparece na foto em questão. Saramago foi despreparado para uma celebração baiana, em pleno mês de fevereiro. O calor era tremendo e o nosso futuro Nobel só tinha calças compridas na mala, acompanhadas de camisas sociais. Quando chegamos de Brasília, onde José recebera das mãos de Fernando Henrique Cardoso o Prêmio Camões, e descarregamos nossas malas no pequeno hotel, que ficava no Morro da Paciência, atual casa de Gal Costa, vi Saramago se preparar para a tal feijoada, com belos sapatos, camisa e calça sociais, e tudo pelo social, dali para cima.

Demos boas risadas, Lili e eu, ao vê-lo, suando em bicas, já antes da festa começar. Fui para o quarto, catei meu calção e uma camiseta branca e ofereci ao nosso escritor. E também um par de havaianas, as primeiras a calçar um Nobel, talvez. Na casa de Caetano chegavam os futuros anfitriões, escolhidos por Jorge Amado, para os próximos almoços, além de personagens da vida cultural/pop baiana, como Gilberto Gil, muito calado na festa (andava muito interessado em conversar sobre ciência, seu xodó na época), Carlinhos Brown e muitos outros. Se não me engano Arnaldo Antunes esteve lá também.

Calazans Neto, o grande gravurista baiano, membro honorário do clã de artistas que produzia maravilhosas xilos, muitas delas inspiradas na obra amadiana, estava presente, e encabeçava a lista de anfitriões das casas que visitaríamos nos dias que se seguiram. Sua cozinheira era também uma artista, e nunca vou me esquecer da cara de José lambendo os beiços com os quitutes baianos da casa de Calazans. Carybé, outro dos artistas do tal clã, foi presença constante em todas as festividades. Sua simpatia era contagiante. Afro-argentino-baiano, também filho de Oxossi, inspirava em Jorge piadas carinhosas, e vice-versa. Era comovente a amizade dos dois, escritor e artista, que iluminaram-se mutuamente durante tantos anos.

No dia que Dadá foi escalada por Jorge e Zélia para cozinhar para todo o grupo — e fez deliciosas moquecas cheias de frutas e peixes —, fomos ao ateliê de Carybé e, num determinado momento, resolvemos presentear José e Pilar com uma aquarela. Surpreendemo-nos ao notar que José e Pilar haviam feito o mesmo, comprando outra como presente para nós. A esposa de Carybé perguntou gentilmente se permitiríamos que as tais aquarelas fossem exibidas numa exposição que se daria em Sevilha ou Córdoba, com o que concordamos imediatamente, ainda mais devido às origens andaluzes de Pilar. As pinturas nos seriam enviadas logo após. Nunca as recebemos, e José perguntou por elas para mim, sempre que esteve no Brasil.

O almoço no Tempero de Dadá, então no Pelourinho, foi tão tipicamente baiano que até o escritor local se irritou com a demora. Depois de horas a comida chegou deliciosa, mas antes disso Jorge Amado já havia dito a Dadá:

— Menina, eu sou baiano, mas a demora está demais até para mim. Até para os padrões do Caymmi essa espera está longa demais.

Foi curiosa a conversa de José e Jorge sobre o Prêmio Nobel, até então nunca concedido a um escritor de língua portuguesa, enquanto esperavam uma das refeições, nos banquetes daquela semana. Jorge se declarou eleitor de Saramago, se fosse da Academia Sueca. Saramago retrucou dizendo que fazia questão de ser o primeiro convidado à festa quando o prêmio fosse concedido ao amigo brasileiro. Falou que receberia Jorge Amado em Lanzarote para uma semana de festividades, com comida Ibérica de primeira qualidade. Acho que disse que seria difícil superar Jorge Amado como anfitrião, o que atesto e assino embaixo. Mesmo assim, divirto-me imaginando os festejos ainda mais fartos, do Prêmio concedido à Saramago, na Bahia com Jorge vivo – o que, todos sabemos, infelizmente não aconteceu. E o troco, alguns anos depois, Amado Nobel, e nós nos empanturrando com bacalhaus, paellas, cabritos, acordas…

A alegria em dobro, ou muito mais.

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