Arquivo da categoria: Crônica

“Uma diplomacia juvenil”, de Elio Gaspari

Esta é a opinião de Elio Gaspari, em sua coluna de ontem, no jornal O Globo, acerca do caso envolvendo o senador Roger Pinto e o diplomata Eduardo Sabóia:

A doutora Dilma tem dois chanceleres, um no Planalto e outro no Itamaraty. Apesar disso, restou ao Brasil uma diplomacia trapalhona, cenográfica e inepta. A desova do senador Roger Pinto no território brasileiro transformou uma conduta inamistosa do governo da Bolívia numa estudantada brasileira. Custou o lugar ao chanceler Antonio Patriota. Ele vai para Nova York, mas o comissário Luis Inácio Adams continua advogado-geral da União. O doutor sustentou que, caso um médico cubano peça asilo territorial no Brasil, será devolvido a Cuba. Agradando o aparelho dos irmãos Castro, ofendeu a História do país e o Direito. No ano passado o Brasil meteu-se noutra estudantada, expulsou o Paraguai do Mercosul e agora corteja seu governo. É uma diplomacia de palavrório e negócios. Patriota foi um detalhe.

A ideia segundo a qual o encarregado de negócios do Brasil em La Paz contrabandeou o senador até a fronteira com o Brasil porque apiedou-se de seu estado emocional é pueril. Se os embaixadores começassem a ser orientados pelos seus sentimentos, seria melhor fechar a Casa. A boa norma determina que um governo dê o salvo-conduto a um asilado em algumas semanas. No exagero, alguns meses. O presidente Evo Morales não quis fazer isso. Direito dele. O ex-presidente peruano Haya de la Torre ralou cinco anos numa sala da embaixada da Colômbia em Lima. O cardeal Jozef Mindszenty, outros quinze na embaixada dos Estados Unidos (que não são signatários das convenções de asilo diplomático) na Hungria.

Se alguém pensou que combinou a fuga com Evo Morales, fez papel de bobo e transformou o algoz em vítima. Transferiu o vexame para o diplomata Eduardo Sabóia, deixando-o numa posição de franco-atirador. Coisa parecida, fez no mundo dos negócios, quando transferiu para o embaixador do Brasil em Cingapura uma transação meio girafa que favorecia os interesses do empresário Eike Batista.

A maneira como a diplomacia de Lula e da doutora lidou com o instituto do asilo revela desrespeito histórico com um mecanismo que protegeu centenas de brasileiros perseguidos por motivos políticos. Ele ampara gregos e troianos. Em 1964, brasileiros asilaram-se na embaixada boliviana. Anos depois oficiais golpistas bolivianos asilaram-se na embaixada brasileira e o governo esquerdista do general Juan José Torres deu-lhes salvo-condutos em 37 dias.

Carlos Lacerda asilou-se por alguns dias na embaixada de Cuba e João Goulart pediu asilo territorial ao Uruguai. Em poucos meses, o governo do marechal Castello Branco concedeu salvo-condutos a todos os asilados que estavam em embaixadas estrangeiras. Já o do general Médici, vergonhosamente, fechou as portas de sua representação em Santiago nos dias seguintes ao golpe do general Pinochet e dezenas de brasileiros foram obrigados a buscar a proteção de outras bandeiras. Contudo, nem mesmo Médici deportou estrangeiros para países onde poderiam ser constrangidos. Isso ocorreu durante a gestão do comissário Tarso Genro no Ministério da Justiça, com dois boxeadores cubanos que, posteriormente, voltaram a fugir da Ilha.

O direito de asilo é uma linda tradição. Não se deve avacalhá-lo.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica

“O avesso do imaginário”, de Francisco Bosco

Texto publicado ontem, 28 de agosto de 2013, na coluna de Francisco Bosco, no Segundo Caderno do jornal O Globo:

Evito dedicar colunas a apresentações de livros, por razões estratégicas (não desejar que este espaço tenha um tom de resenha) e idiossincráticas (sinto mais esforço que prazer ao expor o pensamento alheio, tanto quanto me é possível, em seus próprios termos). Mas volta e meia, quando tenho a oportunidade de ler um livro excepcional — sobretudo de autor brasileiro e contemporâneo —, abro uma exceção. Nesses casos, considero o louvor e a disseminação um dever público. É esse dever que pretendo cumprir hoje, escrevendo sobre o livro “O avesso do imaginário — arte contemporânea e psicanálise”, de Tania Rivera. Trata-se de um conjunto de ensaios notáveis, entre outras virtudes, pelo rigor e pela clareza teóricos, e talvez sobretudo pelo método: refiro-me à habilidade incomum de pôr em relação “dois campos bem delimitados culturalmente” (a arte contemporânea e a psicanálise), sem que um deles se converta em mero instrumento de ilustração de um saber já cristalizado pelo outro. O núcleo do livro — retomado, reposicionado e expandido a cada ensaio — é a tentativa de compreensão da transformação nas noções e práticas do sujeito e do objeto, da imagem e do real, desde o advento da psicanálise e da arte moderna, nos primórdios do século XX, passando pela sua reformulação nas décadas de 1950/60/70, que marcam o surgimento da arte contemporânea e do pensamento lacaniano.

Vou propor aqui um esqueleto narrativo para fins de clareza da exposição. “A psicanálise”, observa a autora, “partilha com a arte do século XX — e continua hoje compartilhando — questões fundamentais a respeito da própria natureza da imagem”. A arte da Renascença, com a invenção da perspectiva, pressupunha ideias estáveis de sujeito e de realidade: o sujeito é aquele cujo olhar, fixamente situado no espaço, organiza a realidade, que por sua vez é aquela que se deixa ver, no campo da representação, como um duplo do que existe. A arte moderna, como se sabe, viria rasurar essa confiança na representação, quebrando a ilusão representativa, multiplicando as perspectivas (e assim fragmentando o sujeito) e conquistando uma linguagem autônoma. Contemporânea a ela, a psicanálise faria sua própria crítica da imagem, a seu modo instaurando também uma distância entre a representação e o referente, a fantasia e a vivência. Para Freud, o sujeito nunca tem acesso direto às cenas originárias — logo traumáticas — de sua infância; a memória é antes “uma construção que encobre a verdade, mas de alguma maneira a deixa entrever”. A imagem é a um tempo o que perde o real para sempre, e aquilo em que (e somente no que) ele pode, modificado, sobreviver. O real da vivência traumática fura a imagem, pois ela não consegue contê-lo; por outro lado, esse furo permanece sendo a única via de acesso à recordação e elaboração do que, tendo ocorrido uma vez, continua a produzir efeitos de repetição na história do sujeito. Como diz Didi-Huberman, “há um trabalho do negativo na imagem” em Freud.

A partir dos anos 1950/60/70, essas noções de sujeito, objeto, imagem e real sofreriam outra transformação, que configura a arte contemporânea, por sua vez contemporânea ao pensamento de Lacan. Num conhecido livro dos anos 1990, Hal Foster estabeleceu a ligação dessa arte com o que Lacan chama de real: o registro da experiência humana irredutível à representação, ao simbólico e ao imaginário. Tania Rivera avança essa leitura, mobilizando o aparato conceitual lacaniano e obras de arte contemporânea. Se, em Freud, a imagem é negativa, em Lacan o imaginário é o lugar onde o eu constrói sua identidade — sua autoimagem “conformadora, ortopédica e alienante” — e as relações especulares com o outro e o mundo. Rompendo tanto com as ilusões expressivas e representacionais quanto com o formalismo da arte moderna, a arte contemporânea sai do espaço representativo, propõe o corpo como lugar da experiência artística, afirma um sujeito sem substância, experimenta arriscadas passagens à condição de objeto e instaura espaços que não correspondem à organização especular do imaginário, lançando o sujeito para fora do eu.

Nem preciso reler o parágrafo acima para saber que minha tentativa de concentrar detalhadas e rigorosas argumentações, concretamente elucidadas pela análise de obras, em uma única, sinuosa, abstrata e hiperconcentrada frase provavelmente terá afastado do livro em questão os improváveis leitores que chegaram até aqui. Não tendo podido fazer melhor, só o que me resta é garantir que a incapacidade é toda do expositor, e esperar que essa minha imagem-muro do livro seja também uma imagem-furo, capaz de atrair para os claros e brilhantes enigmas desses ensaios.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica

“O amor acaba”, de Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

1 comentário

Arquivado em Crônica

“Cheira como inconformismo” – Tony Bellotto

Muito boa a estreia de Tony Bellotto no Segundo Caderno do jornal O Globo. A crônica foi publicada no dia 23 de junho de 2013:

Napalm

“Adoro o cheiro de napalm pela manhã”, diz o esquizofrênico coronel Kilgore, personagem interpretado por Robert Duvall em “Apocaypse now”, enquanto surfa nas marolas de um rio durante um bombardeio na Guerra do Vietnã. Ao final da frase – uma das mais famosas do cinema -, o patético Kilgore conclui, inspirado pelas emanações do líquido incandescente e devastador: “Cheira como& vitória”.

Avenida Paulista

Em São Paulo depois de um ensaio com os Titãs, me deparo a caminho do hotel, na Avenida Paulista, com tropas de choque da polícia militar e caio por acaso numa das manifestações que têm ocorrido com frequência em cidades brasileiras nos últimos dias. Testemunho uma batalha campal, com a polícia descendo descaradamente o sarrafo nos manifestantes. Flashes de meus tempos de estudante assaltam-me a memória e me reúno àqueles jovens que – há quanto tempo eu não via isso! – protestam contra alguma coisa.

Gás lacrimogênio

Ao sentir olhos, narinas e garganta arderem ao contato do gás lacrimogêneo, automaticamente me entrincheiro com os manifestantes contra a ação exageradamente violenta da polícia. Entre uma tomada de ar e uma esfregada nos olhos parafraseio o detestável coronel Kilgore – por motivos opostos aos seus, ressalte-se, já que sou um flanador ingenuamente anarquista e defensor radical dos direitos individuais e da democracia: “Adoro o cheiro de gás lacrimogêneo ao cair da tarde. Cheira como& inconformismo.”

Polícia para quem precisa

Sou de uma geração que cresceu durante a ditadura militar e atingiu a maioridade quando o país se redemocratizava. Participei de manifestações contra a ditadura e a favor das eleições diretas e da anistia. Integro uma banda que se notabilizou pelo discurso contestador e insubmisso. Não estivessem meus olhos lacrimejando por conta do nefando gás, eu poderia creditar a uma constrangedora onda de sentimentalismo as lágrimas que me escorrem pelas faces ao ouvir os manifestantes entoando a música “Polícia” – que compus há exatos 28 anos – como um hino de resistência à truculência policial na Avenida Paulista. “Polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia”& snif, snif.

Cavalo de Troia

Há tempos me intrigava a apatia dos jovens em relação à política. Uma estratégia que incluía a cooptação de estudantes pelo poder estabelecido, com o ardil eficiente de creditar qualquer insatisfação com um governo popular a uma manifestação “burguesa”, ou elitista – no melhor estilo com que se acusavam os contrarrevolucionários no stalinismo -, somada a um sentimento generalizado e ufanista, docemente iludido, de que o Brasil deu certo, aparentemente funcionou muito bem até aqui. Na eclosão do escândalo do mensalão nos idos de 2005 estranhei que tão poucos artistas se manifestassem contra a esbórnia institucional que aqueles eventos sugeriam. Os Titãs foram dos poucos – pouquíssimos – a compor uma canção que comentava a situação, e “Vossa Excelência” é um hit que não podemos – e não queremos – deixar de fora de nossos shows até hoje. Talvez o gás lacrimogêneo tenha limpado meus olhos como um colírio ardente e me permitido ver que a suposta apatia dessa juventude, como num ditado zen, era apenas um cavalo de Troia recheado de revolta.

Navegar é preciso

Os jovens manifestantes criticam os aumentos das tarifas dos ônibus e do custo de vida, a má qualidade de transportes, educação e saúde, e questionam a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil. Ou seja, fazem o que jovens sempre fizeram, ou deveriam fazer: criticam, contestam e questionam tudo que acham errado. Os jovens falam por todos nós, ninguém aguenta mais tanta bandalheira e descaso. O movimento se expande e começa a receber adesões de toda a sociedade. O ponto mais interessante é que não aceitam a tutela de partidos nem de ideologias, pelo contrário, os abominam, o que demonstra que são mais inteligentes e articulados do que muitos gostariam. Ah, e se comunicam pelas redes sociais da internet, como fazem seus companheiros da praça Tahrir, da praça Taksim e de muitas outras praças libertárias espalhadas pelo mundo. E tem gente que ainda vê a internet como um poço de alienação. Navegar é preciso, dizia o poeta.

Caos

Pegos de surpresa, imprensa e políticos – e boa parte da população atônita – tiveram a princípio a percepção de que as manifestações expressavam uma ação desarticulada de vândalos incendiários e desocupados ressentidos. Mas estavam errados e já reformulam às pressas seus discursos e teorias. Concordo que qualquer patrimônio – histórico, público ou privado – não deve ser depredado, assim como o direito de protesto tem de ser respeitado até o momento em que ameace a segurança pública. Mas é muito difícil encontrar esse equilíbrio e algum caos terá de ser assimilado. É preciso ter um caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela bailarina, dizia o filósofo.

Pai e filho

Me ocorre uma canção composta por Cat Stevens antes de se tornar um fanático religioso e sectário, “Father and son”. Nela Cat expressa duas visões de mundo na forma de um diálogo entre um pai e um filho. Diz o pai em tom grave: “Não é tempo de mudar, apenas sente-se e vá devagar, você continua jovem, esse é o seu problema, há muita coisa que você tem que enfrentar.” E o filho rebate em tom agudo, quase gritando: “Como eu posso tentar explicar, quando faço ele ignora, é sempre a mesma coisa, a mesma velha história. Quando pude falar, fui obrigado a ouvir. Agora há um caminho e eu sei que tenho de ir embora, eu sei que tenho de ir.”

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica

“Odeio o Brasil” – Francisco Bosco

Excelente a crônica de Francisco Bosco publicada no jornal O Globo, a 13 de junho de 2013:

Nunca pensei que fosse escrever isso. Fui formado principalmente por uma tradição de intérpretes do Brasil que enxergava na singularidade de nossa formação um vasto tesouro e um enorme potencial. A cultura popular em Mário de Andrade, a criatividade antropofágica em Oswald, a glória e a tragédia da miscigenação em Freyre, até chegar em intérpretes contemporâneos, como Risério, Caetano, Wisnik, Antonio Cicero, entre outros que, sem baratear nossos impasses e mazelas, permaneceram afirmativos da nossa singularidade e capazes até mesmo, como no caso de Caetano, de vislumbrar uma civilização brasileira com lições a oferecer ao mundo. Infelizmente, sinto-me cada vez mais afastado de um pensamento amoroso e afirmativo de nossa história, de nosso presente e, consequentemente, de nosso futuro.

Um dos traços mais positivos de nossa formação é o fato de que aqui o concreto prevaleceu sobre o abstrato. É claro que o reverso da moeda, como soube ver de modo seminal Sérgio Buarque de Holanda, é a incapacidade de regularmos as relações sociais pelos princípios abstratos e impessoais da lei. Mas o privilégio do concreto sempre foi um antídoto poderoso, um desmentido da realidade contra as ideologias totalitárias, da eugenia racista aos monoteísmos perseguidores. Continuo considerando, por causa disso, o Brasil um país especialmente apto a erradicar o legado da escravidão, mas para isso precisamos de uma massa de ações afirmativas, o que por sua vez esbarra no reacionarismo de classe e no negacionismo interessado (talvez seja a mesma coisa). Continuamos sendo, por um lado, uma cultura livre dos terrorismos étnicos e religiosos que assolam boa parte do mundo, mas, por outro lado, o crescimento do poder dos monoteísmos ameaça essa que é uma de nossas poucas virtudes civilizatórias. Os evangélicos paranoicos, os cristãos obscurantistas e a direita monossexual à Bolsonaro vão ganhando terreno cada vez mais perigosamente. A PEC 99/11, que possibilita a entidades religiosas questionarem decisões judiciais, elevando os valores da fé a argumentos jurídicos, pode, se passar, ser um marco terrível da reação.

E tudo isso acontece, pasmem, num governo supostamente de esquerda, que muitas vezes facilita essas manobras e se esquiva o quanto pode de se pronunciar com clareza sobre temas civis fundamentais. À presidente Dilma parecem interessar apenas as questões relativas à economia; os posicionamentos do governo quanto a temas como casamento entre homossexuais e descriminalização das drogas são omissos ou conservadores.

Mas o mais grave ainda está por vir. Num momento em que a Humanidade precisa modificar sua intervenção no ecossistema, sob pena de não haver mais espécie humana, o Brasil aprova um Código Florestal catastrófico, os ruralistas mandam e desmandam no legislativo, a esquerda desenvolvimentista do PT insiste em construir Belo Monte — e os índios vão sendo assasinados, torturados ou relegados à mendicância (ou emparedados até o suicídio). Em uma manifestação contra o fim da Aldeia Maracanã, o poeta Ramon Mello carregava um cartaz onde se lia a precisa pergunta: “O que se teme no índio?” Não é difícil responder. O índio é para a nossa sociedade o objeto que impossibilita o recalque de uma verdade dura demais: a verdade de que o “progresso” humano está nos conduzindo dialeticamente à morte, à morte de tudo e todos. Os desenvolvimentistas querem acabar com o índio pela mesma razão que nós enterramos um cadáver: porque ele nos lembra da nossa própria morte. É isso o que se teme no índio. Não encarar agora a verdade simbólica do índio implicará em ter que encarar a verdade real que o seu extermínio anuncia.

E enquanto essas grandes questões vão regredindo em nome do progresso, a vida ao rés-do-chão não apresenta sinal de melhoras. Sim, o país cresceu; milhões de pessoas saíram da linha da miséria (embora uma matéria recente da “Folha” tenha mostrado que os números são controversos). E isso não é pouco. É de condições básicas que estamos tratando, de justiça social mínima. Viva o bolsa família. Viva o emprego. Viva a PEC das domésticas. Mas é incrível como permanece a incapacidade da sociedade brasileira de se pensar como um organismo interdependente, onde as ações de cada sujeito devem seguir critérios de justiça para o bom funcionamento do todo. Aqui é cada um por si e todos contra todos. Isso degrada a confiança no respeito às leis, sem a qual os cidadãos não conseguem deixar de reproduzir o comportamento de violação dos pincípios públicos, e produz um desgaste insuportável na vida cotidiana.

Feito o desabafo, resta seguir lutando.

4 Comentários

Arquivado em Crônica

“Machado” – José Miguel Wisnik

Coluna de José Miguel Wisnik publicada em 1 de junho de 2013, no Segundo Caderno do jornal O Globo [via Conteúdo Livre]:

Em 2007 participei de uma Semana da Língua Portuguesa em Moscou. O evento era uma iniciativa das embaixadas do Brasil e de Portugal e desenrolava-se na Biblioteca de Literaturas Estrangeiras, em cujo pátio aconteceria o momento áureo e mais solene do evento: a inauguração do busto de Machado de Assis. Bustos, estátuas e efígies de escritores, meditativos, eloquentes ou simplesmente de perfil para a posteridade, espalham-se por toda parte em Moscou. Lá, os encontros costumam ser marcados aos pés de Pushkin. Maiacovski ocupa uma praça em cujo subterrâneo está a estação de metrô com seu nome, no teto da qual se inscrevem poemas seus. Dostoievski e Tchecov são colossais. A entrada em cena do busto de Machado era um passo modesto, mas curioso, e bem à moda russa, do lento reconhecimento que vem se dando do nosso escritor maior no plano da literatura mundial.

Mais curioso ainda, e no entanto nada modesto, se revelou quando nos deparamos com o lugar que o nosso marco literário ocupava no átrio povoado pelos vultos de Goethe, Proust, Joyce, Pirandello. É que o representante da embaixada, um animado nissei brasileiro, em contato com os funcionários da biblioteca, tinha perguntado a eles sobre a localização do busto a ser instalado. Como a Rússia se parece com o Brasil na admissão de uma razoável margem de indeterminação, a resposta foi a de que ele podia escolher onde lhe parecesse melhor. O resultado irônico, ao descerrar-se o véu inaugural, é que Machado reluzia nada mais nada menos do que no centro geométrico do pátio, no epicentro das forças literárias do ocidente, tendo à sua volta o que parecia ser por um momento um irlandês bêbado, um alemão altivo e deslocado, um francês blasé, um italiano à procura de lugar, sem falar numa legião de outras expressões nacionais, todos convertidos por um efeito ótico instantâneo em orla periférica da inesperada centralidade machadiana.

Por obra de um acaso objetivo que não deixava de ser cômico e iluminador, o “mestre na periferia do capitalismo”, em Moscou, ocupava o centro. É significativo lembrar que o próprio Roberto Schwarz chamou a atenção, em “Ideias fora de lugar”, para as enormes afinidades entre as literaturas do Brasil e da Rússia, esses países continentais historicamente ligados ao escravismo e à servidão, na periferia do centro europeu. Por uma espécie de inadvertida revanche contra o pouco reconhecimento internacional de sua grandeza, o fora de lugar encontrava neste lugar de fora um equívoco mas não descabido lugar máximo. Não sei se a biblioteca russa corrigiu ou não, depois, o gesto soberano do nosso representante diplomático, que, sem saber, fez justiça com as próprias mãos: justiça, refiro-me, ao que sustentara Susan Sontag em 1990, confessando-se “espantada de que um escritor de tamanha grandeza ainda não ocupe o lugar que merece no palco da literatura mundial”. Na mesma passagem, ela constatava o quanto o centro pode ser periférico, e a periferia, central.

Lembro tudo isso por causa da tese de Hélio Guimarães, de cuja banca fiz parte, e que rastreia mais de um século da recepção crítica de Machado de Assis, os caminhos enviesados da sua conversão em monumento e as surpresas desconcertantes que ele não cessa de fazer pelas bordas e no miolo. Pelo quanto uma obra literária pode demandar, suportar e desafiar leituras ao longo dos tempos. Pelo quanto somos esquisitos aos olhos do mundo, e aos nossos, se nos admitíssemos nos ver. Lembro os textos de José Antonio Pasta que flagram a luta de morte como constante estrutural insidiosa no romance brasileiro, onde os antagonistas se confundem e se anulam sem a possibilidade de um salto dialético.

Penso no fato de que, desde a minha última coluna, na qual crianças xingavam André Mehmari, um morador de condomínio de luxo matou o casal vizinho por causa de som e fúria, significando nada, o prefeito do Rio esmurrou um artista que o xingava, mas que não sustentou o que dizia e o golpe que sofreu, e mais um dentista teve o corpo queimado por bandidos, atestando que o crime também segue, a seu modo, tendências e moda.

Hoje, no entanto, tudo isso é atravessado por um raio luminoso, o depoimento da historiadora Dulce Pandolfi à Comissão da Verdade, sobre as torturas que sofreu durante a ditadura militar. Da violência nós sabemos, de maneira genérica. Da sordidez e da minúcia sádica, da covardia e dos meandros mais mesquinhos e sinistros do mal, confundidos com a vida oficial brasileira, ela nos diz de maneira elevada, cristalina e irrespondível. Esse depoimento precisa ser conhecido na íntegra, não direi como uma lição moral e cívica, que não deixa de ser, mas como um testemunho da nossa humanidade.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica

“Um caso de possessão”

Rubem Fon­seca tinha declar­ado que os escritores, naquela mesa do Cor­rentes d’Escritas onde se falava do risco da ficção, eram todos loucos, cada um à sua maneira. “Ele é escon­did­inho, ninguém percebe, mas é louco”, disse o escritor brasileiro, pou­sando a mão no ombro de Eduardo Lourenço. Este regres­sou ao pas­sado para con­tar um episó­dio que ilus­tra essa lou­cura. É a história da escrita do livro Pequena Volta ao Mundo, pub­li­cado em 1961, em edição de autor, por Lúcio de Sousa Dias, um antigo colega do ensaísta no Colé­gio Mil­i­tar. Sabe-se agora que foi Lourenço que o escreveu, a pedido do condis­cípulo, usando postais, fotografias e apon­ta­men­tos que este lhe dera.

João Nuno Alçada, que trata do acervo de Eduardo Lourenço, encon­trou nos caixotes o livro e o respec­tivo man­u­scrito. Em Dezem­bro, o Jor­nal de Letras con­tou a história, e a Ler pub­li­cou depois excer­tos do livro.

“É uma ver­gonha que assumo: escrevi, por amizade e por um pacto meio louco, uma viagem à volta do mundo”, expli­cou Lourenço. “Eu, que nunca escrevi três lin­has [de ficção] e tenho um com­plexo absurdo em relação a quem escreve uma história, escrevi, pura e sim­ples­mente, uma volta ao mundo!” Que nunca mais leu. “Não é uma forma de het­eronímia, como a de Pes­soa, é um caso de pos­sessão!”

O seu amigo fez real­mente uma volta ao mundo, em 1954. A com­pan­hia de avi­ação que o des­pediu pagou-lhe uma viagem que imi­tava a de Phileas Fogg, per­son­agem de A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, de Júlio Verne. Quando se encon­traram, já tin­ham pas­sado qua­tro anos desde essa viagem e o amigo não se lem­brava de nada. Durante dois anos, Lourenço foi escrevendo por ele.

“Via­gens a Jerusalém, ao Japão, à América do Norte, onde nunca tinha posto os pés. Não há uma palavra que seja de qual­quer exper­iên­cia minha. É a ficção pura. A esse título, sou um grandessís­simo fic­cionista!”, diz o autor, que acha que o texto não tem qual­i­dade literária e, sobre­tudo, não o sente como seu. “Escrevi para ele, escrevi o filme que ele não podia escr­ever. Mor­reu na con­vicção de que aquele livro era dele. Vou agora matá-lo segunda vez?”

Em 1960, o amigo instalou-se em França, em casa de Lourenço. “A minha mul­her já não o podia ver e até começou a pen­sar que havia ali uma relação um pouco sus­peita.” O amigo acabou por ir para uma pen­são. “Ia lá ter com ele e sentava-me à mesa a escr­ever. Ele estava deitado na cama, ria-se e fazia ruí­dos, e eu já estava tão deses­per­ado que lhe disse: ‘Pára lá com isso. Eu estou aqui a ser teu escravo e tu a rires-te.’ E ele respon­deu: ‘É pá’ — ele falava assim como o Vasco Lourenço — ‘há muita gente que tem tipos que escrevem por eles, como o Kennedy.’ Tive um lam­pejo de lucidez e respondi-lhe: ‘Sim, mas aqui o Kennedy sou eu’.”


Os ami­gos de Lourenço acham graça à história e querem reed­i­tar o livro. Ele não quer. “Não quero ser fic­cionista a esse preço.” No entanto, quer que alguém conte a história do que se pas­sou. Almeida Faria já ref­ere o episó­dio no texto A Viagem do Outro, que pub­li­cou na revista Cor­rentes d’Escritas sem iden­ti­ficar os pro­tag­o­nistas. E, se Lourenço autor­izar, assume que gostaria de con­tar “essa história abso­lu­ta­mente incrível, mas verdadeira”.

(Crónica Porque hoje é domingo, de Isabel Coutinho, pub­li­cada na revista 2, em 11 de Março de 2012)

[Via Ciberescritas]

1 comentário

Arquivado em Crônica

“Livros de verão e literatura de verdade”, de Milton Hatoum

Excelente o texto de Milton Hatoum publicado hoje no site do Estadão:

Há poucos meses atrás, na Feira do Livro de Guadalajara, vi uma cena que, de algum modo, diz muito sobre a literatura e a solidão, essas irmãs siamesas.

A Feira estava cheia de gente, mas não necessariamente de leitores. Ao visitar o estande de uma editora, vi um escritor de língua espanhola, sentado diante de uma mesinha, à espera de leitores. Ele tinha um ar desolado e conversava com uma mulher. Quando eu passava perto dos dois, ele perguntou à mulher onde estavam os leitores. Ela sorriu e apontou para uma fila de leitores excitados, que queriam comprar a edição espanhola de Cinquenta Tons de Cinza, o best-seller do momento.

É improvável que os leitores dessas historinhas de sexo e violência – ou sexo com violência – leiam romances de Conrad, de Dostoievski ou de Graciliano Ramos. Quantos se aventuram a ler Coração das Trevas, Crime e Castigo ou Infância? Para a maioria dos leitores, um livro de ficção é puro entretenimento, algo que não convida a pensar nas relações humanas, no jogo social e político, na passagem do tempo e nas contradições e misérias do nosso tempo, muito menos na linguagem, na forma que forja a narrativa. Talvez por isso o poeta espanhol Juan Ramón Jiménez tenha afirmado que a poesia é a arte da imensa minoria. Isso serve para a literatura e para todas as artes. Os poucos, mas felizardos espectadores da peça O Idiota, dirigida por Cibele Forjaz, sabem disso.

Flaubert costumava lamentar a época em que viveu: a crença entusiasmada e cega no progresso e na ciência, as batalhas fratricidas na França, a carnificina das guerras imperialistas, e a idiotice e bestialidade humanas, que ele explorou com ironia em sua obra. Em uma carta de sua vasta correspondência, escreveu que o ser humano não podia devorar o universo. Referia-se ao consumismo crescente na segunda metade do século 19.

O que o “Ermitão de Croisset” diria dos dias de hoje, quando a propaganda insidiosa na tevê não poupa nem as crianças e tudo gira em torno da vida de celebridades, de uma fulana famosa que teve um bebê, de sicrano que se separou de beltrana ou traiu uma fulaninha? Qual o interesse em saber que a princesa da Inglaterra está grávida?

Essas baboseiras são ainda mais graves num país como o Brasil, cuja modernidade manca ou incompleta exclui milhões de jovens de uma formação educacional consistente.

No começo da década de 1990, quando eu passava uma temporada em Saint-Nazaire, um jovem operário entrou no meu apartamento para consertar o vazamento de uma tubulação. Quando passou pela sala, viu um romance em cima da mesa e exclamou:

Ah, Stendhal. Li vários livros dele, e o que mais aprecio é esse mesmo: A Cartuxa de Parma.

E onde você os leu? Quando?

Aqui mesmo, ele disse. Na escola secundária.

Era uma das escolas públicas daquela pequena cidade no oeste da França.

Nicolas Sarkozy e outros presidentes conservadores tentaram prejudicar o ensino de literatura e ciências humanas na escola pública francesa, mas nenhum deles teve pleno êxito. Aprender a ler e a pensar criticamente é um dos preceitos de uma sociedade democrática, e esse mandamento republicano ainda vigora na França. O que os prefeitos e secretários de Educação dos quase 5.700 municípios brasileiros dizem a esse respeito?

A precariedade da educação pública é um dos problemas estruturais da América Latina. Até mesmo a Argentina, que já foi uma exceção honrosa, começa a padecer desse mal.

Comecei essa crônica evocando a solidão de um escritor em Guadalajara. Melhor assim: a solidão está na origem do romance moderno, é um de seus pilares constitutivos e faz parte do trabalho da imaginação do escritor e do leitor.

O tempo se encarrega de apagar todos os cinquenta tons de cinza, e ainda arrasta para o esquecimento os crepúsculos, cabanas e toda essa xaropada que finge ser literatura. Enquanto isso, Coração das Trevas, publicada há mais de um século, é uma das novelas mais lidas por leitores de língua inglesa.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica

“É a falta de cultura, estúpido!”, de Clara Ferreira Alves

Crônica de Clara Ferreira Alves publicada no Expresso [via Maria João Cantinho]:

Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores.

Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente. Nós não somos muito diferentes disto. No meio do anedotário que converteria um homem mais inteligente num homem trágico, convém não esquecer o que nos separa, exatamente, do Relvas. Pouco. O dito não é um espécime isolado, um pobre diabo animado de força e disposição para fazer negócios e trepar na vida, que entrou em associações e cambalachos, comprou um curso superior e, de um modo geral, se autoinstituiu em conselheiro do rei. Já vimos isto.

Nunca vimos isto nesta escala, porque na 25ª hora da tragédia nacional, quando Portugal se confronta com a humilhação da venda dos bens preciosos (os famosos ativos) aos colonizados de antanho e seus amigos chineses, o que o país tem para mostrar como elite é pouco. Nada distingue hoje a burguesia do proletariado. Consomem as mesmas revistas do coração, lêem a mesma má literatura (que passa por literatura), vêem a mesma televisão, comovem-se com as mesmas distrações. Uns são ricos, outros pobres.

A elite portuguesa nunca foi estelar, e entre a expulsão dos judeus e a perseguição aos jesuítas, dispersámos a inteligência e adotámos uma apatia interrompida por acasos históricos que geraram alguns estrangeirados ou exilados cultos permanentemente amargos e desesperados com a pátria (Eça, Sena) e alguns heróis isolados ou desconhecidos (Pessoa, 0’Neill).

Em “Memorial do Convento”, Saramago dá-nos um retrato da estupidez dos reis mas exalta romanticamente o povo. Todos os artistas comunistas o fizeram, num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o “Rei Lear” de um lado, Relvas posando nas fotografias ao lado da bandeira do outro. Relvas nem personagem de Lobo Antunes, o (descritor da tristeza pós-colonial, chega a ser. É um subproduto de telenovela O tempo dos chefes cultos acabou, e se serve de consolação, não acabou apenas em Portugal.

A cultura de massas ganhou. No mundo pop, multimédia, inculto e narcisista, em que cada estúpido é o busto de si mesmo, a burguesia e o lúmpen distinguem-se na capacidade de fazer dinheiro. Acumular capital. O dinheiro, as discussões em volta do dinheiro acentuadas pela falta de dinheiro, fizeram do proletariado (e desse híbrido chamado classe média) uma massa informe de consumidores que votam. E que consomem democracia, os direitos fundamentais, como consomem televisão, pela imagem. Sócrates e o Armani, Passos Coelho e a voz de festival da canção. Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidaria, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles.

O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culfure em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o ‘mercado’, tal como o jornalista, sujeito ao raring das audiências e dos comentários online.

A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados? John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, “Invictus”, conta que Nelson Mandela e os homens do ANC, na prisão, discutiam acaloradamente, apaixonadamente, Shakespeare. Foram “Júlio César” ou “Macbeth”, “Hamlet” ou “Ricardo III” que os acompanharam. Não é um preciosismo. A literatura, o poder das palavras para descrever e incluir o mundo num sistema coerente de pensamento, é, como a filosofia e a história, tão importante como a física ou a álgebra. A grande mostra da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos é Shakespeare (no British Museum) e não um dono de supermercados ou futebolista.

Os ‘heróis’ portugueses descrevem-nos. E descrevem a nossa ignorância Passos Coelho é fotografado à entrada do La Féria ou do casino. Um dono de supermercados ou um esperto ministro reformado são os reservatórios do pensamento nacional. Uma artista plástica é incensada não pela obra mas pela capacidade de “agradar ao mercado”, transformando-se, pela manifesta ausência de candidatos, em artista oficial do regime. É assim.

Não teria de ser assim. Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura quase toda velha e sem sucessores. Não estamos sós. Por esse mundo fora, a arte tornou-se cópia e reprodução (daí a predominância dos grandes copiadores de coisas, os chineses), tornou-se matéria tornou-se consumo. Como bem disse Vargas Iiosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset.”

 

 

 

3 Comentários

Arquivado em Crônica

“Gerentona?” – Elio Gaspari

Texto publicado no jornal O Globo de 22 de julho de 2012 [via André Vallias]:

Quem está na frigideira com a greve de servidores é a doutora Dilma com seus ministros descoordenados

Não deu outra: o governo produziu um surto grevista no serviço público federal. Estão paradas há dois meses 56 universidades federais e há funcionários em greve em pelo menos 15 repartições de 26 Estados. Chegou-se a essa situação porque a doutora Dilma e seus comissários acharam que podiam enfrentar as reivindicações com onipotência e embromatina.

O surto começou em junho com a greve dos professores de universidades federais. Era uma paralisação parcial, e o governo disse que o problema deveria ser negociado no Ministério do Planejamento, onde a comissária Miriam Belchior informava que não trataria com grevistas. Era o modelo Scania. Em 1978, ele produziu um surto grevista no ABC de São Paulo e dele emergiu um sujeito chamado Lula.

Ao escolher esse caminho, a doutora Dilma cometeu uma imprudência semelhante à do industrial que, diante de uma greve, manda o assunto para uma discussão entre o sindicato e a diretoria financeira da empresa. De lá, só sai uma resposta: não há dinheiro.

A onipotência ruiu numa sexta 13, quando a comissária Belchior apresentou uma proposta aos grevistas. Em quase todos os casos, além de aumentos salariais, os servidores querem planos de carreira prometidos e jamais apresentados.

O comissariado do Planalto quer a coisa (acabar com a greve) e seu contrário (preservar a incolumidade política dos ministros cujas áreas são afetadas pelo movimento).

Aí entra a embromatina. O ministro da Educação sumiu. O da Saúde emudeceu, com servidores da Anvisa parados e com a Funasa parcialmente paralisada. O do Trabalho, não se sabe onde está. O comissário dos movimentos sociais, Gilberto Carvalho, passou por perto, afastou-se e reapareceu, falando em “equacionar as contas”, sem que se saiba o que isso quer dizer.

Com as greves espalhadas pelas agências reguladoras, pelo Incra, pelo IBGE e em pelo menos seis ministérios, somando algo entre 150 mil servidores, segundo o governo, e 500 mil, segundo os grevistas, o Planalto soltou o espantalho da crise econômica refletida no Pibinho.

É um truque velho, generaliza o problema com o propósito de não discutir a pauta específica. A crise europeia nada teve a ver com o engavetamento dos planos de carreira dos professores universitários brasileiros. Se um servidor do Judiciário está sem aumento há três anos ou espera pelo plano de carreira há outros tantos, essa argumentação chega a ser desrespeitosa. Ele pode até discordar da extensão das reivindicações do sindicato, mas não quer ser tratado como bobo.

Foi Miriam Belchior quem travou as negociações? Mercadante ficou longe? Padilha se manteve calado? Tudo isso é verdade, mas só aconteceu porque a gerentona Dilma Rousseff desenhou uma estratégia cataléptica que estimulou as greves e acrescentou um desnecessário elemento de tensão. Dificilmente Lula tomaria esse caminho, parecido com o dos generais ou com a severidade de Fernando Henrique Cardoso na greve dos petroleiros de 1995.

Na última opção preferencial pela embromatina, o Planalto ameaça cortar os salários dos grevistas. Nem Ronald Reagan, o exterminador de sindicatos, seria capaz de deixar 55 mil professores sem dois meses de salários. Se a ameaça fosse séria, teria eficácia em junho. É uma parolagem sempre repetida, jamais cumprida. Exatamente por isso as greves no serviço público são duradouras e no setor privado são breves.

 

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica