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O mundo sitiado. A poesia brasileira e a Segunda Guerra Mundial, de Murilo Marcondes de Moura

Extraído do site da Editora 34:
376 p. – 14 x 21 cm

ISBN 978-85-7326-619-1
2016 – 1ª edição
Edição conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Elaborado ao longo de muitos anos, num processo de múltiplas leituras e interrogações, O mundo sitiado: a poesia brasileira e a Segunda Guerra Mundial é um livro raro no panorama atual. Em primeiro lugar, pela amplitude de sua aposta crítica – flagrar a resposta dos poetas brasileiros ao acontecimento mais traumático do século XX – e, na sequência, pela fineza e eficácia com que Murilo Marcondes de Moura, professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, encadeia seus argumentos.
Após um capítulo inicial dedicado aos nexos entre a poesia de vanguarda e a Primeira Guerra Mundial, em que brilham as leituras de poemas de Guillaume Apollinaire, Wilfred Owen e Giuseppe Ungaretti escritos nas trincheiras, o autor passa a examinar as marcas do conflito de 1939-1945 na poesia de Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Cecília Meireles e Murilo Mendes. Nessa mudança de foco, a investigação crítica age como um poderoso prisma: parte do movimento intrínseco de suas respectivas obras para em seguida, ao situá-las diante do acontecimento histórico de escala mundial, acompanhar as refrações da guerra nos temas e na voz de cada escritor.
Livro que parece conter muitos livros dentro de si, O mundo sitiado, ao confrontar guerra e poesia, abre um campo praticamente inexplorado em nossos estudos literários – e ilumina de forma aguda e original as relações entre linguagem, história, mito e participação política num momento central do modernismo brasileiro.


Sobre o autor

Murilo Marcondes de Moura graduou-se em Linguística na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em 1982. Concluiu seu mestrado e doutorado na mesma universidade, respectivamente em 1991 e 1998, ambos nas áreas de Teoria Literária e Literatura Comparada. Foi docente de Literatura Comparada na Universidade Federal de Ouro Preto, entre 1992 e 1995, e docente de Literatura Brasileira na Universidade Federal de Minas Gerais, entre 1996 e 2003. Desde 2003, leciona Literatura Brasileira na FFLCH-USP. Em 2010, realizou pós-doutorado na França, tendo como objeto de estudo a poesia de Guillaume Apollinaire.
Como ensaísta, colaborou em diversos volumes de crítica literária, entre os quais se destacam os livros Leitura de poesia (Ática, 1996) e Literatura e guerra (UFMG, 2010), e a revista Cadernos de Literatura Brasileira – Carlos Drummond de Andrade (IMS, 2012), entre outras. Juntamente com Júlio Castañon Guimarães, organizou a Antologia poética de Murilo Mendes (Cosac Naify, 2014) e realizou o estabelecimento de texto para as obras do poeta lançadas por essa editora. Publicou o livro Murilo Mendes: a poesia como totalidade (Edusp/Giordano, 1995) a partir de sua dissertação de mestrado e, posteriormente, o volume Manuel Bandeira (Publifolha, 2001). Dedica-se sobretudo à literatura brasileira do século XX, área na qual tem orientado trabalhos de mestrado e doutorado desde o final dos anos 1990.

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Poesia brasileira na revista Jacket

A recomendação é de Angélica Freitas: Hilary Kaplan tem uma coluna sobre poesia brasileira na revista Jacket.

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“…certos poetas elegantes, apesar de gordos”

Na citadíssima e muito discutida crítica de Monteiro Lobato “A propósito da Exposição Malfatti”, publicada no Estado de S. Paulo 8 dias após a vernissage, há certas considerações que hoje seriam absolutamente condenáveis, como esta: “Na poesia também surgem, às vezes, furúnculos desta ordem [trata-se de “furúnculos da cultura”, conforme trecho anterior], provenientes da cegueira nata de certos poetas elegantes, apesar de gordos, e a justificativa é sempre a mesma: arte moderna.” O “poeta gordo”, conforme Mário da Silva Brito, é uma alusão a Oswald de Andrade.

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A geração que esbanjou os poetas

Há muito não lia textos de Roman Jakobson. Durante a graduação em Letras, era um autor muito em foco nos cursos de Teoria da Literatura. Seu livro Linguística e comunicação era leitura obrigatória. Quase todos os alunos traziam consigo, em algum momento da graduação, essa famosa edição, publicada sob a chancela da Cultrix – editora, por sinal, também indispensável nos anos 1990. Agora, com A geração que esbanjou seus poetas, lançado em 2006 pela Cosac & Naify, com tradução e posfácio de Sonia Regina Martins Gonçalves, volto a sentir a inteligência e sensibilidade de Jakobson e lamento ter ficado tanto tempo longe de seus textos. Se não bastasse sua leitura aguda dos poemas de Maikóvski, existem ainda as lembranças do próprio Jakobson, que conviveu com o poeta. Há análises como esta: “Maiakóvski podia, abstratamente, levar em consideração a missão criadora ‘dos bebês do coletivo’ em sua luta interminável contra o velho, mas ele mesmo estremecia quando entrava correndo na sala uma criança de carne e osso. Maiakóvski não reconhece na criança concreta o seu próprio mito do futuro. Para ele, não passa de um novo filhote multifacetado do inimigo.” (p. 34). É bonito sobretudo ler as páginas em que Jakobson analisa a ideia de Maiakóvski de que os poetas são aqueles que adiantam e apressam o tempo. Os poetas são os fortes, que “se adiantam a ponto de puxar o tempo que ultrapassaram”.

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Polêmica sobre o barroco ficou datada e vã

Após mais de duas décadas fora de catálogo, o livro O sequestro do barroco na Formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Matos, de Haroldo de Campos, recebeu nova edição, agora pela Iluminuras. Alcir Pécora, crítico e professor da Unicamp, resenhou o livro de Haroldo para o caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo. Para ele, tanto a orientação de Antonio Candido quanto a de Haroldo de Campos estão equivocadas. Conheça um pouco dessa polêmica:

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Acaba de ser reeditado um livro que, nos idos de 1989, foi um clímax da velha guerra entre “sociológicos” da USP e “formalistas” da PUC.
É “O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Mattos”, de Haroldo de Campos (1929-2003).
No texto, Haroldo critica a exclusão de Gregório de Mattos -e do Barroco como um todo- do processo de constituição do “sistema literário nacional”, tal como postulado pela “Formação da Literatura Brasileira” (1959), de Antonio Candido.
O núcleo da crítica incide sobre o que considera o “modelo semiológico” estreito e a “perspectiva histórica linear” da “Formação”.
Em relação ao primeiro ponto, Haroldo observa que o esquema autor-obra-público de Candido privilegia a função “emotiva” dos textos, tendo em vista o célebre esquema de Roman Jakobson.
Ou seja, Candido valorizaria os termos comunicativos e expressivos das obras, quando o “sujeito lírico” manifesta a sua individualidade ou representa certa faceta da realidade vivida. O resultado é um cânone nacional “romântico imbuído de aspirações classicizantes”.
Sobre o segundo aspecto, Haroldo observa que a perspectiva histórica da “Formação” é linear, integrativa e teleológica, pois postula uma origem “simples”, datada “convencionalmente” (1750), que se torna complexa até atingir o ponto pleno.
Tal é o momento em que o espírito da literatura nacional se conhece a si mesmo, como história consciente, dotada de autonomia e continuidade de tradição.
Para Haroldo, a origem da literatura brasileira não é simples, mas “vertiginosa”. Com Gregório e o barroco, “já “nasceu” adulta, formada, no plano dos valores estéticos, falando o código mais elaborado da época”.
Propõe então uma história “constelar”, “inconclusa”, com destaques para seus “momentos de ruptura e transgressão”, e não de continuidade e formação.
Poderiam então ser sincronizados, no eixo do barroco, autores como Gregório, Euclydes, Cabral, Rosa, e naturalmente a vanguarda concretista, além de artistas como Glauber e Caetano.

ESCOLHA DIFÍCIL
Tudo certo, não fosse contradição (num texto que critica o romantismo nacionalista de Candido): a reinvidicação do barroco como “nosso” e de Gregório como precursor da “comicidade “malandra” em nossa literatura” ou como “primeiro antropófago experimental da nossa poesia”.
Entre excluir o barroco do estudo sob a alegação de estar ausente da formação nacional, e incluí-lo, como antecipação do nacional, qual é pior? Difícil e vã escolha.
Irônico é que, após descontruir a “Formação”, o Gregório “original e revolucionário” de Haroldo é, por assim dizer, pego no contrapé por um autor que nada tinha a ver com o “culto reverencial” a Candido.
Em “A Sátira e o Engenho”, também de 1989, João Adolfo Hansen contestou o sentido “carnavalizante” da sátira de Gregório, mostrando o fundo conservador de suas tópicas, no que foi seguido também por Alfredo Bosi, em ensaio de 1992.
Hansen mostrou ainda que os poemas de Gregório eram atribuições apócrifas, de modo que o seu nome deveria ser entendido mais como uma “etiqueta” de autoridade associada ao gênero da sátira do que como uma autoria original e única.
Tais pontos, é forçoso admitir, lançaram um “coup de vieux” no debate anterior, de modo que, ao contrário do que diz Affonso Ávila, em seu prefácio à nova edição, todo o assunto, hoje, tem de ser reavaliado em bases tão diversas do “Sequestro” como da “Formação”.

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária na Unicamp


O SEQUESTRO DO BARROCO NA FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILIERA
AUTOR Haroldo de Campos
EDITORA Iluminuras
QUANTO R$ 35 (128 págs.)
AVALIAÇÃO bom

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O índio antes do indianismo

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Coetzee, a arte de resumir

Extraído do blog de Daniel Piza:

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, consagrado autor de romances como Desonra, tem todas as características do bom resenhista. Lê com a maior atenção, descreve fielmente características e enredos, contextualiza o livro na obra, no lugar e na época do autor, não faz prejulgamento de forma ou ideologia e, mais importante, diz claramente o que admira e não admira. Como tem vasta leitura, é poliglota e um hábil ficcionista, percebe e resume nitidamente os Mecanismos Internos de cada narrativa – para usar o título de sua coletânea recém-lançada no Brasil. São 21 “ensaios sobre literatura”, dos quais 16 apareceram originalmente na New York Review of Books, mais prestigiosa publicação sobre livros dos EUA.

O que chama a atenção é a presença de autores europeus da primeira metade do século 20, quase todos com um senso de decadência muito acentuado: do italiano Italo Svevo ao irlandês Samuel Beckett, do polonês Bruno Schulz ao húngaro Sándor Márai, passando pelos alemães Walter Benjamin (e sua crítica aos “adoradores enfeitiçados” das modas) e Paul Celan (cujas traduções para o inglês examina em detalhes). E é em alguns desses textos que Coetzee atinge os melhores momentos, como ao lembrar que a vocação de Robert Walser está nas formas breves ou comparar Robert Musil e Freud (“Não gostava da moda da psicanálise, reprovava sua reivindicação de ampla abrangência”).

O gosto por esse modernismo algo melancólico não o impede, por exemplo, de lembrar que Schulz não é um Kafka e que na ficção de Márai falta desenvolvimento das personagens. Tampouco o impede de dedicar alguns bons textos à literatura americana: Walt Whitman, William Faulkner, Saul Bellow, Arthur Miller e, sobretudo, Philip Roth – em cujos romances, como O Teatro de Sabbath, destaca uma “eloquência desesperada” e um “humor aguçado” que se aproximam de Shakespeare. Coetzee ainda comenta livros da conterrânea Nadine Gordimer, de quem nunca foi entusiasta, e de García Márquez, elogiando em Memórias de Minhas Putas Tristes a estratégia com que aborda o desejo pedófilo de um velho.

Apesar de tantas observações pertinentes, o mecanismo interno das resenhas de Coetzee se articula como um resumo comentado – com muita propriedade, mas sem muita novidade. Elas não fazem voos críticos que lancem luz sobre autores tão conhecidos; funcionam muito bem como introduções às obras, não mais que isso. Mas de quantos resenhistas atuais se pode dizer o mesmo?

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