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“Direita, volver” – Bernardo Mello Franco

Extraído da Folha de S. Paulo:

BRASÍLIA – A posse de Michel Temer deve marcar a mais brusca guinada ideológica na Presidência da República desde que o marechal Castello Branco vestiu a faixa, em abril de 1964. Após 13 anos de governos reformistas do PT, o país passa ao comando de uma aliança com discurso liberal na economia e conservador em todo o resto. O eleitor não foi consultado sobre as mudanças.

O cavalo de pau fica claro na escalação do ministério, que sugere desprezo à representação política das minorias. Ao substituir a primeira presidente mulher, Temer montou uma equipe só de homens, o que não acontecia desde a era Geisel. Os negros também foram barrados na Esplanada.

O Ministério da Educação foi entregue ao DEM, partido que entrou no Supremo contra as ações afirmativas. A pasta do Desenvolvimento Social, responsável pelo Bolsa Família, acabou nas mãos de um deputado do PMDB que já se referiu ao benefício como uma “coleira política”.

Para a Justiça, Temer escolheu o secretário de Segurança de São Paulo. Ele assume com explicações a dar sobre violência policial e maquiagem de estatísticas de criminalidade.

A fauna do Planalto também mudou radicalmente em poucas horas. Além dos políticos que restaram ao seu lado, Dilma Rousseff se despediu cercada por gente de esquerda, como sindicalistas, ex-presos políticos e militantes de movimentos sociais.

A chegada de Temer encheu o palácio de representantes da direita brucutu do Congresso, como os deputados Alberto Fraga e Laerte Bessa, da bancada da bala, e o ruralista Luis Carlos Heinze, que já se referiu a quilombolas, índios e homossexuais como “tudo que não presta”.

Depois do pronunciamento de estreia, o presidente interino se reuniu a portas fechadas com líderes religiosos e parlamentares evangélicos. Estavam presentes os pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano, que defendem ideias como o projeto da “cura gay”. Eles voltaram para casa entusiasmados com o novo regime.

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“Nós acusamos” – Vladimir Safatle

Coluna de Vladimir Safatle de 13 de maio de 2016, no jornal A Folha de S. Paulo:

Diante da gravidade da situação nacional e da miséria das alternativas que se apresentam:

Nós acusamos o governo interino que agora se inicia de já nascer morto. Nunca na história da República brasileira um governo começou com tanta ilegitimidade e contestação popular. Se, diante de Collor, o procedimento de impeachment foi um momento de reunificação nacional contra um presidente rejeitado por todos, diante do governo Dilma o impeachment foi o momento em que tivemos de construir um muro para separar a Esplanada dos Ministérios em dois.

Esse muro não cairá, ele se aprofundará cada vez mais. Aqueles que apoiaram Dilma e aqueles que, mesmo não a apoiando compreenderam muito bem o oportunismo de uma classe política à procura de instrumentalizar a revolta popular contra a corrupção para sua própria sobrevivência, não voltarão para casa. Esse será o governo da crise permanente.

Nós acusamos os representantes desse governo interino de serem personagens de outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução para a crise política, mas a própria crise política no poder. Suas práticas políticas oligárquicas e palacianas só poderiam redundar em um golpe parlamentar denunciado no mundo inteiro.

Por isso, eles temem toda possibilidade de eleições gerais. Eles governarão com a violência policial em uma mão e com a cartilha fracassada das políticas de “austeridade” na outra. Políticas que nunca seriam referendadas em uma eleição. Com tais personagens no poder, não há mais razão alguma para chamar o que temos em nosso país de “democracia”.

Nós acusamos o governo Dilma de ter colocado o Brasil na maior crise política de sua história. A sequência de escândalos de corrupção não foi uma invenção da imprensa, mas uma prática normal de governo.

De nada adianta dizer que essa prática sempre foi normal, pois a própria existência da esquerda brasileira esteve vinculada à possibilidade de expulsar os interesses privados da esfera do bem comum, moralizando as instituições públicas.

Que os setores da esquerda brasileira no governo façam sua autocrítica implacável. Por outro lado, a procura pela criação de uma conciliação impossível apenas levou o governo a se descaracterizar por completo, a abraçar o que ele agora denuncia, distanciando-se de seus próprios eleitores. O caráter errático deste governo foi a mão que cavou sua própria sepultura. Que esta errância sirva de lição à esquerda como um todo.

Nós acusamos aqueles que nunca quiseram encarar o dever de acertar contas com o passado ditatorial brasileiro e afastar da vida pública os que apoiaram a ditadura como responsáveis diretos pela instauração desta crise. A crise atual é a prova maior do fracasso da Nova República.

Que um candidato fascista (e aqui o termo é completamente adequado) como Jair Bolsonaro tenha hoje 20% das intenções de voto entre os eleitores com renda acima de dez salários mínimos mostra quão ilusória foi nossa “conciliação nacional” pós-ditadura. O fato de nossas cadeias não abrigarem nenhum torturador deveria servir de claro sinal de alerta.

Tal fato serviu apenas para preservar os setores da população que agora abraçam um fascista caricato e saem às ruas com palavras de ordem dignas da Guerra Fria. Por isso, a cada dia que passa, percebe-se como este setor da população se julga autorizado a cometer novas violências de toda ordem. Isso está apenas começando.

Nós acusamos setores hegemônicos da imprensa de regredirem a um estágio de parcialidade há muito não visto no país. Diante de uma situação de divisão nacional, não cabe à imprensa incitar manifestações de um lado e esconder as manifestações de outro, transformar-se em tribunal midiático e parcial, julgando, destruindo moralmente alguns acusados e preservando outros, deixando mesmo de se interessar por vários escândalos quando esses não atingem diretamente o governo.

Essa postura apenas servirá para explodir ainda mais os antagonismos e para reduzir a imprensa à condição de partido político.

Nesse momento em que alguns inclinam-se à uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força.

Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que esse país viveu nos últimos tempos, que se lembre de que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá. Esse não é o país de Temer, Bolsonaro, Cunha, Renan, Malafaia, Alckmin.

Esse é o país de Zumbi, Prestes, Pagu, Lamarca, Francisco Julião, Darcy Ribeiro, Celso Furtado e, principalmente, nosso. Há um corpo político novo que emergirá quando a oligarquia e sua claque menos esperar.

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“O suicídio da Lava Jato” – Vladimir Safatle

Coluna de Vladimir Safatle publicada no dia 18 de março de 2016 na Folha de S. Paulo. Até o momento, parece a análise mais precisa e menos polarizada já feita sobre o atual contexto político brasileiro:

O juiz Sergio Moro conseguiu o inacreditável: tornar-se tão indefensável quanto aqueles que ele procura julgar. Contrariamente ao que muito defenderam nos últimos dias, suas últimas ações são simplesmente uma afronta a qualquer ideia mínima de Estado democrático. Não se luta contra bandidos utilizando atos de banditismo.

A divulgação das conversas de Lula com seu advogado constitui uma quebra de sigilo e um crime grave em qualquer parte do mundo. Não há absolutamente nada que justifique o desrespeito à inviolabilidade da comunicação entre cliente e advogado, independente de quem seja o cliente. Ainda mais absurdo é a divulgação de um grampo envolvendo a presidente da República por um juiz de primeira instância tendo em vista simplesmente o acirramento de uma crise política.

Alguns acham que os fins justificam os meios. No entanto, há de se lembrar que quem se serve de meios espúrios destrói a correção dos fins.

Pois deveríamos começar por nos perguntar que país será este no qual um juiz de primeira instância acredita ter o direito de divulgar à imprensa nacional a gravação de uma conversa da presidente da República na qual, é sempre bom lembrar, não há nada que possa ser considerado ilegal ou criminoso.

Afinal, o argumento de obstrução de Justiça não para em pé. Dilma tem o direito de nomear quem quiser e Lula não é réu em processo algum. Se as provas contra ele se mostrarem substanciais, Lula será julgado pelo mesmo tribunal que colocou vários membros de seu partido, de maneira merecida, na cadeia, como foi no caso do mensalão.

Lembremos que “obstrução de Justiça” é uma situação na qual o indivíduo, de má-fé e intencionalmente, coloca obstáculos à ação da Justiça para inibir o cumprimento de uma ordem judicial ou diligência policial. Nomear alguém ministro, levando-o a ser julgado pelo STF, só pode ser “obstrução” se entendermos que o Supremo Tribunal não faz parte da “Justiça”.

A fragilidade do argumento é patente, assim como é frágil a intenção de usar um grampo ilegal cuja interpretação fornecida pelo sr. Moro é, no mínimo, passível de questionamento.

Na verdade, há muitas pessoas no país que temem que o sr. Moro tenha deixado sua função de juiz responsável pela condução de processo sobre as relações incestuosas entre a classe política e as mega construtoras para se tornar um mero incitador da derrubada de um governo.

A Operação Lava Jato já tinha sido criticada não por aqueles que temiam sua extensão, mas por aqueles que queriam vê-la ir mais longe. Há tempos, ela mais parece uma operação mãos limpas maneta.

Mesmo com denúncias se avolumando, uma parte da classe política até agora sempre passa ilesa. Não há “vazamentos” contra a oposição, embora todos soubessem de nomes e esquemas ligados ao governo FHC e a seu partido. Só agora eles começaram a aparecer, como Aécio Neves e Pedro Malan.

Reitero o que escrevi nesta mesma coluna, na semana passada: não devemos ter solidariedade alguma com um governo envolvido até o pescoço em casos de corrupção. Mas não se trata aqui de solidariedade a governos. Trata-se de recusar naturalizar práticas espúrias, que não seriam aceitas em nenhum Estado minimamente democrático.

Não quero viver em um país que permite a um juiz se sentir autorizado a desrespeitar os direitos elementares de seus cidadãos por ter sido incitado por um circo midiático composto de revistas e jornais que apoiaram, até o fim, ditaduras e por canais de televisão que pagaram salários fictícios para ex-amantes de presidentes da República a fim de protegê-los de escândalos.

O Ministério Público ganhou independência em relação ao poder executivo e legislativo, mas parece que ganhou também uma dependência viciosa em relação aos humores peculiares e à moralidade seletiva de setores hegemônicos da imprensa.

Passam-se os dias e fica cada dia mais claro que a comoção criada pela Lava Jato tem como alvo único o governo federal.

Por isso, é muito provável que, derrubado o governo e posto Lula na cadeia, a Lava Jato sumirá paulatinamente do noticiário, a imprensa será só sorrisos para os dias vindouros, o dólar cairá, a bolsa subirá e voltarão ao comando os mesmos corruptos de sempre, já que eles foram poupados de maneira sistemática durante toda a fase quente da operação.

O que poderia ter sido a exposição de como a democracia brasileira só funcionou até agora sob corrupção, precisando ser radicalmente mudada, terá sido apenas uma farsa grotesca.

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Resenha sobre “Rabo de baleia”, de Alice Sant’Anna

Resenha sobre Rabo de baleia, de Alice Sant’Anna, que publiquei na revista portuguesa Ler de junho de 2013:

OS DIAS AGITADOS

            Quando publicou seu livro de estreia, Dobradura (7Letras), em 2008, a designação jovem poeta cabia muito bem a Alice Sant’Anna, nascida no Rio de Janeiro, em 1988. Afinal, trata-se de uma obra onde a inocência pueril se revela como uma de suas principais características. Desponta assim um frescor inquestionável, o que é uma de suas qualidades, embora também se apresentem alguns conflitos encapsulados.

            Contudo, por meio do recém-lançado Rabo de baleia (Cosac & Naify), a perspectiva do sujeito torna-se mais madura – mais sofrida, consequentemente – e seus poemas excluem quase de todo a docilidade predominante nos versos de estreia. Agora, encontra-se uma poética muitas vezes até mesmo violenta, refletindo de maneira contundente o desconcerto das relações do sujeito com o mundo e com o outro. Diante disso, a classificação jovem poeta não é mais conveniente: Alice Sant’Anna, em seu novo título, mostra-se uma poeta madura e consolida-se como uma das principais autoras de sua geração.

            As diferenças entre Rabo de baleia e Dobradura já podem ser observadas no corte do verso e na estrutura sintática das frases. No livro recém-lançado, os períodos foram construídos com imensa economia de pontuação, o que em diversos momentos concede mobilidade de leitura: há sequências de versos que podem ser lidas ao menos de duas maneiras. Porém, tais características de composição dos poemas – antes de tornarem-nos mais fluidos – conduz o leitor à percepção de diversas fraturas textuais e sugerem um universo pessoal desconcertado e tortuoso. Nesse sentido, versos fragmentados auxiliam na configuração desse cenário. Mesmo recorrendo à fantasia para escapar da rotina esmagadora, o sujeito não encontra na válvula de escape uma fuga plena em torno “da exaustão dos dias/ o corpo que chega exausto em casa/ com a mão esticada em busca/ de um copo d’água/ a urgência de seguir para um terça/ ou quarta boia, e a vontade/ é de abraçar um enorme/ rabo de baleia seguir com ela” (p. 7). A necessidade de outras boias mostra ao leitor a insuficiência da fuga como via de dissolvição do “tédio pavoroso” (p. 7).

            Em Rabo de baleia, é notável a investigação acerca das fraturas e a posterior constatação da fragilidade das coisas: “dente que bate na louça e trinca/ a língua apalpa por detrás/ procurando indício de rachadura/ na porcelana/ desliza na borda da gengiva/ o chá ainda quente na boca/ incisivos erguidos como prédios/ mas frágeis feito xícara/ casca de ovo/ a asa não se firma entre os dedos/ quer escorregar e se colar à sombra” (p. 36). Geralmente associado ao conforto, a hora do chá torna-se um momento do despontar da aflição e da angústia, sentimentos que recuperam o medo da sombra que havia em sua infância: “quando criança chorava ao ver a sombra/ jurava que era alguém insistente/ que apareceu sem ser convidado” (p. 36). O simples chá torna-se, portanto, um momento de investigação do humano, escapando, no entanto, do caráter confessional típico da lírica: a investigação se desenvolve da louça trincada à sombra, da concretude à abstração. O paralelismo entre os dois momentos – da adulta com a língua sobre a rachadura e da criança observando a sombra – firma uma carga dramática intensa no poema, mas ao mesmo tempo o objetiva parcialmente. É a partir da porcelana trincada que o temor emerge: o elemento externo, a xícara, estimula o tom memorialístico, remetendo-nos ao movimento dos fragmentos da madaleine no chá de tília proustiano. A imagem de Alice Sant’Anna, contudo, é mais antilírica.

            Além dessas questões, há sintomas evidentes de melancolia, como em “Winnipeg, mon amour” (“não acordo nunca/ desse mesmo sono […]”, p. 17), ou de um sentimento indefinido entre a exaustão – um traço recorrente no livro – e o desejo (“não é bem vontade o que tenho/ mas tampouco é falta de vontade”, p. 45). Há também nessa suspensão da dúvida alguma marca melancólica, algum indício de desgaste frente à incerteza. E dessa indefinição, dessa incerteza instabilizadora, nascem muitos fantasmas que nem mesmo um rabo de baleia é capaz de afastar.

 

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A antologia “Poesia.br”

Transcrevo resenha sobre Poesia.br (organização de Sergio Cohn) publicada originalmente em minha coluna da revista Ler de maio de 2013:

A editora Azougue lançou, sob organização de Sergio Cohn, a antologia Poesia.br, que reúne dez volumes acondicionados em uma caixa. Em ordem cronológica, eles reúnem dos cantos ameríndios à poesia contemporânea. Cada volume se inicia com uma apresentação do organizador; no primeiro livro, há também considerações acerca do projeto, onde esclarece sua gênese.

O projeto original foi desenvolvido por iniciativa da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, em 2010, durante o governo do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Havia a proposta de criação de um portal na internet, com poemas de autores brasileiros. Seu lançamento seria “acompanhado de eventos presenciais, debates e entrevistas com poetas contemporâneos de diversas regiões do país”. “Contudo”, afirma o organizador, “as mudanças da política cultural ocorridas com a troca ministerial do novo governo [da presidente Dilma Rousseff] levaram ao cancelamento do projeto, datado de 17 de janeiro de 2012, sem que este tenha se efetivado ou algum desembolso financeiro ocorrido”.

Como o cancelamento foi legitimado após a realização da pesquisa e da conquista de direitos de publicação de muitos poemas, Sergio Cohn decidiu publicar a antologia em forma de livro, “por conta própria”. A seleção dos poemas se deu pela “representatividade” de seus autores e, conforme o organizador, “como é de se esperar numa antologia”, na seleção “se traduz um olhar pessoal”.

Trata-se sem qualquer dúvida da antologia da poesia brasileira de maior alcance diacrônico já publicada, além de reservar aos seus leitores o panorama de alguns períodos até então pouco examinados, como os cantos ameríndios e a poesia dos anos 1980, que trazem boas surpresas.

Esta antologia só não apresenta um panorama mais completo da poesia brasileira porque algumas autorizações de reprodução de poemas não foram conquistadas. É um motivo que tem levado regularmente as antologias a apresentar significativas lacunas. Em Portugal, Seria uma rima, não seria uma solução: poesia modernista, organizada por Abel Barros Baptista e Osvaldo Silvestre, sofreu do mesmo mal, o que, no seu prefácio, foi discutido com propriedade pelos organizadores.

No volume da Azougue sobre o modernismo, para suprir a falta de alguns autores importantes, Sergio Cohn se valeu muito bem da apresentação para fazer considerações sobre suas obras, aproveitando o espaço para citar poemas, o que é permitido pela Constituição brasileira. Encontram-se nessa situação Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Raul Bopp, Cecília Meireles, entre outros.

A qualidade das apresentações varia, conforme o volume e seu período histórico. No caso da poesia colonial, há imensa simplificação; muitas tensões da literatura dessa época não são nem mesmo referidas. Exemplo notável disso é a consideração de que a poesia de Cláudio Manuel da Costa é de “alto teor bucólico, sendo alguns de grande beleza”. Sabemos por diversos estudos, como a Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, ou Destes penhascos, de Sérgio Alcides, que sua poesia está marcada por intenso dilaceramento do sujeito e pela natureza em processo de devastação decorrente da extração do ouro. Já na apresentação sobre o modernismo, as análises revelam maior domínio do organizador, apesar de alguns equívocos de ordem histórica, como a data da realização da Semana de Arte Moderna de 1922; há também citações errôneas, como a de “Poética”, de Manuel Bandeira, desestrurando o uso hábil do verso livre.

Outro problema da antologia pode ser aqui apontado – e um problema grave em se tratando da possiblidade de ela ser adota no ensino de todos os níveis: a falta de bibliografia indicando de onde os poemas foram reproduzidos, de modo que não há qualquer garantia da qualidade das edições adotadas para a fixação dos textos.

Avaliando a antologia num todo, ela é importantíssima para um reconhecimento panorâmico da poesia brasileira sob perspectiva diacrônica e permite aos leitores examinar suas transformações. Como toda antologia, também pode dar aos leitores a oportunidade de conhecer alguns poetas de menor circulação, como Solano Trindade. Contudo, a edição revela alguns problemas relevantes, que devem pôr os estudiosos em alerta. Caso seja adotada para qualquer nível do ensino, é recomendável checar dados, conferir a fidedignidade da reprodução dos poemas e buscar maiores informações sobre os autores selecionados em outras fontes mais especializadas. Além disso, para alguém interessado em fazer um trabalho hercúleo dessa natureza (uma antologia das origens ao contemporâneo), seria interessante a inclusão de alguns cordelistas, cuja literatura é muito representativa sobretudo da cultura nordestina.

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“A privataria arruina a Biblioteca Nacional”, de Elio Gaspari

A foto (extraída d'O Globo) é de um funcionário da BN secando páginas de periódicos molhadas durante o vazamento de água do ar-condicionado central

A foto (extraída d’O Globo) é de um funcionário da BN secando páginas de periódicos molhadas durante o vazamento de água do ar-condicionado central

De total acordo com Elio Gaspari, em sua coluna de 2 de setembro, no jornal Folha de S. Paulo. Qualquer consulta a sites de diversas bibliotecas públicas de países latino-americanos, como Argentina e Chile, ou de países europeus, como França e Portugal, comprova o quanto a Fundação Biblioteca Nacional está atrasada, fora os problemas frequentes de alagamento, perda de acervo, entre outros. Ao mesmo tempo, a Biblioteca Nacional preocupa-se com uma série de questões que não são do seu calibre.

Segue a reprodução de parte da coluna:

Biblioteca, como diz o nome, é um lugar onde se guardam livros catalogados, acessíveis ao público.

No caso da Biblioteca Nacional, um transeunte que entra no prédio para sapear o catálogo precisa deixar até os cadernos na portaria. Caneta não entra, só lápis preto.

Se alguém for à página da BN na internet, terá à mão um catálogo de 576 mil obras, apesar de o acervo ser de pelo menos 2 milhões.

Mais, nas palavras do seu Relatório de Gestão: “Para evitar sobrecarga (da rede elétrica), não é permitido aos leitores utilizar carregadores para equipamentos como computadores, gravadores e assemelhados”.

Neste ano, em duas ocasiões, vazamentos do sistema de ar refrigerado inundaram áreas em vários andares, formando poças com até 10 centímetros de profundidade.

Há estantes que dão choque, sua fachada centenária solta pedaços e tapumes protegem os pedestres.

Funcionários da instituição fizeram uma manifestação na sua escadaria celebrando “o aniversário das baratas que infestam o prédio, com destaque para seu ‘berçário’, no quinto andar; das pragas que gostam muito de papel; brocas, traças e cupins” bem como “dos ratos do primeiro andar”.

Nesse cenário de real ruína, ressurge a cantilena: faltam recursos. Coisa nenhuma. O governo da doutora Dilma e a administração do companheiro Galeno Amorim, atual diretor da BN, botam dinheiro da Viúva em coisas que nada têm a ver com a tarefa de guardar, catalogar e tornar acessíveis os livros.

Em 2011, o Orçamento deu à BN R$ 30,1 milhões para gastos sem relação com pessoal e encargos. De outras fontes públicas, para diversas finalidades, recebeu mais R$ 63,4 milhões.

A digitalização dos sacrossantos Anais da BN parou em 1997, mas ela gastou alguns milhões em coedições, no patrocínio de traduções (inclusive para o croata) e na manutenção de um Circuito Nacional de Feiras do Livro. Colocou R$ 16,7 milhões num programa de compra e distribuição de livros populares, ao preço máximo de R$ 10 para distribuí-los pelo país afora. (Quem achou que por R$ 10 compram-se também estoques de livros encalhados ganha uma passagem de ida e volta a Paris.)

A criação de um polo de irradiação editorial pode ser uma boa ideia, mas essa não é a atribuição da Casa. Mercado de livros é coisa privada, biblioteca é coisa pública. Se ela não tivesse ratos no primeiro andar, baratas em todos, estantes que dão choque e um catálogo eletrônico mixuruca, poderia entrar no que quisesse, até mesmo na exploração do pré-sal.

Se Galeno Amorim pode revolucionar o mundo editorial brasileiro, a doutora Dilma deveria criar o Programa do Livro Companheiro, o Prolico. Nomeando-o para lá, deixaria a Biblioteca Nacional para quem pudesse cuidar dela.

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Coluna A voz do Brasil – Revista Ler – setembro de 2011

Reproduzo a coluna da revista Ler de setembro:

CLARICE NO EXTERIOR

Em 24 de outubro será lançado, em Nova York, pela New Directions, o primeiro título da reedição da obra de Clarice Lispector nos Estados Unidos da América: o romance A hora da estrela, com tradução de Benjamin Moser, biográfico da autora. Moser assina ainda a coordenação das reedições, que já conta com outros quatro livro em produção: Perto do coração selvagem, A paixão segundo G. H., Água viva e Um sopro de vida. A notícia foi dada por Josélia Aguiar, do jornal A Folha de S. Paulo.

REPORTAGEM NO MUSEU

A editora Língua Geral acaba de lançar Tahrir: os dias da revolução no Egito, da jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho. Segundo José Eduardo Agualusa, “Este é um livro que orgulha qualquer editora”. O livro foi publicado na coleção Museu de Tudo, até então dedicada apenas a antologia de contos, crônicas, letras de música e poemas. O acréscimo torna a coleção ainda mais interessante e diversa.

A NOVA POESIA

A revista Poesia Sempre, um dos periódicos brasileiros que já fez história, está com um novo editor e uma nova proposta editorial. Afonso Henriques Neto substitui o acadêmico Marco Lucchesi. Especializada na tradução de poesia, já tendo divulgado a literatura muitos países, agora a revista vai publicar somente os brasileiros. “Não só a velha e boa poesia existente, como a nova, movida em grande parte pelas novas tecnologias digitais, especialmente nos blogs, mas também nas redes sociais”, afirmou Aníbal Bragança.

A GLOBO E O RIGOR

A Companhia das Letras vem reeditando a obra de Erico Verissimo, autor da notável série de romances O tempo e o vento. Além de escritor, Verissimo destacou-se pela sua atividade editorial, quando esteve ao lado da família Bertaso, em Porto Alegre, na editora Globo. Em torno dessa história escreveu Um certo Henrique Bertaso (102 p.), relançado em julho deste ano. O livro ainda nos traz, na metade dessa narrativa deliciosa, um caderno de 16 páginas com rica iconografia.

Tudo começou com a Livraria do Globo, na rua da Praia, onde Henrique Bertaso, em 1922, então com 15 anos, foi levado por seu pai a trabalhar como “caixeiro”. O velho Bertaso queria ocupar um de seus filhos, Henrique, pois ele estava se tornando uma “pequena peste doméstica, com tempo demais a pesar-lhe nas mãos e no crânio”. Em pouco tempo Henrique seria o melhor “caixeiro” da Casa, socorrendo inclusive os colegas mais experientes.

A Livraria do Globo, assim como a José Olympio, no Rio de Janeiro, reunia os principais escritores, intelectuais e políticos locais, grupo de que faria parte, anos depois, o nosso Erico Verissimo, recém-mudado de Cruz Alta, interior do Rio Grande do Sul, para a capital do estado. Fase dura, em que Verissimo batia de porta em porta atrás de emprego, sem conquistar qualquer posição. O dinheiro que juntara em Cruz Alta, quando balconista de farmácia, ia se esgotando.

Uma tarde, à porta da livraria, Verissimo encontrou Mansueto Bernardi, então diretor da Revista do Globo, que estava se mudando para o Rio de Janeiro, onde seria diretor da Casa da Moeda. Bernardi lhe disse: “– Você escreve, traduz, desenha… Seria o homem ideal para tomar conta da Revista do Globo no futuro.” “– Por que no futuro – repliquei –, se estou precisando dum emprego agora?”, disse ousadamente, pois não conhecia nada de “cozinha” de revista. O emprego era de Erico Verissimo.

Aos poucos, Henrique Bertaso e Erico Verissimo começaram a fazer da livraria uma editora, a editora Globo, responsável por lançar alguns dos mais importantes clássicos da literatura universal, como Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust; A montanha mágica e Os Bruddenbrooks, de Thomas Mann; Lord Jim, de Joseph Conrad; As vinhas da ira, de John Steinbeck; Orlando e Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, entre muitos outros monumentos da ficção. O mais incrível nessa história é o método de tradução desenvolvido por Erico Verissimo, hoje impensável para qualquer editor: havia uma biblioteca da editora, com dicionários e enciclopédias, onde tradutores passavam seus dias. Quando concluída a tradução, as provas eram enviadas a um revisor, que cotejava o texto em português com o de língua estrangeira e fazia as correções necessárias. Em seguida, a tradução era discutida entre o tradutor e um especialista da obra.

Sim, a editora Globo continua com muitos de seus livros, agora já empoeirados, nas estantes das melhores bibliotecas privadas e públicas, bem como nas melhores lojas de livros de segunda mão. Algumas tradução foram compradas por novas editoras e também continuam sendo procuradas pelos leitores mais rigorosos. 

LANÇAMENTOS

O índio antes do indianismo, de Alcmeno Bastos. Rio de Janeiro: 7Letras, 136 p.

Análise da presença do índio na literatura brasileira que antecede o romantismo, que valorizou intencionalmente a figura do autóctone como símbolo de brasilidade. Professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o autor analisa os autos de José de Anchieta; Prosopopeia (1601), de Bento Teixeira; a poesia de Gregório de Matos; O Uraguai (1769), de Basílio da Gama; e Caramuru (1781), de Santa Rita Durão.

A lua no cinema e outros poemas, organização de Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 144 p.

Esta antologia reúne alguns temas e autores fundamentais da lírica de língua portuguesa, como o amor, a natureza e a passagem do tempo. Entre outros, encontram-se poemas de Alexandre O’Neill, Antonio Cicero, Camilo Pessanha, Carlos Drummond de Andrade, Fiama Hasse Paes Brandão, Gastão Cruz, José Paulo Paes e Murilo Mendes.

O esquizoide. Coração na boca, de Rodrigo de Souza Leão. Rio de Janeiro: Record, 80 p.

Livro inédito que reúne discurso biográfico e ficcional. Trata-se de um relato sobre a vida de um escritor esquizofrênico, que busca romper com os preconceitos em torno desse distúrbio psiquiátrico.

CUIDADO, AVALANCHE

Colunista do caderno Prosa & Verso do jornal O Globo, José Castello resenhou o primeiro livro de Ismar Tirelli Neto (1985), Synchronoscopio (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008), manifestando a dificuldade de ler um jovem poeta que, segundo o crítico, não revela qualquer diálogo com a tradição. Neste ano, Tirelli Neto publicou seu segundo livro, Ramerrão (Rio de Janeiro: 7Letras), que talvez lance ainda mais dificuldades à crítica. Não que falte tradição à esta obra: ao contrário, desde seu livro de estreia Ismar engendrou diálogos sofisticados com a tradição, que escapam, no entanto, dos jogos intertextuais mais previsíveis. O mesmo pode ser observado no livro de Victor Heringer (1988), Automatógrafo, outro título da excelente coleção da 7Letras.

Um dos aspectos que singulariza a novíssima geração, nascida nos anos 1980, é a tentativa de fugir da já consagrada poesia do menos, que segue os modelos de João Cabral de Melo Neto e dos concretistas. Ismar Tirelli Neto e Victor Heringer muitas vezes preferem desenvolver poemas com dimensão épica. Pensemos em microepopeias: não somente pelo número reduzido de versos, mas também por se tratar de um épico desenvolvido no espaço íntimo das pequenas superações cotidianas, não da tentativa de suportar um ataque inimigo, mas os dramas de cada dia. Isto fica evidente em “Suma”, de Tirelli Neto, e “Meridiano 43 w/e”, de Heringer, respectivamente: “Mestre, / eles me condenaram / à vida rarefeita. Estou / no gráfico sem crista, / imodulado: vox populi, / voz Dei. Minha mãe / secou & não posso mais / voltar. A que devo / voltar-me, então? / Quatro meses numa cela / estudando opções / de norte. Tirania / de objetos, imagens, / canções. Dores / constantes / na nuca & nos / quadris”; “Vá para o Leste, sangria desatada; / antes do Rio nos espera (longe carnaval) / nos cubos da noite c/ punhais d’inverno.”

O microépico é também invadido pelo drama, às vezes com um tom sentimental, como em “Segunda Guerra do Golfo”, de Victor, em que as imagens do conflito televisionado, hollywoodiano, parecem refletir-se na superfície do corpo do telespectador, até que chegam a regiões mais profundas. A imagem do golfo sai então da superfície e contamina o sujeito com nervosismo (“no estômago”) e angústia (“nos pulmões”): “É que / acordo com o golfo concavado nos olhos, / na testa, no ouvido, no estômago, nos pulmões.” Talvez Ismar possa dar o conselho a Victor: “Calma, /  desse jeito acaba tendo / uma avalanche.” Isto porque o microépico desses dois poetas revela marcas de estresse que se voltam contra o sujeito, mas que fraturam também a própria estrutura épica, investida do lirismo a problematizar os pequenos fatos da existência. No caso de Heringer, muitas vezes a fratura surge de um saudosismo intenso para alguém tão jovem.

AS ESTRELAS DA FLIP

            Nas nove edições da Festa Literária Internacional de Paraty, três escritores portugueses estiveram entre as suas principais atrações: António Lobo Antunes, em 2009, Inês Pedrosa, em 2010, e valter hugo mãe, neste ano. Seus títulos ainda ocuparam o cume da lista de vendas da Livraria da Vila, responsável oficial pela realização dos lançamentos das obras dos autores convidados para a festa literária mais charmosa e importante do Brasil. Em edições mais remotas, do espaço da lusofonia, Angola e Moçambique, foram os principais destaques da festa os autores José Eduardo Agualusa, em 2004, Ondjaki, em 2006, e Mia Couto, em 2007, que se consolidaram definitivamente por aqui.

            Intrigante, entretanto, é o fato de as vendas da Flip de autores portugueses não se estenderem a longo prazo a outras livrarias e regiões do país. Haveria um descrédito tamanho em torno da literatura portuguesa que apenas a fala é capaz de despertar algum interesse?

Talvez a fala desses autores portugueses esteja revelando um discurso emocionado e vibrante que os brasileiros não pressupõem, por associarem Portugal quase estritamente à melancolia. Talvez os brasileiros não pressupõem que o Brasil está muito mais ligado a Portugal do que parece, a distância.

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