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“Direita, volver” – Bernardo Mello Franco

Extraído da Folha de S. Paulo:

BRASÍLIA – A posse de Michel Temer deve marcar a mais brusca guinada ideológica na Presidência da República desde que o marechal Castello Branco vestiu a faixa, em abril de 1964. Após 13 anos de governos reformistas do PT, o país passa ao comando de uma aliança com discurso liberal na economia e conservador em todo o resto. O eleitor não foi consultado sobre as mudanças.

O cavalo de pau fica claro na escalação do ministério, que sugere desprezo à representação política das minorias. Ao substituir a primeira presidente mulher, Temer montou uma equipe só de homens, o que não acontecia desde a era Geisel. Os negros também foram barrados na Esplanada.

O Ministério da Educação foi entregue ao DEM, partido que entrou no Supremo contra as ações afirmativas. A pasta do Desenvolvimento Social, responsável pelo Bolsa Família, acabou nas mãos de um deputado do PMDB que já se referiu ao benefício como uma “coleira política”.

Para a Justiça, Temer escolheu o secretário de Segurança de São Paulo. Ele assume com explicações a dar sobre violência policial e maquiagem de estatísticas de criminalidade.

A fauna do Planalto também mudou radicalmente em poucas horas. Além dos políticos que restaram ao seu lado, Dilma Rousseff se despediu cercada por gente de esquerda, como sindicalistas, ex-presos políticos e militantes de movimentos sociais.

A chegada de Temer encheu o palácio de representantes da direita brucutu do Congresso, como os deputados Alberto Fraga e Laerte Bessa, da bancada da bala, e o ruralista Luis Carlos Heinze, que já se referiu a quilombolas, índios e homossexuais como “tudo que não presta”.

Depois do pronunciamento de estreia, o presidente interino se reuniu a portas fechadas com líderes religiosos e parlamentares evangélicos. Estavam presentes os pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano, que defendem ideias como o projeto da “cura gay”. Eles voltaram para casa entusiasmados com o novo regime.

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“Nós acusamos” – Vladimir Safatle

Coluna de Vladimir Safatle de 13 de maio de 2016, no jornal A Folha de S. Paulo:

Diante da gravidade da situação nacional e da miséria das alternativas que se apresentam:

Nós acusamos o governo interino que agora se inicia de já nascer morto. Nunca na história da República brasileira um governo começou com tanta ilegitimidade e contestação popular. Se, diante de Collor, o procedimento de impeachment foi um momento de reunificação nacional contra um presidente rejeitado por todos, diante do governo Dilma o impeachment foi o momento em que tivemos de construir um muro para separar a Esplanada dos Ministérios em dois.

Esse muro não cairá, ele se aprofundará cada vez mais. Aqueles que apoiaram Dilma e aqueles que, mesmo não a apoiando compreenderam muito bem o oportunismo de uma classe política à procura de instrumentalizar a revolta popular contra a corrupção para sua própria sobrevivência, não voltarão para casa. Esse será o governo da crise permanente.

Nós acusamos os representantes desse governo interino de serem personagens de outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução para a crise política, mas a própria crise política no poder. Suas práticas políticas oligárquicas e palacianas só poderiam redundar em um golpe parlamentar denunciado no mundo inteiro.

Por isso, eles temem toda possibilidade de eleições gerais. Eles governarão com a violência policial em uma mão e com a cartilha fracassada das políticas de “austeridade” na outra. Políticas que nunca seriam referendadas em uma eleição. Com tais personagens no poder, não há mais razão alguma para chamar o que temos em nosso país de “democracia”.

Nós acusamos o governo Dilma de ter colocado o Brasil na maior crise política de sua história. A sequência de escândalos de corrupção não foi uma invenção da imprensa, mas uma prática normal de governo.

De nada adianta dizer que essa prática sempre foi normal, pois a própria existência da esquerda brasileira esteve vinculada à possibilidade de expulsar os interesses privados da esfera do bem comum, moralizando as instituições públicas.

Que os setores da esquerda brasileira no governo façam sua autocrítica implacável. Por outro lado, a procura pela criação de uma conciliação impossível apenas levou o governo a se descaracterizar por completo, a abraçar o que ele agora denuncia, distanciando-se de seus próprios eleitores. O caráter errático deste governo foi a mão que cavou sua própria sepultura. Que esta errância sirva de lição à esquerda como um todo.

Nós acusamos aqueles que nunca quiseram encarar o dever de acertar contas com o passado ditatorial brasileiro e afastar da vida pública os que apoiaram a ditadura como responsáveis diretos pela instauração desta crise. A crise atual é a prova maior do fracasso da Nova República.

Que um candidato fascista (e aqui o termo é completamente adequado) como Jair Bolsonaro tenha hoje 20% das intenções de voto entre os eleitores com renda acima de dez salários mínimos mostra quão ilusória foi nossa “conciliação nacional” pós-ditadura. O fato de nossas cadeias não abrigarem nenhum torturador deveria servir de claro sinal de alerta.

Tal fato serviu apenas para preservar os setores da população que agora abraçam um fascista caricato e saem às ruas com palavras de ordem dignas da Guerra Fria. Por isso, a cada dia que passa, percebe-se como este setor da população se julga autorizado a cometer novas violências de toda ordem. Isso está apenas começando.

Nós acusamos setores hegemônicos da imprensa de regredirem a um estágio de parcialidade há muito não visto no país. Diante de uma situação de divisão nacional, não cabe à imprensa incitar manifestações de um lado e esconder as manifestações de outro, transformar-se em tribunal midiático e parcial, julgando, destruindo moralmente alguns acusados e preservando outros, deixando mesmo de se interessar por vários escândalos quando esses não atingem diretamente o governo.

Essa postura apenas servirá para explodir ainda mais os antagonismos e para reduzir a imprensa à condição de partido político.

Nesse momento em que alguns inclinam-se à uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força.

Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que esse país viveu nos últimos tempos, que se lembre de que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá. Esse não é o país de Temer, Bolsonaro, Cunha, Renan, Malafaia, Alckmin.

Esse é o país de Zumbi, Prestes, Pagu, Lamarca, Francisco Julião, Darcy Ribeiro, Celso Furtado e, principalmente, nosso. Há um corpo político novo que emergirá quando a oligarquia e sua claque menos esperar.

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“O suicídio da Lava Jato” – Vladimir Safatle

Coluna de Vladimir Safatle publicada no dia 18 de março de 2016 na Folha de S. Paulo. Até o momento, parece a análise mais precisa e menos polarizada já feita sobre o atual contexto político brasileiro:

O juiz Sergio Moro conseguiu o inacreditável: tornar-se tão indefensável quanto aqueles que ele procura julgar. Contrariamente ao que muito defenderam nos últimos dias, suas últimas ações são simplesmente uma afronta a qualquer ideia mínima de Estado democrático. Não se luta contra bandidos utilizando atos de banditismo.

A divulgação das conversas de Lula com seu advogado constitui uma quebra de sigilo e um crime grave em qualquer parte do mundo. Não há absolutamente nada que justifique o desrespeito à inviolabilidade da comunicação entre cliente e advogado, independente de quem seja o cliente. Ainda mais absurdo é a divulgação de um grampo envolvendo a presidente da República por um juiz de primeira instância tendo em vista simplesmente o acirramento de uma crise política.

Alguns acham que os fins justificam os meios. No entanto, há de se lembrar que quem se serve de meios espúrios destrói a correção dos fins.

Pois deveríamos começar por nos perguntar que país será este no qual um juiz de primeira instância acredita ter o direito de divulgar à imprensa nacional a gravação de uma conversa da presidente da República na qual, é sempre bom lembrar, não há nada que possa ser considerado ilegal ou criminoso.

Afinal, o argumento de obstrução de Justiça não para em pé. Dilma tem o direito de nomear quem quiser e Lula não é réu em processo algum. Se as provas contra ele se mostrarem substanciais, Lula será julgado pelo mesmo tribunal que colocou vários membros de seu partido, de maneira merecida, na cadeia, como foi no caso do mensalão.

Lembremos que “obstrução de Justiça” é uma situação na qual o indivíduo, de má-fé e intencionalmente, coloca obstáculos à ação da Justiça para inibir o cumprimento de uma ordem judicial ou diligência policial. Nomear alguém ministro, levando-o a ser julgado pelo STF, só pode ser “obstrução” se entendermos que o Supremo Tribunal não faz parte da “Justiça”.

A fragilidade do argumento é patente, assim como é frágil a intenção de usar um grampo ilegal cuja interpretação fornecida pelo sr. Moro é, no mínimo, passível de questionamento.

Na verdade, há muitas pessoas no país que temem que o sr. Moro tenha deixado sua função de juiz responsável pela condução de processo sobre as relações incestuosas entre a classe política e as mega construtoras para se tornar um mero incitador da derrubada de um governo.

A Operação Lava Jato já tinha sido criticada não por aqueles que temiam sua extensão, mas por aqueles que queriam vê-la ir mais longe. Há tempos, ela mais parece uma operação mãos limpas maneta.

Mesmo com denúncias se avolumando, uma parte da classe política até agora sempre passa ilesa. Não há “vazamentos” contra a oposição, embora todos soubessem de nomes e esquemas ligados ao governo FHC e a seu partido. Só agora eles começaram a aparecer, como Aécio Neves e Pedro Malan.

Reitero o que escrevi nesta mesma coluna, na semana passada: não devemos ter solidariedade alguma com um governo envolvido até o pescoço em casos de corrupção. Mas não se trata aqui de solidariedade a governos. Trata-se de recusar naturalizar práticas espúrias, que não seriam aceitas em nenhum Estado minimamente democrático.

Não quero viver em um país que permite a um juiz se sentir autorizado a desrespeitar os direitos elementares de seus cidadãos por ter sido incitado por um circo midiático composto de revistas e jornais que apoiaram, até o fim, ditaduras e por canais de televisão que pagaram salários fictícios para ex-amantes de presidentes da República a fim de protegê-los de escândalos.

O Ministério Público ganhou independência em relação ao poder executivo e legislativo, mas parece que ganhou também uma dependência viciosa em relação aos humores peculiares e à moralidade seletiva de setores hegemônicos da imprensa.

Passam-se os dias e fica cada dia mais claro que a comoção criada pela Lava Jato tem como alvo único o governo federal.

Por isso, é muito provável que, derrubado o governo e posto Lula na cadeia, a Lava Jato sumirá paulatinamente do noticiário, a imprensa será só sorrisos para os dias vindouros, o dólar cairá, a bolsa subirá e voltarão ao comando os mesmos corruptos de sempre, já que eles foram poupados de maneira sistemática durante toda a fase quente da operação.

O que poderia ter sido a exposição de como a democracia brasileira só funcionou até agora sob corrupção, precisando ser radicalmente mudada, terá sido apenas uma farsa grotesca.

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Resenha sobre “Rabo de baleia”, de Alice Sant’Anna

Resenha sobre Rabo de baleia, de Alice Sant’Anna, que publiquei na revista portuguesa Ler de junho de 2013:

OS DIAS AGITADOS

            Quando publicou seu livro de estreia, Dobradura (7Letras), em 2008, a designação jovem poeta cabia muito bem a Alice Sant’Anna, nascida no Rio de Janeiro, em 1988. Afinal, trata-se de uma obra onde a inocência pueril se revela como uma de suas principais características. Desponta assim um frescor inquestionável, o que é uma de suas qualidades, embora também se apresentem alguns conflitos encapsulados.

            Contudo, por meio do recém-lançado Rabo de baleia (Cosac & Naify), a perspectiva do sujeito torna-se mais madura – mais sofrida, consequentemente – e seus poemas excluem quase de todo a docilidade predominante nos versos de estreia. Agora, encontra-se uma poética muitas vezes até mesmo violenta, refletindo de maneira contundente o desconcerto das relações do sujeito com o mundo e com o outro. Diante disso, a classificação jovem poeta não é mais conveniente: Alice Sant’Anna, em seu novo título, mostra-se uma poeta madura e consolida-se como uma das principais autoras de sua geração.

            As diferenças entre Rabo de baleia e Dobradura já podem ser observadas no corte do verso e na estrutura sintática das frases. No livro recém-lançado, os períodos foram construídos com imensa economia de pontuação, o que em diversos momentos concede mobilidade de leitura: há sequências de versos que podem ser lidas ao menos de duas maneiras. Porém, tais características de composição dos poemas – antes de tornarem-nos mais fluidos – conduz o leitor à percepção de diversas fraturas textuais e sugerem um universo pessoal desconcertado e tortuoso. Nesse sentido, versos fragmentados auxiliam na configuração desse cenário. Mesmo recorrendo à fantasia para escapar da rotina esmagadora, o sujeito não encontra na válvula de escape uma fuga plena em torno “da exaustão dos dias/ o corpo que chega exausto em casa/ com a mão esticada em busca/ de um copo d’água/ a urgência de seguir para um terça/ ou quarta boia, e a vontade/ é de abraçar um enorme/ rabo de baleia seguir com ela” (p. 7). A necessidade de outras boias mostra ao leitor a insuficiência da fuga como via de dissolvição do “tédio pavoroso” (p. 7).

            Em Rabo de baleia, é notável a investigação acerca das fraturas e a posterior constatação da fragilidade das coisas: “dente que bate na louça e trinca/ a língua apalpa por detrás/ procurando indício de rachadura/ na porcelana/ desliza na borda da gengiva/ o chá ainda quente na boca/ incisivos erguidos como prédios/ mas frágeis feito xícara/ casca de ovo/ a asa não se firma entre os dedos/ quer escorregar e se colar à sombra” (p. 36). Geralmente associado ao conforto, a hora do chá torna-se um momento do despontar da aflição e da angústia, sentimentos que recuperam o medo da sombra que havia em sua infância: “quando criança chorava ao ver a sombra/ jurava que era alguém insistente/ que apareceu sem ser convidado” (p. 36). O simples chá torna-se, portanto, um momento de investigação do humano, escapando, no entanto, do caráter confessional típico da lírica: a investigação se desenvolve da louça trincada à sombra, da concretude à abstração. O paralelismo entre os dois momentos – da adulta com a língua sobre a rachadura e da criança observando a sombra – firma uma carga dramática intensa no poema, mas ao mesmo tempo o objetiva parcialmente. É a partir da porcelana trincada que o temor emerge: o elemento externo, a xícara, estimula o tom memorialístico, remetendo-nos ao movimento dos fragmentos da madaleine no chá de tília proustiano. A imagem de Alice Sant’Anna, contudo, é mais antilírica.

            Além dessas questões, há sintomas evidentes de melancolia, como em “Winnipeg, mon amour” (“não acordo nunca/ desse mesmo sono […]”, p. 17), ou de um sentimento indefinido entre a exaustão – um traço recorrente no livro – e o desejo (“não é bem vontade o que tenho/ mas tampouco é falta de vontade”, p. 45). Há também nessa suspensão da dúvida alguma marca melancólica, algum indício de desgaste frente à incerteza. E dessa indefinição, dessa incerteza instabilizadora, nascem muitos fantasmas que nem mesmo um rabo de baleia é capaz de afastar.

 

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A antologia “Poesia.br”

Transcrevo resenha sobre Poesia.br (organização de Sergio Cohn) publicada originalmente em minha coluna da revista Ler de maio de 2013:

A editora Azougue lançou, sob organização de Sergio Cohn, a antologia Poesia.br, que reúne dez volumes acondicionados em uma caixa. Em ordem cronológica, eles reúnem dos cantos ameríndios à poesia contemporânea. Cada volume se inicia com uma apresentação do organizador; no primeiro livro, há também considerações acerca do projeto, onde esclarece sua gênese.

O projeto original foi desenvolvido por iniciativa da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, em 2010, durante o governo do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Havia a proposta de criação de um portal na internet, com poemas de autores brasileiros. Seu lançamento seria “acompanhado de eventos presenciais, debates e entrevistas com poetas contemporâneos de diversas regiões do país”. “Contudo”, afirma o organizador, “as mudanças da política cultural ocorridas com a troca ministerial do novo governo [da presidente Dilma Rousseff] levaram ao cancelamento do projeto, datado de 17 de janeiro de 2012, sem que este tenha se efetivado ou algum desembolso financeiro ocorrido”.

Como o cancelamento foi legitimado após a realização da pesquisa e da conquista de direitos de publicação de muitos poemas, Sergio Cohn decidiu publicar a antologia em forma de livro, “por conta própria”. A seleção dos poemas se deu pela “representatividade” de seus autores e, conforme o organizador, “como é de se esperar numa antologia”, na seleção “se traduz um olhar pessoal”.

Trata-se sem qualquer dúvida da antologia da poesia brasileira de maior alcance diacrônico já publicada, além de reservar aos seus leitores o panorama de alguns períodos até então pouco examinados, como os cantos ameríndios e a poesia dos anos 1980, que trazem boas surpresas.

Esta antologia só não apresenta um panorama mais completo da poesia brasileira porque algumas autorizações de reprodução de poemas não foram conquistadas. É um motivo que tem levado regularmente as antologias a apresentar significativas lacunas. Em Portugal, Seria uma rima, não seria uma solução: poesia modernista, organizada por Abel Barros Baptista e Osvaldo Silvestre, sofreu do mesmo mal, o que, no seu prefácio, foi discutido com propriedade pelos organizadores.

No volume da Azougue sobre o modernismo, para suprir a falta de alguns autores importantes, Sergio Cohn se valeu muito bem da apresentação para fazer considerações sobre suas obras, aproveitando o espaço para citar poemas, o que é permitido pela Constituição brasileira. Encontram-se nessa situação Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Raul Bopp, Cecília Meireles, entre outros.

A qualidade das apresentações varia, conforme o volume e seu período histórico. No caso da poesia colonial, há imensa simplificação; muitas tensões da literatura dessa época não são nem mesmo referidas. Exemplo notável disso é a consideração de que a poesia de Cláudio Manuel da Costa é de “alto teor bucólico, sendo alguns de grande beleza”. Sabemos por diversos estudos, como a Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, ou Destes penhascos, de Sérgio Alcides, que sua poesia está marcada por intenso dilaceramento do sujeito e pela natureza em processo de devastação decorrente da extração do ouro. Já na apresentação sobre o modernismo, as análises revelam maior domínio do organizador, apesar de alguns equívocos de ordem histórica, como a data da realização da Semana de Arte Moderna de 1922; há também citações errôneas, como a de “Poética”, de Manuel Bandeira, desestrurando o uso hábil do verso livre.

Outro problema da antologia pode ser aqui apontado – e um problema grave em se tratando da possiblidade de ela ser adota no ensino de todos os níveis: a falta de bibliografia indicando de onde os poemas foram reproduzidos, de modo que não há qualquer garantia da qualidade das edições adotadas para a fixação dos textos.

Avaliando a antologia num todo, ela é importantíssima para um reconhecimento panorâmico da poesia brasileira sob perspectiva diacrônica e permite aos leitores examinar suas transformações. Como toda antologia, também pode dar aos leitores a oportunidade de conhecer alguns poetas de menor circulação, como Solano Trindade. Contudo, a edição revela alguns problemas relevantes, que devem pôr os estudiosos em alerta. Caso seja adotada para qualquer nível do ensino, é recomendável checar dados, conferir a fidedignidade da reprodução dos poemas e buscar maiores informações sobre os autores selecionados em outras fontes mais especializadas. Além disso, para alguém interessado em fazer um trabalho hercúleo dessa natureza (uma antologia das origens ao contemporâneo), seria interessante a inclusão de alguns cordelistas, cuja literatura é muito representativa sobretudo da cultura nordestina.

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“A privataria arruina a Biblioteca Nacional”, de Elio Gaspari

A foto (extraída d'O Globo) é de um funcionário da BN secando páginas de periódicos molhadas durante o vazamento de água do ar-condicionado central

A foto (extraída d’O Globo) é de um funcionário da BN secando páginas de periódicos molhadas durante o vazamento de água do ar-condicionado central

De total acordo com Elio Gaspari, em sua coluna de 2 de setembro, no jornal Folha de S. Paulo. Qualquer consulta a sites de diversas bibliotecas públicas de países latino-americanos, como Argentina e Chile, ou de países europeus, como França e Portugal, comprova o quanto a Fundação Biblioteca Nacional está atrasada, fora os problemas frequentes de alagamento, perda de acervo, entre outros. Ao mesmo tempo, a Biblioteca Nacional preocupa-se com uma série de questões que não são do seu calibre.

Segue a reprodução de parte da coluna:

Biblioteca, como diz o nome, é um lugar onde se guardam livros catalogados, acessíveis ao público.

No caso da Biblioteca Nacional, um transeunte que entra no prédio para sapear o catálogo precisa deixar até os cadernos na portaria. Caneta não entra, só lápis preto.

Se alguém for à página da BN na internet, terá à mão um catálogo de 576 mil obras, apesar de o acervo ser de pelo menos 2 milhões.

Mais, nas palavras do seu Relatório de Gestão: “Para evitar sobrecarga (da rede elétrica), não é permitido aos leitores utilizar carregadores para equipamentos como computadores, gravadores e assemelhados”.

Neste ano, em duas ocasiões, vazamentos do sistema de ar refrigerado inundaram áreas em vários andares, formando poças com até 10 centímetros de profundidade.

Há estantes que dão choque, sua fachada centenária solta pedaços e tapumes protegem os pedestres.

Funcionários da instituição fizeram uma manifestação na sua escadaria celebrando “o aniversário das baratas que infestam o prédio, com destaque para seu ‘berçário’, no quinto andar; das pragas que gostam muito de papel; brocas, traças e cupins” bem como “dos ratos do primeiro andar”.

Nesse cenário de real ruína, ressurge a cantilena: faltam recursos. Coisa nenhuma. O governo da doutora Dilma e a administração do companheiro Galeno Amorim, atual diretor da BN, botam dinheiro da Viúva em coisas que nada têm a ver com a tarefa de guardar, catalogar e tornar acessíveis os livros.

Em 2011, o Orçamento deu à BN R$ 30,1 milhões para gastos sem relação com pessoal e encargos. De outras fontes públicas, para diversas finalidades, recebeu mais R$ 63,4 milhões.

A digitalização dos sacrossantos Anais da BN parou em 1997, mas ela gastou alguns milhões em coedições, no patrocínio de traduções (inclusive para o croata) e na manutenção de um Circuito Nacional de Feiras do Livro. Colocou R$ 16,7 milhões num programa de compra e distribuição de livros populares, ao preço máximo de R$ 10 para distribuí-los pelo país afora. (Quem achou que por R$ 10 compram-se também estoques de livros encalhados ganha uma passagem de ida e volta a Paris.)

A criação de um polo de irradiação editorial pode ser uma boa ideia, mas essa não é a atribuição da Casa. Mercado de livros é coisa privada, biblioteca é coisa pública. Se ela não tivesse ratos no primeiro andar, baratas em todos, estantes que dão choque e um catálogo eletrônico mixuruca, poderia entrar no que quisesse, até mesmo na exploração do pré-sal.

Se Galeno Amorim pode revolucionar o mundo editorial brasileiro, a doutora Dilma deveria criar o Programa do Livro Companheiro, o Prolico. Nomeando-o para lá, deixaria a Biblioteca Nacional para quem pudesse cuidar dela.

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Coluna A voz do Brasil – Revista Ler – setembro de 2011

Reproduzo a coluna da revista Ler de setembro:

CLARICE NO EXTERIOR

Em 24 de outubro será lançado, em Nova York, pela New Directions, o primeiro título da reedição da obra de Clarice Lispector nos Estados Unidos da América: o romance A hora da estrela, com tradução de Benjamin Moser, biográfico da autora. Moser assina ainda a coordenação das reedições, que já conta com outros quatro livro em produção: Perto do coração selvagem, A paixão segundo G. H., Água viva e Um sopro de vida. A notícia foi dada por Josélia Aguiar, do jornal A Folha de S. Paulo.

REPORTAGEM NO MUSEU

A editora Língua Geral acaba de lançar Tahrir: os dias da revolução no Egito, da jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho. Segundo José Eduardo Agualusa, “Este é um livro que orgulha qualquer editora”. O livro foi publicado na coleção Museu de Tudo, até então dedicada apenas a antologia de contos, crônicas, letras de música e poemas. O acréscimo torna a coleção ainda mais interessante e diversa.

A NOVA POESIA

A revista Poesia Sempre, um dos periódicos brasileiros que já fez história, está com um novo editor e uma nova proposta editorial. Afonso Henriques Neto substitui o acadêmico Marco Lucchesi. Especializada na tradução de poesia, já tendo divulgado a literatura muitos países, agora a revista vai publicar somente os brasileiros. “Não só a velha e boa poesia existente, como a nova, movida em grande parte pelas novas tecnologias digitais, especialmente nos blogs, mas também nas redes sociais”, afirmou Aníbal Bragança.

A GLOBO E O RIGOR

A Companhia das Letras vem reeditando a obra de Erico Verissimo, autor da notável série de romances O tempo e o vento. Além de escritor, Verissimo destacou-se pela sua atividade editorial, quando esteve ao lado da família Bertaso, em Porto Alegre, na editora Globo. Em torno dessa história escreveu Um certo Henrique Bertaso (102 p.), relançado em julho deste ano. O livro ainda nos traz, na metade dessa narrativa deliciosa, um caderno de 16 páginas com rica iconografia.

Tudo começou com a Livraria do Globo, na rua da Praia, onde Henrique Bertaso, em 1922, então com 15 anos, foi levado por seu pai a trabalhar como “caixeiro”. O velho Bertaso queria ocupar um de seus filhos, Henrique, pois ele estava se tornando uma “pequena peste doméstica, com tempo demais a pesar-lhe nas mãos e no crânio”. Em pouco tempo Henrique seria o melhor “caixeiro” da Casa, socorrendo inclusive os colegas mais experientes.

A Livraria do Globo, assim como a José Olympio, no Rio de Janeiro, reunia os principais escritores, intelectuais e políticos locais, grupo de que faria parte, anos depois, o nosso Erico Verissimo, recém-mudado de Cruz Alta, interior do Rio Grande do Sul, para a capital do estado. Fase dura, em que Verissimo batia de porta em porta atrás de emprego, sem conquistar qualquer posição. O dinheiro que juntara em Cruz Alta, quando balconista de farmácia, ia se esgotando.

Uma tarde, à porta da livraria, Verissimo encontrou Mansueto Bernardi, então diretor da Revista do Globo, que estava se mudando para o Rio de Janeiro, onde seria diretor da Casa da Moeda. Bernardi lhe disse: “– Você escreve, traduz, desenha… Seria o homem ideal para tomar conta da Revista do Globo no futuro.” “– Por que no futuro – repliquei –, se estou precisando dum emprego agora?”, disse ousadamente, pois não conhecia nada de “cozinha” de revista. O emprego era de Erico Verissimo.

Aos poucos, Henrique Bertaso e Erico Verissimo começaram a fazer da livraria uma editora, a editora Globo, responsável por lançar alguns dos mais importantes clássicos da literatura universal, como Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust; A montanha mágica e Os Bruddenbrooks, de Thomas Mann; Lord Jim, de Joseph Conrad; As vinhas da ira, de John Steinbeck; Orlando e Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, entre muitos outros monumentos da ficção. O mais incrível nessa história é o método de tradução desenvolvido por Erico Verissimo, hoje impensável para qualquer editor: havia uma biblioteca da editora, com dicionários e enciclopédias, onde tradutores passavam seus dias. Quando concluída a tradução, as provas eram enviadas a um revisor, que cotejava o texto em português com o de língua estrangeira e fazia as correções necessárias. Em seguida, a tradução era discutida entre o tradutor e um especialista da obra.

Sim, a editora Globo continua com muitos de seus livros, agora já empoeirados, nas estantes das melhores bibliotecas privadas e públicas, bem como nas melhores lojas de livros de segunda mão. Algumas tradução foram compradas por novas editoras e também continuam sendo procuradas pelos leitores mais rigorosos. 

LANÇAMENTOS

O índio antes do indianismo, de Alcmeno Bastos. Rio de Janeiro: 7Letras, 136 p.

Análise da presença do índio na literatura brasileira que antecede o romantismo, que valorizou intencionalmente a figura do autóctone como símbolo de brasilidade. Professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o autor analisa os autos de José de Anchieta; Prosopopeia (1601), de Bento Teixeira; a poesia de Gregório de Matos; O Uraguai (1769), de Basílio da Gama; e Caramuru (1781), de Santa Rita Durão.

A lua no cinema e outros poemas, organização de Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 144 p.

Esta antologia reúne alguns temas e autores fundamentais da lírica de língua portuguesa, como o amor, a natureza e a passagem do tempo. Entre outros, encontram-se poemas de Alexandre O’Neill, Antonio Cicero, Camilo Pessanha, Carlos Drummond de Andrade, Fiama Hasse Paes Brandão, Gastão Cruz, José Paulo Paes e Murilo Mendes.

O esquizoide. Coração na boca, de Rodrigo de Souza Leão. Rio de Janeiro: Record, 80 p.

Livro inédito que reúne discurso biográfico e ficcional. Trata-se de um relato sobre a vida de um escritor esquizofrênico, que busca romper com os preconceitos em torno desse distúrbio psiquiátrico.

CUIDADO, AVALANCHE

Colunista do caderno Prosa & Verso do jornal O Globo, José Castello resenhou o primeiro livro de Ismar Tirelli Neto (1985), Synchronoscopio (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008), manifestando a dificuldade de ler um jovem poeta que, segundo o crítico, não revela qualquer diálogo com a tradição. Neste ano, Tirelli Neto publicou seu segundo livro, Ramerrão (Rio de Janeiro: 7Letras), que talvez lance ainda mais dificuldades à crítica. Não que falte tradição à esta obra: ao contrário, desde seu livro de estreia Ismar engendrou diálogos sofisticados com a tradição, que escapam, no entanto, dos jogos intertextuais mais previsíveis. O mesmo pode ser observado no livro de Victor Heringer (1988), Automatógrafo, outro título da excelente coleção da 7Letras.

Um dos aspectos que singulariza a novíssima geração, nascida nos anos 1980, é a tentativa de fugir da já consagrada poesia do menos, que segue os modelos de João Cabral de Melo Neto e dos concretistas. Ismar Tirelli Neto e Victor Heringer muitas vezes preferem desenvolver poemas com dimensão épica. Pensemos em microepopeias: não somente pelo número reduzido de versos, mas também por se tratar de um épico desenvolvido no espaço íntimo das pequenas superações cotidianas, não da tentativa de suportar um ataque inimigo, mas os dramas de cada dia. Isto fica evidente em “Suma”, de Tirelli Neto, e “Meridiano 43 w/e”, de Heringer, respectivamente: “Mestre, / eles me condenaram / à vida rarefeita. Estou / no gráfico sem crista, / imodulado: vox populi, / voz Dei. Minha mãe / secou & não posso mais / voltar. A que devo / voltar-me, então? / Quatro meses numa cela / estudando opções / de norte. Tirania / de objetos, imagens, / canções. Dores / constantes / na nuca & nos / quadris”; “Vá para o Leste, sangria desatada; / antes do Rio nos espera (longe carnaval) / nos cubos da noite c/ punhais d’inverno.”

O microépico é também invadido pelo drama, às vezes com um tom sentimental, como em “Segunda Guerra do Golfo”, de Victor, em que as imagens do conflito televisionado, hollywoodiano, parecem refletir-se na superfície do corpo do telespectador, até que chegam a regiões mais profundas. A imagem do golfo sai então da superfície e contamina o sujeito com nervosismo (“no estômago”) e angústia (“nos pulmões”): “É que / acordo com o golfo concavado nos olhos, / na testa, no ouvido, no estômago, nos pulmões.” Talvez Ismar possa dar o conselho a Victor: “Calma, /  desse jeito acaba tendo / uma avalanche.” Isto porque o microépico desses dois poetas revela marcas de estresse que se voltam contra o sujeito, mas que fraturam também a própria estrutura épica, investida do lirismo a problematizar os pequenos fatos da existência. No caso de Heringer, muitas vezes a fratura surge de um saudosismo intenso para alguém tão jovem.

AS ESTRELAS DA FLIP

            Nas nove edições da Festa Literária Internacional de Paraty, três escritores portugueses estiveram entre as suas principais atrações: António Lobo Antunes, em 2009, Inês Pedrosa, em 2010, e valter hugo mãe, neste ano. Seus títulos ainda ocuparam o cume da lista de vendas da Livraria da Vila, responsável oficial pela realização dos lançamentos das obras dos autores convidados para a festa literária mais charmosa e importante do Brasil. Em edições mais remotas, do espaço da lusofonia, Angola e Moçambique, foram os principais destaques da festa os autores José Eduardo Agualusa, em 2004, Ondjaki, em 2006, e Mia Couto, em 2007, que se consolidaram definitivamente por aqui.

            Intrigante, entretanto, é o fato de as vendas da Flip de autores portugueses não se estenderem a longo prazo a outras livrarias e regiões do país. Haveria um descrédito tamanho em torno da literatura portuguesa que apenas a fala é capaz de despertar algum interesse?

Talvez a fala desses autores portugueses esteja revelando um discurso emocionado e vibrante que os brasileiros não pressupõem, por associarem Portugal quase estritamente à melancolia. Talvez os brasileiros não pressupõem que o Brasil está muito mais ligado a Portugal do que parece, a distância.

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Coluna A voz do Brasil – julho de 2011

Prêmios da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil

Palhaço, macaco, passarinho (Companhia das Letras), de Eucanaã Ferraz, com ilustrações de Jaguar, ganhou o prêmio máximo da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil. Psiquê (Cosac & Naify), com texto e ilustrações de Angela-Lago, recebeu os prêmios de melhor ilustração e reconto hors-concours. Consulte a lista completa dos premiados no site da fundação (www.fnlij.org.br).

Alto estilo

No X Fórum Internacional de Encadernação Artística, na Bélgica, realizado entre os dias 26 e 29 de maio, foi exposta a encadernação que a brasileira Estela Vilela fez do livro Bug-Jargal, de Victor Hugo. O mesmo trabalho recebeu destaque na edição de junho da revista francesa Art & Métiers du Livre, conforme o site PublishNews.

 O canto do Bem-te-Vi

A Bem-te-Vi dá continuidade ao projeto criado por Lélia Coelho Frota, crítica de artes plásticas e poeta, falecida em 2010, que comandou a editora desde sua criação. A coleção Canto do Bem-te-Vi recebe mais 5 novos livros, conforme suas edições anteriores: XX sonetos, de Maria Lúcia Alvim; Mateus, de Priscila Figueiredo; Entre árvores, de Sylvio Fraga Neto; De onde voltamos o rio desce, de Vera Pedrosa; e A viagem, de Walmir Ayala, livro inédito que só vem aos leitores após vinte anos do falecimento do poeta.

 Coleção Prêmio Nobel

Em outubro, a editora Companhia das Letras completará seus 25 anos. Está previsto, entre as comemorações, o lançamento de uma coleção com 12 obras de autores que receberam o prêmio Nobel de Literatura. Com capa dura e revestido com tecido, no formato 14×21 cm, cada título vai ter tiragem de 3.000 exemplares, sem reimpressões.

Lançamentos

Cadernos de Literatura Brasileira – 26a edição. São Paulo: IMS, 140 p.

A nova edição é dedicada ao notável cronista Rubem Braga, com cronologia; depoimentos de Claudio Mello e Souza, Danuza Leão e Boris Schnaiderman; ensaios dos jornalistas Humberto Werneck, José Castello e Sergio Augusto; inéditos, entre outras seções.

Agenda brasileira – Temas de uma sociedade em mudança. São Paulo: Companhia das Letras, 584 p.

André Botelho e Lilia Moritz Schwarcz organizaram esta edição, que conta com 50 profissionais para debater algumas das principais questões relativas ao Brasil. O livro destaca-se sobretudo pela variedade de perfil dos colaboradores: o ex-jogador de futebol Tostão; o crítico de teatro J. Guinsburg e o poeta Eucanaã Ferraz são alguns dos seus ensaístas.

Dicionário da antiguidade africana, de Nei Lopes. Rio de Janeiro: Record, 350 p.

Estudioso dedicado à cultura africana, o autor desenvolveu um rigoroso trabalho de historiografia sobre as sociedades africanas surgidas a partir do século VII.

AUGUSTO E SEUS TIGRES DE PAPEL

Augusto Guimaraens Cavalcanti nasceu no Rio de Janeiro, em 1985. Lançou seu primeiro livro em 2006, Poemas para se ler ao meio-dia (Rio de Janeiro: 7Letras); veio a público em 2008 a obra coletiva Amoramérica (Rio de Janeiro: 7Letras), com textos do grupo Os Sete Novos, formado por Augusto, Domingos Guimaraens e Mariano Marovatto. Sua mais nova reunião de poemas, Os tigres cravaram as garras no horizonte (Rio de Janeiro: Editora Circuito), consolida um percurso singular desse autor, que tem explorado certas orientações criativas ainda de baixo aproveitamento na poesia brasileira.

É necessário destacar, nesse sentido, que desde João Cabral de Melo Neto se defende intensamente, na poesia brasileira, a concisão, a construção e a objetividade como princípios criativos indispensáveis. Esqueceu-se, no entanto, que toda poesia, como bem destacou Octavio Paz, carrega em si um ímpeto surrealizante, por tratar-se de uma linguagem formada a partir do choque e da subversão de normas instituídas pela gramática e pela lógica. Nos últimos trinta anos, a predominância no Brasil de uma orientação de via única, de um Cabral editado ao gosto contemporâneo, construtivista e racional, sem seus choques semânticos – o “cão sem plumas”, “uma faca só lâmina”, entre tantos outros casos –, enfraqueceu significativamente o panorama contemporâneo, mais formatado e homogênio do que se costuma pensar.

A poesia de Augusto tem sido concebida numa outra via, de antinomias e contrastes, com um verso livre de cortes bruscos e muitas vezes sem encadeamento lógico aparente: “um cacto nasce do mármore límpido / das tuas escadas / rolantes // a poesia é um tigre / de papel”, em “mármore”, onde as palavras sugerem imagens em atrito. No lugar do apolíneo, põe-se ao lado do dionísiaco, dialogando com poetas como Walt Whitman, de menor aderência na lírica brasileira das últimas décadas, mais afeita a Mallarmé e Paul Valéry: “sempre desconfiei que a verdadeira profundidade / estivesse na superfície / das coisas / Walt Whitman bem nos ensinou que / seja de treva ou luz / todo momento é um milagre // […] o cinema explode / ao ar livre / seus aeroportos de linguagens / o filme detona / sua tela de raro oceano / seu mar cínico e adequado / mar tão transparente quanto real / mar sem / margem / desterrado mar”, em “gasolina”.

Por meio de sua criatividade e da busca de novos cânones para a literatura brasileira, a obra de Augusto Guimaraens Cavalcanti tem colaborado para a formação de uma via alternativa, com resultados muito satisfatórios e versos surpreendentes.

O PRÊMIO PORTUGAL TELECOM

Os 50 finalistas do prêmio Portugal Telecom 2011 estão definidos: mais uma vez com um número reduzido de autores portugueses (E.M. de Melo e Castro, Gonçalo M. Tavares, Inês Pedrosa e João Tordo) e apenas um angolano (José Eduardo Agualusa), sem qualquer outro representante do continente africano. O número reduzido de autores desses países é novamente resultado de uma recusa do mercado editorial brasileiro ao mundo lusófono.

O excelente Três vidas, de João Tordo, que ainda traz na bagagem o prêmio José Saramago, é o mais forte para ficar entre os 10 finalistas, e talvez Milagrário pessoal, de José Eduardo Agualusa, por ser o único representante da África. No meio acadêmico o livro de Gonçalo M. Tavares, autor de costume muito estimado, tem sofrido muitas restrições e há quem considere Uma viagem à Índia a sua pior obra. Entre os brasileiros, a poesia vem com força: Adélia Prado, Alberto Martins, Arnaldo Antunes, Donizete Galvão e José Almino podem estar com sobra na finalíssima. Na prosa, o romance de Nelson de Oliveira, Poeira: demônios e maldições, que já foi premiado com o Casa de las Américas, e João Anzanello Carrascoza, com Espinhos e alfinetes, também são fortes candidatos.

O júri deste ano é muito especial e pode apontar autores menos cotados, pois há notáveis conhecedores da literatura contemporânea, como Heloísa Buarque de Hollanda, Luiz Ruffato, Regina Dalcastagné e Regina Zilberman, todos da maior competência e seriedade.

UMA NARRATIVA DE AMOR E ARTE

O novo romance de Sérgio Sant’Anna, O livro de Praga: narrativas de amor e arte (São Paulo: Companhia das Letras), foi lançado na coleção Amores Expressos, projeto que serviu ao autor para construir o seu enredo. Ao visitar uma exposição de artes plásticas, o narrador ouve uma obra de Voradeck para piano e busca, na recepção, informações a respeito da programação musical. É quando sabe que as performances da “senhorita” Béatrice Kromnstadt “são para audiência personalizada e custam em torno de três mil euros”. No entanto, para ter acesso à audiência, não bastam os três mil euros: é necessário ser aprovado pela pianista e por seu diretor, Svoboda. O personagem então explica: “– Faço parte de um projeto privado que envia escritores brasileiros a várias cidades do mundo, como Pequim, Tóquio, Cairo, fora as de sempre, Berlim, Paris, Nova York, para escreverem histórias de amor ambientadas na cidade que coube a cada um. Para mim foi designada Praga e fiquei muito feliz com isso. Me interessa tudo na cidade, inclusive as manifestações artísticas, como esse concerto [de Béatrice Kromnstadt]. A música desperta fantasias sobre as quais se pode escrever, inclusive fantasias amorosas, ainda que um amor platônico, da alma.” É sobretudo a partir dessa ideia que Sant’Anna parece engendrar um dos pontos altos de seu romance: até que ponto as cenas de sexo de fato se passaram com o narrador ou foram produto de sua imaginação? Em que medida as cenas de sexo, muito particulares, não são fruto de um lugar misterioso despertado pela música do compositor Voradeck?

Não à toa há uma forte presença de um tom policial em O livro de Praga, talvez o mais adequado para que o leitor busque a elucidação desse enigma e de outros, como a tentativa de o narrador, Antônio Fernandes, compreender a natureza da arte contemporânea. As obras da exposição de Andy Warhol, Disaster Relics, com fotografias de acidentes, que absorve a atenção de Antônio na abertura do romance, serve como uma referência importante para a construção desse livro. Aos poucos, ficção e realidade, projetos e interferências do acaso vão se casando nessa narrativa de amor e de arte, com seus elementos grotescos permeados de um suspense muito bem elaborado, para que o leitor consiga chegar mais facilmente à complexidade da linguagem e dos recursos da arte contemporânea.

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Coluna da revista Ler

Reproduzo minha coluna da revista Ler, mês de junho:

Catálogo-constelação

Pedro Nava é autor de seis obras memorialísticas notáveis, escritas de 1972 a 1983. Destacam-se, nesse conjunto de livros, Baú de ossos, Beira-Mar e Galo-das-Trevas, um dos títulos mais belos da literatura brasileira. A editora Companhia das Letras, após contratação de toda poesia de Carlos Drummond de Andrade, acaba de negociar a reedição dos livros de Nava. Os dois, que eram amigos fiéis desde a adolescência, em Belo Horizonte, estarão novamente lado a lado. E assim, aos poucos, a Companhia das Letras está reunindo em seu catálogo o melhor da literatura brasileira do século XX.

Parceria luso-brasileira

A editora Leya tornou-se sócia majoritária da Casa da Palavra, de Ana Cecília Martins, Marta Ribas e Thaís Marques. No mercado brasileiro há 15 anos, a Casa da Palavra manterá sua linha editorial, que inclui ficção contemporânea, clássicos, ensaísmo e obras sobre artes plásticas. A Leya vai atuar na área de comercialização e distribuição dos livros, conforme seu editor, Pascoal Soto.

Premiação inédita

A Cosac & Naify foi a primeira editora brasileira a ganhar dois prêmios numa mesma edição da Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha. Na categoria Novos Horizontes, foram premiados Mil-folhas – História ilustrada do doce, de Lucrecia Zappi, e A janela de esquina do meu primo, de E.T.A. Hoffmann, com ilustrações de Daniel Bueno.

Acadêmico das HQ

Mauricio de Sousa, caso raro na literatura, é conhecido por 1000 a cada 1000 brasileiros nascidos ao menos a partir dos anos 1950. No ano de 2008, o Instituto Pró-Livro realizou pesquisa para descobrir quais são os escritores brasileiros mais admirados de todos os tempos. O autor da Turma da Mônica ficou na décima posição. Seus livros já invadiram países como a China e conquistam, a cada dia, mais traduções. Acaba de ser eleito para a Academia Paulista de Letras: “Agora eu posso até escorregar na casca da banana que ficarei incólume”, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo. Par ficar ainda mais incólume, poderia tornar-se membro da Academia Brasileira de Letras. Seria, como poucos, motivo de orgulho.

OS CRÍTICOS E AS “TIAS”

O Instituto Moreira Salles promoveu um debate entre os críticos da literatura Alcir Pécora e Beatriz Resende em torno da produção ficcional contemporânea. Disponível no blog do IMS, a conversa gravada em vídeo provocou reações negativas em diversos escritores.

Os críticos combateram fundamentalmente a tendência de os autores contemporâneos atenderem aos apelos de seus guetos. “O espaço da literatura virou o lugar das tias”, afirmou Pécora, que identifica também uma baixa formação técnica de criação, problema igualmente grave entre os leitores tão mal formados pelo ensino brasileiro. O nível de exigência cultural do país foi identificado como um fator determinante para a mediocridade da recente produção ficcional do Brasil. Enquanto Pécora se lançava mais agressivamente contra sobretudo a geração 90 – de Marçal Aquino, Marcelino Freire e Nelson de Oliveira –, Beatriz Resende buscava relativizar a responsabilidade dos escritores, transferindo parte dessa “crise” da criação ao mercado.

Para Marcelino Freire, “tias tomam chá e bufam como eles bufavam lá”. Rebatendo a formação dos guetos de escritores, ele argumenta: “Nós vamos à luta, promovendo encontros, discussões, antologias, revelando gente nova e boa. Ave nossa! Que preguiça! Turma de amigos há em tudo que é lugar. Mas não venham para cima da gente, insinuando armações, máfias. Caralho! Enfim. Digo: estou sem saco”, falou a Miguel Conde, do caderno Prosa & Verso do jornal O Globo. Já o jornalista Sergio Rodrigues avaliou positivamente a produção contemporânea e julgou que os críticos fugiram ao desqualificar os escritores com base no marketing. Em posição semelhante, rebateu Joca Terron: “E o papel de tais representantes da crítica como curadores ou jurados dos grandes prêmios literários brasileiros, não faz parte desse desejo de participação contraditório com o papel de quem se arroga tanta isenção?”, embora sobretudo Beatriz Resende não tenha se isentado disso, ao afirmar que a universidade não se interessa pela polêmica nem pelo contemporâneo, sendo incapaz de se defrontar com o outro.

Por fim, chega-se a conclusão de que tudo está fora dos eixos: escritores, leitores, críticos e mercado. A tão aclamada crise mais parece a única maneira que todos encontram de encarar os fatos.

LANCAMENTOS

O livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna. Companhia das Letras, 144 p.

Reunião de sete contos de um dos mais importantes autores brasileiros contemporâneos. Destaca experiências de ruptura do cotidiano, quando surgem situações desconsertantes.

Poéticas da imanência, de Annita Costa Malufe. 7Letras, 262 p.

Por meio de um instrumental delezeuano, o livro analisa a poesia de dois dos mais significativos poetas da recente literatura brasileira, Ana Cristina Cesar e Marcos Siscar.

Cantos do mundo, de Evando Nascimento. Record, 208 p.

Sinalizado por Silviano Santiago como um dos intelectuais da literatura mais eminentes do Brasil, o autor desse livro de contos experimenta com desenvoltura o deslocamento das coisas e do sujeito.

MALDITOS POR QUEM?

Em março, a editora Companhia das Letras lançou sua nova coleção, Má Companhia, que busca publicar autores “malditos”. Os três primeiros títulos são de Marçal Aquino (O invasor) e Reinaldo Moraes (Tanto faz e Abacaxi, num só volume). A seleção começa bem, embora seu conceito seja equivocado: Marçal, estimado pela crítica, já recebeu os prêmios V Bienal Nestlé de Literatura, em 1991, com As fomes de setembro, e o Jabuti de 2000, com O amor e outros objetos pontiagudos; já Pornopopeia, de Moraes, esteve entre os finalistas do Portugal Telecom 2010.

Além disso, O invasor foi adaptado para o cinema e tornou-se um dos filmes de maior sucesso do diretor Beto Brant, enquanto Tanto faz foi publicado pela Brasiliense e Azougue, respectivamente, e Abacaxi saiu sob a chancela da L&PM, casas editoriais conhecidas do público brasileiro.

Portanto, Marçal Aquino e Reinaldo Moraes conquistaram reconhecimento da crítica e aceitação do mercado editorial, além de suas reedições comprovarem que há um nicho de leitores interessados nesse tipo de ficção. Mais do que escritores “malditos”, o que se destaca pela reunião desses três títulos da Má Companhia é a presença inquestionável de personagens à margem do sistema e/ou perdidos num contexto cultural, econômico e/ou social.

Gostaria de analisar o romance Tanto faz, cuja primeira edição data de 1981. O livro foi lançado ainda sob o clima sombrio de um país reprimido pela ditatura militar. Embora a narrativa esteja centrada em Paris, para onde Ricardo, seu protagonista, vai estudar, o desencanto está presente, de forma marcante, em uma série de personagens. Compõe-se então um painel sobre questões como drogas, literatura, política, sexualidade, entre muitas outras, que são abordados, ao mesmo tempo, com humor, profundidade e tédio, bem como por um tom melodramático: “Fiz trinta anos e ando com medo de levar a breca na vida. Uma vez por semana, em média, me dá esse medo. Acho que às quinta-feiras. Medo de ficar sem grana, sem amigos, sem mulher. Um ratê baixo-astral, dos que sentam no meio-fio e vertem lágrimas grossas como pitangas. E se deixam lamber na cara por um vira-lata sarnento. Te esconjuro, Nelsão Rodrigues!” Trata-se de um panorama de grande fôlego e extensão, mas todo ele amarrado pelo sentimento de uma vida que podia ter sido e não foi.

O romance é marcado também por uma linguagem coloquial, muitas vezes grotesca, mas sem abandonar uma série de diálogos com filmes, letras de música, livros de filosofia, poemas e romances consagrados, como os de Alfred Hitchcock, Caetano Veloso, Chico Buarque, Platão, Ferlinghetti, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, James Joyce, Thomas Mann, entre muitos outros. O campo das conversas com outras obras é variado, que parece, a todo momento, ser tocado pela saudade que os personagens centrais sentem do Brasil.

O BLOG DO IMS

Há poucos meses o Instituto Moreira Salles criou o seu blog (http://blogdoims.uol.com.br/), que tem se destacado pela ininterrupta qualidade e relevância dos posts. Há variedade de assuntos e abordagens: arquitetura, artes plásticas, cinema, literatura, enfim, praticamente todas as manifestações artísticas são discutidas por nomes relevantes da academia, bem como da cultura nacional e internacional. Recorre-se, para isso, a diversos formatos, como diários, ensaios, fotografias e vídeos.

O destaque mair fica por conta da capacidade dos curadores do blog exporem com interesse o próprio acervo do IMS. Isto pode ser observado no vídeo da historiadora Lilia Schwarcz, da Universidade de São Paulo, comentando fotografias dos negros do século XIX, ou o ensaio do arquiteto Guilherme Wisnik sobre a belíssima casa do Instituto, no Rio de Janeiro. A seção “Desentendimento”, organizada por Paulo Roberto Pires, editor da revista Serrote, do IMS, tem promovido excelentes e polêmicos debates, como já vimos aqui.

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Coluna A voz do Brasil – Revista Ler – Maio de 2011

Quando as cabras não têm vez

A editora Objetiva publicou Ilustrações para fotografias de Dandara. O livro reúne inéditos de João Cabral de Melo Neto escritos durante sua temporada à frente da embaixada do Senegal. Ao receber fotografias de sua neta mais velha, Dandara, João Cabral escrevia alguns versos inspirados nas imagens. Para quem está acostumado com a sua poesia antissentimental e objetiva, ficará surpreso. O volume ainda conta com ilustrações de Mariana Newlands.

Na beira da praia

A Festa Literária de Paraty conta com Mauro Munhoz para reformular o seu espaço. Com a ideia de desafogar o centro histórico de Paraty, a tenda com telão, geralmente ocupada por jornalistas, vai ficar em frente à praia do Pontal. Mais distante da área histórica da cidade, a paisagem natural servirá de consolo aos frequentadores dessa tenda.

Blog da Boitempo

A editora Boitempo vai publicar em seu blog textos de autores como Emir Sader, Maria Rita Kehl e Slavoj Zizek. O pensamento de esquerda vai ganhar algum espaço para discussões cotidianas no endereço http://boitempoeditorial.wordpress.com/.

CDA de casa nova

Carlos Drummond de Andrade vai ser publicado pela Companhia das Letras a partir de 2012, quando completam-se 25 anos da morte do poeta. A reedição de suas obras vai ser acompanhada de novo projeto gráfico e lançamentos simultâneos para e-book e no formato tradicional. A editora ainda organizou uma comissão para cuidar dessa conquista, formada por Antonio Carlos Secchin, Davi Arrigucci Jr., Eucanaã Ferraz e Samuel Titan.

POESIA DE BAIXO VALOR

Ao receber R$ 1,3 milhão (por volta de € 600 mil) via Lei Federal de Incentivo Fiscal, a cantora Maria Bethânia provocou grande celeuma na imprensa. Este montante destina-se à produção de um vídeo para cada dia do ano, com Bethânia a ler poemas para o blog O mundo precisa de poesia. O trabalho será dirigido por Andrucha Waddington. O fato de isso provocar revolta nacional é muito sintomático do baixo valor da poesia no Brasil e, ao mesmo tempo, revela o oportunismo de alguma imprensa brasileira e parte da sociedade civil. É a partir desses pontos de vista que gostaria de analisar a questão.

Fora o seu notável papel no cenário da música popular, é sobretudo Maria Bethânia a responsável pelo interesse dos brasileiros em relação à obra de Fernando Pessoa, divulgada em álbuns e shows da cantora. Lembremos que Fernando Pessoa é o poeta mais lido por aqui, superando em vendas autores do quilate de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e até mesmo Vinicius de Moraes. Se por um lado tal interesse se justifica pela qualidade inquestionável dos versos pessoanos, por outro é necessário considerar o bom-gosto com que os poemas são lidos por Bethânia e a rara oportunidade que seu trabalho representa para que o leitor comum tenha acesso, no Brasil, à poesia.

O ataque contra Maria Bethânia também parece ser uma manipulação indireta de parte da imprensa e da sociedade civil contra as primeiras ações da Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, que freou a aprovação da nova Lei dos Direitos Autorais desenvolvida durante o governo Lula. Esta nova lei flexibilizaria sobretudo o uso de obras no ambiente digital. Além desses, muitos autores, até mesmo os “militantes” da poesia, se manifestaram contrariamente à aprovação do projeto de Bethânia, o que não passa de ressentimento de uma classe carente de atenção.

Faltou, contudo, uma crítica inteiramente entregue ao problema mais importante: a poesia, no Brasil, vale o quanto pesa. É o que muitos parecem ter dito, mesmo não se dando conta disso.

Maria Bethânia criará um blog para disseminar poesia de boa qualidade? Ótimo! O blog custará pouco mais de R$ 1.350 mil para se manter durante um ano? Problema dela! Bethânia embolsará R$ 50 mil mensais para declamar um poema por dia? Sortuda! O dinheiro será arrecadado junto a empresas que depois o abaterão do seu Imposto de Renda? Êpa!

Ricardo Noblat, jornalista

Procure por Fernando Pessoa ou Guimarães Rosa no YouTube. Na lista de resultados mais assistidos, há sempre um ou vários vídeos de Maria Bethânia. […] Foi pensando nisso, e querendo que a poesia e a prosa da nossa língua tenham melhor presença no ciberespaço, que tomei coragem de propor para Maria Bethânia uma ideia que pensava ser de utilidade pública.

Hermano Vianna, escritor, pesquisador e produtor cultural

Lançamentos

A menina do sobrado, de Cyro dos Anjos. Porto Alegre: Globo. 608 p.

Originalmente publicado em 1979, este livro recebeu o prêmio Jabuti e faz parte do projeto de edição da obra completa desse autor mineiro consagrado pelo romance O amanuense Belmiro. Destaca-se por seus textos curtos, em que se misturam ficção e memória.

Laços de sangue, de José Sacchetta Ramos Mendes. São Paulo: Edusp. 384 p.

Análise da imigração portuguesa no Brasil durante os séculos XIX e XX sob perspectiva interdisciplinar. O livro recorre a dados históricos e jurídicos para traçar o cenário de privilégios e ataques que os portugueses receberam nesse período.

Move tudo!, de Marcelo Cipis. São Paulo: Companhia das Letras. 32 p.

Obra de um dos mais instigantes ilustradores brasileiros, com narrativas criadas a partir exclusivamente de imagens. Realiza-se nesse livro um diálogo com o cinema e a capacidade de seus expectadores interferirem nas histórias projetadas na tela.

A POLÍTICA DA MEMÓRIA

Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. Autor de Música anterior (2001), Longe da água (2004), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009) e do recém-lançado Diário da queda, todos publicados pela Companhia das Letras. Recebeu o prêmio Erico Verissimo/Revelação da União Brasileira dos Escritores e já esteve entre os finalista dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom.

Diário da queda narra a história de um personagem de família judia cujo avô havia sofrido com as atrocidades de Auschwitz e cujo pai lembrava-lhe disso frequentemente. Estudando numa escola judia, o narrador, aos 13 anos, participou de uma agressão a João, garoto pobre e não judeu, experiência que de certa maneira mudaria sua vida: “Para mim tudo começa aos treze anos, quando deixei João cair na festa de aniversário”. O caso é descrito com violência contundente, transformando a relação do protagonista com seu pai e consigo mesmo. A agressão a João vai irromper uma série de comparações com a violência da perseguição aos judeus e mostrar como o excluído – o judeu, no caso – pode tornar-se um agressor.

Está em questão, a todo momento, o movimento de narratividade: “Quando criança eu sonhava com […] as suásticas ou as tochas dos cossacos do lado de fora da janela, como se qualquer pessoa na rua estivesse pronta para me vestir um pijama com uma estrela e me enfiar num trem que ia ruma às chaminés, mas com os anos isso foi mudando. […] Alguma coisa muda quando você vê o seu pai repetindo a mesma coisa uma, duas ou quinhentas vezes, e de repente você não consegue mais acompanhá-lo, se sentir tão afetado por algo que aos poucos, à medida que você fica mais velho, aos treze anos, em Porto Alegre, morando numa casa com piscina e tendo sido capaz de deixar um colega cair de costas no aniversário, aos poucos você percebe que isso tudo tem muita pouca relação com a sua vida.”

A experiência do protagonista com a narratividade atravessa muitos discursos ao longo do romance: a fala do pai acerca da perseguição aos judeus; os 16 cadernos que formam os diários de seu avô, que em nenhuma de suas linhas trata do holocausto, silenciando a experiência traumática; os diários de seu pai, onde se observa a tentativa de manutenção da memória, que se esvai com o Alzheimer, e, por fim, a própria relação do personagem com a sua biografia. Há, portanto, biografias entrelaçadas e distintos modos de o narrador se posicionar e experimentar a memória. O narrador alcança, dessa maneira, uma compreensão da escrita como possibilidades de gestos políticos: o escamoteamento de um problema, a insistência em subscrevê-lo, a negação das origens, o conflito entre as diferenças.

O NOVO JABUTI

A Câmara Brasileira do Livro anunciou que a 53a edição do prêmio Jabuti vai sofrer mudanças. Ele será ampliado de 21 para 29 categorias, trazendo para a disputa gêneros que até então eram excluídos, como as HQ. Busca-se dessa maneira premiar novos segmentos que têm recebido grande atenção do mercado editorial brasileiro.

Além disso, em cada categoria haverá apenas um vencedor, ao contrário das edições anteriores, quando eram premiados os três melhores livros. Dos vencedores de cada categoria, vão ser escolhidos o melhor livro de ficção do ano e o melhor livro de não-ficção, cada qual recebendo R$ 30 mil (cerca de € 14 mil).

Trata-se das maiores mudanças sofridas desde a criação do Jabuti da CBL. Elas se explicam pela controversa premiação de Leite derramada, de Chico Buarque, como livro do ano de 2010. O romance havia conquistado, em sua categoria, a segunda colocação, o que se revelou uma grande contradição.

 

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