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“O que o velho Araweté pensa dos brancos enquanto seu mundo é destruído?” – Eliane Brum

Texto de Eliane Brum publicado pelo El País a 6 de fevereiro de 2017:

Ele era um ancião. Seu povo, Araweté. Tinha o corpo vermelho de urucum. O cabelo num corte arredondado. E estava sentado ereto, as mãos abraçando o arco e as flechas à sua frente. Ficou assim por quase 12 horas. Não comeu. Não vergou. Eu o olhava, mas ele jamais estabeleceu um contato visual comigo. Diante dele, lideranças indígenas dos vários povos atingidos por Belo Monte se revezavam no microfone exigindo o cumprimento dos acordos pela Norte Energia, a empresa concessionária da hidrelétrica, e o fortalecimento da Funai. Ele, como outros, não entendia o português. Estava ali, sentado numa cadeira de plástico vermelho, no centro de convenções de Altamira, no Pará. O que ele via? Há 40 anos, ele e seu povo nem mesmo sabiam que existia algo chamado Brasil. Possivelmente isso siga não fazendo nenhum sentido, mas agora ele está ali, debaixo de luminárias, sentado numa cadeira de plástico vermelho, aguardando seu destino ser decidido em português. O que ele via?

Não sei o que ele via. Sei o que eu via. E o que vi me fez alcançar não uma dimensão dele, mas de mim. Ou de nós, “os brancos”. Sempre que escrevo sobre os meandros técnicos e jurídicos de Belo Monte, e agora também de Belo Sun, sei que perco algumas centenas de leitores por frase, por mais que simplifique o que é complexo. Porque a linguagem da justiça, assim como a da burocracia, com todas as suas siglas, é feita para produzir analfabetos mesmo em quem tem doutorado em letras. Mas o que resta para os indígenas que se esforçam para se expressar na língua daqueles que os destroem no mesmo momento em que a vida é destruída? O que resta para o velho Araweté sentado ali por quase 12 horas? Ele não tem escolha, já que é com estas palavras que sua existência é aniquilada.

As lideranças dos vários povos indígenas atingidos por Belo Monte, as que falam português, denunciavam a impossibilidade da vida depois que a hidrelétrica se impôs no Xingu. Exigiam que a Norte Energia cumprisse suas obrigações legais para restabelecer as atividades produtivas nas aldeias e para que pudessem superar a situação de insegurança alimentar. A reunião, na quarta-feira (26/1), era uma resposta ao protesto dos indígenas no Ministério Público Federal em Altamira, seguida pela ocupação do escritório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na cidade. Antes, eles podiam exigir o cumprimento dos acordos parando o canteiro de obras de Belo Monte, mas agora que a usina já opera o poder de pressão diminui e o que já era grave se torna ainda pior. Com a presença do novo presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Antônio Fernandes Toninho Costa, os indígenas exigiam o fortalecimento do órgão que deveria protegê-los e há anos vem sofrendo um desmonte promovido por setores e políticos ligados ao agronegócio, de olho nas ricas terras indígenas, e hoje tão intimamente entrelaçados ao governo Temer.

A reunião era importante porque a situação é desesperadora. Há relatos de fome e de aumento de doenças em parte das aldeias. Durante a construção da hidrelétrica, o chamado Plano Emergencial deveria ter fortalecido os indígenas diante da magnitude do que estava para acontecer. Em vez disso, tornou-se um balcão onde se barganhou com a vida dos povos originários. Por cerca de dois anos a Norte Energia deu uma espécie de mesada aos povos indígenas atingidos, 30 mil reais em mercadorias para cada aldeia todo mês. Era um instrumento de cooptação e corrupção dos caciques para minar a resistência à construção de Belo Monte.

Aldeias se dividiram. Indígenas deixaram de plantar roças para comer produtos industrializados. A desnutrição infantil disparou, assim como os casos de diarreia. Ao mesmo tempo, a Funai, que deveria protegê-los diante do monumental empreendimento no Xingu, rio sagrado para os povos indígenas, deixou de ter chefes de posto nas aldeias e foi convenientemente enfraquecida na região. O Plano Emergencial para conter o impacto representado pela construção da hidrelétrica, ao virar um balcão em que mesmo indígenas de recente contato negociavam diretamente com a empresa, tornou-se o maior impacto. Tanto que a procuradora da República em Altamira, Thais Santi, moveu uma ação contra o Estado e a Norte Energia por etnocídio – extermínio cultural – dos povos indígenas.

Hoje, a situação é considerada pelos observadores ainda mais grave. O rio foi alterado pelo barramento e a sobrevivência dos indígenas está ameaçada. Mas, em vez de haver uma responsabilização do Estado, em todas as suas instâncias, o governo do do Pará deu em 2 de fevereiro a licença de instalação de outro gigantesco projeto: a extração de ouro pela empresa canadense Belo Sun na Volta Grande do Xingu, bem ao lado de Belo Monte. A região, já extremamente impactada pela hidrelétrica, agora sofrerá um novo impacto, numa sobreposição cujas consequências não foram dimensionadas. A Funai reiterou que o estudo que trata do licenciamento ambiental é “inapto à apresentação para as comunidades indígenas”, por não atender a critérios básicos, e que não há nem sequer “dados primários” sobre as terras indígenas mais próximas do local de mineração. Seria necessário pelo menos seis anos de monitoramento da Volta Grande após Belo Monte para analisar a viabilidade ou não de um novo empreendimento na região. Mas a Funai foi ignorada. Para os povos indígenas, é uma espécie de renovação do fim do mundo.

Uma semana atrás, os indígenas denunciavam o impacto de Belo Monte. Hoje, desesperam-se porque o impacto de Belo Sun vai se sobrepor ao de Belo Monte na Volta Grande do Xingu. O pior se anuncia, e o pior acontece. Tem sido assim. Todos os mecanismos de proteção da floresta amazônica e dos povos indígenas são ignorados – ou torcidos – e o judiciário tem se mostrado conivente com o rompimento da lei, como se ela fosse apenas uma trama frouxa. Como o velho Araweté pode entender isso, ele que sequer compreende uma língua em que a palavra “Belo” pode nomear algo que destrói e mata?

Pintado de urucum, agarrado ao arco e às flechas, sentado numa cadeira de plástico vermelha, sem compreender a língua em que seu destino é decidido e sua fome decretada, ali está o velho Araweté. Como ele chegou até o centro de convenções? Que caminhos o levaram até aquele momento, aquela cadeira, aquele cenário tão exposto pelas luminárias e ao mesmo tempo tão encoberto por negociações e subterfúgios e apagamentos?

Os Araweté sabem de nós, os brancos, há muito tempo. Como conta o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro no Povos Indígenas no Brasil (PIB), uma espécie de enciclopédia viva organizada pelo Instituto Socioambiental sobre as mais de 240 etnias que povoam o território que chamamos de Brasil, mas que eles chamavam por outros nomes há muito mais tempo, os brancos estão presentes em sua mitologia. Mas o contato “oficial” ocorreu nos anos 70 do século 20, no processo de implantação da Transamazônica, o primeiro dos grandes empreendimentos promovidos pelo Estado e executado pelas grandes construtoras na região. Naquele momento, a ditadura civil-militar iniciou um trabalho de “atração e pacificação” dos povos indígenas. No entendimento dos Araweté, é importante sublinhar, o que se deu foi o contrário: eles é que amansaram os brancos.

Em 1976, os Araweté foram encontrados pela Funai acampados precariamente junto às roças de camponeses. Estavam famintos e já doentes pelo contato com os brancos. Em julho daquele ano, os sertanistas decidiram iniciar com eles uma caminhada de cerca de 100 quilômetros até um posto da Funai. Nos 17 dias que durou o percurso, adultos e crianças iam tombando pelo caminho. Com os olhos fechados por uma conjuntivite infecciosa, os Araweté não enxergavam sequer o caminho. Perdiam-se na mata e morriam de fome. Crianças pequenas, subitamente órfãs, eram sacrificadas por adultos desesperados. Muita gente, fraca demais para seguir andando, pedia para ser deixada para morrer em paz. Ao final da jornada, 73 pessoas já não existiam, vitimadas pelo contato e pela caminhada. O primeiro censo feito pela Funai registrou 120 sobreviventes. Eram, naquele momento, todos os Araweté do planeta.

O velho sentado na cadeira de plástico vermelha, agarrado a seu arco e suas flechas, é um dos sobreviventes do contato “oficial” com os brancos, 40 anos atrás. E ali está ele. O que ele vê? O que são os brancos que negociam sua vida no palco do centro de convenções? O que somos nós?

Um salto. Já não é a Transamazônica rasgada sobre a casa e a vida dos povos indígenas do Xingu. É Belo Monte. Em 2013, o antropólogo Guilherme Heurich, do Museu Nacional, apresentou um texto contundente na sexta câmara da Procuradoria Geral da República, em Brasília: “O que a Norte Energia fez, durante o Plano Emergencial, foi fornecer um fluxo constante de mercadorias em direção às aldeias. A Norte Energia se colocou como o grande doador, universal e infinito, de produtos não indígenas, tendo como intermediárias entre ela e os índios apenas as listas”.

No início, a Funai ainda barrava pedidos como, por exemplo, camas-box. Depois, os caciques passaram a negociar as listas diretamente. Era um balcão onde se reeditava a clássica alegoria de 1500, quando os europeus invasores trocaram a vida das populações originárias por espelhinhos. Quinhentos anos depois, eram voadeiras, combustível, TVs, bolachas, salgadinhos, refrigerantes. Indígenas que não consumiam açúcar passaram a consumi-lo diariamente. Como isso poderia proteger os povos indígenas do impacto de Belo Monte? A violação é explícita. Mas mais de um ano depois o judiciário ainda não decidiu sequer quem tem a competência para julgar a ação de etnocídio. Para o judiciário brasileiro, a morte cultural de povos indígenas não é um tema emergencial.

Numa conversa com um Araweté, o antropólogo Guilherme Heurich descobriu como aquele povo compreendia o fluxo de mercadorias para a aldeia. As mercadorias eram o “pepikã”, a contrapartida da futura morte de todos. E o que vai matar?, ele perguntou. “A água”. A água? “Sim, a água da barragem”. A análise dos Araweté sobre o porquê do fluxo de mercadorias para a aldeia, segundo o antropólogo, não poderia ser mais clara e precisa: “tudo aquilo que o plano emergencial despejou é o pagamento antecipado da morte que acontecerá quando a aldeia for inundada pelas águas de Belo Monte”. Outro Araweté construiu uma saída para o dia em que barragem acabaria com a vida na aldeia: “A gente vai construir uma canoa bem grande… para morar todo mundo no meio do rio”.

Assim, aquele Araweté que agora está ali, no centro de convenções de Altamira, agarrado ao seu arco e às suas flechas, viveu junto com todos a certeza que o fim do mundo havia chegado. Como dimensionar e responder a um impacto desta magnitude sobre a vida psíquica? E agora ele está ali. Sentado na cadeira de plástico vermelho. Imóvel. Quase 12 horas horas sem comer, sem vergar.

O rio Xingu e seus afluentes já não são os mesmos. Seu povo, às margens do Ipixuna, sente isso dia após dia. Outros povos, estes da Volta Grande do Xingu, pegam o microfone para contar que Belo Monte mudou radicalmente o rio, ameaçando seu presente e interditando seu futuro. E avisam que, se o projeto de mineração de Belo Sun for liberado, acabará com tudo. Belo Sun está longe dos Araweté, mas está bem perto das aldeias de outros povos, como os Juruna e os Arara. Longe e perto são categorias relativas num ambiente em que um acontecimento desencadeia inúmeros outros em cadeia. “Se for dada a licença pra Belo Sun, vai ser o caos. E quem sofrerá somos nós”, diz o cacique Gilliard Juruna, da aldeia Muratu, que no final do ano passado perdeu um irmão afogado no rio em que havia nascido, mas já não reconhecia.

O projeto da canadense Belo Sun, chamado de “Volta Grande”, no município de Senador José Porfírio, foi liberado apenas alguns dias depois da reunião em que o presidente da Funai reiterou: “A Funai já se manifestou. Somos contra Belo Sun”. A notícia chegou primeiro em inglês. A reunião da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas) que formalizaria a licença de instalação para Belo Sun nem havia terminado e oficialmente a licença ainda não havia sido concedida, mas a mineradora canadense já lançava um comunicado em inglês anunciando a liberação. Em 12 anos, a mineradora canadense prevê a extração de 600 toneladas de ouro da região da Volta Grande do Xingu. Serra Pelada, a maior corrida do ouro vivida no Brasil do século 20, arrancou oficialmente pouco mais de 40 toneladas da floresta amazônica.

Um dos engenheiros que assina o relatório encomendado pela Belo Sun, atestando que o projeto é viável e seguro, é o mesmo que assinou o laudo atestando a estabilidade da barragem do Fundão, em Mariana. Segundo reportagem do “Fantástico”, programa da TV Globo, ele foi indiciado por homicídio após o rompimento que causou um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil. Segundo o Instituto Socioambiental, o projeto da Belo Sun prevê montanhas de rejeito com aproximadamente duas vezes o volume do Pão de Açúcar e a construção de um reservatório de rejeitos tóxicos. Tudo isso numa região já fortemente impactada por Belo Monte, em plena floresta amazônica, no momento em que a humanidade enfrenta a mudança climática.

A Defensoria Pública da União e a Defensoria Pública do Pará já entraram com ações contra a licença para Belo Sun. O Ministério Público Federal já moveu uma ação afirmando que o processo de licenciamento deve ser feito pelo Ibama – e não pelo órgão estadual –, já que há territórios indígenas na área de impacto. Outra ação do MPF já anulou em primeira instância a licença prévia do projeto e hoje trava uma batalha de recursos nos tribunais superiores. Mas mesmo com a licença prévia “sub judice“, ainda assim a licença posterior, a de instalação, foi concedida. E agora Belo Sun, que já está na Volta Grande há bastante tempo, tem permissão oficial para operar. Mais uma vez, os povos indígenas e as comunidades tradicionais não foram escutados, como determina a legislação. Mas a conivência do judiciário com os desmandos e omissões dos governos tornou a lei menos real do que o Curupira na região do Xingu. As violações são denunciadas e nada acontece. A violência é anunciada e não é impedida. A lei, assim como o rio, está barrada no Xingu.

Como o velho Araweté vai compreender esse mundo dos brancos que destrói o seu mundo e o mundo de outros povos indígenas? Como vai compreender uma lei que existe para não existir? Mas ele está lá, ereto, há quase 12 horas sem comer, sem vergar. Sentado na cadeira de plástico vermelho. A reunião, necessária para que não seja ainda pior, fundamental para que a Norte Energia seja pressionada a cumprir os acordos que já deveria ter cumprido há anos e a Funai a proteger os indígenas que nunca deveria ter desprotegido, é ela mesma uma violência. É outra língua, é outra organização social e política. O velho Araweté está ali, sentado entre representantes de outros povos indígenas que são seus inimigos históricos, ouvindo palavras que não decifra. Como é possível esse tanto de impossível, essa realidade absurda?

Nós os chamamos Araweté, mas até o nome não faz qualquer sentido na sua língua, que vem do tronco tupi-guarani. Foi dado por um sertanista da Funai, mas não há referência na língua dos Araweté, que não sabem por que são chamados de Araweté. Eles autodenominam-se “bïde”, que significa “nós”, “a gente”, “os seres humanos”. Brancos são “kamarã”. E são “awi” – “inimigos”, “estrangeiros”. E ali está o velho, sentado com seu arco e com suas flechas, e nem o nome pelo qual seu povo é chamado ao microfone faz qualquer sentido.

A tensão é permanente, e o tempo parece um tecido sempre na iminência de ser rasgado. Lideranças de outros povos, que falam bem o português, a dominam. Indígenas sacodem bordunas, as frases são fortes porque a vida vai virando morte. “O que vocês fazem é criar conflito, vocês botam nação contra nação pra brigar. Isso é crime”, diz uma liderança. “Se a Norte Energia é governo, se é dona de tudo, então diz logo que não vai fazer”, diz outra. “Para quem não nos conhece nós somos mortos de fome, ignorantes, corruptos, mas a ação de etnocídio está lá na mesa do judiciário”, grita um cacique. “Tem garimpeiros e madeireiros saqueando as nossas terras e vocês não fazem nada”, segue mais um. “Vocês têm que respeitar nós, respeitar nossos velhos, respeitar nossa língua. O rio tá seco, o rio tá sujo, nós estamos sofrendo. Vocês têm que ouvir!”

O presidente da Funai pede um “voto de confiança”, lembra que acabou de assumir o posto, promete que tudo será diferente. Quando um indígena interrompe a sua fala, ele diz: “Eu ouvi vocês, agora peço que por favor me deixem falar. Esta é a democracia”. Se o velho Araweté pudesse compreender o português, o que pensaria sobre a “democracia”? Expressões como “geração de renda”, “atividades produtivas”, “logística de mobilização” são frequentes ao longo da reunião. Como compreender esse estupro dos ouvidos? Sentado ali, o que ele vê?

A língua desencarnada é muito pior do que um fantasma porque nem mesmo assombra. É o que sinto quando repito a palavra “etnocídio”. Como explicar que a morte cultural é a morte daquilo que um povo é, a morte de um ser e de um estar no mundo totalmente singular, é a morte que precede a extinção física, porque a cultura é o que dá sentido às batidas de um coração humano. Mas eu e tantos repetimos essa palavra para contar do que acontece com os povos indígenas desde que Belo Monte se materializou no Xingu, mas esse contar nada move. Nem mesmo uma ação do Ministério Público Federal denunciando o Estado e a Norte Energia por etnocídio fez o judiciário considerar o processo de morte cultural dos indígenas como algo a ser interrompido com urgência.

Mesmo para quem compreende o português, se a palavra desencarna, se o leitor não consegue enxergar ali o sangue e a alma do que ali morre, a letra é carta que não chega ao seu destinatário. E para o Araweté, este que morre lentamente aqui mesmo nesta reunião, vítima de etnocídio, sem sequer conhecer a palavra que nomeia a sua extinção?

Já é madrugada quando a reunião termina, e as lideranças se aglomeram para assinar mais um documento em que Norte Energia e Funai se comprometem a cumprir o que já descumpriram tantas vezes. O velho Araweté finalmente se move. Tem movimentos de felino e evoluciona pelo salão como se estivesse em território estrangeiro, que é onde de fato está. Bem lentamente, ele se aproxima de um teclado de computador e, cauteloso, estende um dedo coberto de urucum. Toca muito rapidamente a tecla e já retira o dedo. Nada acontece. Ele diz algumas palavras em sua língua para ninguém. Cola o corpo na parede branca, protegendo as costas em ambiente hostil, e fica curiosando a cena. Depois, volta a dar seus passos de felino. Vai até a mesa das autoridades, agora vazia. Pega o microfone e dá umas batidas nele, cuidadoso. Nada. Já está desligado. Nenhuma palavra sai dali. O presidente da Funai se despede com um adeus geral: “Fiquem com Deus”.

O que vê o velho Araweté? Gostaria de saber. Mas não sei. Ignorante, sei apenas o que eu vejo.

Queria que a gente nunca tivesse tocado nele. Queria que nenhum povo indígena tivesse sabido de nós. Como disse Cláudio Villas Bôas, muitas décadas atrás, ao tentar “salvar” os indígenas: “Há uma coisa deles que morre pra sempre assim que a gente encosta”. Lembro também de uma outra frase, essa título de um livro precioso do antropólogo Jorge Pozzobon: “Vocês, brancos, não têm alma”.

Mas tocamos neles. E sempre que os tocamos provocamos extermínio. Como os piores alienígenas, desembarcamos e os matamos de tantas formas. E não aprendemos nada porque seguimos exterminando-os. E ontem jogamos neles Belo Monte. E hoje Belo Sun.

Somos ainda, em grande parte, os mesmos que provocaram o genocídio em 1500. E hoje a Constituição de 88, que assegurou a proteção dos povos indígenas, é atacada por todos os lados. E sofre cotidianamente o pior dos ataques, que é o de não ser cumprida. Os brancos não têm palavra. Escrevem a lei na letra e, mesmo assim, não têm palavra.

Não sei o que vê o velho Araweté. Sei o que eu vejo. Diante de mim há alguém que é ele mesmo um mundo. Alguém que não devia precisar estar ali. E tudo o que temos a oferecer são cadeiras de plástico vermelho e palavras desencarnadas.

Ele pega um charuto. Acende. Desce com dificuldade a escadaria do centro de convenções e desaparece na cidade com cheiro de esgoto. Eu saio dali como monstro.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

 

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“Gerações, analogias e golpes” – José Almino de Alencar

O artigo “Gerações, analogias e golpes”, de José Almino de Alencar, foi publicado na Revista Ciência Hoje [via Lula Arraes]:

“Minha geração”: quase toda gente que pertence à camada de letrados recorre à expressão, muitas vezes com um travo de sentimentalismo ou de orgulho Refere-se assim não apenas a um agrupamento circunscrito pela estatística, sua coorte demográfica, mas a uma comunidade feita de percepções, de subjetividade ativa, composta por homens que compartilham de maneira distinta dos dilemas políticos, ideológicos, culturais, dos valores comportamentais, no horizonte de uma mesma contemporaneidade. Nela, algo de marcante que foi experimentado em comum a caracterizaria.

Esses traços distintivos não são adquiridos no curso de toda uma vida. Aparecem, sobretudo, durante o período de formação dos indivíduos envolvidos, à época da primeira juventude, digamos assim, em que algo da circunstância reinante – acontecimento ou mudança – veio a servir de meio de identificação para aquele grupo.

Poderia ser uma coisa trivial – uma moda, um preconceito; ou, mais significativa: um evento traumático, como o golpe militar de 1964, a ferida narcísica de ‘minha geração’ e com a qual tenho, bem ou mal, de conviver. Foi provavelmente esse recalque ou simples ranço que me levou a implicar sobremodo com duas analogias proclamadas e repetidas durante os conflitos recentes em torno do impeachment.

A primeira é a que vê ali um eco remanescente das antigas batalhas pelo socialismo contra as forças do capital quando o que se tem – nos seus momentos mais nobres – é uma oposição entre duas linhas de gestão e, eventualmente, de reforma do capitalismo vigente e internacionalizado, no âmbito de um país da América Latina.

Somos cientes: a administração petista (com muito mais sucesso, aliás, do que as suas aparentadas na Venezuela, no Equador e na Argentina) implementou uma política de distribuição de renda de amplitude excepcional na história recente do país. Para isso, fez uso de algumas vantagens surgidas no bojo do desenvolvimento do capitalismo internacional, amplamente identificadas: o boom de exportação das commodities (com a ajuda da demanda induzida pelo crescimento do capitalismo chinês), a relativa vantagem comparativa de nossos mercados financeiros frente à depressão do valor dos juros na banca internacional etc. Portanto, teve o seu dia de partido social democrata bem-sucedido no continente americano. Em contrapartida, a reforma do Real, feita no governo Itamar Franco, consistiu em um exemplo original de intervenção estatal para debelar a inflação, com efeito similar na melhoria da renda das classes assalariadas.

A outra analogia é a que compara o momento atual com o golpe de 64.

As esquerdas brasileiras, que nunca tiveram presença hegemônica em governo nacional algum durante o período da vigência plena da Constituição de 1946, começaram timidamente a crescer à sombra da democracia do segundo governo [Getúlio] Vargas e da presidência de Juscelino Kubitscheck, durante a década de 1950. Períodos, aliás, permanentemente ameaçados pelo veto militar, com levantes e intervenções diretas das forças armadas em várias ocasiões. Naquele contexto, a posse de João Goulart, impedida momentaneamente por um golpe de estado, nasce de um compromisso com as forças conservadoras, e a sua permanência no poder (sempre precária) não chegou a completar um quatriênio.

Ora, o controle do Poder Executivo pelo PT durou 13 anos, um dos mais longevos situacionismos em nossa história republicana. Durante esse tempo, formulou e executou políticas, investiu, subvencionou, distribuiu recursos, nomeou e demitiu; enquanto transacionava, se compunha e se aliava com uma vasta gama de políticos e partidos convencionais (para não dignificá-los com a denominação de conservadores), muitos dos quais se transformaram em algozes durante o impeachment. Procurar caracterizar-se como um governo indefeso, tal qual o de Jango, constitui mais do que uma impropriedade. É praticamente uma confissão de incompetência.

Portanto, se a primeira analogia subestima a inteligência daqueles de “minha geração”, que pensavam que a política seria um lugar de elaboração de alternativas mais amplas e generosas à sociedade capitalista, a segunda ofende a memória dos que foram testemunhas de 1964.

Em 9 de abril de 1964, o novo regime depois de ter deposto o presidente, governadores, encarcerado centenas de pessoas, espancado e matado outras tantas, baixa um ato legislativo que traz essa fórmula capaz de fazer inveja a Carl Schmitt: “[…] a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma. Ela destitui o governo anterior e tem a capacidade de constituir o novo governo. Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte. Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja limitada pela normatividade anterior à sua vitória”.

Isto sim é um golpe de estado.

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“O Lima Barreto que nos olha” – Beatriz Rezende

Extraído do site da revista Serrote, do Instituto Moreira Salles:

O que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha.

GEORGES DIDI-HUBERMAN

Lima Barreto em sua última passagem pelo hospital (1919)

Noite de Natal de 1919. O escritor Lima Barreto (1881 – ­1922) é levado, delirante, ao Hospício Nacional de Alienados, o antigo Hospício Pedro II que mudara de nome com a República. Recebe um uniforme, na verdade um pijama, é iden­tificado e fotografado.

Por uns bons 20 anos procurei por essa foto, mesmo não sabendo se ela realmente existia. Nunca percebi bem o porquê, mas, como parte de minhas pesquisas sobre o autor, parecia ser preciso ver o registro oficial dessa entrada no mundo da loucura, descrita por ele mesmo no grande momento de sua obra que é o Diário do hos­pício. Talvez porque nunca me recuperara completamente da emoção experimentada ao ler, na Biblioteca Nacional, escrito a lápis, no verso das folhas já usadas que conseguira da dire­ção do hospício, o relato dos três meses que o autor passou entre os loucos, desvalidos ou criminosos recolhidos ao edi­fício que mais se assemelhava a um palácio, na praia da Sau­dade, antigo nome da praia Vermelha, naquele tempo em que o prédio ficava bem em frente ao mar. As referências feitas ao recolhimento em A vida de Lima Barreto,1 preciosa biografia de Francisco de Assis Barbosa, não se mostravam suficientes. Ainda faltavam peças.

Em 2004, depois de acabar o trabalho de organização e comentário do conjunto de crônicas do autor, enquanto a edi­tora preparava os dois volumes de Toda crônica,2 tentei mais uma vez encontrar o livro de registros do hospício no Insti­tuto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no campus da praia Vermelha. Deve fazer algum sentido que o prédio do século XIX, construído para ser o Hospício Pedro II, tenha passado a abrigar em meados do século XX a reitoria da Universidade do Brasil e depois parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituições totais?

Ainda não seria daquela vez que encontraria a prova material do que tinha sido relatado no diário, que me defrontaria com o registro da época, com documentos que se pretendiam, por pertencerem ao mundo da ciência, objeti­vos. Os livros tinham, ao que parece, saído em viagem. Pouco depois, no entanto, uma servidora da biblioteca do Insti­tuto de Psiquiatria, para onde o material tinha sido levado, entrou em contato comigo dizendo que encontrara o que eu procurava. Peças da memória da Psiquiatria, como máquina de eletrochoques, negativos em vidro e os livros de registro começavam a se organizar, ainda bastante precariamente naquele ano, na biblioteca.

Lima Barreto em sua primeira internação, em 1914

Fui correndo, ansiosa, como que atendendo a algum tipo e chamado. E lá estavam, o registro e a foto, que nunca tinham aparecido diante dos olhos de alguém fora da insti­tuição. Por alguma razão, nem mesmo o biógrafo tivera acesso à imagem em suas vastas pesquisas. Em seguida, chamei um fotógrafo, que não só registrou a imagem do interno como, inoculado também pelo que de mágico parecia haver naque­les livros mantidos como secretos, reproduziu outras páginas – incluindo a anamnese feita pelo médico e outros documentos de internação, além da imagem de outros internos, fotos que seriam também importantes para compreendermos o pro­cesso de recolhimento.

Seis anos depois, em setembro de 2010, a pesquisadora Daniela Birman voltou ao mesmo espaço da instituição e con­seguiu encontrar o livro de registro anterior, de 1914, com a documentação da primeira entrada do escritor no Hospício Nacional e a foto dele aos 33 anos.

Completava-se, assim, a parca iconografia de um dos maio­res escritores da literatura brasileira.

NAS OBRAS COMPLETAS, A CONSTRUÇÃO DE UM AUTOR

O reconhecimento em vida da importância do escritor foi, como se sabe, escasso e polêmico. Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado em folhetins do Jornal do Commer­cio entre agosto e outubro de 1911. Em livro só apareceu em 1916, editado pela Revista dos Tribunais, graças à boa vontade e Félix Pacheco e pago pelo próprio autor: “Tomei dinheiro aqui e dali, inclusive do Santos (Noronha Santos), que me emprestou 300 mil-réis, e o Benedito imprimiu-o”.3 Parte do dinheiro fora obtida em empréstimos de agiotas do Ministério da Guerra, onde trabalhava.

Os contos iam sendo publicados em revistas diversas; as crônicas, responsáveis pelo reconhecimento que recebe sobretudo como jornalista, enviadas para jornais diversos. A colaboração no A.B.C., fixa entre 1918 e 1919, foi interrom­pida depois de o semanário publicar um artigo ofensivo aos negros. As crônicas de mais forte teor político frequen­temente eram escritas a convite de editores de publicações menores e efêmeras, como Astrojildo Pereira. Nos últimos anos de vida, manteve uma intensa colaboração para a Careta.

Lima Barreto em 1909, ano de lançamento de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”

Afonso Henriques de Lima Barreto só será mesmo incorpo­rado à chamada história da literatura brasileira, ao elenco de escritores brasileiros tidos como dignos de serem estudados e, assim, ao cânone da literatura brasileira, a partir da publicação, em 1956, pela editora Brasiliense, das Obras completas, orga­nizadas por Francisco de Assis Barbosa com a colaboração de Antônio Houaiss e M. Cavalcanti Proença. Em 1952, Assis Barbosa publicara a primeira edição da biografia, realizada após vários anos de pesquisa.

É importante refazer esse percurso por sua relevância, já naquela época, como método de estudo, como abordagem de uma obra na perspectiva multidisciplinar, hoje reconhecida como fundamental. Ao biógrafo de Lima, historiador de origem, juntaram-se filólogos, críticos literários e jornalistas na leitura e preparação dos textos. O conjunto do que, naquele momento, foi considerado “obras completas” – na verdade, pouco se pôde acrescentar a ele entre descobertas e resgates de textos de lá para cá – abarcava romances (inclusive o inacabado Cemitério dos vivos), contos, crônicas (algumas delas sob a forma de resenhas de livros) e editoriais, mas também escritos de origem diversa, como o Diário do hospício, transcrito do original manuscrito, e o Diário íntimo, com­pilado a partir de cadernetas variadas. Os manuscritos foram encontrados na casa do escritor alguns anos após sua morte, sob a guarda amorosa da irmã.

Vale notar, a propósito, a absoluta convicção de Lima Barreto sobre a importância de sua própria obra. Organizara pessoalmente todo o material, incluindo a listagem dos livros de sua biblioteca – nada acanhada para uma pequena casa de subúrbio, com títulos em inglês e francês – e os amarrados de recortes a que chamou “Retalhos” – reunindo material tirado de revistas e jornais, inclusive os que chegavam a Todos os Santos vindos do exterior.

No processo de legitimação do autor de que aqui tratamos, três aspectos merecem destaque e podem ser ativados como formas desejáveis de pesquisa no campo literário. Primeiro, a noção de arquivo, hoje tão importante para os estudos literários. É do arquivo do escritor que parte a pesquisa inicial e se torna possível a edição dos volumes das Obras completas. Por arquivo de escritor, entendemos hoje, além dos textos literários em si, elementos de uma rede tex­tual mais ampla, registros de contextos discursivos que envolvem produção e recepção, acervo privado e documentos de circulação pública. Fazem parte ainda do acervo fotografias e, em certos casos, objetos e pertences diversos.

Em seguida, o cruzamento de saberes e a troca de metodologias discipli­nares que resultaram no deslocamento de um historiador de seu campo ori­ginal e possibilitaram seu encontro com outros especialistas e intelectuais de atuação profissional diversa todos mobilizados em torno de um mesmo obje­tivo, a produção de um autor, aqui resultado desses múltiplos olhares que se voltaram para os textos.

Finalmente, a concepção tão contemporânea da não hierarquização de gêneros e práticas literárias, um conceito aberto para além dos limites que, durante tantos anos, reduziram o conceito de literatura. Apresentava-se ao público, assim, uma obra em que, como afirma Jacques Rancière, “tudo fala”, abolindo-se hierarquias da ordem representativa.

“Não existem temas nobres e temas vulgares, muito menos episódios nar­rativos importantes e episódios descritivos acessórios”, escreve Rancière. “Porque não há coisa alguma que não carregue em si a potên­cia da linguagem. Tudo está em pé de igualdade, tudo é igual­mente importante, igualmente significativo.”4

Essa forma de pensar a arte, que assume a destruição de categorias, fronteiras e hierarquias, constitui um regime esté­tico definido pelo conjunto de relações entre ver, fazer e dizer. É essa transformação que permite combinações inéditas, a partir da ruptura de um certo número de fronteiras como as que separam as artes entre si, as formas de arte, as formas de vida, a arte pura da arte aplicada, a arte da não arte, o narra­tivo do descritivo e do simbólico. Ao crítico literário, ao pes­quisador, cabe, ao que me parece, sobretudo um trabalho de cartografia que atravessa todas essas formas de manifestação, formando um sistema de possíveis.

Para pesquisadores de gerações posteriores, dentre os quais se destacam Nicolau Sevcenko e Antonio Arnoni Prado, ficou logo claro que era impossível conhecer realmente o escritor, perceber sua importância no quadro da literatura brasileira e na formação mesma da República que vivemos, se não relacionássemos sua obra de ficção a seus outros escritos como as crônicas, diários, registros íntimos.

Essa noção de arquivo, para a qual as pesquisas de Georges Didi-Huberman têm sido contribuição provocadora, se impõe, portanto, como proposta de pesquisa evocando novas tarefas, inclusive as de recuperação, ordenação e classificação nada fáceis entre nós, no Brasil de curta memória. Trata-se de “uma história que já podemos dizer fantasmal”, conforme escreve Didi-Huberman sobre Aby Warburg, “no sentido de que nela o arquivo é considerado o vestígio material do rumor dos mortos”.5

 

UMA TRAJETÓRIA PRECARIAMENTE DOCUMENTADA

Ao menos até recentemente, antes da difusão massiva da fo­tografia digital e de sua circulação nas redes sociais, a situação familiar e econômica de um escritor poderia ser avaliada a partir do seu álbum de retratos. As fotobiografias são, por isso, quase sempre reveladoras: nelas temos o autor criança, no co­légio, ao se formar, casando-se, recebendo prêmios. Cerimô­nias e diversos rituais burgueses revelam origem e formação do escritor, e são mais frequentes quando se referem àqueles que foram destinados a encontrar, sem maiores dificuldades, a fama. A falta desse tipo de fotos pode evidenciar pobreza, dificuldades encontradas, escassez de apoios que costumam alavancar uma carreira. No campo da literatura, se quisermos avaliar a posição de um autor no cânone de uma época, nada melhor do que visitar sua fotobiografia.

Órfão de mãe desde muito pequeno, criado por um pai que cedo enlouquece, não há qualquer registro fotográfico da infância ou da juventude de Lima Barreto, personagem que logo deixa a zona sul da cidade onde nascera, muda-se para um bairro que à época era quase um não-lugar, a Ilha do Gover­nador, para finalmente ir viver a maior parte da vida em uma chácara em Todos os Santos, acessível ao centro da cidade uni­camente pelos trens da Central.

A mais agradável das fotos que se conhece é identificada por seu biógrafo como sendo de 1909, ano da edição de Recor­dações do escrivão Isaías Caminha, primeiro romance do autor que vai a público, impresso em Portugal, também à custa do autor. A imagem é de um jovem simpático, sentado com as pernas cruzadas, um meio sorriso no rosto bem escanhoado, vestindo terno completo, com colete, gravata e colarinho engomado. Quase elegante, não fosse um botão do colete que se abre na altura da cintura.

A foto seguinte, publicada em jornal em 1910, o surpreende, atento e devidamente engravatado, como integrante do júri a chamada Primavera de Sangue, conflito entre estudantes e a brigada policial no largo de São Francisco, que resultou na morte de dois jovens assassinados pelo militar conhecido como tenente Wanderley. A mão no queixo e o rosto erguido e desafiante o distinguem dos demais membros do júri. Da par­ticipação neste e em outros júris, o escritor falará em diversas de suas crônicas.

A terceira e última das fotos até há pouco conhecidas, reproduzida ad nauseam, saiu na edição comemorativa de um ano de A Estação Teatral, publicação com a qual contri­buía com certa regularidade. Em texto veiculado na edição e 15 de julho de 1911, com o título “Alguns reparos”, o autor comenta a edição e a foto: “Dessa forma, não foi possível dar-lhes um medíocre artigo; entretanto, viram meu retrato, não foi? Tirei-o de surpresa, senão teria cortado o cabelo e pedido emprestada uma outra pigmentação para que a cousa saísse mais decente.”6

A essas fotos pouco conhecidas juntam-se algumas caricaturas ou desenhos, inclusive um feito pelo irmão, Carlindo. Das realizadas em vida até as mais recen­tes, como a de Cássio Loredano para os volumes de Toda crônica, variam a representação do cabelo, mais ou menos crespo, e a do nariz, que vai de afilado a exagera­damente largo.

As fotos de Lima Barreto não só são poucas como dei­xam de existir justamente a partir do momento em que começa a se impor, ainda que a duras penas, como escri­tor e como jornalista. É como se houvesse uma desistên­cia da imagem, o que vai ser retomado ao lermos as fotos do hospício.

Se as fotos são escassas, as imagens que o escritor cons­trói de si mesmo são frequentes em crônicas, na corres­pondência e nos diários, mas também nas obras de ficção.7 Nas muitas identificações que faz de si próprio, são quatro os temas dominantes, sem que haja exatamente uma hie­rarquia entre eles.

Constante é a discussão de sua identidade de escritor, inclusive a relação conturbada com o meio literário em que vive. Em crônica de 28 de junho de 1911, afirma: “Eu quero ser escritor porque quero e estou disposto a tomar na vida o lugar que colimei. Queimei os meus navios, deixei tudo, por essa coisa de letras.” E, mais adiante, no mesmo texto da Gazeta da Tarde, escreve: “Não quero aqui fazer minha biografia; basta, penso eu, que lhes diga que abandonei todos os caminhos, por esse das letras; e o fiz conscien­temente, superiormente, sem nada de mais forte que me desviasse de qualquer outra ambição”.8

Desde o início do diário até o final da vida, em tex­tos diversos, com repercussões em sua ficção, aparecem a cor e as discriminações por racismo de que é vítima. “Eu, mulato ou negro, como queiram, estou condenado a ser sempre tomado por contínuo”, anota ele no Diário íntimo. “Entretanto, não me agasto, minha vida será sem­pre cheia desse desgosto, e ele far-me-á grande. […] É triste não ser branco.”9

Visto como consequência das dificuldades objeti­vas da vida e do contraste entre os sonhos e a realidade vivida com sofrimentos diversos, o alcoolismo e seu efeito devastador aparecem desde cedo. No mesmo diário, são os retratos mais dolorosos que de si pinta: “Tinha levado todo o mês a beber, sobretudo parati. Bebedeira sobre bebedeira, declarada ou não. Comendo pouco e dormindo sabe Deus como. Andei porco, imundo. […] Se não deixar de beber cachaça, não tenho vergonha.”10

No canto inferior direito da foto, Lima Barreto, com a mão no queixo, participa do júri da chamada Primavera de Sangue, em 1910

À bebida se liga, assim, o tema da loucura. Ainda que lou­cos frequentem sua ficção – e em especial Triste fim de Policarpo Quaresma –, nesses autorretratos a loucura está associada, com razão, ao alcoolismo.

Lima sempre viveu entre loucos, ele mesmo chegou a dizer isso, o que terá certamente inspirado o interesse e a simpa­tia por esses excluídos. Ainda menino, foi viver no entorno o hospício da ilha do Governador, onde o pai, João Henri­ques, trabalhou por anos, até enlouquecer. A família se muda, então, para a casa de Todos os Santos, onde o pai, sempre emente, morre dois dias depois de Lima Barreto. É assim que o hospício da praia Vermelha surgirá em sua obra anos antes da primeira internação.

Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado em 1911, três anos antes, portanto, de Lima ter sido recolhido pela pri­meira vez ao hospício – em agosto de 1914. Toda a narrativa em torno da internação do personagem merece destaque e impressiona a quantos se dedicam ao estudo do autor, por ser dos melhores exemplos de que, por vezes, é a vida que imita a arte.

É minuciosa a descrição do suntuoso prédio construído para abrigar loucos e outros rejeitados pela sociedade. As escadarias, as estátuas que ladeiam a entrada, as colunas, os azulejos do interior, a tristeza dos internos, o terror mesmo que o ambiente infundia nos que entravam no hospício da praia da Saudade, tudo parece familiar ao autor. Mas ainda não era, de fato.

No romance, é tão assustadora aquela casa “meio hos­pital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janelas gradea­das, a se estender por uns centos de metros, em face ao mar imenso e verde”, que poucos tinham coragem de visitar o major. Não parecerá menos assustadora quando o autor lá der entrada, levado à força.

Chegamos, então, na primeira internação no hospício. Em 1914, Lima Barreto já publicara Recordações do escrivão Isaías Caminha, editara a revista Floreal, escrevera contos como “A Nova Califórnia” e “O homem que sabia javanês” e tinha o Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá pronto. No jornal A Voz do Trabalhador, defendera publicamente o anarquismo em crônica na qual criticava duramente a política brasileira, vendo nos anarquistas os que falavam “da humanidade para a humanidade, do gênero humano para o gênero humano”. Mas nem a fama nem o reconhecimento da crítica tinham chegado.

A primeira página do livro de “observações clínicas” traz a identificação o interno junto com a foto. Quando estive na biblioteca do Instituto de Psiquiatria pela primeira vez, espantei-me com a sequência de fotos de alta qualidade, material que ainda merece pesquisa e estudo, que podem ren­der muito. Cheguei a pensar que a decisão de fotografar os que davam entrada à casa fosse iniciativa iluminada de Juliano Moreira, que dirigiu o hospício por tantos anos. Juntaria, assim, técnica e ciência. Pode até ser, mas folheando o livro logo constatei que a fotografia era instrumento de identificação quase indispensável, já que muitos não sabiam quem eram, ou se atribuíam outras identidades. A foto servia, então, para o posterior reconhecimento do interno.

No registro de Lima Barreto, logo depois do nome, a identificação que se segue é a cor, revelando a importância perversa que se atribuía a essa infor­mação. E a cor anotada é “branca”. Fica aí evidenciado o quanto a questão da cor é discursiva, construída, mais do que natural. A cor branca lançada parece ser uma espécie de cerimônia ou deferência do médico que o recebe diante da informação seguinte, profissão: empregado público. A idade vem corrigida, de 34 para 33 anos. A anamnese é longa, relatando o protesto do interno contra o “sequestro” que sofrera, a afirmação de que tinha dois livros publicados, os comentários sobre autores de sua preferência, como Chateaubriand – e o médico anota o comentário irônico do depoente – “católico elegante” e outros, como Balzac e Taine.

Os tremores constatados, na língua e nas extremidades digitais, confir­mam o diagnóstico lançado na mesma primeira folha: alcoolismo. Consul­tando os diversos livros, constata-se uma recorrência entre a identidade e o diagnóstico. Dentre os recolhidos havia crianças, às vezes tão pequenas que precisavam subir num banco para serem fotografadas. São portadoras de “idiotice”. Os velhos apresentam “demência senil”, as mulheres, quase todas, são histéricas, e os que mais frequentemente recebem o diagnóstico de “alcoolismo” são operários.

Pouco antes da internação, abrindo o diário de 1914 em 20 de abril, Lima anota: “Hoje, pus-me a ler velhos números do Mercure de France. Lembro-me bem que os lia antes de escrever o meu primeiro livro. Publiquei-o em 1909. Até hoje nada adiantei. Não tenho editor, não tenho jornais, não tenho nada. O maior desalento me invade. Tenho sinistros pensamentos. Ponho-me a beber; paro. Voltam eles e também um tédio da minha vida doméstica, do meu viver quotidiano, e bebo. Uma bebedeira puxa outra e lá vem a melancolia. Que círculo vicioso! Despeço-me de um por um dos meus sonhos.”11

Olhemos a foto.

Diante do rosto ainda moço e saudável de Lima Barreto, não sentimos pena. Mesmo chocados – o registro foto­gráfico de uma violência cometida contra alguém choca sempre, mesmo que não seja essa a intenção da foto –, não sentimos comiseração ou dor. É mais provável que partilhemos com o interno de uma raiva surda, impotente. O longo caminho percorrido desde Guaratiba, onde fora recolhido, até a praia Vermelha parece ter curado a bebe­deira. Não há traços de delírio, exceto talvez pelos olhos com dificuldade em se abrir completamente, num olhar sampaco. Mesmo assim, Lima olha firme para a câmera, com os lábios duros. Mais que um paciente, pode parecer um revolucionário diante do pelotão incumbido de fuzilá­-lo. Lembremos do campo semântico que cerca a palavra “câmera”, como mostra Susan Sontag: máquina que aponta e dispara. Mesmo o traje que lhe fora entregue ao recolhe­rem suas roupas tem, na foto, um ar antes de uniforme do que de pijama de hospital.

Na fotografia, o autor que narrara a loucura de Policarpo Quaresma está mais magro e talvez pareça mesmo mais moço do que na imagem divulgada anos antes pela Estação Teatral. Há beleza nesse mulato claro carregado de mágoa contra todos, de raiva pelos que se encontram diante dele. A escura barba por fazer e os cabelos bastante crespos discor­dam da cor branca anotada.

Logo em seguida aos dois meses que passa no hospício, a produção de crônicas sofrerá um intervalo expressivo. Pouco será escrito neste ano, e quando volta a escrever para jornais os temas são especialmente cidade e política nacional. Das humilhações sofridas na ocasião só falará no relato da segunda permanência, feito no diário que man­teve no hospício. Produz, porém, o conto longo, um de seus melhores, “Como o ‘homem’ chegou”, narrativa alegórica de um jovem que tinha a mania de astronomia, trocando a terra pelo céu, passando a se dedicar ao estudo da matemá­tica, dos cálculos, com tal afinco que só podia ser doido. Os homens de juízo decidem que deve ser levado ao hospício. Esse tipo de narrativa, beirando o fantástico, é incomum na obra de Lima.

Outro raro exemplo é o também excelente “Dentes negros e cabelos azuis”. No conto, para transportar o manso Fernando desde Manaus, onde olhava as estrelas, ao hospí­cio da praia da Saudade, no Rio de Janeiro, os “doutores” servem-se de um carro-forte, masmorra de ferro. Por qua­tro anos o carro se arrasta com o homem dentro. Como não havia autorização para abrir a prisão ambulante, o aviso dos urubus é ignorado e o exame do paciente só irá acon­tecer no necrotério.

Na noite de Natal de 1919, Lima Barreto está de volta ao hospício da praia da Saudade. Em 25 de dezembro, os médicos de plantão parecem estar menos disponíveis que os colegas de 1914. O registro é breve e lacônico. A cor é parda e a profissão declarada, “jornalista”. Ser funcio­nário público não adiantara grande coisa na primeira experiência, quem sabe ser jornalista não lhe garanti­ria melhor sorte? De todo modo, em 1918, em razão das sucessivas internações por razões psiquiátricas, fora con­siderado inválido para o serviço público e aposentado. A situação não lhe parecera de todo ruim e, em crônica do início do ano, escreve: “Aposentado como estou, com relações muito tênues com o Estado, sinto-me completa­mente livre e feliz, podendo falar sem rebuços sobre tudo o que julgar contrário aos interesses do país”.12

Olhemos a fotografia colada ao registro, tendo em mente a epígrafe de Georges Didi-Huberman: “Cada coisa a ver, por mais exposta, por mais neutra de aparência que seja, torna-se inelutável, quando uma perda a suporta – ainda que pelo viés de uma simples associação de ideias, as constrangedoras, ou de um jogo de linguagem – e desse ponto nos olha, nos concerne, nos persegue”.13 Persegui­dos e comovidos pela imagem de sofrimento – a imagem nunca é uma realidade simples –, não é difícil imaginar o pote até aqui de mágoas que o interno carregava, e por que vai intitular Marginália ou Bagatelas os livros que deixa organizados reunindo contos e artigos.

O jovem disposto a enfrentar o mundo na internação anterior se fora. É difícil identificar no homem diante do fotógrafo alguém com apenas 38 anos. A roupa de hospital parece mais pobre, indigente. A cabeça se inclina, caída de lado, impedindo o olhar frontal e desafiante de quem resistira ao sequestro policial anos antes. O cabelo está crescido, mos­trando um desleixo anterior ao internamento. Do todo emana um desalento doloroso, abandono, desistência.

Se houvesse uma legenda para a foto, esta seria o regis­tro que faz ao iniciar as anotações do diário do hospício que mantém durante esse período de reclusão, no dia 4 de janeiro, lembrando-se da internação anterior, as duas motivadas pela mesma razão, o delírio causado pelo abuso do álcool: “Estou seguro de que não voltarei a ele pela terceira vez; senão saio dele para o São João Batista, que é próximo”, escreve, refe­rindo-se ao cemitério do bairro carioca de Botafogo.

NO FIM DA VIDA, O OLHAR PARA DENTRO

Difícil ler uma fotografia que nos impacta sem se lembrar de A câmara clara.14 Naquele que seria seu último livro publicado em vida, Roland Barthes ressalta que seu ponto de vista é o de um amador, para quem é impossível tratar da experiência fotográfica “como fotografia-segundo-o-fotográfo”, só dis­pondo de duas experiências: “A do sujeito olhado e a do sujeito que olha”. Nas fotos que analisa, Barthes reco­nhece sempre um punctum, um pormenor que chama a atenção, um objeto parcial. “O punctum de uma fotografia é esse acaso que nela me fere (mas também me mortifica, me apunhala).” E, mais, “o punctum é um suplemento: é aquilo que acrescento à foto e que, no entanto, já está lá”. Na foto de Lima, o punctum é talvez o olhar perdido, recu­sando-se, ao contrário da foto de 1914, a olhar quem o foto­grafa. É para dentro que o interno parece olhar, olha e não vê. É um olhar que não mira adiante, mas olha para dentro, refugiando-se daquela mesma realidade de que obsessiva­mente costumava se ocupar.

O que se vê na foto identificadora é também descrito na curta anamnese: “É um indivíduo precocemente enve­lhecido, de olhar amortecido, fáceis de bebedor, regular­mente nutrido. Perfeitamente orientado no tempo, lugar e meio, confessa desde logo fazer uso, em larga escala, e parati: compreende ser um vício muito prejudicial, porém, apesar de enormes esforços, não consegue deixar a bebida.”15 É dura a observação que se segue: “Indivíduo de cultura intelectual, diz-se escritor, tendo já quatro roman­ces editados, e é atual colaborador da Careta”. A palavra o recolhido ao hospício não merece crédito, e o desco­nhecimento de sua obra pelo médico coloca em dúvida a própria condição revelada de escritor. Em A ordem do dis­curso, Michel Foucault nos lembra que o louco é aquele cujo discurso não pode circular como os outros, não tem verdade nem importância, não pode testemunhar em jus­tiça, embora o pior dos criminosos possa fazê-lo.

Durante suas pesquisas sobre o escritor, Francisco de Assis Barbosa pediu, diversas vezes, informações a quem com ele tivera a oportunidade de conviver. O escritor Ribeiro Couto envia por carta depoimento emocionante sobre Lima Barreto, tão importante que, mesmo longo, merece ser reproduzido.

Meus contatos com ele foram, sobretudo, na Associação de Im­prensa (em frente ao teatro Lírico), na livraria Schettino e na rua, à porta de outras livrarias ou de um botequim. Isso entre 1918 e 1920. (Na Associação de Imprensa o amigo do Lima era o Noronha Santos.) Eu, com 20 anos, tendo lido o Isaías Caminha, Policarpo Quaresma e o Gonzaga de Sá, não podia compreender como aquele grande escritor, de tão puro estilo, tão natural, pre­cisamente o “antimulato” em matéria de estilo, fosse o mesmo “Lima” – “O Lima, não sabe?” – de barba por fazer, chapéu de palhinha encardida, camisa suja e manchada no peito, roupa coçada, mal cheirosa, com morrinha que não se sabia se era de vômitos da véspera ou suor azedo. Como tanta grandeza e tanta pureza podiam viver sob aquela crosta áspera de mulataço ver­melho? A vermelhidão do Lima impressionava-me também; eu ficava sem saber se era álcool ou febre. E, no andar, uma calma perfeita, como para dominar a tendência do cambaleio. “Então, Lima Barreto, como vai?” Na verdade, ele me dava pouca con­fiança, salvo quando estava bêbedo.16

 

Nessa última foto de sua vida, comparada às ante­riores, Lima Barreto traz mais fortes as marcas atribuí­das ao mulato: o cabelo maior está mais crespo, o nariz mais largo, mas os lábios são finos. É como um pardo que, entre delírios, declara ser escritor que o interno é rece­bido. A essa segunda internação, mais longa, documen­tada no diário escrito no hospício, é frequentemente atri­buída uma recepção melhor. No dia seguinte à entrada, é transferido para a seção Calmeil, enfermaria onde fora criado um sistema de open door, ou seja, os pacientes tinham mais liberdade de circular pela instituição, o que foi importante para Lima no uso da biblioteca. No diário, Lima registra a simpatia do diretor, em quem destaca a doçura, a paciência e a simplicidade. Não menciona, porém, que uma das razões da simpatia poderia estar no fato de Juliano Moreira ser, também ele, mulato de origem pobre. Quanto aos outros médicos, lhe parecem todos de “ciência muito curta”, arrogantes. Mesmo o sofisticado Humberto Gotuzzo, introdutor da psicanálise no Brasil, o fez “arrepiar de medo”.

Dentre a correspondência reunida por Chico Barbosa, consta uma carta datada de 1º de outubro de 1952 do então diretor da Colônia Juliano Moreira, instituição que sucedeu ao Hospício Nacional. O racismo implícito nas observações do diretor, 30 anos depois, ao tratar do “caso Lima Barreto”, mostra bem o que o escritor deve ter vivido em 1919. Diz o dr. Heitor Pérez:

Pode o estudioso chegar a interpretação diversa da sua para explicar o “caso Lima Barreto”, deixando de lado o conceito nitidamente adleriano do sentimento de inferioridade (racial, de cor) que o sr. adota, e seguir a exegese freudiana, buscando na impotência sexual de Lima Barreto o “primum movens” do seu fracasso, da sua toxicomania; a doença, o alcoolismo, assim considerando, seria a “cobertura” para mascarar a sua reali­dade: a sua timidez sexual, a sua incapacidade de amar concre­tamente. O sentimento de “cor”, esse ele o superou através da literatura, onde se desforra de várias maneiras, sentimento que leva mesmo a exibir aquilo que é proibido do mulato – uma atitude paranoide (supervalorização dos seus dotes intelec­tuais, egofilia, autojulgamento megalômano, ressentimento etc.). Assim, a interpretação psicanalítica global definiria o bi­fronte Lima Barreto: alcoolismo como “fuga” da timidez, da incapacidade sexual, amorosa, e, literatura, agressiva, irônica, “brutal”, cheia de “charges”, como superação do sentimento de inferioridade étnico-social.

Ao final da carta, a mesma convicção da inferioridade dos não brancos se estende a Juliano Moreira, apesar da admiração que tinha pelo mestre, quando comenta: “Foi o mesmo Juliano, cuja grandeza de caráter e cuja grandeza de espírito resistiram à pobreza, à inferioridade de cor, à doença e ao ostracismo”.17

Ao sair do hospício, pouco tempo de vida resta ao escri­tor, que morre jovem, aos 41 anos. O trabalho como cro­nista, colaborando regularmente para a Careta, se intensi­fica. A combatividade dos textos tratará dos limites a que a noção de pátria pode levar na percepção de quem afirma: “Não sou nacionalista”. A vida no centro da cidade, as articu­lações políticas, o papel do congresso continuam ocupando sua atenção. De sua própria imagem ocupa-se pouco, mas exibe certo orgulho por seu esbodegado figurino.

O que há de novo neste momento em que o abalo sofrido pela saúde provoca frequente confinamento em Todos os Santos é o surgimento de uma simpatia pela vizinhança suburbana anteriormente pouco tolerada. Até mesmo o carnaval começa a ser visto com alguma simpatia. Os bailes e divertimentos suburbanos merecem sua atenção.

O autor tenta recriar ficcionalmente a experiência que vivera no romance Cemitério dos vivos, que fica, porém, inacabado. Talvez tenha preferido deixá-lo assim. Nenhuma ficção narraria o período de internação como o fizeram as anotações redigidas no próprio espaço da dor.

Ao final da vida quer retomar o que teria sido o grande projeto de vida, o Germinal negro. Contenta-se em finalizar o romance Clara dos Anjos.

A primeira versão de Clara dos Anjos é o conto publicado em Histórias e sonhos, coletânea organizada pelo próprio autor em 1920. O romance só sairá como folhetim após sua morte, de janeiro de 1923 a maio de 1924. A primeira edição em livro é de 1948.

De toda a vasta obra de Lima Barreto, Clara dos Anjos, romance que a cada leitura me agrada mais, me parece ser o que mais equívocos provocou. A forma mais livre, mais moderna, mais coloquial, influenciada talvez pela linguagem do jornalismo que praticava intensamente, foi considerada falha de estilo ou rigor. Foi também a que mais fortemente fez surgir preconceitos, alguns ocultos sob a força da inteligência de críticos que, no entanto, não podiam fugir completamente às ideias de seu tempo em relação não apenas ao tema da raça, mas também ao comportamento de mulheres.

A narrativa passa-se, com exceção de um único capítulo, nos subúrbios do Rio de Janeiro, para além dos limites traçados pela linha férrea dos trens da Central. Algumas são áreas mais próximas do centro da cidade, o Méier e o Engenho de Dentro, onde habita uma classe média próxima ao operariado, formada por funcionários públicos ou pequenos negociantes. Em outras, mais distantes, ficavam as moradias de operários, funcionários ainda mais subalternos ou simplesmente aqueles que a modernização do país introdu­zida pela República tornara pobres. É onde Lima Barreto vai morrer.

O final do romance é o diálogo entre “a jovem mulata de porte elegante e sonhadora” e a mãe, que se encerra com a frase: “– Nós não somos nada nesta vida”. Uma despedida.

Muito poderia ter sido feito, mas a morte precoce o surpreende com um colapso quando, deitado, lia a Revue des Deux Mondes. Também de sua des­pedida não haverá qualquer imagem. As fotos do hospício são realmente as últimas.

Essa carência de registro lembra, por contraste, as diversas fotos do enterro de Machado de Assis, em setembro de 1908. Dessas, a mais impressionante é a que registra a saída do corpo da sede da Academia Brasileira de Letras, fun­dada por ele. À porta do Petit Trianon, os acadêmicos acompanham o caixão, circundados pela multidão. A imagem de Euclides da Cunha, ao fundo, com um olhar perdido em outra direção, é um punctum. Transtornado ou enlou­quecido, parecia preparar-se para buscar a morte no ano seguinte.

Morto, Lima Barreto fará a última viagem de trem, deixando o subúrbio para dirigir-se a Botafogo. O caixão terá que parar na estação da Central e dali ser levado para o cemitério de São João Batista, um dos poucos luxos de sua vida. Consta que o empréstimo feito pelos amigos para cus­tear o enterro foi pago com a venda da biblioteca do escritor.

Se não ficaram fotos, fica, ainda uma vez, uma crônica, a de Eneias Ferraz para O País, publicada em 20 de novem­bro de 1922. Mais um documento precioso do arquivo do escritor, texto que vale, certamente, por uma foto.

Ao longo das ruas suburbanas, de dentro dos jardins modestos, às esquinas, à porta dos bote quins, surgia, a cada momento, toda uma foule anônima e vária que se ia incorporando atrás do seu caixão, silenciosamente. Eram pretos em mangas de camisa, rapazes estudantes, um bando de crianças da vizinhança (mui­tos eram afilhados do escritor), comerciantes do bairro, carre­gadores em tamancos, empregados da estrada, botequineiros e até borrachos, com o rosto lavado em lágrimas, berrando, com o sentimentalismo assustado das crianças, o nome do compa­nheiro de vício e de tantas horas silenciosas, vividas à mesa de todas essas tabernas.18

Voltemos ainda uma vez às duas fotos, por tanto tempo desconhecidas, esquecidas, rejeitadas, guardadas talvez em algum carro-forte destinado a transportar loucos. Estiveram elas realmente perdidas por todo esse tempo ou nós é que não as suportamos olhar?

Beatriz Resende é ensaísta e pesquisadora de vasto espectro de interesses. Professora titular da Faculdade de Letras da uFRJ, é autora de Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos (Autêntica, 2015), Apontamentos de crítica cultural (Aeroplano, 2000) e Contemporâneos – Expressões da literatura brasi­leira no século XXI (Casa da Palavra, 2008). Organizou, dentre outras, as cole­tâneas Cocaína, literatura e outros companheiros de viagem (Casa da Palavra, 2006) e Possibilidades da nova escrita literária no Brasil (Revan, 2014).

NOTAS:

  1. Francisco de Assis Barbosa, A vida de Lima Barreto. 8. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.
  2. Lima Barreto, Toda crônica. Organização de Beatriz Rezende e Rachel Valença. Rio de Janeiro: Agir, 2004.
  3. Lima Barreto, Diário íntimo, in: Obras completas, v. xiv. São Paulo: Brasiliense, 1956, p. 181.
  4. Jacques Rancière, O inconsciente estético. São Paulo: Editora 34, 2009, p. 37.
  5. Georges Didi-Huberman, A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto/MAR, 2013, p. 35.
  6. Lima Barreto, Impressões de leitura, in: Obras completas, op. cit., p. 277.
  7. Ver: Antonio Arnoni Prado, “Autorretrato”, in Lima Barreto: uma autobiografia literária. São Paulo: Editora 34, 2012. Nesse texto, Arnoni faz uso não apenas dos trechos de diários e cartas, mas também de obras de ficção.
  8. Lima Barreto, “Esta minha letra”, in: Lima Barreto, Toda crônica, cit., p. 90.
  9. Idem, Diário íntimo, op. cit., p. 52.
  10. Ibidem, p. 193.
  11. Ibidem, p. 171.
  12. “Quem será afinal”, in: Lima Barreto, Toda crônica, cit., p. 450.
  13. Georges Didi-Huberman, O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 2010, p. 33.
  14. Roland Barthes, A câmara clara. Lisboa: Edições 70, 1981.
  15. Lima Barreto, Diário íntimo, op. cit., p. 52.
  16. Coleção Francisco de Assis Barbosa, Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Agradeço a Cristina Antunes pela ajuda gentil e competente na pesquisa e por disponibilizar as cartas aqui citadas.
  17. Documento da Coleção Francisco de Assis Barbosa, Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.
  18. Crônica de Eneias Ferraz que faz parte da coleção Lima Barreto da Fundação Biblioteca Nacional e é citada por Francisco Assis Barbosa em A vida de Lima Barreto, op. cit., p. 359.

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“Entre os mais ricos, Bolsonaro lidera corrida presidencial” – Fernando de Barros e Silva

Texto de Fernando de Barros e Silva, diretor de redação da revista piauí:

Primeiro, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) parabenizou Eduardo Cunha pela condução exemplar dos trabalhos. Depois, antes de votar a favor do impeachment, homenageou a memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o torturador que chefiou o DOI-Codi, cuja figura se confunde com o capítulo mais sórdido da ditadura militar. Apesar da concorrência de tantos canastrões fervorosos a discursar na Câmara, ninguém conseguiria ser mais boçal. O troféu da abjeção é de Bolsonaro.

Sim, conhece-se o personagem. Tão espantosa quanto o que ele é capaz de dizer talvez seja a sua projeção pública crescente. Tome-se o Datafolha realizado este mês sobre a sucessão presidencial de 2018. Em todos os quatro cenários pesquisados, Bolsonaro aparece em quarto lugar, oscilando entre 6% e 8% das intenções de voto, ao lado de Ciro Gomes (PDT). Está atrás de Marina e Lula (empatados na liderança) e do candidato tucano (Aécio, Serra ou Alckmin).  Um político abertamente fascista com 8% das preferências para a Presidência da República não é trivial, mas custa acreditar que ele possa ir muito além disso.

Passou despercebido, no entanto, o dado verdadeiramente chocante da pesquisa. Foi o cientista político André Singer quem me alertou para o fato de que Jair Bolsonaro hoje é o candidato preferido da parcela mais rica do país. Sim. Está no Datafolha: entre os que têm renda familiar mensal superior a 10 salários mínimos (apenas 5% da população do país), Bolsonaro lidera a corrida presidencial.  Num dos cenários, chega a ter 23% das preferências dos eleitores mais aquinhoados. Lula, o segundo colocado nessa faixa de renda, tem 13% dos votos. Na outra ponta da pirâmide social, entre os que ganham até dois salários mínimos, Bolsonaro tem 4% dos votos. O contraste entre a aceitação de Bolsonaro na elite econômica e no povão dá o que pensar – além de ser um soco no estômago (para usar uma imagem que deve agradar aos eleitores do deputado) dos que gostam de dizer que pobre é massa de manobra e não sabe votar.

No quarto cenário pesquisado, quando o Datafolha inclui o nome de Sergio Moro entre os presidenciáveis, Bolsonaro ainda assim mantém a dianteira, com 15% entre os mais ricos (contra 13% do juiz).

Observando-se o recorte dos níveis de escolaridade, Bolsonaro figura em segundo lugar entre os que têm curso superior, com 15% das intenções de voto. Está à frente de qualquer dos nomes tucanos e atrás apenas de Marina.

Tudo isso é evidentemente um retrato do momento. De um péssimo momento. É também um sintoma do caldo de cultura que está ganhando corpo no país. Jair Bolsonaro é hoje o presidenciável preferido de parte expressiva da elite brasileira – apenas isso. Como disse Eduardo Cunha ao votar: “que Deus tenha misericórdia dessa nação”.

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“Na mira do trote” – Denúncias de violência entre estudantes

A matéria é de Malu Delgado e foi publicada na revista Piauí de fevereiro de 2015.

A Teodoro Sampaio é uma rua da Zona Oeste paulistana, com trânsito pesado e comércio variado. À medida que se sobe em direção à avenida Dr. Arnaldo, as cadeiras e os sofás das vitrines são substituídos por jalecos, sapatos brancos, máscaras cirúrgicas e outros itens do vestuário médico. A área de confluência da Teodoro com a Dr. Arnaldo – e desta com a avenida Rebouças – abriga o Hospital das Clínicas, o Instituto Médico Legal, o Instituto do Coração e a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

A “Casa de Arnaldo”, como é conhecida a FMUSP, foi presidida pelo médico Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho de 1913 a 1920. Primeiro diretor da faculdade, o dr. Arnaldo tornou-se o maior símbolo da instituição. Todo início de ano, 175 novos estudantes ingressam em um dos mais concorridos e conceituados cursos de medicina do país. No vestibular de 2015, foram 14 200 inscrições tendo a FMUSP como primeira opção – 81 candidatos por vaga. O currículo exigente e a necessidade de dedicação integral podem ser amortecidos se os alunos morarem nas proximidades da faculdade.

No segundo semestre de 2014, dois anos depois de ter iniciado o curso, Ana Luiza Cunha montou uma espécie de república estudantil. Divide um apartamento com Augusto Ribeiro Silva, a poucos quarteirões da escola. No começo, Allan Brum de Oliveira, hoje considerado residente honorário, chegou a morar com eles, mas o dinheiro era curto e o rapaz voltou para a casa da mãe, na Penha – um trajeto de 21 quilômetros que pode durar mais de duas horas, dependendo do trânsito. Nenhum dos três se vê como “filho de Arnaldo”. Ainda que a poucos metros da instituição, estão cada vez mais distantes da escola que frequentam.

No 5º andar de um prédio antigo, o apartamento em que vivem espelha o típico caos estudantil – plantas esturricadas, livros espalhados por toda parte. Quando cheguei lá numa manhã de janeiro, eles haviam acabado de despertar. Os rostos estavam inchados e os cabelos desgrenhados. Augusto se prontificou a coar um café.

 

Desde o final de 2014, a imagem da tradicional instituição acadêmica vem sendo abalada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada na Assembleia Legislativa, com o propósito de investigar violações de direitos humanos em universidades paulistas. Ficou conhecida como “CPI do Trote”. Até o final de janeiro, 21 estudantes já haviam prestado depoimento. Só da FMUSP foram convocados a depor 47 alunos e ex-alunos. Relatos de agressões físicas em trotes misturam-se a ocorrências de assédio moral e sexual, além de casos de estupro em festas de recepção aos alunos. Meses antes, no final de agosto, uma estudante da Faculdade de Medicina da USP denunciara ao Ministério Público de São Paulo ter sofrido um estupro em 2013. Abriu-se um inquérito civil em seguida. “A partir daí, vários alunos decidiram contar suas experiências pessoais”, explicou o promotor Lister Caldas Braga Filho.

Os casos relatados são de violência sexual, homofobia, machismo e agressões físicas e morais. O inquérito em curso na Promotoria de Direitos Humanos – Área de Inclusão Social investiga até o momento apenas violações na Casa de Arnaldo. Diante dos depoimentos à CPI, o promotor vê a possibilidade de ampliar a atuação do MP: “Nada obsta a instauração de outros procedimentos para a apuração de novas denúncias, relativas a outras faculdades.” O trabalho da promotoria poderá levar a investigações policiais dos estudantes citados como agressores.

O estardalhaço criado pela atuação do Ministério Público já havia instado a Assembleia a agir antes mesmo da instauração da CPI. Em novembro, a Comissão de Direitos Humanos, presidida pelo deputado Adriano Diogo, do PT, organizou três audiências públicas sobre o tema. Os abundantes relatos de poucos alunos dispostos a contar o que veem e vivem nas universidades foram  tão chocantes que o deputado, derrotado na eleição, buscou apoio até mesmo entre adversários políticos para criar a CPI em pleno recesso parlamentar. Por acordo, antes de saírem de férias os deputados aprovaram previamente requerimentos para convocação de 83 estudantes, ex-alunos e dirigentes de instituições de ensino. A CPI segue seu curso quase sem plateia política, sob o comando de Diogo. Ainda que os depoimentos estejam sendo tomados em sessões sem quórum, com a presença de no máximo quatro dos nove integrantes da CPI, ela tem tirado a tranquilidade de reitores. As histórias de trotes no estado de São Paulo não diferem muito das demais faculdades do país.

O descaso do Parlamento paulista pela CPI – que será concluída com o fim dos atuais mandatos, em 14 de março – e a precariedade com que funciona nas férias dos deputados põem em dúvida os efeitos práticos que poderá produzir. Ainda assim, a romaria de docentes convocados a depor sobre o tema vem pondo uma inatingível academia na mira de artilharia pesada. Maculadas, as universidades, em especial a USP, anunciaram ações contra os trotes e abriram sindicâncias para apurar as denúncias.

É nos coletivos de minorias (LGBT, feministas e negros) em construção nas universidades que os estudantes têm encontrado amparo, sobretudo após a onda de hostilidade que enfrentam ao tornarem públicas as denúncias. O coletivo feminista Geni, que Ana Luiza ajudou a fundar, articulou-se na faculdade depois que uma denúncia de violência sexual foi tratada com descaso pelas autoridades acadêmicas. Esse grupo já ouviu relatos de nove estupros ocorridos entre 2006 e 2014 na FMUSP.

 

Imagens de jovens com o corpo pintado e os cabelos raspados, historicamente associadas ao trote universitário, revestem-se de uma candura quase angelical diante dos relatos de depoentes na CPI. Muitos desses depoimentos foram colhidos em sessões secretas. A piauí acompanhou três delas, com o consentimento das vítimas.

À exceção de dois ou três termos, como bixo e pedágio, as diferentes práticas do trote compõem um glossário cujo significado costuma ser conhecido apenas de universitários e docentes:

Bixo: estudante recém-chegado, do sexo masculino.

Bixete: nome dado às mulheres calouras.

Pascu ou pasta: ritual de passar pasta de dente no ânus do novato; às vezes emprega-se pimenta.

Rancho: mistura de comida estragada e vômito – prática muito comum em Piracicaba, Sorocaba e cidades com repúblicas famosas e tradicionais – que os recém-admitidos são obrigados a comer em festas de boas-vindas. A gororoba é ingerida com bebidas da pior qualidade, de altíssimo teor alcoólico. Os novatos comem até vomitar, e o vômito de cada um vai se somando ao rango infecto, oferecido ao próximo da fila.

Mastiguinha: comida que vai da boca do veterano para a do calouro.

Kossucos: misturas alcoólicas coloridas, de composição misteriosa.

*Ice on the balls: prática de encher de gelo cuecas dos novos estudantes.

Funça: imposição de trabalhos diversos aos novatos, incluindo a faxina das casas dos veteranos; ato compulsório no 1º ano.

Pedágio: coação a pedir dinheiro nas ruas; diante dos veteranos, os novatos, muitas vezes quase nus, se ajoelham e recebem cerveja na cara, latinhas (vazias ou cheias), e por vezes até fezes e urina.

Sequestro: ritual de colocar o estudante recém-chegado numa sala, nu, e obrigá-lo a encenar posições sexuais, ou segurar frutas entre as nádegas.

Mocós: facilidades que o estudante novato poderá obter no futuro; regalias concedidas a quem viveu anos sob um pacto silencioso.

Há ainda práticas recorrentes sem nomes consagrados. Um ex-estudante de agronomia contou à CPI ter sido vítima de aplicação de agrotóxicos na pele, rito que disse ser comum na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). É praxe dar apelidos pejorativos aos novatos e às turmas. A estudante Ana Luiza contou à CPI que, na sua semana de recepção, as garotas recém-chegadas, sentadas na entrada da faculdade, foram obrigadas a gritar a sílaba “bu”. De pé, aos pulos, os veteranos as cercaram, berrando a mesma sílaba: “Bu, bu, bu, bu, bu.” Entoavam então o refrão: “Buceta eu como a seco; cu eu passo cuspe; medicina só na USP.”

Quando o assunto vem à tona, as universidades reagem protocolarmente, dizendo que o trote foi abolido. Mas dos depoimentos dos estudantes emergem rituais abjetos. O trote não é, necessariamente, aplicado na semana de recepção, quando os olhares do corpo docente estão mais atentos. No caso da medicina, por exemplo, os estudantes podem passar os primeiros meses na universidade incólumes. No 2º ano, quando já são membros de algumas associações estudantis da faculdade, os abusos acontecem. A repetição dessas práticas ao longo de anos leva a crer que sejam rituais enraizados na cultura universitária.

 

Augusto trouxe quatro xícaras desemparelhadas e uma garrafa térmica, dispondo-as na estante da sala para que cada um se servisse. Além dos dois moradores, também estava presente Allan, o ex-inquilino que tem passe livre para dormir no apartamento. Conversamos no dia seguinte a seu depoimento à CPI. Ele havia passado duas noites consecutivas em claro. Depois de falar aos deputados, seguiu para um bar na esquina da república com um grupo de amigos – sobraram poucos, todos igualmente envolvidos nas denúncias de abusos. Tomaram algumas cervejas e depois subiram ao apartamento para continuar a conversa. O café vinha a calhar.

As histórias dos dois rapazes se cruzam. Ambos pertenceram ao Show Medicina, tradicional espetáculo organizado por veteranos do curso, que existe desde 1944. Também foram membros da Atlética (Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz, a AAAOC), clube esportivo gerido por estudantes mais velhos, localizado a poucas quadras da faculdade. Essas duas instituições foram citadas em relatos de violações aos direitos humanos.

No primeiro vestibular que prestou, Allan entrou em psicologia na USP. Largou o curso depois de duas semanas. Paulista, morador da Zona Norte, batalhou para ganhar bolsa integral num cursinho. Só passou para medicina no segundo vestibular. A semana de recepção, em 2012, transcorreu sem traumas. “Depois da morte do Edison não tem mais trote quando você entra. Fui bem tratado.”

A morte à qual Allan se referia é a de Edison Tsung Chi Hsueh, que se afogou em 1999 na piscina da Atlética. Na época, o delegado responsável pelo caso descartou morte acidental e suicídio. Estudantes fizeram denúncias anônimas sobre o trote violento daquele dia. A família contou que o rapaz não sabia nadar. A ação penal contra quatro estudantes apontados como os responsáveis pela morte de Edison foi trancada pelo Superior Tribunal de Justiça em 2006 por falta de provas. O Ministério Público Federal recorreu, mas em junho de 2013 o Supremo Tribunal Federal convalidou a decisão do STJ. Nenhum estudante foi punido.

A tragédia levou a USP a divulgar uma portaria em abril de 1999, dois meses após o corpo de Edison ter sido encontrado: “Não será tolerado qualquer tipo de manifestação estudantil que cause, a quem quer que seja, agressão física, moral ou outras formas de constrangimento, dentro ou fora do âmbito da universidade.” Tais atos podem ocasionar expulsão ou suspensão, reitera a norma.

Questionada sobre quantas sindicâncias para apurar violências abriu na última década, a Faculdade de Medicina da USP forneceu a piauí dados a partir de 2011. Nos últimos quatro anos a faculdade instaurou sete sindicâncias – quatro sobre abusos sexuais –, sendo que cinco dessas investigações começaram no ano passado, quando a imprensa passou a divulgar os casos que chegaram ao Ministério Público. Não há registro na faculdade de nenhuma expulsão ou suspensão por casos de violência.

O primeiro trote no Brasil data de 1831, com registro de morte de um estudante de direito em Olinda, Pernambuco, a facadas. Filhos de oligarcas reproduziam aqui práticas comuns em Coimbra e outros centros europeus. Trotes foram denunciados já no século XV: em Heidelberg, na Alemanha, os calouros eram obrigados a comer fezes. Mais de cinco séculos depois, a brincadeira parece ainda não ter terminado. No ano passado, Barack Obama pediu ao Departamento de Educação que estabelecesse uma vigilância permanente nas universidades. O objetivo principal é acompanhar se denúncias de violências, sobretudo sexuais, estão sendo apuradas. Há hoje mais de 80 instituições acadêmicas na mira do governo americano.

 

Objetivo e autocentrado, Augusto entrou na universidade aos 17 anos. Natural de Santos, passou a adolescência vendo os pais se desdobrarem para garantir seu estudo em escolas particulares. No primeiro vestibular, para engenharia mecânica e naval na USP, em 2009, teve aprovação imediata. No entanto, preferiu o Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro, confiando que o soldo lhe daria independência financeira. Lá, foi submetido a um “processo de adaptação” de humilhações diárias, exercícios físicos extenuantes e privação de sono. Suportou por um ano. Ao voltar para Santos, conseguiu bolsa num curso pré-vestibular. Em 2011, estava na FMUSP.

Quando fala, Augusto tem o hábito de estalar os dedos e em geral dirige o olhar para o chão. Disse que sempre relevou as violências que sofreu na academia militar. “Não me afetavam, passei indiferente pelos trotes.” O primeiro trote na medicina ocorreu no “Churrasco da Invasão”, promovido pela Atlética.

Todos os anos a diretoria do clube convida os calouros para um evento de confraternização. O nome oficial é Churrasco da Diretoria. Os dirigentes da Atlética entram na sala dos calouros durante as aulas e fazem o convite, enfatizando que é tudo de graça e pedindo que os estudantes não falem sobre a comemoração com seus pais. Até a morte de Edison, o evento ocorria na Atlética, mas a comoção nacional fez com que a USP impusesse restrições às festas. Os estudantes transferiram as boas-vindas para locais clandestinos. Em ônibus fretados, os calouros partem com destino ignorado. Em geral desembarcam em chácaras próximas da capital, e lá ocorrem trotes mais pesados.

À meia-noite, veteranos da escola aparecem de surpresa no local, criando um clima de tensão. Os novatos são jogados na piscina. Augusto lembrou: “Era uma noite muito fria e eu não consegui ficar na piscina. Foi em Cotia. Tudo é feito na surdina desde a morte do Edison. Saí da água e chegou um veterano, falando: ‘Cara, você é veado?’ Fiquei meio ofendido com isso.” O entrevero terminou num bate-boca, sem agressão corporal.

O tipo físico de Augusto virou motivo de chacota. De pele morena, cabelos lisos pretíssimos e nariz pronunciado, parece ter ascendência indígena. Parte de sua família é de imigrantes portugueses, parte veio do Rio Grande do Norte. Desde o Churrasco da Invasão, ele virou “Léo Moura”, referência ao jogador do Flamengo, negro. Ele quis ir ao churrasco para se integrar à Atlética: “Na escola, sempre fui um dos poucos não brancos, e isso se repetiu na USP. Precisava me integrar.”

Augusto entrou para a Atlética no 1º ano, no atletismo. “É a parte boa. Não te agridem, não dão apelidos. Só fazem a cobrança esportiva.” Depois migrou para a equipe de handebol, na qual treinou outros dois anos. Tornou-se diretor de modalidade (DM), e aí sim sentiu a violência de perto. DMs são estudantes que ambicionam ocupar cargos de confiança na Atlética, e por isso têm a lealdade testada no rito do pascu. “Esqueci de comprar uma Coca-Cola, para uma social do time, e eu e dois DMs levamos pasta naquele dia. Quando você é DM está sujeito a violências. Não é mais calouro, então não é mais considerado trote. Esse é o problema da palavra trote. A violência não precisa ser num ritual de recepção.”

 

No dia do pascu, o DM é conduzido a uma sala da Atlética. Estão presentes os alunos do 5º e do 6º anos que foram dirigentes do clube e os internos (estudantes do último ano da graduação que estão no internato, estágio obrigatório) que fazem parte da associação. Só aplica pasta quem já foi submetido ao mesmo rito. Novato na turma, o DM abaixa as calças e se deita de bruços numa mesa. Os futuros médicos simulam um procedimento cirúrgico. Há sessões em que usam lençóis cirúrgicos e luvas, roubados do Hospital das Clínicas.

Para ilustrar a prática, Augusto mostrou um vídeo. Um DM que havia se rebelado foi submetido a um ritual mais violento do que o usual, filmado com o intuito de amplificar a humilhação. Em vez de dentifrício, esfregaram pedaços de pizza em seu ânus. Antes, recebeu fortes tapas nas nádegas e nas costas, enquanto todos os presentes gritavam, como se participassem de um rito tribal.

Augusto disse que ficou “puto” após a primeira pasta. Porém, como de costume, relevou. “Muita gente encara isso como um processo inclusivo, mas não é.” A segunda sessão de pascu ocorreu meses depois. Alegaram que ele se atrasara para um ensaio, e havia chegado com olheiras e as mãos sujas de tinta – na época ele trabalhava como cenógrafo do Show Medicina. O segundo pascu foi difícil de relevar: “Fiquei revoltado, achei que não teria que passar por isso de novo.” E mais: ele se recusava a aplicar pasta nos colegas. “Comecei a reclamar muito e deixei de ser considerado da equipe.” No 4º ano de curso, abandonou a Atlética.

O rapaz tinha um histórico escolar exemplar. No 1º ano de medicina, tirou boas notas. A partir do 3º, começou a beber compulsivamente, as notas pioraram. Hoje, apático, sente-se “sem vontade de fazer as coisas”. Acredita que está deprimido, mas diz ter “fobia de remédios psiquiátricos”. Pegou DP (dependência) de propósito em algumas disciplinas para atrasar o curso. Seu objetivo é ter aulas na mesma turma em que estarão alguns dos alunos que, como ele, denunciaram abusos.

 

O primeiro trote de Allan Brum de Oliveira também foi no Churrasco da Invasão, em 2012. Também foi jogado na piscina. Os alunos já estavam dentro da água quando os veteranos começaram a jogar lança-perfume, atingindo seus olhos. Sofreu uma queimadura na esclera, tecido fibroso externo que reveste o globo ocular. Outro calouro teve queimadura em torno do olho.

O jovem conseguiu sair da piscina e, tateando o chão, ajoelhado, encontrou uma pia. A ardência era insuportável, ele começou a jogar água nos olhos. Foi só então que um diretor da Atlética o acudiu e foi procurar soro fisiológico. Ele e o outro calouro com queimadura nos olhos foram levados a São Paulo de madrugada, mas não chegaram a ir para o hospital. Allan dormiu na casa de um diretor da Atlética. “Acordei com os olhos cheios de pus e me encaminharam ao oftalmologista.” Teve que tomar antibiótico por duas semanas.

Allan se integrou à Atlética logo no início do curso. Treinava três modalidades esportivas. No segundo semestre, interessou-se pelo Show Medicina.

O Show Medicina, criado na década de 40 pelo então estudante Flerts Nebó – médico ainda vivo, hoje com 94 anos –,teve origem quando um estudante foi à escola com um saxofone e fizeram troça sobre o instrumento. Divertiram-se tanto que pediram autorização ao diretor para usar o teatro. Nos encontros, faziam piadas sobre os professores. Foi então que surgiu o espetáculo, que aborda a rotina médica de forma caricatural.

O show ocorre em outubro, mas os ensaios começam em agosto. Coordenado pelos alunos do último ano, dele participam apenas estudantes do sexo masculino: mulheres não entram. Como não podem encenar, elas ficam na “costura”, responsáveis pela confecção das fantasias dos “estrelos”, como são chamados os veteranos. É um espetáculo essencialmente masculino.

 

Allan foi um dos dez calouros que, em 2012, passaram na seleção para participar do show. O exame de admissão consiste numa simulação do vestibular, uma prova escrita com perguntas sobre filmes e obras literárias. “É uma zoeira. Depois eles rasgam as provas, te humilham, te fazem beber muito.” Terminada a prova escrita, os postulantes são conduzidos ao teatro da universidade, no escuro, e lá são submetidos ao trote. “Te mandam ficar pelado, jogam bebida em você. No meu ano teve uma simulação de estupro.” Os veteranos que fazem parte do show encenam esquetes no meio da baderna, um espetáculo improvisado.

Ao final, os holofotes se acendem e os admitidos recebem os parabéns. Agora são do Show Medicina. No total, cerca de 120 estudantes de medicina do 1º ao 6º anos fazem parte do show. No 1º ano, os calouros não participam do espetáculo, cuidam apenas da limpeza. Logo no primeiro dia são avisados de que é segredo de Estado o que se passa ali. Quem romper o silêncio estará condenado ao “suicídio social”, termo citado de forma recorrente. Para convencer os novatos a se submeterem ao pacto de silêncio, os veteranos dizem que dedos-duros serão condenados à exclusão na universidade. Terão dificuldades de convívio social, não serão convidados para as festas, poderão ser vetados em residências médicas e estarão sob risco de forte hostilidade na época do internato, o estágio obrigatório em hospitais e postos de saúde, no último ano do curso.

A partir do 2º ano em que participa do Show Medicina, o estudante deixa de ser calouro. É autorizado a abandonar as tarefas de faxina e pode entrar em outros grupos. Allan se integrou ao coral e ao balé. Vieram outros trotes. O do coral ocorre sempre no 4º andar da faculdade. O aluno é “sequestrado”, colocado numa cadeira e obrigado a ingerir bebida alcoólica em grande quantidade, o dia inteiro, sem trégua. Alguns relatos mencionam episódios em que os veteranos introduzem a bebida goela abaixo de calouros já tão embriagados que não conseguem erguer a mão. Esses trotes terminam frequentemente em quedas, acidentes e desmaios. Allan teve traumatismo cranioencefálico e quebrou um dente molar. Acordou no Hospital das Clínicas quando fazia uma tomografia. Viu colegas quebrarem costelas, dentes, cóccix e romperem ligamentos dos joelhos.

Augusto também passou pelo mesmo ritual. Foi amarrado na cadeira. “Disseram que eu estava violento.” Com as mãos atadas, teve sorte de não estatelar o rosto no chão. Em outro sequestro, do grupo de balé, Allan e outros dois jovens ficaram nus e foram obrigados a simular posições sexuais. “Era performático, encarei como brincadeira.” Hoje, quando pensa no fato, acha “uma bosta”. “Eu sempre ficava com raiva por dentro. Eram uns filhos da puta.”

No 1º ano em que integrou o show, Allan foi apresentado ao SS Black-Tie, o grupo incumbido do Social do Show, daí o sugestivo SS. Na terceira semana de ensaio, os veteranos dizem aos calouros que eles irão jantar no Restaurante Fasano com os “sapos”, renomados médicos que já passaram pelo show. Allan se empolgou. Quebrou o silêncio e revelou à mãe que naquele dia iria a um restaurante muito chique. “Eu era um idiota.”

Os dez calouros embarcaram em carros de um grupo seleto de veteranos e foram levados a um motel na rodovia Raposo Tavares. Chegando lá, prostitutas os esperavam. Os veteranos protagonizaram relações sexuais em público. Aos calouros, a participação na suruba é facultativa. Allan se recusou. Augusto passou pela mesma situação – e, envergonhado, confessou que não resistiu: como questionavam sua masculinidade na escola, viu na ocasião uma oportunidade de exibi-la.

Allan acredita estar com depressão. Seu desempenho acadêmico foi afetado nos últimos anos. “Pensei que quando eu estivesse no 6º ano eu poderia abolir o SS, ou abolir uma prática de trote, que quando eu fosse veterano eu poderia mudar aquilo. Hoje me dou conta de que sofri sérios abusos. Na época, não percebi.”

 

O Show Medicina é uma pessoa jurídica, responsável por suas próprias ações. Suas atividades, financiadas por médicos que já integraram o espetáculo, são de responsabilidade de seus membros. “A diretoria [da FMUSP] não tem conhecimento do conteúdo dos espetáculos, não assiste aos shows, tampouco os docentes participam”, esclareceu a direção da faculdade quando questionada sobre as violências sofridas por alunos.

A piauí fez contato por telefone com o estudante Erikson Augusto Eckert Hoff, do 4º ano, eleito para coordenar o show de 2015. Recebi dele um torpedo após ter deixado uma mensagem na secretária de seu celular. Em resposta a dez questões que lhe enviei por e-mail, perguntando sobre as práticas relatadas por Allan e Augusto, ele foi lacônico: “No que diz respeito à minha gestão, assumo o compromisso de coibir qualquer excesso ou violação aos direitos humanos. Mudanças estão sendo debatidas internamente entre todos os participantes do show (mulheres e homens) e também junto à direção da faculdade.”

A diretoria da Atlética se pronunciou por intermédio de seu vice-presidente, Lucas Severo Pecorino. Num telefonema, depois de informar que o presidente Diego Vinicius Santinelli Pestana estava fora do país, ele concordou em responder por e-mail, em nome da associação. Pecorino afirmou que nunca foi submetido ao pascu, tampouco o aplicou em algum colega. “A AAAOC, como instituição, nunca compactuou com essa prática, mas assume a limitação de poder da diretoria no controle das ações de todos os seus participantes.” Sobre o Churrasco da Invasão, explicou que “não passa da chegada inesperada dos veteranos à confraternização”.

Pecorino admitiu que episódios de trote ocorriam com mais frequência antes da trágica morte de Edison Hsueh. “Desde que entrei na universidade, nunca sofri nenhum tipo de trote.” Insistiu que a faculdade e suas instituições lutam “há anos por um ambiente acolhedor e livre de abusos e violência”. Admitiu que a direção do clube soube de um caso de estupro, em 2011, e tomou “todas as providências cabíveis”. As atuais denúncias seriam sinal de que “há algo errado e isso precisa ser investigado”. Mas fez um desabafo: os meios de comunicação generalizam os fatos e a imagem da Atlética é atingida indevidamente, pois há uma diferença entre “condutas individuais e práticas institucionais”. “A AAAOC repudia todo e qualquer tipo de trote ou violação dos direitos humanos e nunca adotou qualquer conduta institucional nesse sentido.” Pecorino finalizou dizendo que a apuração dos fatos é de interesse comum, tanto da Atlética como das vítimas que fizeram as denúncias.

 

“Me conte o que você sabe”, pediu o médico Drauzio Varella quando cheguei a seu consultório numa tarde de janeiro. O termômetro próximo ao Hospital Sírio-Libanês marcava 38 graus centígrados. Apesar do calor extenuante, ele vestia camisa social amarela de mangas compridas, combinando com o tom da gravata. Educadíssimo, pediu desculpa por uma leve tosse, provocada pelo ar-condicionado.

Um vídeo gravado por Drauzio em 2014 já havia sido exibido em três sessões da CPI do Trote. Nele, o médico formado pela USP em 1967 dizia que se sentira envergonhado ao tomar conhecimento de estupros e violências na faculdade. “O trote está por trás de tudo. É no trote que os veteranos se impõem e colocam os calouros numa situação de inferioridade. Isso acaba perdendo o limite e vai até onde for parar a imaginação do imbecil que está aplicando”, me disse em seu consultório.

Drauzio Varella foi presidente do Show Medicina em 1964, ano do golpe militar. Lembra-se com detalhes da tensão do espetáculo, quando os estudantes estavam sob ameaça de prisão caso fizessem piadas com “autoridades militares constituídas”. Irreverentes, os jovens ignoraram o risco. Ninguém foi preso. Foram aplaudidos de pé. O doutor participou do Show Medicina do 1º ao 6º anos de faculdade. Considerava o grupo uma “fraternidade de amizades duradouras, que de alguma forma se protegia”. Não havia “vestibulares” no show e os calouros, se quisessem, poderiam ser “estrelos”. Ele reconhece que “havia um machismo evidente”, mas diz que naquela época “nos ensaios se falavam palavrões, se faziam as piadas mais abjetas, e aí a presença de mulheres poderia inibir”. Considera a interdição feminina no século atual “absurda”.

Drauzio contribuiu até 2014 para a realização do show. Há mais de vinte anos não assiste a nenhum, depois de perceber que haviam se transformado numa “coisa horrível, bagunça de moleques”. “Mas continuei assinando o Livro de Ouro do Show, porque fazia parte da tradição. A última vez foi no ano passado.” O médico afirmou que do seu bolso “nunca mais” sairá um tostão. O tesoureiro do show passa todo mês de agosto por consultórios de conceituados doutores para recolher doações. Geralmente os médicos dão 500 ou mil reais. Quantos médicos? “Nossa, são muitos.” A reação mais indignada de Drauzio Varella surgiu quando lhe perguntei sobre o SS Black-Tie. “E isso, o que é?” Ao saber da participação de prostitutas no evento, não se conteve: “São um bando de boçais. E o dinheiro vem de idiotas como eu.”

O médico afirma que não sofreu trote. Só passou pela ameaça inocente de ter que pagar uma conta de calouros no bar, o que não se concretizou. Ele diz ouvir de colegas que as denúncias de violências ganharam repercussão ampla apenas por terem ocorrido na USP. “Lógico que a repercussão é maior. E daí? Se eu cometo um erro médico no Sírio e morre um doente, a repercussão vai ser maior do que se for num hospital de Caieiras.” Ponderou que algo estranho se passa com parte da elite estudantil do país. “É essa coisa de entrar na Faculdade de Medicina e achar que pode qualquer coisa, que está acima da lei – não é porque o cara estudou nas melhores escolas e entrou para a USP que ele pode cometer um crime.” Diante dos casos de estupro, foi categórico: “Se alguém foi estuprado, tem que chamar a polícia e prender o agressor.”

 

A estudante de medicina Marina Pickman, de 24 anos, prestou depoimento à CPI numa sessão secreta. Quando a abordei na Assembleia Legislativa, ela acabara de relatar aos deputados dois estupros que sofreu em 2011, ano em que entrou na USP. Marina também é fundadora do Geni, o coletivo feminista. O grupo se fortaleceu em 2014 depois de questionar abertamente o resultado de uma sindicância que apontou como “sexo consensual” uma denúncia de estupro feita em 2013. O caso foi reaberto na USP após a CPI. A conclusão, agora, foi de que houve violência sexual. O diretor da FMUSP, José Otávio Costa Auler Júnior, disse à CPI que haverá punição exemplar para esse caso. A expectativa é que a faculdade expulse alunos pela primeira vez na história.

Com a visibilidade política do Geni em ascensão, a hostilidade crescia. Marina não aguentou a pressão e trancou o curso no início do segundo semestre de 2014. Começou a pensar em suicídio.

Na Assembleia, Marina me disse que poderíamos conversar dias depois, na sua casa. Ela mora num bairro de elite, cuja rua é fechada e a entrada supervisionada por seguranças. Quando cheguei, quem abriu a porta foi Felipe Scalisa, um dos estudantes mais atuantes no movimento que resolveu mostrar a cara e contar o que ocorria. Homossexual, ele se tornou ativista contra a homofobia no campus e é um dos idealizadores do coletivo Construção, hoje com 36 membros, criado no início de 2014 para debater políticas públicas de saúde e educação.

Scalisa foi alvo de escárnio no último Show Medicina – um “estrelo” encenou um caricato homossexual no show e todos sabiam que era referência a ele. Já tomou tapa na cara em festa universitária e é um dos mais dispostos a denunciar as violências. O custo é alto: diagnosticado com depressão, está sendo medicado e vê seu rendimento universitário em declínio. Naquele dia, disse que estava pensando em trancar a matrícula. Em 2011, a maior alegria de sua vida foi ter passado em primeiro lugar no vestibular para medicina na Unifesp e em quinto no vestibular da USP.

Esguia, de traços delicados e voz meiga, Marina apareceu na sala sem sapatos, vestindo uma bata colorida. Estudou no Colégio Santa Cruz, um dos mais conceituados de São Paulo, e na segunda tentativa passou em medicina em várias universidades. Optou pela USP. Na semana de recepção, sabedora do trote, ela ficou tensa. No terceiro dia em que pisou no campus, sofreu um abuso sexual.

Houve um happy hour na Atlética e ela bebeu muito. À noite, quis voltar ao Centro Acadêmico e um diretor social da Atlética se ofereceu para acompanhá-la. (Marina me pediu que os nomes dos agressores não fossem citados nesta reportagem. Na sessão secreta da CPI, seus nomes foram ditos e todos serão convocados a depor.) “Antes de sairmos da Atlética, ele me puxou para uma salinha escura. Começou a me agarrar, a gente caiu no chão, e ele passando a mão em mim. Eu ofereci resistência, mas com bastante dificuldade, porque estava embriagada. Foi mais ou menos isso.” Ela guardou segredo sobre o fato por mais de um ano.

Em abril, dois meses depois do primeiro trauma, Marina foi vítima de estupro na festa “Carecas do Bosque”, nas dependências da Atlética. Por volta das cinco da madrugada, já bêbada, foi ao banheiro. Na volta, passou na “barraca do judô” – as bebidas são vendidas em diferentes tendas, que alojam os cafofos, quartinhos com colchões que alguns dos diretores da Atlética usam para encontros sexuais.

Marina disse que tomou mais duas doses de tequila, e depois apagou. Recorda-se apenas do atendimento médico no pronto-socorro do Hospital das Clínicas, por volta das oito da manhã do dia seguinte, e de uma diretora da Atlética que lhe dizia: “Achamos que você foi abusada.” Até hoje Marina vive sob a angústia de tentar reconstruir detalhes do que aconteceu naquela noite. Ela denunciou o estupro à 1ª Delegacia da Mulher e foi aberto inquérito policial ainda em 2011.

 

“A porra do trote deixa marcas profundas na alma das pessoas”, desabafou Marco Akerman, hoje professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP, quando conversamos em sua sala de docente. Em 2010, ao assumir a vice-diretoria da Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, Akerman tomou pé da dimensão do problema. Em sua caixa postal começaram a pipocar e-mails anônimos de pais denunciando violências, entre elas a prática do pascu num local chamado “educandário”. Atendeu a vários telefonemas anônimos de mães, algumas desesperadas.

Desde 1986, quando entrou para a Faculdade de Medicina do ABC como titular de saúde coletiva, as queixas de alunos sobre trotes eram uma sangria desatada. Mas o médico só teve respaldo para entrar de cabeça na luta contra as práticas quando chegou à diretoria. Depois das denúncias anônimas, entrou numa sala com mais de 100 alunos, no Diretório Acadêmico, e perguntou se o pascu existia. Silêncio absoluto, até que um estudante não se conteve e gritou: “Não aguento mais a covardia dos meus colegas.” E, em seguida, os rapazes disseram ao professor: “Não vamos dar nomes de quem fez, mas se você descobrir vai mesmo fazer alguma coisa com eles?” Akerman endureceu: comprometeu-se a renunciar ao cargo caso não aparecessem os nomes de agressores.

No dia seguinte, os alunos receberam um questionário com duas perguntas: “1) Você foi vítima de pascu?; 2) Você já foi humilhado na universidade?” Foram identificados catorze agressores. Feitas as sindicâncias, dois alunos foram expulsos e quatro suspensos. Os expulsos conseguiram, na Justiça, o direito de reintegração à universidade sob alegação de cerceamento de defesa.

A partir de 2011, a Faculdade de Medicina do ABC estabeleceu mudanças radicais. Alunos do 6º ano foram impedidos de entrar na sala dos calouros, aplicaram-se normas de controle rigoroso de festas e ensaios de bateria, foram instaladas câmeras de segurança por todo o campus. O caso do ABC virou livro, organizado por Akerman e pelas docentes Silmara Conchão e Roberta Boaretto: Bulindo com a Universidade: Um Estudo sobre o Trote na Medicina, disponível na internet. No dia em que prestou depoimento à CPI, o professor provocou colegas docentes: “Não façam do trote um escudo para as mazelas de suas instituições.”

 

Nos primeiros oito minutos de seu depoimento à CPI, no dia 15 de janeiro, o diretor da FMUSP, José Otávio Costa Auler Júnior, discorreu sobre as “proporções endêmicas” da violência sexual no mundo. Citou artigos sobre estupros e vulnerabilidade feminina publicados no New York Times e na mais conceituada revista científica do Reino Unido na área médica, The Lancet. Só então o professor Auler, mineiro formado em medicina pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro, falou de seu quintal: “É estarrecedor o que temos ouvido. Ficamos até envergonhados. Nunca nos omitimos em relação a nenhum dos fatos que nos chegam oficialmente.”

O professor enumerou medidas tomadas recentemente, que incluem a reformulação curricular do curso. Citou a incorporação de disciplinas sobre “humanidades, respeito ao próximo e tolerância”. Ressaltou que o consumo de álcool dentro da faculdade e na Atlética foi vetado, e as festas, suspensas desde dezembro. Haverá alterações na semana de boas-vindas, com palestras sobre o trote e suas consequências. Serão distribuídos folhetos no ato da matrícula na USP, com orientações sobre denúncias a atos violentos. Foi criado um novo portal do estudante, com informações claras, diretas e acessíveis, bem como uma ouvidoria específica na medicina. O médico admitiu que a instituição precisa “aperfeiçoar” o processo para que alunos dispostos a fazer denúncias se sintam acolhidos e protegidos.

Seis dias depois da presença de Auler na Assembleia, foi a vez de Marco Antonio Zago, o reitor da USP, sentar-se na cadeira da CPI. Chegou acompanhado de nove docentes em cargos de direção na universidade. Enalteceu a “história respeitável da USP em defesa dos direitos humanos” e afirmou que as medidas tomadas até o momento são adequadas e suficientes para reagir às denúncias. A mais importante iniciativa, ressaltou Zago, foi a criação, em dezembro, de uma “nova Comissão de Direitos Humanos” da USP, com especialistas “renomados e independentes”. Curiosamente, a USP instalou tal comissão pela primeira vez em 1998. O ex-ministro José Gregori, nomeado em dezembro passado por Zago para presidi-la, ocupa o mesmo posto desde 2010 – também foi escolhido pelo reitor anterior, João Grandino Rodas. À CPI Zago a definiu como a “agência reguladora” que supervisionará comissões de sindicâncias, ações de dirigentes diante de denúncias, assegurando assistência ao denunciante e amplo direito de defesa aos apontados como agressores. Os alunos e os funcionários terão representantes na “nova comissão”, cujo escopo de atuação, segundo a USP, foi ampliado.

O reitor lembrou a portaria de 1999, que proíbe o trote: “Todos sabemos que há leis que funcionam plenamente e outras não.” Zago demonstrou indignação ao ver manchado o nome da USP e pediu aos deputados que não fizessem generalizações. “Não tenho dúvidas de que devem existir estudantes de medicina que são criminosos, assim como existem estudantes de engenharia que são criminosos, como existem políticos que são criminosos, e banqueiros que são criminosos.”

 

O inquérito policial em curso aponta que Marina foi estuprada. Mas, além de um ex-funcionário terceirizado da USP que foi encontrado em cima dela, a estudante não sabe ao certo quantos a violentaram, se algum estudante também o fez e em que circunstâncias. A jovem suspeita que tenha sido drogada. Lembra que horas depois de perder a consciência, já no Hospital das Clínicas da USP, foi convencida por um veterano a tomar a medicação retroviral, “por via das dúvidas”. “Esse veterano começou a falar ao infectologista que me encontraram desacordada, e havia um cara em cima de mim, com a calça abaixada. Ele foi reticente. Aí que eu entendi.”

Ao chegar em casa, ela contou à mãe que havia sido estuprada. Levada à ginecologista, foram constatadas lacerações na vagina e no ânus. Sem validade jurídica, o exame não foi anexado ao inquérito. O presidente da Atlética à época disse a Marina que não havia testemunhado nada e recomendou que ela buscasse informações com um outro estudante que estivera no clube, na barraca do judô. Hoje formado, esse estudante lhe disse que na ocasião ela estava muito bêbada e que os dois fizeram sexo consensual. Para deixar a moça tranquila, garantiu que usara camisinha. Ela nem sequer se lembrava da fisionomia do sujeito. À CPI, Marina disse hoje ter “certeza” de que ele também a estuprou. Uma estudante de enfermagem a procurou e contou ter sido estuprada pelo mesmo veterano. O ex-funcionário terceirizado da USP encontrado em cima da garota relatou, no inquérito policial, que pagou a seguranças e estudantes para entrar no cafofo onde a jovem estava desacordada.

Marina voltou à USP no mês passado. Uma semana antes de conversarmos, ela tinha ido à faculdade para acertar trâmites burocráticos. Teve crises de ansiedade, taquicardia e falta de ar. Não consegue andar sozinha pelo campus. Desde o semestre passado está tomando o antidepressivo Prozac. Depois que ela compareceu à audiência pública na Assembleia e relatou os abusos sexuais, a diretoria da faculdade lhe telefonou e abriu sindicâncias sobre os dois casos. Antes de depor em novembro passado, ela e alguns estudantes haviam procurado Auler, o diretor da faculdade. “Eu falei que tinha sofrido duas violências sexuais. Ficou por isso mesmo.”

Augusto Ribeiro Silva apareceu na casa de Marina quando já finalizávamos nossa conversa. Os estudantes trocam mensagens pelo WhatsApp de maneira frenética. Protegem-se, acompanham os passos uns dos outros. Dias depois de nosso encontro em sua casa, Marina me enviou uma mensagem. Tinha ido à comissão de sindicância da USP. “Foi bem tranquilo. Parece que agora eles estão empenhados de fato em mudar as coisas.”

 

A reitoria da USP designou o pró-reitor de Graduação, Antonio Carlos Hernandes, para falar com piauí. Físico, com mestrado e doutorado feitos na USP, ele repetiu o mantra em sua sala no prédio novo da reitoria: “Na USP não tem trote desde 1999; há uma portaria dizendo que a instituição não tolera nenhum tipo de agressão.” Infelizmente, continuou, há uma cultura, introduzida há séculos, “do tal rito de passagem” quando se ingressa no ensino superior.

Hernandes contou ter sido vítima de trote violento: jogaram óleo queimado em seu corpo, ele teve que pedir dinheiro na rua e foi obrigado a ingerir bebida alcoólica. Ficou três dias internado num hospital. “Até hoje tenho problema com cheiro de óleo, com gás, co2.” Ele acredita que não faltam canais aptos a receber denúncias de abusos na USP. A falha estaria na sensação de impunidade. “Para cada denúncia que aparecer queremos saber a consequência tomada. […] A ideia é que não haja essa sensação de impunidade. Isso é que não pode. Toda e qualquer denúncia tem que ser apurada. Se não fizer isso não vai mudar nunca.” O ciclo é vicioso: o estudante não denuncia porque acha que a faculdade vai colocar panos quentes, e a faculdade não age porque não há denúncia formal. Quando lhe questionei sobre a possibilidade de expulsão de um aluno, medida disciplinar extrema, ele foi taxativo: “Se demos amplo direito de defesa ao acusado e se houve desvio e erro, fora!”

Professor doutor associado à Esalq da USP, o engenheiro agrônomo Antonio Ribeiro de Almeida Júnior estuda o trote desde 2001. O primeiro questionário que aplicou na Esalq pedia que os alunos citassem três práticas que achavam ser “brincadeira” (no trote) e três que consideravam “violência”. Conclusão imediata: “O que é brincadeira para uns é violência para outros.” A sala do professor, que é doutor em sociologia, se transformou em delegacia de polícia e consultório psicanalítico. Formavam-se filas na entrada. “Os alunos iam à prefeitura da escola, à psicóloga, ao reitor, e, quando nada funcionava, apareciam na minha sala. Lá era o fundo do poço.”

O envolvimento científico com o tema convenceu o professor a rejeitar a tese adotada pela antropologia cultural, que aponta o trote como ritual de passagem. Segundo ele, um ritual de passagem pressupõe a integração e a inclusão do indivíduo ao grupo, como um igual. Mas a essência do trote, pontuou, é a subjugação, e na hierarquia acadêmica o calouro não passará a ter o mesmo status do veterano após ter se submetido a esse ritual. Almeida Júnior sustenta que há dois grandes grupos de escolas: num deles, o trote é uma relação apenas entre alunos, sem envolvimento institucional; no outro, o trote é antigo, institucionalizado – “normalmente escolas mais masculinas, mais tradicionais, com status social maior atribuído a seus alunos [engenharia, medicina e direito]”. Nessas escolas, disse ele, parte do corpo docente participa da cultura do trote, seja acobertando, seja estimulando.

O preconceito e a cultura da masculinidade agressiva – “o que muitos na sociologia chamam de hipermasculinidade” – também favorecem o trote, afirmou o professor. Mas ele cita como conclusão mais perturbadora de suas pesquisas a tese de que há, no mercado, segmentos profissionais interessados em propagar a cultura do trote. “O trote é a formação do opressor. Tem duas fases: no 1º ano você recebe, fica quieto e obedece. E no 2º ano você passa a ser obrigado a aplicar o trote. Os grupos adeptos do trote são minoritários, no máximo 15% dos alunos, mesmo em escolas onde o problema é muito sério. Só que são organizados e bem agressivos”, sintetizou.

Hoje ele classifica o trote como um teste de silêncio, “a porta aberta a processos de corrupção” – dentro da universidade, com a prática e o acobertamento de abusos e ilegalidades; e fora dela, quando os estudantes adeptos do trote, já formados, concordam com ilícitos e atuam no mercado de trabalho. Sobre a escola em que leciona, fala abertamente, sem medo de represálias: “Há na Esalq departamentos e áreas de estágio onde dificilmente o aluno entrará se não pertencer a esse grupo do trote; há empresas [ligadas ao setor do agronegócio] que só contratam pessoas desse grupo.”

Almeida Júnior fez ao longo dos últimos dez anos inúmeras denúncias de trotes. Deparou-se com universidades apáticas e condescendentes, e medidas paliativas sendo ressuscitadas ano após ano. “Sempre dizem que o trote está acabando. Pesquisei artigos de 1950, 1960, em que diretores já diziam que o trote estava acabando.”

 

Mais de 400 alunos da medicina da USP se inscreveram neste ano para a disciplina antropologia e gênero, ministrada pela antropóloga Heloísa Buarque de Almeida. São apenas 180 vagas. A docente coordena o programa USP Diversidade e em junho do ano passado foi procurada pelos alunos da Casa de Arnaldo. Durante um almoço num restaurante da Vila Madalena, em São Paulo, horas antes de prestar depoimento à CPI, a professora disse que os relatos que ouviu são dignos de roteiro de filme sobre fraternidades secretas americanas. “Você forma grupos de elite dentro da elite.” A naturalização da violência e a constituição de “comunidades de segredo” dificultam tanto sua compreensão como sua apuração.

Quem toma trote geralmente o reproduz. “O aluno é ao mesmo tempo vítima e algoz. Por isso eles não querem denunciar”, disse a antropóloga. Diferentemente de Almeida Júnior, ela enxerga no trote um ritual de passagem. Pondera que só em sociedades igualitárias os ritos de passagem geram equanimidade entre indivíduos, como nas tribos indígenas. Em sociedades divididas, como a nossa, rituais de passagem fortalecem a hierarquia. E por que o calouro se submete? “Ele imagina que uma hora vai conseguir estar em outro lugar, que não vai ficar o tempo inteiro no andar de baixo.”

A professora alerta que abusos nos trotes e violências sexuais no meio universitário são problemas distintos que surgiram conjuntamente na CPI, “o que alimenta um quadro de escândalo”. Podem até se cruzar, mas é bom que se faça uma distinção, ponderou. “Minha sensação é que serão tomadas algumas medidas, serão feitas algumas comissões de sindicância, porque a USP não pode fingir que nada aconteceu. Mas se não houver uma mudança estrutural, teremos mais dez, quinze, vinte anos de campanha contra o trote, e não vai resolver nada.”

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“Fritz Lang e o impeachment” – Vladimir Safatle

Na coluna de Vladimir Safatle, Folha de S. Paulo [via André Vallias]: “[…] quem acusa o governo é, em grande parte, uma oposição envolvida até o pescoço no mesmo mar untuoso de lama. O que não poderia ser diferente, já que ela partilha exatamente as mesmas práticas políticas, chega até a usar os mesmos agentes corruptores, embora seja um pouco mais esperta na arte da blindagem e da fala dura.” Leia o texto completo no site da Folha.

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“Brasil, o país das maravilhas” – Luiz Ruffato

Coluna de Luiz Ruffato publicada no El País:

O escritor e jornalista Juan Arias, comentando meu artigo “O nosso fundamentalismo”, indaga se o conservadorismo da sociedade brasileira não estaria fundamentado em nosso precário sistema educacional. Talvez esse seja o ponto essencial para podermos refletir sobre esse colosso territorial chamado Brasil, não só em relação ao reacionarismo da população em geral, mas também à nossa incapacidade de concebermo-nos como nação, ou seja, conjunto de pessoas que se vinculam visando a atingir um objetivo comum.

Em entrevista ao jornal Zero Hora do dia 1º de março, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), especialista no assunto, faz uma série de considerações a respeito do estado da educação no Brasil e diagnostica: se começássemos um trabalho sério nas escolas de base hoje, o país alcançaria um ponto de excelência apenas daqui a 20, 30 anos… No entanto, do jeito que vamos, conclui, estamos ficando para trás. Permanece no ar um questionamento singelo, como devem ser as indagações mais profundas: se eu sei, se você sabe, se todos sabemos que não iremos a lugar algum sem uma radical transformação do sistema educacional, por que nos contentamos em afundar no pântano da ignorância?

Cristovam Buarque constata, desolado, que “por algum motivo” não damos importância à educação. “Ninguém é considerado rico no Brasil por ser culto. Você é considerado rico pela casa, pela conta bancária, pelo tamanho do carro, mas não pelo grau de cultura e educação. Mesmo quem gasta dinheiro para estudar não está em busca de cultura, está em busca do emprego que a educação lhe dá”. Infelizmente, essa assertiva é verdadeira e crucial para tentarmos entender o nosso desprezo pela cultura letrada.

O Brasil sempre aparece nos últimos lugares do ranking de avaliação de educação. Convivemos com um atraso atávico neste setor. Até 1808, quando a família real portuguesa se refugia no Brasil, sequer possuíamos imprensa e a entrada de livros esbarrava num rigoroso crivo da censura.

Enquanto nossos vizinhos latino-americanos contavam com universidades desde os primórdios da colonização (séculos XVI e XVII), as nossas primeiras instituições de ensino superior datam do começo do século XX.

Até a década de 1950, metade da população adulta era analfabeta – índice que encontra-se hoje em torno de 9%, embora o analfabetismo funcional, ou seja, a incapacidade de interpretar textos simples e de fazer operações matemáticas corriqueiras, ainda atinja um em cada cinco brasileiros.

O quadro mudou, certamente, por conta do compromisso do Estado em ofertar ensino gratuito obrigatório a todos os brasileiros entre 4 e 17 anos (alicerçado na Lei de Diretrizes e Bases de 1996) e de garantir cotas raciais e sociais em universidades públicas para afrodescendentes, indígenas e alunos oriundos de escolas públicas (baseado na Lei de Cotas, de 2012). Mas se melhorou em relação à possibilidade de acesso, e isso é um ganho inegável e indiscutível, piorou bastante no que concerne à qualidade da educação disponível.

Infelizmente, nosso sistema educacional continua sendo um instrumento de segregação social e, por consequência, de manutenção no poder de uma elite econômica, que é também política e cultural. A alfabetização e os ensino fundamental e médio, essenciais para a formação do aluno para o resto da vida, definem a que classe você pertence e na qual permanecerá. Segundo dados do IBGE, metade da população com mais de 25 anos não concluiu sequer o ensino fundamental; 15% não concluíram o ensino médio; e apenas 11% concluíram o universitário – desenho nítido da pirâmide social brasileira.

As famílias pobres, sem opção, matriculam os filhos em escolas públicas, que funcionam em prédios obsoletos, com infraestrutura mínima, sem segurança, sem biblioteca, administrados por professores, em geral, mal formados e sem incentivo, acossados pela baixa remuneração e falta de segurança e desrespeitados por pais e alunos. O resultado é que, segundo relatório da Unesco, o estudante está na sala de aula, mas não aprende – 22% se formam sem capacidades elementares de leitura e 39% não têm conhecimentos básicos de matemática. Por outro lado, a maioria dos pais não se sente responsável pelo desempenho dos filhos na escola, ignorando assim que a educação, embora inclua a instrução, a ultrapassa. Essa visão utilitária e limitada impede que a comunidade interfira na resolução dos problemas da escola.

Já as famílias ricas conduzem seus filhos para escolas privadas, que contam com boa infraestrutura, regimes pedagógicos diferenciados, bibliotecas, ambiente adequado, professores bem remunerados, etc. Mais tarde, esses alunos ocuparão a maioria das vagas das melhores universidades públicas – aos alunos pobres restam as universidades privadas, de duvidosa reputação. Em suma: os alunos ricos estudam de graça em boas instituições, sem nenhuma contrapartida social, enquanto os pobres pagam para assistir aulas em estabelecimentos deficientes.

Somos um país, mas não somos uma nação. A ignorância é o terreno fértil para a propagação de ideias conservadoras – o escritor sérvio Danilo Kis, em seu romance Um túmulo para Boris Davidovich, afirma que quem lê vários livros busca a sabedoria, quem lê um único, busca a ignorância. O desdém pela cultura, que atinge o Brasil de alto a baixo, envenena nossa percepção: aqui, o que é de todos, não é de ninguém. Todos nos aferramos às nossas pequenas conquistas e, para não perdê-las, abraçamo-nos a qualquer discurso reacionário, que ao fim e ao cabo, prega sempre o egoísmo, o cinismo, a mediocridade.

Luiz Ruffato é escritor e jornalista

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