Arquivo da categoria: Arquivo

O arquivo de Eduardo Lourenço

Publicado no jornal Público, de Lisboa [via Blogtailors]:

Ninguém sabe ainda ao certo quantos documentos integram o arquivo de Eduardo Lourenço adquirido pela Biblioteca Nacional (BN) em Janeiro passado por cem mil euros, mas enchem “102 caixas e 431 dossiers”, precisou ao PÚBLICO a presidente da BN, Inês Cordeiro.

 A informação, divulgada em vários jornais, de que o acervo se comporia de cerca de 11 mil documentos está errada, sendo provável que o equívoco se tenha ficado a dever a uma confusão entre a totalidade dos documentos e a parcela que diz respeito à correspondência do autor.

As cartas conservadas por Lourenço é que já foram inventariadas e ultrapassarão as 11 mil, constituindo um valioso testemunho dos diálogos que o autor de Pessoa Revisitado (1973), O Labirinto da Saudade (1978) ou O Canto do Signo (1994) foi mantendo ao longo de décadas com escritores portugueses de várias gerações, e também com autores estrangeiros.

“No total, poderão ser cem mil ou 120 mil documentos”, arrisca João Nuno Alçada, grande responsável pela vinda para Portugal deste impressionante acervo que Eduardo Lourenço foi acumulando ao longo de décadas na sua casa de Vence, em França. Foi também Alçada que deu início à organização e catalogação do arquivo, um trabalho que começou a ser feito há já alguns anos, com o apoio da Gulbenkian, do Centro Nacional de Cultura e da Fundação EDP, nos vários lugares que foram provisoriamente acolhendo estes papéis: a própria Gulbenkian, a Torre do Tombo e, finalmente, a Biblioteca Nacional.

A directora da BN não tem dúvidas de que este é um dos mais extensos núcleos documentais a integrar o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, e observa ainda que a sua “integralidade”, a “garantia de que está ali praticamente tudo”, lhe confere um valor muito particular.

E basta pensar nas Obras Completas de Eduardo Lourenço em curso de publicação pela Gulbenkian – com coordenação científica de João Tiago Pedroso de Lima e Carlos Mendes de Sousa – para se perceber a vantagem que representa para os responsáveis do projecto o acesso ao arquivo integral. A julgar pelos volumes já divulgados, a lógica tem sido a de agregar a cada título originalmente publicado por Lourenço um extenso conjunto de outros textos seus que partilham o mesmo universo temático, um critério que deveria implicar percorrer todo o acervo para garantir que não fica de fora nenhum ensaio ou artigo relevante.

Ainda que esse propósito de exaustividade esteja sempre potencialmente ameaçado pela própria vitalidade intelectual de Lourenço, que aos 91 anos mantém a sua proverbial dificuldade em recusar solicitações para colóquios e afins e continua a escrever ou improvisar oralmente sobre os mais diversos temas e autores.

Mas nem tudo o que está no acervo poderá ser publicado de imediato. Neste momento, o acesso à documentação está aliás limitado à equipa que trabalha na sua inventariação e organização e aos investigadores envolvidos quer no projecto das obras completas em curso de publicação pela Gulbenkian, quer na preparação dos novos títulos de Lourenço que vêm sendo editados pela Gradiva, onde saiu já este ano Do Brasil: Fascínio e Miragem, um livro que compreende textos dispersos e inéditos de diversa natureza e redigidos ao longo de quase 70 anos, entre 1945 e 2012.

No total, e segundo a directora da BN, há apenas 27 pessoas autorizadas por Eduardo Lourenço a consultar esta documentação. Uma restrição habitual em acervos deste tipo, e que é fácil de compreender se pensarmos que a BN conserva agora milhares de cartas que Lourenço trocou com autores como Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro, Vergílio Ferreira, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, José Cardoso Pires ou António Lobo Antunes, para citar apenas um pequeno número dos seus correspondentes, que inclui ainda muitos dos mais importantes investigadores estrangeiros da obra de Pessoa.

Tendo em conta as características do meio literário português, que não serão muito diferentes das de qualquer outro, e o presumível grau de intimidade que Lourenço manteria com alguns destes seus correspondentes, não é difícil imaginar-se a trapalhada que adviria da divulgação imediata e irrestrita de todas estas cartas. Numa entrevista publicada esta semana no Jornal de Letras, João Nuno Alçada conta que Eduardo Lourenço permitiu, por exemplo, o estudo e posterior publicação da correspondência com Casais Monteiro ou José-Augusto França, mas interditou a consulta do seu diálogo epistolar com Vergílio Ferreira e foi avisando que há alguns textos que “nem daqui a 30 anos” poderão ser publicados.

1 comentário

Arquivado em Arquivo

Memória & Informação – Redes de sistemas memoriais

Memória & informação

Deixe um comentário

16/04/2014 · 1:12

Arquivos Pessoais – Rodrigo de Souza Leão

ARquivos pessoais

1 comentário

16/04/2014 · 1:09

Manuel Bandeira e o erro gramatical

Extraído da Folha de S. Paulo. Depoimento de Paulo Bonfim. [Via Armando Freitas Filho]

Manuel Bandeira (Paulo Bonfim)

2 Comentários

Arquivado em Arquivo

Manuscrito Voynich

Extraído do blog Mundo Tentacular:
Associated Press – O segredo de um dos mais misteriosos e intrigantes documentos medievais pode estar finalmente prestes a ser desvendado. Especialistas em idiomas e criptografia da Universidade de Yale nos Estados Unidos e linguistas da Universidade de Lyon na França, afirmam ter decifrado o código oculto no enigmático Manuscrito Voynich um livro único, escrito em um idioma até então desconhecido.

Segundo os especialistas o curioso alfabeto curvelíneo no qual o documento foi originalmente escrito é uma variação pouco conhecida do Devanagari, o alfabeto usado no idioma sânscrito.
Recentemente foram encontrados em escavações na Ásia Menor tábuas que permitiram fazer uma relação linguística dessa variação com o grego clássico.

“É possível que essas tábuas tenham sido usadas por comerciantes ou mensageiros na antiguidade, assim como a famosa Pedra de Roseta que permitiu traduzir os hieróglifos do antigo Egito” explicou o professor Henry Targieam da Universidade de Yale, um dos chefes da equipe que está realizando os trabalhos.
“As tábuas continham algumas palavras e a tradução aproximada em grego clássico. Foi um longo trabalho para relacionar as fontes, mas estamos satisfeitos em anunciar que tivemos êxito, ainda que o processo de tradução não tenha sido concluído”.
O Manuscrito Voynich sempre foi tratado como um grandioso enigma medieval. Trata-se de um curioso volume descoberto em 1912 pelo livreiro Wilfred Voynich, cujo conteúdo distribuído ao longo de 234 páginas jamais foi decifrado. Segundo os rumores ele teria sido escrito pelo erudito inglês Roger Bacon no século XIII. Bacon ficou conhecido pelos estudos e experiências relacionadas às artes mágicas e era tido como uma espécie de cientista ou mago em sua época. O manuscrito teria chegado às mãos de outra figura famosa no mundo do ocultismo, o médico da Rainha Elizabeth I, John Dee, que o teria presenteado ao Imperador Rodolfo II por volta de 1584.

O conteúdo do Manuscrito sempre foi objeto de controvérsia. Para alguns estudiosos ele seria o diário secreto de Bacon enquanto outros apostavam que ele seria o livro onde o filósofo anotava suas experiências em um idioma próprio a fim de afastar curiosos e censores religiosos. John Dee teria conseguido decifrar trechos do Manuscrito usado como base em seus compêndios ocultos. Mas nenhuma dessas suposições jamais foi confirmada.
O Professor Targieam preferiu não comentar sobre os trechos já traduzidos do Manuscrito, o conteúdo será revelado quando todo o trabalho for concluído. Uma das metas é terminar a tradução no centenário da descoberta do Manuscrito em Fevereiro de 2012.
Ele, no entanto, adiantou que o Manuscrito versa sobre folclore e uma peculiar mitologia antiga, da qual se sabe muito pouco ainda.
“A revelação do conteúdo do Manuscrito Voynich será um acontecimento de suma importância e temos certeza que receberá a devida atenção da comunidade acadêmica”. disse o professor.
Enquanto isso podemos apenas aguardar ansiosamente por mais notícias.

Deixe um comentário

Arquivado em Arquivo

“Elvia Bezerra é a mulher à frente da reserva técnica literária do Instituto Moreira Salles”

Matéria de Leonardo Aversa. Extraída do site d’O Globo:

RIO – Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) tinha como passatempo a caricatura. Fez algumas de Lygia Fagundes Telles. Rachel de Queiroz (1910-2003) gostava de colecionar santinhos de primeira comunhão e santinhos de morte. Acumulava caixas deles. Paulo Autran (1922-2007) guardava com esmero todas as entrevistas que concedia. E Clarice Lispector (1920-1977) — sabe-se lá se motivada por uma paixão ou pela rotineira vontade de testar a cor de um batom — deixou para a posteridade um guardanapo em que se vê sua boca gravada em vermelho.Desde 2009, a cearense Elvia Bezerra coordena e pinça raridades como essas nas centenas de caixas de cartão que compõem os 28 acervos reunidos na Reserva Técnica Literária do Instituto Moreira Salles (IMS), na Gávea.

Frequentadora dos ‘Sabadoyles’

Com 1,60 metro de altura e um olhar que nunca desprega de seu interlocutor, Elvia repete várias vezes que “sente um prazer danado” em ser a guardiã de boa parte da produção literária e de um verdadeiro arsenal de memorabilia referente a alguns dos maiores ícones da literatura brasileira. Fica tão confortável quando convidada a falar de seus protegidos que deixa vazar para o discurso uma intimidade ímpar:

— Hoje em dia eu cuido do Otto (Lara Resende), do (Carlos) Drummond, do Paulo (Mendes Campos), da Rachel (de Queiroz), do (Erico) Verissimo, do Mario (Quintana), do Francisco (Iglesias) e de muitos outros. É um trabalho lento, meticuloso, mas muito gostoso.

Em sua rotina profissional, o frio é uma constante. Pelo bem-estar do acervo que já lota a reserva técnica do IMS, conserva-se a temperatura do local a 19 graus centígrados. E todas as pessoas que circulam por suas estantes deslizantes e pretendem manusear as caixas de PH neutro que se sobrepõem devem usar luvas cirúrgicas.

No início de julho, Elvia falava com orgulho de seu mais recente achado: uma carta de 1945 em que Paulo Mendes Campos, então recém-chegado ao Rio, discorre sobre a solidão ao amigo Otto Lara Resende:

— É um texto sem a informalidade e o coloquialismo que marcaram a correspondência dos dois. Paulo mostra um nítido interesse pela literatura e ainda encerra o texto com um poema.

O IMS considerou o texto tão importante que decidiu encaderná-lo no libreto “Carta a Otto ou um coração em agosto” e distribuí-lo durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Elvia sorria ao falar disso.

Nascida em 1947 na pequena cidade de Mombaça, no sertão do Ceará, Elvia é a primogênita de uma família de quatro filhos e a única que, até os 12 anos, só estudou em casa.

Em 1959, por sugestão dos pais, foi passar férias em Fortaleza. Hospedou-se na mansão de um juiz amigo da família e, estimulada pela esposa dele, agarrou-se a um livro da antiga quarta série e resolveu todos os exercícios ao longo do verão. No fim da temporada, submeteu-se à seleção do Colégio Imaculada Conceição e entrou direto na antiga quinta série. Até acabar o ensino médio, morou longe dos pais — descaroçadores de algodão — e aprendeu a conviver com a “eterna saudade”.

Em 1972, já com um diploma de Letras Português-Inglês carimbado pela Universidade Federal do Ceará, mudou-se para o Rio. Apaixonada por William Shakespeare (sobre quem ainda é capaz de discursar horas a fio), matriculou-se num mestrado em Literatura Inglesa e, em pouco tempo, casou-se com o professor.

— O Rio era a central dos hippies… Eu vinha do Ceará, onde os professores ainda davam aula de terno! Claro que me apaixonei por aquele que usava boca de sino, né? — conta a pesquisadora, omitindo a todo custo o nome do atual ex-marido.

Para pagar as contas durante a juventude, Elvia dava aulas particulares de inglês, e foi graças a isso que se encantou com a literatura brasileira.

— Um dia, um aluno veio me dizer, todo acanhado, que não tinha dinheiro para me pagar. Em troca, me deu um exemplar da primeira edição da obra completa de Manuel Bandeira em prosa. Esse contato com Bandeira foi tão avassalador que até hoje carrego na bolsa pelo menos um livrinho dele. Bandeira vai comigo aonde quer que eu vá.

Seguindo instruções da psiquiatra Nise da Silveira, de quem foi datilógrafa e assistente voluntária por muitos anos, em 1995 Elvia publicou o livro “A trinca do Curvelo” (Topbooks). O assunto? Manuel Bandeira.

— Dediquei alguns anos da minha vida a reconstituir a vida dele em Santa Teresa, bairro onde moro e onde ele morou entre 1920 e 1933 — lembra. — Desse tempo, guardo cartas inéditas que ele escreveu para uma amiga e um maravilhoso santinho que era dele.

Quem visita a casa de Elvia encontra na estante de seu escritório uma figura de São Manuel talhada em aproximadamente 20 centímetros de madeira. E ela explica:

— Ele foi torturado e morto com um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e outro atravessado na cabeça por não querer abandonar o cristianismo durante o império de Juliano.

Com “A trinca do Curvelo”, a pesquisadora de Mombaça entrou na alta roda cultural dos cariocas. Passou a frequentar os chamados “Sabadoyles”, encontros literários que aconteciam na casa do advogado e bibliófilo Plínio Doyle, e a se aproximar de escritores como Alexei Bueno e Antônio Carlos Secchin. Foi num dos réveillons organizados por este que conheceu o professor e poeta Eucanaã Ferraz, que a levou para o IMS.

Colega de Elvia no instituto, o editor da revista “serrote”, Paulo Roberto Pires, destaca seu cuidado com detalhes:

— Elvia é apaixonada pela pesquisa de miudezas que, na verdade, fazem toda a diferença. É rigorosa no detalhe sem abrir mão da leveza do estilo. Sente um prazer imenso em lidar com esses fragmentos de vida existentes nas cartas, nos manuscritos e, é claro, nas bibliotecas. É íntima de Clarice, Otto, Paulo e Rachel. O fato de não tê-los conhecido é irrelevante: ela os tem como amigos.

Apesar de ser a guardiã das sete mil cartas de Otto Lara Resende, dos únicos manuscritos de Clarice (“A hora da estrela”, de 1977, e “Um sopro de vida”, de 1978), do caderno em que Erico Verissimo esboçou seu último romance (que não chegou a definir se se chamaria “A hora do sétimo anjo”, “O dia do sétimo anjo” ou “A vez do sétimo anjo”) e de uma enormidade de artigos ainda desconhecidos, Elvia gosta mesmo é de destacar pequenas coisas de sua vida. Diz ser boa cozinheira e lembra que fez dezenas de verbetes na enciclopédia “Barsa”.

— Quase todo o S é meu! — ri alto. — Em Jovem Guarda, lutei para que fosse posta ao lado do Tremendão (Erasmo Carlos) uma referência à Ternurinha (Wanderléia). Como não? Mas meu auge foi mesmo com Bandeira. É de minha lavra a definição de Pasárgada!

Cruzamento de cartas

Nos próximos meses, Elvia conclui seu mais ambicioso projeto dentro do IMS desde a publicação de “Mandacaru”, livro em que reuniu poemas de Rachel de Queiroz anteriores ao romance “O quinze”.

— Já terminei o cruzamento das cartas de Otto Lara para Helio Pellegrino e vice-versa, e estou terminando o cruzamento das de Otto Lara para Paulo Mendes. Se o instituto quiser, poderemos lançar dois livros: um com umas 400 páginas e outro com mais de cem. Assim, teríamos as cartas dos quatro “cavaleiros do Apocalipse” trabalhadas (Recentemente, Humberto Werneck organizou o cruzamento das cartas de Otto Lara para Fernando Sabino e vice-versa).

Durante a pesquisa, Elvia descobriu (mais) uma curiosidade. Achou no acervo de Otto uma charge assinada por Millôr Fernandes. Na charge, aparece um noivo usando um terno fino.

— Conversando com a viúva de Otto dias depois de dar de cara com essa charge, entendi tudo: Otto casou usando um terno do Millôr.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/elvia-bezerra-a-mulher-frente-da-reserva-tecnica-literaria-do-instituto-moreira-salles-5542105#ixzz21JopXP3V
© 1996 – 2012. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

 

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Arquivo

Política de memória

No blog do Instituto Augusto Boal encontra-se um excelente artigo de Célia Costa, historiadora e documentalista, ex-pesquisadora do CPDOC e diretora técnica do Museu da Imagem e do Som. O texto foi apresentado na Ocupação Boal, realizada na Casa da Ciência. Fez parte de uma das atividades em torno do Arquivo Augusto Boal promovida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em parceria com o Instituto Augusto Boal, entre muitas outras que estão por vir.

Deixe um comentário

Arquivado em Arquivo, Museu

A cartografia nos arquivos

Deixe um comentário

Arquivado em Arquivo

A “preguiça febril”, por Michel Foucault

Extraído de Em defesa da sociedade, de Michel Foucault:

Afinal de contas, o fato de que o trabalho que lhes apresentei tenha tido esse andamento fragmentário, repetitivo e descontínuo corresponderia bem a algo que se poderia chamar de “preguiça febril”, a que afeta o caráter dos que adoram as bibliotecas, os documentos, as referências, as escrituras empoeiradas, os textos que jamais são lidos, os livros que, mal são impressos, são fechados de novo e dormem depois em prateleiras das quais só são tirados alguns séculos mais tarde. Tudo isso conviria bem à inércia atarefada daqueles que professam um saber para nada, uma espécie de saber suntuário, uma riqueza de novo-rico cujos sinais exteriores, vocês sabem muito bem, encontramos dispostos nos rodapés das páginas.

1 comentário

Arquivado em Arquivo, Biblioteca

Cinco cartas inéditas de Julio Cortázar

Cinco cartas inéditas de Julio Cortázar foram publicadas no site da Revista Ñ [via blog da revista Ler]:

A Aurora Bernárdez
París, viernes 3 de abril de 1965

Topotita Itaíta: Vos, ahí. Yo esperando, ahí. A las cuatro y media por expreso, ahí. Pero me alegré mucho con tu carta, que respira sol romano (y trabajo en la FAO, pobrecita).

No lo niego: vos me invitaste y yo no fui. Pero si supieras cómo me estoy quitando trabajo de encima, cómo pongo al día mi correo, cómo paseo por París que está maravilloso, y cómo voy a conciertos, cines y teatros, comprenderás que hice muy mal en no irme con vos porque corro el peligro de perder ocho kilos. Es increíble (hablo en serio) la cantidad de cosas que tengo que hacer antes de que nos vayamos. Lo de Harss quedó interrumpido, y me lo reclaman de Buenos Aires; comprenderás que tengo para cuatro o cinco días de trabajo. Los líos editoriales me llevan horas hasta dejarlos más o menos encaminados, y como se traducirán, espero, en dólares, creo que vale la pena. Para tu regocijo especial sigo recibiendo reviews de los USA, todas favorables hasta ahora menos una de un tal Orville Prescott, en el New York Times, donde hace polvo la novela, y la declara a pretentious bore (1) . Yo creo que puede ser un bore , pero que no es pretentious .

Sigo dándome corte y contándote todo lo que hago: fui a Sceaux, una mañana maravillosa, y encontré la rue des Mesanges, y en ella a Henri Chopin, y naturalmente Chopin era un cronopio enormísimo que me vendió en seguida los discos para Paul y para mí. Ya lo escucharás, tiene cosas increíbles. Se lo pasé a Perkins (2) , para arrancarlo a un ataque de tristeza provocada por la 56788574756647477 agarrada a patadas con su mujer, y le hizo mucho bien. Sus maniobras inmobiliarias son muy complicadas, pero parece que finalmente comprará un dep. en Mallorca. Por qué, para qué, cómo y a costa de qué, son cosas que hay que oírselas decir para creérselas. Ya está seguro de que tendrá que quedarse en la Unesco… 5 años más. El pobre está hecho polvo, su mujer también, y los chicos parece que han sentido esta vez de cerca la verdadera situación.

What a mess .

Fui a Domaine musical , que estuvo muy bueno, y me encontré con Hubert y Anette Damisch. Me invitaron a cenar el miércoles. Te lo digo porque será absolutamente necesario hacerlos venir a casa en esos 10 días en que estemos todavía aquí.

Sigo con mis rattrapages culturales. Comprendí que estaba quedando muy mal con Margot, le telefoneé, me la encontré en la galería. Te imaginás cómo estaba de contenta. Me llevó a su casa y me hizo una tortilla de queso riquísima, y luego yo me rajé al cine porque quería ver Le bonheur (3) . Después de verla pensé que Agnes Varda a fait plutot un malheur (4) . Pero habría que pensarlo y discutirlo. Hay cosas muy extrañas en esa película; o la vieja está piantada o hay momentos en que nos toma el pelo.

La casa me da mucho trabajo, porque hago lo posible para que no derive del chiche al quilombo, pero hay que ver lo que cuesta. Lavo ropa, lavo vajilla, tengo provisiones impresionantes, podría resistir el asedio de Pilleboue, la condottiera Voisin y Madame Prince (5) durante varias semanas. Sólo madame Walch, probablemente, me vencería con su voz de urraca maléfica.

Vi a Depreux que les manda cariños a las dos. Contesté como correspondía una carta de tu amiguita, desplegando una vez más mis conocimientos de italiano. Llegó esta mañana carta de Rosario: esta loca no dice ni una palabra de la cama. Le contesté que avise en seguida, puesto que tenemos que pensar en ese problema. Rosario me avisa que el carpintero termina la entrega, y que hay que garpar. Ya lo hice por mandat, y de paso les fleté el dinero de ellos, para no tener que hacer otro el 15. Aldito vino ayer a la tarde a buscar el suyo, y me mangó 100 más, que le di, qué iba a hacer. Parece que se va a armar el lío del auto, cosa que nos costará 800 francos o algo asá; Aldo hace lo que puede por parar el asunto. Me dijo que los padres (y él) están dispuestos a quedarse en la ruina (la de Saignon, se entiende), y que con medio millón la volverían perfectamente habitable. Speriamo bene.

Te copio: “La casa está en este momento exactamente como si hubiéramos sufrido un bombardeo. La cocina sin piso, con dos agujeros, uno enorme, la veranda sin techo, todo lleno de escombros. Los albañiles están trabajando rápidamente por todos lados; Aldo levantó el piso de la cocina para que hagan la losa. La parte nueva ya tiene el techo casi listo”. ¿Estás contenta, honguito pelusiento? Escribime pronto, y decile a Italo que estoy conmovido de que relea con tanto cuidado la traducción de mis cuentos. ¡Riego las plantas! Te extraño mucho, bicho feo, y ojalá el 20 sea mañana y vos llegues y yo te dé tantos besitos, Woof Woof (1) Un plomo pretencioso.

(2) Eduardo Jonquières.

(3) La felicidad.

(4) Había hecho sobre todo una desdicha.

(5) Vecinos.

* * * * *
A Victoria Ocampo
Saignon, 23 de junio de 1965

Mi querida Victoria: Creo que ya en alguna otra carta le pedí perdón por escribirle a máquina. Sé que no está bien, y sin embargo reincido, porque escribir a mano me resulta cada vez más penoso. En todo caso, estoy mucho más presente cuando escribo así, a toda velocidad y tachando de cuando en cuando algún comienzo de frase en el que la máquina se toma libertades excesivas.

También tengo que pedirle disculpas por el involuntario retardo de mi respuesta, pero ya verá usted por el encabezamiento que no estoy en París. Nos hemos venido a Saignon, un pueblecito de 200 habitantes, en plena Vaucluse (a unos veinte kilómetros de la fuente donde Petrarca vio por primera vez a Laura), donde encontramos un bastidon que se convertirá en nuestro refugio una vez que hayamos terminado de pintarlo y de ponerle cortinas de paja. Tenemos un jardín que es como un balcón sobre los valles del Luberon. Muy cerca esta Gordes, Bonnieux, y casi al lado la torre del castillo del marqués de Sade, en Lacoste (donde, como dice la guía Michelin, se deroulaient les sataniques orgies ). Ya ve que no hemos elegido mal para citarnos con el sol, el tomillo y la lavanda.

Todo esto es para explicarle que nuestra portera de París, que es un personaje extraordinario, quedó con instrucciones de remitirme cada quince días la correspondencia acumulada. ¿Por qué los quince días se convierten en veinticinco? La noción del tiempo de madame Boivin es inescrutable, y a ello se debe que su carta haya llegado ayer por la tarde. Dándome –y esto es lo primero que hubiera debido decirle– una muy grande alegría. Antes de ver su nombre en el dorso del sobre, ya había reconocido su letra, en especial las t y la f mayúscula. (Debe ser una deformación profesional, pero suelo recordar mejor la letra que la cara o la voz de muchos amigos lejanos; o quizá es una forma de consuelo, puesto que a lo largo de los años las cartas tienden a reemplazar cada vez más la relación directa, tan azarosa entre la Argentina y Europa.) Espero que ya esté perfectamente restablecida. Si la operaron en enero y todavía sigue sintiéndose dolorida, me doy cuenta de que no se trataba de algo banal. Si yo fuera tan egoísta como me creo a veces, debería alegrarme de que sus insomnios le hicieron conocer mis cuentos, pero debo tener alguna generosidad, puesto que lamento las circunstancias que la acercaron a mis Armas secretas . Es curioso que yo, cuando estoy enfermo, me vuelvo resueltamente hacia los novelones del siglo XIX. En un hospital, hace diez años, releí casi todo Dickens; en una clínica, otra vez, llene un montón de lagunas balzacianas. Lo del “opio de Occidente”, después de todo, es más literal de lo que uno piensa; yo estoy muy contento de que mis relatos la hayan distraído, arrancándola por un rato a sus dolores. Y estoy todavía más contento de que hayan sido Las armas secretas , porque en ese tomo están los cuentos míos que todavía prefiero.

¿Cuando viene a visitarnos a París? Alguien me había dicho que asistiría al coloquio del Columbianum en Génova, y aunque yo no voy nunca a reuniones de escritores (no sirvo para discutir ni para criticar), esperé que después viniese a Francia y pudiéramos vernos. Más tarde supe por otros amigos que usted no había ido a Génova.

En este momento mismo entra el cantonnier (1) de Saignon para anunciarme que han matado a Ben Bella. No es una noticia confirmada, pero no me sorprendería que fuese cierta. Cuánta sangre, cuánto odio. Pasada cierta edad, uno tiende a algodonarse cómodamente en cosas como las que comento en esta carta: los mensajes de los amigos lejanos, la lavanda, el sol… Y entonces, precisamente entonces, la fría realidad. Pero en todo caso ese toque de atención servirá como siempre para que cada uno de nosotros siga haciendo lo que cree que debe hacer.

Gracias, Victoria, por su carta tan cariñosa y tan suya. Aurora la recuerda con su afecto de siempre, y yo la abrazo muy fuerte,

Julio Cortázar

(1) Peón

* * * * *
A Francisco Porrúa
Saignon, 22 de mayo de 1967

Mi querido Paco: Hasta hace poco el silencio tenía un solo nombre en español, ése. Ahora se llama Porrúa, existe un silencio Porrúa, yo vivo desde hace un mes envuelto en una gran masa de silencio Porrúa. In the stillness of the night, the Porrúa stillness roams about like a big rhinoceros creeping near the verandah. In fact it is the first rhinoceros which has been noticed to creep , but yours does (1) . Y así pasa el tiempo y en el vasto agujero del espacio hay otro agujero más ominoso y perceptible que es el silencio Porrúa, y para decirte toda la verdad esta vida no puede seguir.

Vano es que Sara y Alicia (con esos nombres que deberían conmoverte por muchas razones) me digan en sus cartas que “Paco te escribe en seguida para… etc.”, vano es que Monsieur Galourdin, el cartero de Saignon, me ponga en los brazos diariamente entre medio kilo y tres arrobas de cartas y paquetes. Me basta mirar el abigarrado montón de mi fan-mail y las facturas a pagar para darme cuenta de que siempre hay un agujero cuadrado entre tantos colores, el silencio Porrúa con su estampilla de viento. Y yo vuelvo melancólico a la construcción de un objeto lleno de espejos, cubos de madera y caracoles que estoy fabricando para olvidarme un poco de la literatura, o estudio la escala de si bemol mayor en mi trompeta, para asombro de los numerosos escarabajos que circulan por el living de esta casa nacida para actividades más apacibles. ¿Vos realmente podrías explicarme qué carajo pasa? Pero tomaré la delantera, te aplastaré con la arrolladora fuerza de mi generosidad, te escribiré una larga carta llena de consultas, dándote trabajo, obligándote a pedir expedientes y archivos, a dictar telegramas, a consultar asesores, te privaré de tu cafecito de las diez y media y de tu cinzano con bitter de las once y veinticinco. La verdad es que se han juntado bastantes cosas de las que te tengo que hablar, y si sigo esperando tu carta, oh mallarmeano urdidor de ausencias, me olvidaré de las cosas más importantes. Hasta hace unos días pensé, inquieto, que tu salud no andaría bien, pero Sara y Alicia me escriben que estuvieron contigo en el lanzamiento (si así se llama) de un libro de Silvina Bullrich, y comprendí que no llevarías la locura al extremo de ir a una cosa así estando enfermo, de lo cual me resultó consolador deducir que estabas perfectamente bien y que si no escribías era porque hotras hocupaciones harto himportantes te habsorbían. Como Aurora, por ejemplo, que a veces se olvida de hacer el almuerzo porque está cuidando una mata de no sé qué flores absurdas que se le han enfermado (el otro día compró un veneno para caracoles, esta Lady Macbeth of Saignon par Apt, y al otro día había tantos caracoles muertos que pasé un mal rato, yo que amo esos animalitos apacibles).

Pero no seamos currutacos y dejémonos de cucamonas, como diría Guillermo de Torre, y aquí van los diversos business pending: (…) Basta de negocios y hablemos del viento mistral que está soplando esta mañana en Saignon y que agita los cerezos de tal manera que no va a ser necesario subir con una escalera a recoger la fruta. Llevamos aquí 20 días, y ya me siento mejor de la inquietante crisis de fatiga con que me despedí de París. He puesto bastante al día mi correo, pude por fin leer tres libros seguidos, cosa que no me ocurría desde hacía meses, y el vinito rosé y los asados al aire libre harán el resto. Leí El doble , de Dostoievski, que siempre se me había escapado, Señas de identidad de Juan Goytisolo, que es su mejor libro dentro de la sencillez del conjunto, y ahora me estoy divirtiendo mucho con Tres tristes tigres de Guillermo Cabrera Infante, que trata del ambiente habanero que conocí bastante a fondo en enero y febrero. Pero leo sobre todo poesía, toneladas de poesía en todos los idiomas, y de noche le doy media hora, antes de dormir, al librito de Stephen Potter sobre el sentido del humor en la Isla. No me parece demasiado bueno, pero hay citas excelentes. En la trompeta he conseguido llegar al sol natural sobreagudo sin que vuelen por el aire pedazos de pulmón. El libro mexicano está parado, porque no nos llegan las últimas galeradas y Silva me manda unas puteadas epistolares que me divierten mucho. Lo que hicimos juntos en París salió muy divertido, y dejará bastante consternados a los señores que exigen seriedad en las letras. La mucha seriedad que hay en el libro no la verán, naturalmente. Sara y Alicia me regalaron unas excelentes fotos de patios y de ómnibus porteños para el libro.

¿VOS CUANDO VENIS CON SARA? Tu viaje es lo que más me preocupa, lo único que me preocupa en un momento en que preocuparse por lo que ocurre en el mundo (¿leíste las declaraciones de McNamara sobre China?) parece casi un pleonasmo. Mirá, es absolutamente necesario tener dos o tres semanas para por fin hablar de verdad. Si podés arreglar para septiembre va a ser perfecto, pero avisame pronto porque realmente estoy inquieto y preocupado por este asunto. Los Blackburn también vienen a Europa (hace 6 años que no los veo) pero rápidamente les dije que no se aparezcan hasta noviembre; no quiero interferencias. Yo con Sara quiero hablar mano a mano, y con vos mano a mano, y se acabó, qué joder.

Sur ces paroles, como dicen en París, te ruego renuncies a tu empecinado rinoceronte y mandes unas líneas, digamos dos páginas.

Abrazos de Aurora que los quiere tanto, y otro abrazo de Julio (1) En el silencio de la noche, el silencio de Porrúa vaga como un gran rinoceronte que se desliza cerca de la veranda. En realidad es la primera noticia que se tiene de un rinoceronte que se desliza , pero el tuyo lo hace.

* * * * *
A Juan Carlos Onetti
Saignon, 30 de julio de 1978

Querido Juan Carlos: Me hizo gracia que te despidieras en tu carta deseándome que no me mortifique demasiado el calor. Figurate que es precisamente lo contrario, porque después de los inviernos de Paris, un argentino como yo necesita sol y calor en cantidades inagotables, y este mes de julio me los ha dado con una generosidad que yo no esperaba después de una primavera más bien desvaída y estúpida. Por lo cual estoy más negro que Nicolás Guillén, me paso el día desnudo en mi rancho, y trabajo en lo mío con unas ganas que hace mucho no sentía. Tengo también razones más vitales y profundas para sentirme bien. Después de un largo y penoso proceso, Ugné y yo nos separamos; la cosa fue dura, puesto que habíamos vivido juntos más de ocho años, pero ya no tenía sentido pasar de la verdad a la comedia y pretender que seguía siendo la verdad. Yo estoy viviendo con una chica que conocí en Montreal el año pasado, que me da una inmensa ternura y una paz que me hacía falta hasta un punto que sólo alcanzo a comprender ahora. Como ves, vivo un verano total; me alegra poder decírselo a un amigo como vos.

Desde luego acepto con alegría (e muito obrigado!) a la invitación de colaborar en la Estafeta Literaria . Tengo un cuento inédito (1) , de unas ocho páginas, que me gusta bastante, y si ustedes lo quieren, pues de acuerdo. En cuanto a la remuneración, si en vez de 300 me pagaran 400 dólares, me parecería bastante justo, pero si no se puede, decímelo vos mismo y yo estaré de acuerdo.

Prefiero esperar tus noticias, y si todo va bien, te envío en seguida el cuento o se lo mando a Rosales (2) , como ustedes prefieran.

Ojalá me toque dar un salto a Madrid, para cumplir mi deseo de ir a verte a tu casa, cosa que no pudo ser la última vez (en Madrid siempre tengo problemas jodidos, y se me arman unos líos que desequilibran todos mis planes, pero no será así la próxima vez).

Hasta siempre, gracias por la invitación, saludos a Luis Rosales y para vos un gran abrazo de Julio Cortázar OJO! Mi dirección privada no es segura; ya me rompieron dos veces el buzón, y no por razones literarias (mi querida embajada y la CIA lo saben, hijos de puta). Entonces, lo seguro es escribirme a mi nombre, y: B.P. 33 75022 PARIS CEDEX 01 FRANCIA De ahí me reexpiden las cartas a cualquier lado.

(1) “Queremos tanto a Glenda”, publicado en Nueva Estafeta , N° 1, Madrid, diciembre de 1978.

(2) Luis Rosales, poeta español, director de La Estafeta Literaria y de Nueva Estafeta .

* * * * *

A Ofelia Cortázar
Saignon, 3 de agosto de 1978

Querida Ofelia: Recibí tu carta, y te agradezco que me hayas informado en detalle del estado de salud de mamá. No es que me tome demasiado de sorpresa, puesto que la edad es la edad, pero confío en que el tratamiento que le hace el doctor Romeo dé buenos resultados y mamá pueda vivir de una manera normal y sin verse privada de cosas que le gustan, como la lectura o la televisión. Por mi parte, todo lo que has leído en los diarios es un tejido de macanas a cuál más completa. Te las resumo para que por lo menos en ese plano te quedes tranquila. Primero: no es cierto que me divorcié de Ugné, por la simple razón de que nunca nos habíamos casado. Simplemente acabamos de separarnos porque ya no había entre nosotros los sentimientos que nos habían unido hace años. La segunda mentira se refiere a mi salud; he tenido una neumonía bastante seria, que me trataron perfectamente, y a los quince días estaba curado; eso de la “depresión” es un invento del periodista, pero no me sorprende porque en realidad lo que ese periodista y muchos quisieran es que yo estuviera verdaderamente deprimido, cosa que no tengo la menor intención de hacer. Quedate entonces tranquila, pues mi salud es excelente. Y justamente en mi última carta a mamá (esa que según vos le produjo una crisis de rabia, cosa que no entiendo) le conté de mi separación y de que estoy viviendo con una chica con la que me siento muy bien y muy feliz. De modo que como ves, el balance es positivo y favorable, y no hay ninguna razón para que te inquietes.

Todo el resto de tu larga carta no puedo ni siquiera comentarlo. Cada uno tiene sus razones, y vos tenés las tuyas para juzgar como juzgás (muy cruelmente, te lo digo con toda franqueza) mi actitud con respecto al país. Lo que me asombra es que no te des cuenta de una cosa, y es que por más que yo lo quisiera (y vaya si lo quisiera) es absolutamente imposible que por el momento yo desembarque en mi país. Te digo de paso que cometes un lamentable error cuando hacés referencia a mi ciudadanía francesa, pues no la tengo (me la negaron dos veces), pero deberías saber que los argentinos y los franceses tienen el principio de la doble nacionalidad, es decir que el hecho de tomar la ciudadanía francesa no te quita la de argentino, y viceversa. Te lo digo porque me duele que también vos caigas en esa grosera calumnia que tantas veces me han tirado a la cara los verdaderos enemigos de la Argentina. En cuanto a todo lo que me decís sobre tus impresiones sobre la situación en el país, es perfectamente tu derecho y no haré el menor comentario. Algun día, quizá, llegues a saber lo que verdaderamente significa que yo no pueda escribirte sobre eso; por ahora seguí contenta con todo lo que te rodea, pues saberte feliz y satisfecha me da, como te imaginás, una gran alegría por vos.

Me alegro de que hayas recibido el dinero que te envié. También a propósito de eso, algunos comentarios que dejás caer sobre lo que en el fondo considerás un egoísmo de mi parte, o sea no estar con ustedes, deberías reflexionar un poco sobre lo que ha podido representar para mí en estos años comprar ese departamento para ustedes dos, y ayudarlas en lo que puedo cada vez que siento que necesitan dinero. No pretendo ningún mérito especial por eso, pero es la única (metete eso en la cabeza, por favor) la única manera de estar cerca de ustedes. No tengo otra, puesto que te repito que no puedo ir personalmente. Entonces, por lo menos pensá que tus reflexiones no me parecen demasiado acertadas. En fin, nada de esto tiene importancia. Espero que mamá siga bien, vos también, y que pronto reciba noticias favorables de ella o de vos. Te agradeceré mucho que no dejen pasar demasiado tiempo sin mandar por lo menos dos líneas.

Hasta siempre, con un abrazo de tu hermano que te quiere, Julio

1 comentário

Arquivado em Arquivo