Arquivo do autor:Eduardo Coelho

Sobre Eduardo Coelho

Eduardo Coelho é professor de literatura brasileira da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e editor. Mantém desde 2009, na revista portuguesa Ler, uma coluna sobre literatura e mercado editorial brasileiro. Foi chefe do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa de 2009 a 2011. ed.coelho@terra.com.br

“Mãos dadas”, de Carlos Drummond de Andrade

 

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

 

Sentimento do mundo, 1940

 

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“Molière, o corpo do figurino”, por Carolina Casarin

Extraído do blog do IMS. A peça está em cartaz no teatro Arnaldo Bloch, no Rio de Janeiro.

A peça Moliére, uma comédia musical, dirigida por Diego Fortes, é a primeira encenação no Brasil do texto da dramaturga e roteirista mexicana Sabina Berman. Produção do grupo Teatro Promíscuo, criado por Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi em 1993, o espetáculo chega ao Rio de Janeiro depois de uma temporada de sucesso em São Paulo, e trata da relação entre a comédia e a tragédia. Duas conhecidas figuras históricas, Molière (Matheus Nachtergaele, indicado ao Prêmio Shell como melhor ator) e Racine (Elcio Nogueira Seixas), encarnam respectivamente essas forças.

A trama, situada num momento histórico preciso, gira em torno da relação conflituosa entre os dois grandes nomes do teatro francês, cujo pano de fundo foi a França absolutista de Luís XIV (interpretado por Nilton Bicudo) em um de seus momentos mais gloriosos, na metade do século XVII. A princípio, o enredo parece se articular apenas em torno da oposição entre comédia e tragédia. Ao longo do espetáculo as figuras de Molière e Racine vão mostrando que se complementam naquilo que têm de diferentes. Se há uma força de antagonismo na história, é o arcebispo Péréfixe (Renato Borghi), moralista e hipócrita, que se contrapõe aos dois.

Na construção da trama chama a atenção o figurino assinado por Karlla Girotto, corroborando o tom cômico que atravessa o espetáculo. Funciona como uma narrativa dentro da narrativa maior, que ao mesmo tempo colabora com a peça, aprofundando as relações propostas pela trama, e se destaca, pois tem humor e é belo. Evidencia o modo como as roupas não apenas representam nossas personalidades, mas participam ativamente da constituição do que somos.


Molière
é um grande elogio ao riso e ao que ele tem de social e coletivo. A peça é narrada por Racine, o trágico, que aparece triunfante, abrindo o espetáculo. Usa peruca cacheada e comprida – como era moda entre os cortesãos franceses no final do século XVII, à Luís XIV; óculos escuros; brincos de brilhante; jabô de renda branca; casaca enrijecida, com ombreiras e galões; calças compridas, justas do joelho pra baixo, que terminam nos tornozelos; bengala; e botas de verniz vermelho, de salto alto.

Na cena seguinte, quando voltamos ao início da trama, Racine reaparece diferente daquela primeira figura vaidosa e segura. Antes de se tornar famoso e ser reconhecido pelo rei como um grande autor, veste uma casaca velha, esburacada, dois números maior que o seu tamanho, e botas baixas e gastas. Durante toda a montagem, as roupas de Racine são escuras, neutras e sem brilho, menos os acessórios, exagerados e espalhafatosos. Seu corpo está sempre coberto e seu rosto está revestido de maquiagem branca, como um fantasma, ou um palhaço.

Os figurinos de Racine e de seu irmão, Gonzago (Georgette Fadel), são escuros e opacos, contrapondo-se aos de Molière e sua trupe, repletos de luz e cor. Molière inicia o espetáculo vestindo uma túnica curta de lurex dourado; capa de paetê dourado; calça de veludo, muito justa, rosa-claro; sapato repleto de pedrarias; colares de ossos, correntes de bronze. Não usa peruca e seu corpo está constantemente em evidência: desde o torso nu das primeiras cenas ao desnudamento final, quando apenas não se esquece de levar consigo “suas botas”.

É interessante perceber como são explorados os dados biográficos na construção dos figurinos de Molière e Racine. Os dois representam mundos distintos, e a indumentária atesta essa diferença. O texto de Luci Collin no programa da peça informa que o pai de Molière foi tapeceiro real, e ele teve uma formação privilegiada, com acesso à vida na corte. Já Racine ficou órfão na infância e foi criado pela avó. Estudou retórica, leu os clássicos, apaixonou-se pelo teatro e ascendeu socialmente, tornando-se o primeiro dramaturgo francês a viver do dinheiro das próprias peças.

Um dos figurinos de Molière é um traje repleto de borlas em tons pastel: rosa, azul, amarelo. Além de nos remeter à filiação de Molière, já que seu pai era tapeceiro, esse traje lembra tanto o gibão dos séculos XVI e XVII, como os mantos confeccionados por Arthur Bispo do Rosário. Molière é nobre, visionário, louco e santo. Já o figurino de Racine pretende acompanhar seu progresso profissional. A casaca furada, dois números maior que o seu tamanho, gradualmente torna-se mais curta, justa e estruturada. O número de acessórios também cresce. Ao final, que é o início da peça, ele está todo montado.

Racine termina a peça modificado, não apenas exteriormente. Um pouco melancólico e, finalmente, irônico. No percurso da trama, o figurino segue este processo. A roupa, cada vez mais elegante e pomposa, poderia lhe servir para esconder o passado fora da corte, seus medos e tiques. Por ter uma trajetória de ascensão social, Racine veste-se de modo sóbrio, como um burguês. Está na essência da roupa burguesa masculina, além de o desejo de diferenciar-se da exuberância do vestuário da nobreza, a vontade de se destacar pelo trabalho. O que o homem burguês da virada dos séculos XVIII e XIX quer evidenciar em sua aparência não é o privilégio de classe. Ao contrário, a roupa ajustada, confeccionada com materiais maleáveis, como a lã, proporciona uma figura ágil e discreta, que se movimenta e trabalha.

Observando a roupa de Racine, vemos que ela pretende se aproximar desse vocabulário vestimentar. Mas o figurino do personagem, e o modo como o ator veste suas roupas, acaba por dar uma banda na sobriedade e na neutralidade das normas burguesas do vestir masculino. Suas roupas funcionam perfeitamente no jogo da rigidez a que está submetido o personagem cômico. Por mais que Racine tente fugir da comédia, escondendo-se em roupas bem cortadas, o ridículo está ali, nos ombros excessivamente duros de suas jaquetas, no exagero de sua peruca e de seus broches de brilhante, na maneira como anda com as botas de salto fino e no verniz vermelho – fazendo referência aos sapatos de salto e sola vermelhos de Luís XIV, numa demonstração máxima de esnobismo e poder, já que essa era uma das cores mais caras usadas no vestuário. Quando Racine ganha lugar de destaque na corte do rei, passa a usar uma bota de salto e bico finos, de couro, o que dá uma comicidade involuntária aos gestos do ator.

O espetáculo, que segue em temporada até dia 2 de setembro, evidencia a importância de um figurino bem realizado para a compreensão dos personagens, do período histórico, da proposta da direção, para uma imersão completa do espectador no espírito da peça. Rimos de Racine e nos comovemos com Molière. Ao fim o sentimento é de reconciliação, mesmo que temporária. A peça nos faz rir e chorar, sentir prazer e raiva, sem precisar escolher entre a comédia e a tragédia.

Carolina Casarin é especialista em história e teoria do vestuário e da moda. Doutoranda em Artes Visuais na UFRJ, desenvolve a tese O guarda-roupa modernista. Atualmente está em Paris, vinculada ao Institut d’Histoire du Temps Présent.

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Lançamento: Estilo urbano, de Maria Cristina Volpi

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27/07/2018 · 1:01

“porto alegre, 2016” – Angélica Freitas

quando você viu na tv
aquelas pessoas em fila na chuva
à noite numa estrada
na fronteira de um país que não as deseja

e quando você viu as bombas
caírem sobre cidades distantes
com aquelas casas e ruas
tão sujas e tão diferentes

e quando você viu a polícia
na praça do país estrangeiro
partir pra cima de manifestantes
com bombas de gás lacrimogêneo

não pensou duas vezes
nem trocou o canal
e foi pegar comida
na geladeira

não reparou o que vinha
que era só uma questão de tempo
não interpretou como sinal a notícia
não precisou estocar mantimentos

agora a colher cai da boca
e o barulho de bomba é ali fora
e a polícia pra cima dos teus afetos
munida de espadas, sobre cavalos

 

50 poemas de revolta, 2017

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Moda e comportamento – Para assistir e comentar

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21/05/2018 · 21:42

Gêneros textuais: definição e funcionalidade no trabalho com arquivos literários

O Tiago Cavalcante é incrível!

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Lançamento de Sobrimagens, de Jorge Fernandes da Silveira

No dia 17 de junho, às 11h, na sala do PACC/Faculdade de Letras/UFRJ, o Laboratório da Palavra e a editora Desalinho vão lançar Sobrimagens, de Jorge Fernandes da Silveira. O livro será apresentado por Mônica Fagundes e, em seguida, teremos um debate com o autor. Para quem quiser conhecer um pouco desse livro, Ricardo Pinto de Souza fez uma página no site do Laboratório de Edição em que constam alguns poemas/ensaios/imagens: http://www.labedicao.com/argo/sobrimagens/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Palestra – “Por um novo paradigma institucional” – George Yudice

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07/05/2018 · 23:56

“Adonais”, de Shelley, porque Victor Heringer morreu

O poeta John Keats morreu aos 25 anos, no dia 23 de fevereiro de 1821, em Roma. Sua morte inspirou Shelley a escrever o poema “Adonais”, que figura entre os mais belos do romantismo inglês. Conforme Fernando Guimarães, seu tradutor, “Adonais é uma forma híbrida de Adonai (designação do Senhor nos textos bíblicos) e Adonis (que representa, nomeadamente na mitologia grega, a incarnação da beleza masculina)”. Nesse poema, amigos aparecem, como Byron (“o Peregrino da Eternidade”), Thomas Moore (“o mais delicado poeta”) e o próprio Shelley. Transcrevo algumas estrofes do poema “Adonais”, tendo em mente Victor Heringer, que morreu ontem, dia 7 de março de 2018, aos 29 anos. É por Victor Heringer que choro – ele está morto!

Um trecho desse poema foi lido por Mick Jagger num show realizado em Londres, logo após a morte de Brian Jones:

 

ADONAIS

Elegia à morte de Keats

 

1

É por Adonais que choro – ele está morto!
Chorai por Adonais, ainda que as lágrimas
não libertem do gelo essa cabeça amada!
E tu, Hora tão triste, a única escolhida
para nela chorarmos, desperta as tuas obscuras irmãs,
ensina-lhes essa dor e diz: “Comigo
morreu Adonais, e sempre que o Futuro
não esqueça o passado, o seu destino, a glória
como um eco e uma luz chegam, eternamente.”

[…]

5

Tu, cujo pranto é o mais suave, chora de novo!
Nem todos assim tão alto ousaram erguer-se;
e mais felizes são os que conhecem a sua felicidade,
cuja chama ainda brilha pela noite dos tempos
onde os sóis morreram; outros, mais sublimes,
feridos pela inveja dos homens e dos deuses,
caíram, e extinguem-se no brilho da sua juventude;
outro vivem ainda, cruzando os ásperos caminhos
que os conduzem à glória, através de ódios e fadigas.

6

Mas agora, o mais amado e jovem está morto!
– aquele que criaste na tua viuvez, o que cresceu
como uma flor cultivada por uma virgem triste,
alimentado por lágrimas de amor, e não pelo orvalho;
tu, cujo pranto é o mais suave, chora de novo!
Tua última esperança, a mais querida e derradeira,
a flor, cujas pétalas se crestaram antes de florir,
acabou por morrer na promessa do seu fruto;
a tempestade já passou, o lírio quebrado dorme.

[…]

9

Chorai por Adonais! As ligeiras formas do sonho,
as asas em que as paixões transportam o pensamento
no seu voo, alimentadas junto da pura fonte
desse espírito jovem, às quais ele ensinou
o amor, que era a sua música, não divagam
mais à aventura, inflamando o entendimento,
e aqui regressam, aonde nasceram, e choram
junto deste coração gelado, sem que possam
receber o seu poder, ou encontrar asilo.

10

Uma delas pousa as mãos trêmulas sobre esta fronte gelada,
refresca-a com as suas asas lunares, e clama:
“Não, não morreu o nosso amor, a nossa esperança…
Vede! Sobre as pálpebras dos seus olhos exaustos,
como o orvalho numa flor adormecida, jaz uma lágrima
que um sonho fez desprender da sua alma.”
Anjo perdido dum Paraíso em ruínas!
Não sabia que era sua esta lágrima
extinta, qual uma nuvem que chorasse a sua chuva.

11

Outra inclinou a luminosa urna de orvalho
e espargia-lhe os membros, como para o embalsamar;
cortou uma outra os cabelos caídos, e lançava
essa grinalda sobre ele, um diadema
engastado com as suas geladas lágrimas;
e ainda, na sua dor, outra veio quebrar
o arco e as setas, como para assim deter
uma perda imensa com outra perda menor,
apaziguando tal chama de encontro a este frio rosto.

12

E desceu outra luz em direção à sua boca,
aquela boca onde encontrou a respiração
que veio penetrar no espírito receoso
e alcançar o coração, aí chegando
com canções e o seu esplendor: úmida, a morte
apagou as carícias nos seus lábios gelados;
como um meteoro, cujo o derrareiro brilho atravessa
uma grinalda de neblina presa à fria noite,
coloriu os seus pálidos membros, e a seguir extinguiu-se.

[…]

14

Tudo o que amou e foi tocado pelo pensamento,
formas, cores, perfumes, ou sons harmoniosos,
chorava por Adonais. A manhã procurou
a sua torre, a oriente, e os cabelos soltos
e molhados pelas lágrimas que deviam embelezar a terra,
obscureceu os olhos celestes que iluminam o dia;
ao longe, gemia a melancólica tempestade,
o pálido Oceano jazia num inquieto sonho,
e soluçavam à volta os ventos com temor.

15

Perdida entre as montanhas emudecidas,
alimenta Eco a sua dor com a recordação dos cantos,
não respondendo mais aos ventos ou às fontes,
nem às aves amorosas pousadas em verdes ramos,
nem à trompa do pastor, aos sinos, no fim do dia,
porque não pode imitar os seus lábios, mais queridos
que os de Narciso, quando definha a amada
numa sombra de sons: um triste murmúrio
entre canções é tudo o que escutamos pelos bosques.

[…]

19

Através dos bosques, colinas, rios, campos, mares,
uma vida mais intensa irrompe do coração terrestre,
nele imprimindo a transformação e o movimento,
desde a grande manhã do mundo, quando pela primeira vez
Deus amanheceu sobre o Caos; imersas nessa corrente,
as lâmpadas do céu brilham com uma luz mais suave;
os seres mais humildes palpitam com a divina sede da vida;
procuram-se uns aos outros, e gastam nas delícias do amor
a beleza e a alegria da sua força renovada.

[…]

25

Por um instante, a Morte, na câmara mortuária,
quando irrompeu esta Força tão viva,
ficou aniquilada, e a respiração
voltou de novo aos lábios, e a luz pálida da Vida
brilhou pelos seus membros, há pouco tempo
amados. “Não me deixes assim, desesperada, triste,
como um raio silencioso deixa a noite sem estrelas!
Ah, não me deixes…” – disse Urânia e com a dor tocou
a Morte, que se ergueu, e aceitou a sua vã carícia.

26

“Espera um pouco… Ah! fala-me outra vez;
beija-me, apenas pelo tempo que pode durar um beijo;
e no meu peito vazio, neste rosto febril
que palavra, que beijo podem sobreviver
alimentados pelas mais dolorosas recordações,
agora que morreste, como se fossem uma parte
de ti, meu Adonais! Daria tudo o que sou
para me transformar no que tu és agora!
Mas estou presa ao Tempo, e não posso partir!

27

“Meu filho amado, se eras assim tão belo
porque deixaste os caminhos seguidos pelos homens
tão cedo, e com mãos débeis (mas forte o coração)
desafiaste no seu antro esse monstro cruel?
Ai, indefeso como estavas? Da prudência
onde ficara o límpido escudo, e do desprezo a lança?
Se esperasses que terminasse o ciclo da vida,
ao completar o teu destino, como velozes cervos
já teriam fugido os monstros que te ferem.

[…]

29

“O sol ergue-se, e geram os répteis a sua descendência;
ela põe-se, e todos os insetos efêmeros
se reúnem numa morte sem aurora,
e as imortais estrelas de novo se levantam;
também assim acontece no mundo em que vivemos:
começa a voar uma alma divina e, em seu júbilo,
desnuda a terra e vem cobrir o céu; depois desaparece
e os enxames que obscurecem ou partilham a luz
às lâmpadas familiares deixam a enorme noite do espírito.”

30

Assim falou Urânia; e os pastores chegaram,
rasgados os seus mantos, já secas as grinaldas.
O Peregrino da Eternidade, cuja fama se estende
sobre a sua fronte, como o círculo do céu
– um tão recente, mas imperecível momento -,
chegou também, quando o esplendor do canto
se cobre de tristeza; e para o lamentar, de ermos longínquos
o mais delicado poeta viera, quando o Amor ensina
o Sofrimento a desprender-se dos lábios, como a música.

[…]

44

No firmamento, o esplendor do tempo
pode ficar oculto, mas jamais é extinto;
ergue-se à sua própria altura, como as estrelas,
e a morte é uma bruma que não poderá apagar
o brilho que velava. Quando um puro pensamento
eleva um jovem coração, e a vida e o amor
dentro de si lutam para assim decidir
qual era o seu destino, ali, vivem os mortos
e, nas noites tempestuosas, chegam como ventos de luz.

[…]

46

E ainda outros, cujos nomes na Terra se apagaram
mas cuja invisível influência não se perdeu ainda
– como o fogo sobrevive do primeiro esplendor onde irrompe –
levantaram-se, vestidos duma ofuscante imortalidade.
“És agora como cada um de nós”, exclamam.
“Era para ti que, há tanto tempo, aquele astro
girava cegamente, na sua inacessível majestade,
sozinho, tranquilo, num céu cheio de cânticos.
Ocupa esse trono alado, tu, nossa Estrela da Tarde!”

47

Quem lamenta Adonais? Oh, vem, tu que o amaste
com tanta dor! Conhece-o melhor, a ele e a ti mesmo.
Abraça com a tua cansada alma a oscilante Terra;
projeta além de todos os mundos a luz
do espírito, até que o vasto poder sacie
o vazio círculo que te envolve; depois, concentra-te
num único ponto dos nossos dias e das nossas noites; e conserva
livre a alma para que não soçobres, quando a esperança
despertando a esperança te fascinou até onde tudo acaba.

[…]

54

Esta Luz cujo sorriso incendeia o Universo,
esta Beleza de que todos os seres recebem movimento, vida,
esta Graça que não pode extinguir a obscura
maldição do nascimento, este Amor tutelar
que, através da teia de cada ser cegamente tecida
arde, crepitante ou quase extinto, conforme se reflete
a chama que ansiavam, agora é em mim que brilha,
consumindo as nuvens perdidas da fria mortalidade.

55

O poderoso alento que nestes versos invocara,
sobre mim desce; o barco da minha alma é levado
para longe da margem, das tímidas multidões
cujos barcos nunca foram entregues à tempestade;
fendidas estão a própria terra e a esfera dos céus!
Sou arrebatado pelas trevas e pelo assombro
enquanto a alma de Adonais, a arder através do último véu
do Firmamento, como se fosse uma estrela,
vem guiar-nos, e brilha onde estão os Imortais.

 

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“Quinta de tarde”, de Eudoro Augusto

Não esperava você
antes do próximo verão.
Foi precipitação de sua parte,
foi sua arte. Aquela estranha estratégia
de ferir e depois usar a língua mais doce
pra lamber as feridas.
Não podia adivinhar que você viria
nesta quinta de tarde,
sentindo no ar o velho cheiro
de sal e de sangue.
Os demônios me arranham
nesta temporada de sombras
e maçãs podres.
Estação do exílio e do desespero.
Hoje outra vez eu me escondo
em luas escusas.
De cara virada,
os olhos fixos no planeta mais obscuro,
pedindo perdão aos deuses do sono.
Então emudeço o telefone,
tranco as portas como um bandido acossado,
cancelo visitas, luzes, vozes, chaves,
interdito as emoções claras
e as cintilantes naves.
Meu pensamento trava.
Não, eu não estava
esperando você.

 

Ventura (1984-1987) in O desejo e o deserto (1989)

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