“Romance XIX ou Dos maus presságios”, de Cecília Meireles

Acabou-se aquele tempo
do Contratador Fernandes.
Onde estais, Chica da Silva,
cravejada de brilhantes?
Não tinha Santa Ifigênia
pedras tão bem lapidadas,
por lapidários de Flandres…

Sobre o tempo vem mais tempo.
Mandam sempre os que são grandes:
e é grandeza de ministros
roubar hoje como dantes.
Vão-se as minas nos navios…
Pela terra despojada,
ficam lágrimas e sangue.

Ai, quem se opusera ao tempo,
se houvesse força bastante
para impedir a desgraça
que aumenta de instante a instante!
Tristes donzelas sem dote
choram noivos impossíveis,
em sonhos fora do alcance.

Mas é direção do tempo…
E a vida, em severos lances,
empobrece a quem trabalha
e enriquece os arrogantes
fidalgos e flibusteiros
que reinam mais que a Rainha
por estas minas distantes!

 

Romanceiro da Inconfidência, 1953

1 comentário

Arquivado em Poesia

Uma resposta para ““Romance XIX ou Dos maus presságios”, de Cecília Meireles

  1. jorge

    Agradecendo ao Eduardo Coelho a intensa atividade de política cultural estampada no seu (nosso) blog e espantado pela atualidade da releitura do “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, tomo a liberdade de publicar a conclusão de texto lido há pouco em Belo Horizonte, na UFMG:

    E, agora, para concluir, leio os últimos versos de “Meio-dia/ meu dia”, o último poema do último livro publicado em vida de Fiama Hasse Pais Brandão, “A matéria simples”, [2006] com epígrafe de Camões, pois, “E o vivo e puro amor de que sou feito/ como a matéria simples busca a forma.”: “(…) Hoje/ meu dia, o coração e o dia rejubilam.” E é extremamente significativo que o belo horizonte deste meio-dia (re)jubiloso seja aqui, no I Colóquio Internacional de Poesia Portuguesa Moderna e Contemporânea da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. A nossa “identidade social simbólica” agradece, comovida e atenta, dois dias depois de a Câmara dos Deputados autorizar a abertura do processo de impeachment contra a Presidenta Dilma Rousseff. E, pelo conhecimento da “imagem dialética” benjaminiana, aquela que, coincidentemente, em tempos “solombrios”, “carrega no mais alto grau a marca do momento crítico, perigoso, subjacente a toda leitura”, é claro, não podia ser de outro jeito, senão com versos de Cecília Meireles, do “Romanceiro da Inconfidência”, 1953, da sua “Fala inicial”: “Ó meio-dia confuso,/ ó vinte-e-um de abril sinistro,/ que intrigas de ouro e de sonho/ houve em tua formação?/ Quem ordena, julga e pune?/ Quem é culpado e inocente?/ (…)”
    Jorge Fernandes da Silveira
    19 de abril de 2016

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