“Coliseu”, de Cecília Meireles

 

Cem mil pupilas houve:

– cem mil pupilas fitas na arena.

 

Os olhos do Imperador, dos patrícios,

dos soldados, da plebe.

 

Os olhos da mulher formosa que os poetas cantaram.

 

E os olhos da fera acossada,

do lado oposto.

Os olhos que ainda brilham fulvos,

agora, na eternidade igual de todos.

 

Cem mil pupilas:

– ilustres, insensatas, ferozes, melancólicas…

vagas, severas, lânguidas…

Cem mil pupilas veem-se, na poeira da pedra deserta.

 

Entre corredores e escadas,

o cavo abismo do úmido subsolo

exala os soturnos prazeres da antiguidade:

 

um vozerio arcaico vem saindo da sombra,

– ó duras vozes romanas! –

um quente sangue vem golfando,

– ó negro sangue das feras! –

um grande aroma cruel se arredonda nas curvas pedras.

– Ó surdo nome trêmulo da morte!

 

(Não cairão jamais estas paredes,

pregadas com este sangue e este rugido,

a garra tensa, a goela arqueada em vácuo,

as cordas do humano pasmo sobre o último estertor…)

 

Cem mil pupilas ficam aqui,

pregadas nas pedras do tempo,

manchadas de fogo e morte,

no fim do dia trágico,

depois daquela ávida e acesa coincidência

quando convergiram nesta arena de angústia,

que hoje é pó de silêncio,

esboroada solidão.

 

(As pregas dos vestidos deslizaram, frágeis.

E os sorrisos perderam-se, fúteis,

sobre o enorme espetáculo, que foi o aroma dos cosméticos?)

 

 

Poemas italianos, 1968

1 comentário

Arquivado em Poesia

Uma resposta para ““Coliseu”, de Cecília Meireles

  1. Que descrição, meu Deus.

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