“O maior verso de abertura da música brasileira”, de Paulo da Costa

Artigo de Paulo da Costa publicado na revista Piauí:

Há pouco tempo topei com o cantor e compositor Leo Tomassini no bairro da Gávea. Foi num início de tarde de um dia comum. Leo é daqueles que estão sempre com uma canção na cabeça, ruminando um verso melódico, examinando seus significados. Naquela tarde ele usava um chapéu que lhe realçava ainda mais o aspecto andarilho. Sorria. Certamente cantarolava algo quando nos encontramos. Assim que nos cumprimentamos, logo começamos a falar de música. Foi então que ele me contou que andava pensando na estranha beleza do verso “Quando piso em folhas secas”. Enquanto o ouvia falar, eu resgatava da memória minha impressão mais profunda da obra-prima de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.

É incrível como o que nos é familiar, aquilo que é mais óbvio, frequentemente nos passa despercebido. Eu jamais havia atentado para a grandeza desse verso de abertura. Ele é tão poderoso que imanta toda a canção – ela desabrocha a partir dele, e ao final parece a ele retornar. A metáfora é concreta, sinestésica: tem um apelo tátil, visual e até mesmo sonoro, uma vez que é impossível dissociar o “pisar em folhas secas” do ruído que decorre do gesto. A canção  se tinge de sépia. A imagem, que também possui um aspecto muscular, pois que associada a uma ação, ao ato de caminhar, põe o homem em relação com o mundo natural. O estalar de folhas secas desencadeia uma reflexão sobre a condição humana.

Da materialidade prosaica do sensível somos lançados ao plano das ideias. A natureza é o espelho no qual vemos refletida, em símbolo, a condição dos homens. Há uma aproximação recíproca: homens são como folhas, possuem um vínculo misterioso com o reino vegetal; ao mesmo tempo, folhas são como homens, possuem um vínculo misterioso com o reino humano. Essa relação já havia sido percebida há milênios, na primeira obra da literatura ocidental. Numa famosa passagem do canto VI da Ilíada, Homero ressoa Nelson e Guilherme: “Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens. Às folhas, atira-as o vento ao chão; mas a floresta no seu viço faz nascer outras, quando sobrevem a estação da primavera: assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de existir.”

A convergência entre Nelson Cavaquinho e a Grécia antiga foi notada num ensaio do escritor e artista plástico Nuno Ramos a respeito do sambista. Na música noturna de Nelson, ele diz, sentimos com nitidez a voz coletiva e anônima que emana do coro dionisíaco – a voz que revela a implacável tragédia humana: a consciência da morte, o doloroso sentimento da vida que declina na experiência do envelhecimento, ou, nas palavras de Cavaquinho e Brito, o aviso do tempo, a lembrança de que não podemos mais ficar. Nunca, nem antes nem depois, a canção brasileira se abriu tanto para a figuração da morte e do que há de sombrio na existência. Tudo em Nelson evoca o ethos da tragédia – até a luz pode ser negra. Suas músicas, encenadas em palcos sob luzes dramáticas, não raro aludem a palhaços desencantados. Sua voz soa farsesca, antes feita de falhas do que propriamente de sons, como se emitida através de uma máscara grega – o próprio rosto do sambista lembra uma máscara. Ele, Nelson, um Sileno dos morros cariocas, o preceptor e companheiro de Dioniso que anunciava verdades terríveis.

Deixe um comentário

Arquivado em Música

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s