“É”, de Eucanaã Ferraz

O Davi não nos vê. Poderia dizer que é divino
o modo como o Davi não nos vê. O olhar vara
um destino certo um infinito reto de onde pudesse vir
um barco um homem um cavalo e nele pousaria um jarro.
Olhamos o Davi sem descanso ponderamos ângulos
giramos ele não vê decerto se espantaria da ronda vulgar
em tantas línguas desencontradas quem sabe se enternecesse.
Mas o Davi tem a dádiva de não nos ver. Nu inteiro
perfeito não sabe o que é estar nu ou não estar nu.
Está em paz. Está onde está. Traz a medida
da certeza. E porque não existe nele
o que chamamos ele o Davi é absolutamente visível.

 

de Trenitalia, 7Letras, Megamíni, 2016

2 Comentários

Arquivado em Poesia

2 Respostas para ““É”, de Eucanaã Ferraz

  1. jorge

    Sobre o Ombro Esquerdo

    Da vida dos livros
    há muito ele nos vê.
    Fita-nos com olhar esfíngico e fatal
    como o Mestre pensou
    não como jamais fitou alguém.
    Descolado
    tem a medida justa dos olhos em que o mundo cabe
    em cena. Metamorfoses.
    E por que insiste nele
    o desejo absurdo de Ocidente não tem idade.
    Está onde estiver.
    Calado é nave homem cavalo ângelus. Ân
    fora. Vozes. Pedra lida.
    Dadivoso da mão esquerda sobre o ombro funda
    Davi a Humanidade.
    Jorge Fernandes da Silveira

    ele, segundo verso, em itálico.
    Metamorfoses, oitavo verso, em itálico.

    A NAVE DE ALCOBAÇA
    Jorge de Sena

    Vazia, vertical, de pedra branca e fria,
    longa de luz e linhas, do silêncio
    a arcada sucessiva, madrugada
    mortal da eternidade, vácuo puro
    do espaço preenchido, pontiaguda
    como se transparência cristalina
    dos céus harmônicos, espessa, côncava
    de rectas concreção, ar retirado
    ao tremor último da carne viva,
    pedra não-pedra que em pilar’s se amarra
    em feixes de brancura, geometria
    do espírito provável, proporção
    da essência tripartida, ideograma
    de muda imensidão que se contrai
    na perspectiva humana. Ambulatório
    de expectação tranquila.
    Nave e cetro,
    e sepulcral resíduo, tempestade
    suspensa e transferida. Rosa e tempo.
    Escada horizontal. Cilindro curvo.
    Exemplo e manifesto. Paz e forma
    do abstracto e do concreto.
    Hierarquia
    de uma outra vida sobre a terra. Gesto
    de pedra branca e fria, sem limites
    por dentro dos limites. Esperança
    vazia e vertical. Humanidade.
    Araraquara, 27/11/1962

  2. Pingback: “Sobre o ombro esquerdo”, de Jorge Fernandes da Silveira | Autores e Livros

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