“Marcas da mãe”, de Armando Freitas Filho

 

O primeiro prato feito
não admitia dúvida:
tinha divisões, onde
cada porção se punha
certa e definitiva.
O punhado de arroz
a colher e meia de feijão
a cor de legume medido
a carne cortada em cubos
contados. Depois, no prato
raso do mesmo jogo
a fatia certeira de queijo
e de doce acabando juntos.
Mais tarde, na louça adulta
e anônima, a mesma mão
destinada dispunha
sem engano a comida.
Nem mais, nem menos
mas com um tempero oculto
um veneno de mentira:
o que era antes interdito
à criança se permitia
ao menino que não crescia.
Agora, sem sua certeza
me sirvo hesitante:
o que corto, o que ponho
ora sobra, ora falta
e não sei, exatamente
o que me alimenta ou me mata.

[De Dever, 2013]

1 comentário

Arquivado em Poesia

Uma resposta para ““Marcas da mãe”, de Armando Freitas Filho

  1. A simplicidade e elegância de Armando Freitas Filho são muito comoventes, sempre. Acho especialmente tocante os versos “um veneno oculto / um tempero de mentira”, em meio a uma narrativa fingidamente caseira e cotidiana. É uma melancolia, mas revestida de saudade e certa dose de alegria, o que parece contraditório, mas acaba se revelando que são prolongamentos uns dos outros, ou que se interpenetram. É preciso ser um poeta danado de bom para alcançar esses níveis.

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