“O ponto negro”, de Gérard de Nerval

Quem quer que tenha olhado o sol bem fixamente
Crê ante seus olhos ver, a voar teimosamente,
Ao redor, uma nódoa algo lívida, no ar.

Assim bem moço ainda e muito petulante
Ousei fixar na glória os olhos um instante:
Ficou-me um ponto negro em meu voraz olhar.

Depois, mesclado a tudo, em sinal de algum luto,
Por toda parte, onde o olho eu ponho ou mais perscruto,
Vejo-a também pospor-se assim, a negra escória!

Que coisa, sempre! Está entre mim e qualquer ventura!
Ó, é que apenas a águia – ai dessa desventura! -Contempla impunemente os dois, o sol e a glória!

 

[Do livro Cinquenta poemas, de Gérard de Nerval,
São Paulo, Ateliê Editorial. Tradução de
Mauro Gama]

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