“Vidas opostas de Cristo e dum homem”, de Murilo Mendes

Senhor do mundo,
cada vez que ressuscitas um homem, me destruo a mim mesmo.
Enquanto o demônio te tenta no deserto
eu sonho com os corpos que a terra criou.
Enquanto passas fome e sede quarenta dias
os meus sentidos se desalteram.

Cada vez que cais ao peso da tua cruz
eu caio com uma mulher de última classe.

Enquanto te multiplicas na humanidade
não saio dos limites da minha pessoa.

Depois da morte voltas pra absolver o justo e o pecador,
eu antes da morte já condenei o pecador, o justo e eu mesmo.

Senhor do mundo,
me tira de mim pra que eu possa olhar os outros e eu mesmo.

 

De Poemas, 1930

1 comentário

Arquivado em Poesia

Uma resposta para ““Vidas opostas de Cristo e dum homem”, de Murilo Mendes

  1. Roberto Rocha

    Murilo sempre terno na sua dureza com o humano só humano.

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