“Improviso para Norman Fraser”, de Cecília Meireles

 

O músico a meu lado come

o pequeno peixe prateado.

 

Percorre-lhe a pele brilhante,

abre-a, leve, de lado a lado.

 

Úmido deus de água e alabastro

aparece o peixe despido.

 

E, como os deuses, pouco a pouco,

vai sendo pelo homem destruído.

 

Ah, mas que delicado culto,

que elegante, harmonioso trato

 

se pode dispensar a um peixe

como um deus exposto num prato!

 

Vinde ver, tiranos do mundo,

esta suprema gentileza

 

de comer! – que deixa perdoado

o gume da faca na mesa!

 

Em sua pele cintilante,

nítido, fino, íntegro, certo,

 

jaz o peixe – ramo de espinhos

musicalmente descoberto.

 

Ó fim venturoso! Invejai-o,

corais, anêmonas, medusas!

 

Vede como era, além da carne,

Frase secreta, em semifusas!

 

[Do livro Retrato natural, 1949]

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