“Os meus livros do ano” – Carlos Fiolhais

Texto do professor Carlos Fiolhais, extraído do site do jornal Público:

Estando a Terra quase a completar mais uma volta em torno do Sol, é novamente tempo de balanço. Embora o ano não esteja ainda fechado, uma boa previsão é que o número de novos livros publicados em Portugal caiu, com a crise, para cerca de 13.500, um valor apenas comparável ao do início da década e bastante abaixo do pico de 17.331 atingido há cinco anos. Mesmo assim, ainda se publicaram, dia e noite, 1,5 livros em cada hora. Eis a minha escolha pessoal de dez livros de 2013. Privilegiei a originalidade, que não faltou. A ordem é alfabética do apelido do autor.

– Luís M. Bernardo, Cultura Científica em Portugal. Uma perspectiva histórica, Editora da Universidade do Porto. Um professor de Física do Porto traça um retrato do modo como a ciência foi sendo vista entre nós. Numa altura em que a Fundação para a Ciência e Tecnologia decidiu, num gesto inculto, encerrar a disciplina de História da Ciência, esta é uma obra que relata o modo, nem sempre bom, como temos encarado a ciência. Recomenda-se em particular aos políticos de ciência que insistem em ignorar a história: eles esquecem-se que ignorando o passado não se pode preparar o futuro.

– Afonso Cruz, Para Onde Vão os Guarda-chuvas, Alfaguara. O novo original de um escritor (também ilustrador, cineasta e músico) chegado há pouco à edição mas já premiado é isso mesmo: original. Parece no início um livro infantil (“História de Natal para crianças que já não acreditam no Pai Natal”), mas revela-se, numa vertiginosa sucessão de minicapítulos, um surpreendente romance em terras do Oriente. que termina com uma colecção de aforismos.

– David Deutsch, O Início do Infinito, Gradiva. Muito própria para estes tempos de crise, uma extraordinária obra de um físico israelita, pioneiro da computação quântica e professor em Oxford. Passando em revista os avanços verificados após a Revolução Científica, Deutsch afirma-se bastante optimista a respeito das capacidades da ciência. Graças à ciência, vamos ter futuro.

– Jorge Lima, Pensamentos do Dalai Lima, Abysmo. Este livro do prelo de uma pequena mas original editora lisboeta contém frases divertidíssimas, com um design gráfico bastante cuidado, da autoria de um publicitário. Por exemplo: “Um governo paralisado não é necessariamente mau quando se está à beira do abismo.”

Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, Dicionário de Lugares Imaginários, Tinta da China. Da autoria de um apaixonado pelos livros e pela literatura de origem argentina e de um especialista italiano de literatura de viagens, trata-se de um muito completo repositório de paisagens ficcionais.

– Paulo Mendes (fotos), A Biblioteca Joanina. The Joanine Library, Imprensa da Universidade de Coimbra. Apesar de ter uma pequena quota do livro como autor do texto introdutório, não posso deixar de recomendar este belo volume de fotografias da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, recentemente considerada de novo uma das mais belas do mundo. Com este coffee-table book bilingue aquela universidade encerra o ano em que passou a ser Património da Humanidade.

– Ion Morris, O Domínio do Ocidente, Bertrand. Um historiador inglês que ensina na Universidade de Stanford apresenta uma comparação magistral entre o Ocidente e o Oriente. O Ocidente, por enquanto, ainda domina… Em inglês há um segundo volume, The Measurement of Civilization, que ensina a comparar o desenvolvimento de povos e culturas.

– Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari (orgs.), Fernando Pessoa: Eu sou uma antologia. 136 autores fictícios, Tinta da China. A multiplicidade estonteante de Pessoa aparece, maior do que nunca, neste livro cujo primeiro autor é um estudioso colombiano distinguido este ano com o Prémio Eduardo Lourenço. Em 2014 passarão os cem anos da estreia literária de Caeiro, Reis e Campos, mas há muito mais pessoas no poeta da Mensagem. Como António Mora, que a Assírio e Alvim revelou este ano.

– Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação, Caminho. Um ensaio fragmentado, onde o leitor entra por um qualquer sítio e sai onde quiser. E sai mais enriquecido, por obra e graça não só do autor do texto, hoje já consagrado com traduções em meia centena de países, mas também do colectivo responsável pelas fotografias.

– Padre António Vieira, A Chave dos Profetas, Círculo de Leitores. Na monumental obra vieirina, que o Círculo começou este ano a publicar, distingo este volume coordenado por Pedro Calafate, que é também responsável pela edição completa juntamente com José Eduardo Franco. O pregador jesuíta vai finalmente ter edição integral, incluindo inéditos.

Boas leituras e Bom Ano de 2014!

Professor universitário (tcarlos@uc.pt)

1 comentário

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Uma resposta para ““Os meus livros do ano” – Carlos Fiolhais

  1. A cultura, qualquer que seja, só dá despesa. Que se feche até a Gulbenkian. Que tem feito até aqui? Nada que aumente o PIB. E quanto à arte? São umas coisas dependuradas. Um lixo de riscos. Um monte de geometrias espalhadas no chão. E a literatura? Do mesmo antibiótico. Para que serve pensar se já alguém pensou por ti? A vida é chave na mão com um i atrás, claro. Convém que tenha um ecrã táctil, mexes o dedo pelo menos. Isso da cultura física dá muito trabalho, calçar umas sapatilhas e esticar os músculos e tal. Quanto a decidir? Quanto a escolher? Alguém já terá pensado nisso.

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