A pintura em Clarice Lispector

Reproduzo a resenha que publiquei na revista Ler de outubro de 2013:

            O Instituto Moreira Salles publicou, em 2012, o imprescindível Figuras da escrita, de Carlos Mendes de Sousa, professor de literatura brasileira da Universidade do Minho. Trata-se da leitura mais completa e profunda já realizada acerca da prosa clariciana. Neste ano, a editora Rocco lançou o seu Clarice Lispector – pinturas, ainda inédito em Portugal. O presente estudo revela a mais extensa análise de uma questão apenas discutida brevemente por alguns críticos brasileiros, o que justifica, de antemão, o interesse acerca desse novo título e o lugar especial que esse especialista mantém na fortuna crítica voltada à complexa obra de Clarice Lispector  

            Novamente, evidencia-se o notável caráter investigativo de Carlos Mendes de Sousa, agora lançando diversas perspectivas às artes plásticas na vida e na obra dessa autora nascida na Ucrânia e naturalizada no Brasil. Foram reunidos, sob o foco de sua minuciosa lente de investigação, entrevistas realizadas pela autora e com a autora, cartas, crônicas, trechos de ficção, fotografias, sua biblioteca, gravuras e pinturas do acervo pessoal de Clarice, além das pinturas criadas por ela, que estão sob a guarda do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira e do Instituto Moreira Salles. A edição, em papel couchê, reproduz tais obras de artes plásticas, o que garante ao livro um outro atributo louvável. Considerações de caráter biográfico também se encontram à disposição dos leitores, por meio de um texto claro e sedutor, de fácil acesso inclusive aos não especialistas.

            Clarice Lispector – pinturas não abandona o gosto identificado em Figuras da escrita pela gênese de criação. Após constatar a leitura e os sublinhados da autora sobre um livro de Paul Valéry, Degas, danse, dessin, Carlos Mendes de Sousa analisa: “Segundo Valéry, no livro acima citado, um criador só pode entender totalmente aquilo que já foi encontrado dentro de si. O que Clarice terá lido, nos anos 1940, irá iluminar, na década de 1970, um modo de criar que seguirá o lema da procura mais funda que sempre a orientou. Até chegar ao ponto de ela própria pintar, naturalmente, não por acaso, mas como um modo de se interrogar no interior do ato criativo.” Sem dúvida alguma, sua consideração é um tanto quanto inesperada, se levarem-se em conta as muitas declarações de Clarice Lispector a assegurar seu método intuitivo de criação. Mas, por outro lado, a experiência de ver obras de artes plásticas durante sua fase na Europa, ao lado do marido diplomata, indica uma atenção crescente dedicada ao “indecifrável”, como o autor observa a partir de uma carta da autora destinada à sua irmã, Elisa.

            Acerca das pinturas de Clarice Lispector, que sempre despertaram muita curiosidade em seus leitores mais ardorosos, Carlos Mendes de Sousa percebe a existência de dois movimentos: “a fuga e a concentração”; “ao lado do centramento, as linhas em desordem”. Mostram-se, por tensões frequentes em suas pinturas, um “combate explicitado” que, por um jogo de espelhamento, aproxima seus traços à “própria escrita da autora plena de contrastes”.

            Clarice Lispector – pinturas é um livro valioso não apenas para estudiosos e um exemplo inquestionável de uma metodologia de pesquisa que leva a análise de uma obra ao seu limite, iluminando uma série de pontos ocultos de uma escritora que sempre esteve mais ao lado do mistério e do enigma do que da compreensão de fácil acesso.

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