“Milton: a música”, de Caetano Veloso

Coluna de Caetano Veloso publicada no jornal O Globo no dia 6 de outubro de 2013:

Recebi um livro que me arrebatou. Trata-se de “A música de Milton Nascimento”, escrito por Chico Amaral. Muitas das ideias a que, ao longo dos anos, esse artista excepcional tem me levado aparecem de modo articulado pelo autor, coisa que a mim mesmo não seria possível. É preciso ser muitíssimo mais músico do que sou para captar com consciência técnica as peculiaridades harmônicas e rítmicas que fazem o mundo único de Milton aflorar em timbres e formas. Quando canto que a bossa nova é foda, estou me referindo à explosão do João Gilberto dos LPs “Chega de saudade”, “O amor, o sorriso e a flor” e “João Gilberto”, com as composições de Tom Jobim, Carlos Lyra, Roberto Menescal; as letras de Vinicius, de Bôscoli, do próprio Lyra ou do próprio Tom; as releituras de sambas de Caymmi, Ary, Bid & Marçal, Lauro Maia; os arranjos econômicos e perfeitamente elegantes de Jobim (e os de Walter Wanderley em parte do terceiro disco): foi o Big Bang. As bandas jazzísticas que apareceram depois, sobretudo no Beco das Garrafas, sendo, a meus ouvidos, apenas uma pequena regressão virtuosística. Em suma, a “bossa nova” de que falo no verso desaforado não é um gênero mas um acontecimento. Respeitei seus desdobramentos mas nunca os pude pôr no mesmo nível do ápice revolucionário. O aparecimento de Milton, coincidindo cronologicamente com o do grupo tropicalista, veio a mudar esse esquema. Ou pelo menos se apresentou como algo mais que relevante (além de intenso e genuíno) nascido de uma relação diferente com essa história: Milton desenvolveu uma visão da música que dava mais atenção aos floreios do Tamba Trio do que ao rigor fundador de João.

Claro que Milton não era o único brasileiro a ser mais atraído por aqueles desdobramentos. Conheci dezenas de amantes da música que, no início dos anos 60, tendiam mais para o culto dos Zimbos e Tambas, do Donato do “Muito à vontade” — e das canções de Edu, fundamente informadas pela riqueza harmônica da bossa nova mas saindo para modos do Nordeste e para paisagens sonoras mais grandiosas. Mas Milton fez de tudo isso um mundo novo. Eu próprio, admirador de Edu (apesar de manter fidelidade estética e crítica ao minimalismo do Jobim de João), compus, em 1964, a canção “Boa palavra”, que o próprio Milton, anos depois, me disse ter sempre amado. Mas não só eu não tinha adesão estética total ao que se insinuava nessa segunda fase do momento bossanovista da nossa canção: faltava-me o talento musical para produzir algo orgânico. Terminei, no apego à exigência joãogilbertiana, indo para o ruidismo roqueiro e para a mirada pop da produção cancional.

Muito mais musical do que eu, Gil percebeu a força e o significado de Milton. Bastou-lhe ouvi-lo cantar a música de Baden no festival da TV Excelsior. Quando, pouco depois, ele tomou conhecimento das composições do mineiro, era-lhe evidente que Milton era a coisa mais importante que tinha acontecido à música brasileira. De minha parte, embora me fosse óbvio que “Canção do sal” e “Travessia” fossem composições belas, só comecei a perceber algo de especial em Milton quando o conheci pessoalmente. Desde que o vi algumas vezes no Redondo (bar que ficava em frente ao Teatro de Arena de São Paulo) tive a sensação de estar diante de alguém com conteúdos muito densos — e uma forma externa à altura: a beleza de seu rosto negro valeria por si só, não fosse o sentimento indescritível sugerido por seu olhar. Mas só vim a combinar essa experiência com a música que saía dali quando, de volta de Londres, em 72, vi o show do Teatro da Lagoa. Foi o show que encantou Wayne Shorter. Em Londres, Dubas chegou com um LP “Courage”. Ouvi, admirei mas não me deixei tomar. Vendo Milton com a banda no palco, de repente entendi tudo.

A música de Milton é a maior força de presença da música brasileira no mundo depois da bossa de Tom e João. Isso se deve a sua capacidade intuitiva para com as relações dos sons — e a forças atávicas, históricas e sociais da feitura de sua individualidade. (Quando vi, no resultado dos testes de DNA feitos com celebridades brasileiras, que Milton apresentava a mais alta percentagem de gens negros, pensei: tinha que ser no mínimo isso!) Primeiro a turma do jazz-fusion, depois a turma do rock e do pop: o mundo viu algo imenso erguer-se no Brasil.

E o próprio Brasil passou a gerar talentos grandes que tinham tido em Milton a inspiração: Ivan Lins, Djavan, Gonzaguinha, João Bosco…

Escrevo isto sob o impacto da leitura do livro de Amaral. E com o “Coração de estudante” a que o nó dos professores convida. Ainda o estou lendo, já mais perto do final. Mas não tenho outra coisa na cabeça.

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