Antologia do rosto

Seria possível, mediante uma leitura cuidadosa, fazer uma bela antologia do rosto, frequente especialmente em cartas e poemas de amor – ou de desilusão amorosa; frequente também em poemas de problematização da passagem do tempo.

Aqui, dois trechos de cartas de James Joyce a Nora:

Chorei por vários dias. Minha fé nesse rosto que eu amava foi destruída. (6 de agosto de 1909)

O que vai ser do meu amor agora? Como vou afugentar o rosto que se colocará agora entre os nossos lábios? (7 de agosto de 1909)

De Mário Cesariny, em Corpo visível:

mas não há senão o teu rosto o teu rosto o teu rosto

ainda e sempre o teu rosto

De Cecília Meireles, de “Retrato”:

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

De Fiama Hasse Pais Brandão, de “Poética de um rosto?”:

Que a neofiguração se torne ní-
tida. Do objecto sedutor. Incrus-
tado nas vozes. Quanto resul-
taria, iluminado pelo silêncio.
O painel de onde se despren-
de a linha. Um modelo clássico
que revele. As palavras eter-
nas da fábula de Hero.

Proximidade incompreensível
como a de alguns poemas. Sen-
timentos que são indecifráveis.
Uma dedução para o fim. Tal-
vez o amor jubiloso dentro
da quarta parte da pupi-
la do olhar divisível pela
cruz axial. Encontrado na pai-
sagística do rosto. Expecta-
tiva de um sentido propício. A
revelação verso por verso.

4 Comentários

Arquivado em Poesia

4 Respostas para “Antologia do rosto

  1. Pingback: Antologia do rosto, por Eduardo Coelho |

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  3. jorge

    (ESTE) ROSTO1

    Sombra com a luz ainda nos últimos ramos
    do próprio desejo: a invocação de abril, o mês
    onde o lugar pressente ser o verão
    entre a proposta de flores e a face do fruto (a de
    um sólido). Perdida, pois, a doce luz do inverno, a necessária
    ao rosto (depois de longas noites entre seus dobres,
    neve dolorosa), a matinal. Rosto
    com o vidro, linhas (de veias) reflectindo
    o mundo (vário) (alheio). Enquanto a luz transpõe
    copas, os cumes, e o segundo
    crepúsculo (a tarde) é incessante.

    1 Poema sobre três versos de Carlos de Oliveira e uma frase, epistolar, de Egito Gonçalves.

  4. jorge

    De Lu Menezes, de “VI – Linhas de tensão”

    Feminismo sereísta, sereias com seios caídos?
    Tratando-se aqui de bordado,
    pontos estéticos de vista – bom e mau gosto –
    bem pouco importam. Longe de mim
    sexismo etário – ou adversário
    do ativismo inofensivo vigente
    em Nipple Pride Parades: aplaudo
    o índio que ao missionário
    desejoso de saber
    por que não deixariam
    exposto somente
    o rosto?
    elucidou
    “Conosco
    tudo é rosto”.
    LU MENEZES. Gabinete de curiosidades. Onde no mundo, 2016

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