“Nosferatu”, de F. W. Murnau

Para Luciana Salles e Mônica Fagundes:

Nosferatu, filme mudo realizado em 1922 pelo diretor alemão F. W. Murnau, é uma adaptação do romance Drácula, de Bram Stoker, publicado em 1897. Ao contrário dos vampiros do cinema contemporâneo, o de Murnau é feio, de orelhas pontiagudas, careca, sombrancelhas espessas e desarranjadas, que tornam mais expressivo seu olhar ao mesmo tempo assustador e assustado. Os ombros avantajados e o pescoço ocultado pelo sobretudo atribuem, ao seu corpo, inflexibilidade e peso. Além disso, as mãos de Nosferatu projetam unhas imensas, que parecem garras, e que também participam da composição de sua imagem física desproporcional. A palidez do rosto e das mãos, em contraste com as roupas sempre escuras, faz de Nosferatu, na escuridão, uma figura de tristeza em potencial. Ele é frágil e solitário – e, de certo modo, mais humano que os demais personagens. Ao contrário da maior parte dos monstros, Nosferatu parece sensível ao seu isolamento.

Qualquer uma das cenas externas desse filme é de tocante beleza, como a de grupos que trazem caixões sobre os ombros, descendo vagarosamente uma rua onde desponta, como único movimento, aquele caminhar fúnebre, concentrado e silencioso. A cidade está marcada pelo símbolo da morte e pelo medo dos que não aparecem, resguardados em suas casas. O ritmo sob o qual os homens descem a rua, a distância fixada entre os grupos, a perspectiva adotada pelo diretor… tudo de uma perfeição absoluta.

Em outra circunstância, a embarcação que carrega Nosferatu dentro de uma caixa é filmada a partir de muitas perspectivas. A embarcação desloca-se de modo lírico por águas tranquilas. Antes, porém, a câmera, estática, registra a luz intensa do sol refletida sobre as águas. É uma imagem de tudo o que Nosferatu não pode ter; uma cena que condensa todo o mundo que perdeu: o da natureza luminosa, infinita, onde, conforme lorde Byron, “o homem está menos sozinho”. O infinito de Nosferatu é outro: o infinito da plena solidão, o infinito daquele que não morre nunca, o infinito daquele que se encontra fechado em uma caixa enquanto o mundo lá fora é uma composição de beleza inquestionável.

Há cenas internas também emocionantes. No início do filme, o corretor Knock convence Thomas Hutter a visitar o conde Orlok (Nosferatu), que pretende comprar uma casa na cidade. O corretor sugere a venda da casa em frente à de Hutter, que então aparece esquadrinhada geometricamente pela janela, registrando uma arquitetura do abandono. No término do filme, apaixonado por Ellen, mulher de Huller, o conde Orlok é filmado durante a noite, observando desesperadamente, da janela, seu objeto de desejo. Agora é seu corpo que se revela esquadrinhado pela janela, mas no lugar da arquitetura do abandono encontra-se ressaltado o próprio vazio do vampiro apaixonado. Nosferatu se torna ainda mais frágil, ainda mais solitário e ainda mais distante de tudo. Mas, com aquele seu tormento, torna-se também ainda mais humano e sensível a sua condição mais dura.

3 Comentários

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3 Respostas para ““Nosferatu”, de F. W. Murnau

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  3. O Nosferatu do Murnau é pura e simplesmente obra-prima! o tema foi
    revisitado em várias épocas por diferentes realizadores,mas nunca com este
    fulgor!Este Nosferatu persegue-nos para sempre!
    Felizmente a Cinemateca,(que esteve recentemente em risco de fechar por
    faltas de verbas do Estado…) passa-o amiúde para felicidade de todos os
    cinéfilos!

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