“Que literatura professa o policial?”

Reproduzo o comentário preciso de João Camillo Penna sobre o post “O professor vai à delegacia“, publicado neste blog, no dia 12 de setembro de 2013:

Incrível relato. De fato o que significa reconhecer uma foto de suspeito de crime policial? O que são essas fotos em forma de catálogos, quem é essa massa anônima, a quem o professor humanista quer dar nomes. O que mais impressiona ao professor é a tristeza humana demasiadamente humana dos olhos, dos rostos, e suas cicatrizes, que são marcas da história escrita na figura de cada um. A história dos vencidos já está de certo modo escrita ali. O professor, bom leitor, reconhece essa escrita. A raiva provavelmente passou naquele momento se não antes, durante o interrogatório a que ele é submetido, que produz “narrativas”, que desinteressam o policial. A “literatura” que o professor professa, e que ele produz como modo de lidar com a vida e o incidente pelo qual havia passado, não interessa ao policial. E saber que o policial em toda a sua aparente eficácia nunca prenderá esse pequeno assaltante e muitos outros, que a atividade que ele exerce ele o faz de modo absolutamente ineficaz, porque a questão criminal no Brasil é simplesmente mal colocada, e não se coloca os verdadeiros problemas. A pergunta, seria ela literária, e então o que faz o policial, em seu plantão noturno, talvez entediado em seu serviço, que serviço ele presta e para quem? Seria para nós que pagamos o seu salário? Certamente não. Então para quem? Talvez ele seja tão inútil quanto acha que é o professor. Que literatura professa o policial?

Homero escritor da história benjaminiana dos vencidos e não dos vencedores. O filósofo Castoriadis concorda com o professor, embora os helenistas não concordem com ele. O personagem mais importante da Ilíada não é Aquiles, mas Príamo, o rei de Tróia que perdeu a guerra, e que chora o filho morto. É o seu luto pela perda do filho, Heitor, o tema maior da Ilíada. Talvez todos os rostos das fotos irreconhecíveis que o professor, um humanista, não reconheceu, tivessem um único nome, Príamo ou Heitor. Príamo é sem dúvida também o nome do policial de plantão, embora ele o negue: ele perdeu a guerra, a sua guerra, e não sabe. Cabe à literatura fazer com que ele acorde para a realidade.

4 Comentários

Arquivado em Crítica

4 Respostas para ““Que literatura professa o policial?”

  1. Caro João Camillo, interessante reflexão a sua que me fez recordar a conversa entre a jovem Judith Lerner (Sarah Adler) e o poeta palestino Mahmoud Darwish no filme “Notre Musique” de Jean-Luc Godard. O filme se passa em Sarajevo, essa filial de Tróia no século XX . Há um encontro entre a sua opinião e a ideia central da conversa entre Darwish e a jovem: a necessidade de que a história dos vencidos seja contada. E há também um ponto de inflexão que nos deixa uma pergunta: pode um “vencedor” contar a história de um “vencido”? Ou dito de outra maneira, não há mais virtudes gregas em Príamo e Heitor que nos próprios gregos? Deixo-vos abaixo o “link” com essa cena magistral, testemunhada por vencidos.

  2. Pingback: O vencido e o vencedor | Autores e Livros

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