Brasília por Mário Pedrosa

Para Jorge Fernandes da Silveira, que vai conhecer Brasília:

Em 1957, logo após o concurso que selecionou o projeto de Lucio Costa para a nova capital do Brasil, Mário Pedrosa publicou o texto “Reflexões em torno da nova capital” na revista Brasil – Arquitetura contemporânea, n. 10, depois reproduzido em seu livro Murais de Portinari aos espaços de Brasília (São Paulo: Perspectiva, 1981) e agora republicado em BrasíliaAntologia crítica, com organização de Alberto Xavier e Julio Katinsky (São Paulo: Cosac & Naify, 2012). Esta última obra – excelente iniciativa – reúne textos sobre Brasília publicados de 1956 a 2010. Eis um trecho do belíssimo artigo de Mário Pedrosa:

A sabedoria de Lucio Costa consistiu em aceitar a incongruência inerente ao programa, e, evitando toda solução de meio-termo, ou eclética, decidir resolutamente pelo lado inexorável, dadas as condições objetivas imediatas: o reconhecimento pleno de que a solução possível ainda era na base da experiência colonial, quer dizer, uma tomada de posse à moda cabralina, chanfrando na terra o signo da cruz ou, numa evocação mais “moderna” e otimista, fazendo pousar docemente sobre a sua superfície a forma de um avião. Confiado, entretanto, em quê? Numa esperança. Na esperança de que a vitalidade mesma do país lá longe, na periferia, queime as etapas, e venha de encontro à capital-oásis, plantada em meio ao Planalto Central, e a fecunde por dentro.

[…]

[…] Embora ainda dentro das restrições de um programa imediatista (com algo de inorgânico) e da leviandade característica dos atuais dirigentes brasileiros, que fazem com que a formação da nova capital ainda tenha de ser concebida nos limites da fase colonial, fato aliás acentuado pelo próprio arquiteto vitorioso, isto é, como uma “simples tomada de posse” da terra, há no seu plano uma clareza de partido e, ao mesmo tempo, uma tal intimidade ou recolhimento, que, de alguma forma, ultrapassa os limites daquela fase. Um Eixo Monumental, cortado por outro arqueado, em que ao longo do primeiro se anima a vida política, ideológica, cívica e cultural da urbe, em suas diversas modalidades, e, através do segundo, se processa a circulação material, enquanto de um e outro lado deste se reservam amplos e belos espaços à intimidade da vida privada dos seus habitantes, é o ovo de Colombo.

Lucio deu à vaga ideia de Brasília (horrível nome sintético!) a concepção básica que lhe faltava, sua estrutura física, sua forma plástica, sua primeira imagem visual. E eliminou tudo o mais como temporão. Todo mundo viu, então. Todos, a partir dos entendidos, entenderam, afinal, o problema, e compreenderam a solução proposta. Ora, compreender a solução de um problema, visualizar uma forma, é coisa que ninguém faz sem entusiasmo. E eis por que, entendidos e leigos, ao compreender a sua ideia, por ela se entusiasmaram. Ergueu-se, aqui, um pensamento soberano para dominar a matéria informe, e o fez, em ênfase, com uma gravidade doce.

Os colegas concorrentes de Lucio, alguns deles eminentes na sua especialidade, perderam-se nos pormenores. Partiram das partes para o todo, enquanto ele fez a démarche inversa. É que nele o pensador venceu o técnico. Visionário, Colombo descobriu a América fundado numa dedução lógica, a partir da redondeza da Terra. A América foi, por isso, um produto da fé na razão inteligente do homem. E não em vão foi ela a sede das primeiras utopias pós-renascentistas. Brasília foi, enfim, definida por uma ideia. Transformou-se, portanto, numa utopia. Ora, quem diz utopia diz arte, diz vontade criadora. A partir daí, todos podemos trabalhar por ela.

Que um homem, nosso contemporâneo, um patrício, dotado da imaginação criadora, saia da sua casa para propor à sua coletividade uma utopia, isto é, uma ideia clara, perfeita, eis um acontecimento que transforma tudo. Nenhum acontecimento é mais raro e mais transcendente na história de uma comunidade. Diante dessa ideia genial, nós outros, talentos orgulhosos, devemos nos render. E nos render entusiasticamente. É o que faço, lembrando as palavras de Sócrates a Fedro: “Quanto a mim, meu caro Fedro, quando creio encontrar um homem capaz de aprender ao mesmo tempo o todo e os pormenores de um objeto, marcho na sua esteira, como na esteira de um deus.”

1 comentário

Arquivado em Arquitetura

Uma resposta para “Brasília por Mário Pedrosa

  1. jorge

    Obrigado, querido Eduardo, vou com Sophia nas mãos e com você no coração:

    Brasília

    a Gelsa e Álvaro Ribeiro da Costa

    Brasília
    Desenhada por Lúcio Costa Niemeyer e Pitágoras
    Lógica e lírica
    Grega e brasileira
    Ecuménica
    Propondo aos homens de todas as raças
    A essência universal das formas justas

    Brasília despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem
    Nítida como Babilónia
    Esguia como um fuste de palmeira
    Sobre a lisa página do planalto
    A arquitectura escreveu a sua própria paisagem

    O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número

    No centro do reino de Ártemis
    — Deusa da natureza inviolada —
    No extremo da caminhada dos Candangos
    No extremo da nostalgia dos Candangos
    Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro
    Athena ergueu sua cidade ordenada e clara como um pensamento

    E há no arranha-céus uma finura delicada de coqueiro

    Sophia de Mello Breyner Andresen
    in Geografia, 1967

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