“Masculino feminino”, de Jean-Luc Godard

O diálogo entre Paul (Jean-Pierre Léaud) e Madeleine (Chantal Goya) aqui reproduzido é de Masculino feminino, de Jean-Luc Godard, diretor e roteirista desse filme:

[Paul e Madeleine trabalham no mesmo escritório. O diálogo se dá no banheiro do escritório.]

Madeleine: Seus pais estão vivos?

Paul: Sim, estão.

Madeleine: Você os visita com frequência?

Paul: De vez em quando.

[Paul fica pensativo e depois leva o cigarro à boca.]

Madeleine: Sai muito com garotas?

Paul: De vez em quando. Eu gostaria de dormir com você. E você?

Madeleine: Nunca havia pensado nisso.

Paul: E agora que estou perguntando?

[Madeleine se olha no espelho e penteia os cabelos.]

Paul: Por que disse que sairíamos no dia 23?

Madeleine: Eu menti.

Paul: Por que fez isso? Eu acreditei.

Madeleine: Sei que não é educado, mas…

[Madeleine olha para Paul, que continua a fumar, observando-a atentamente.]

Madeleine: Paul, você sai com garotas à noite?

Paul: Sim, já disse.

[Paul olha para baixo.]

Madeleine: Que tipo de garotas?

Paul: Garotas que me agradam.

Madeleine: Como eu?

[Paul olha fixamente para Madeleine.]

Paul: Sim.

Madeleine: E com prostitutas?

Paul: Sim, já aconteceu. Mas não gosto de prostitutas. É triste e sem sentimento.

Madeleine: Me poupe dos detalhes.

Paul: Só estava dizendo.

Madeleine: Por que está me contando isso?

Paul: Por nada. Para que saiba como me sinto. O que costuma fazer à noite quando está sozinha? Hoje à noite, por exemplo. O que fará à noite?

[Madeleine olha para baixo.]

Madeleine: Hoje eu tenho… que escolher muitas fotos para o jornal.

[Madeleine olha para Paul e sorri.]

Paul: Sério?

Madeleine: Sim.

Paul: Que tipo de fotos?

Madeleine: Fotos de moda.

[Madeleine começa a se maquiar.]

Paul: Mas você me disse que trabalhava com música, não com fotos de moda.

Madeleine: Uma coisa não exclui a outra. Continuo trabalhando com fotos de moda. Eu as classifico.

Paul: Fotos suas?

Madeleine: Não, nunca minhas.

Paul: Vai sair com alguém nesta noite? Outra noite vi você com um cara. Um rapaz alto, muito alto.

Madeleine: Eu o encontrei casualmente.

[Madeleine, antes distraída, olha para Paul e sorri.]

Paul: Sério? Não é verdade.

Madeleine: É verdade sim!

Paul: Não acredito.

[Madeleine ri.]

Paul: Onde foram?

Madeleine: Fomos tomar um café, só isso.

Paul: De que falaram?

Madeleine: Do meu disco.

Paul: Se nós sairmos, tem medo de que eu vá longe demais? É por isso que não quer sair comigo?

Madeleine: Sim, talvez.

Paul: Por que tem medo disso? Você é tão linda.

Madeleine: É porque não me sinto confortável.

Paul: Gosto muito dos seus seios.

[Madeleine sorri, timidamente.]

Paul: Isso também tem importância.

[Madeleine fica mais tímida e olha para baixo.]

Paul: Olha-me nos olhos.

[Madeleine olha para Paul e sorri.]

Paul: No que você pensa quando olha para mim? Olhe para mim.

Madeleine: Não penso em nada.

Paul: Nada? Deve estar pensando em algo. Sempre pensamos. Agora, olhe para mim.

[Madeleine está olhando e sorri.]

Madeleine: Estou olhando.

Paul: Agora, em que está pensando?

Madeleine: Bem…

Paul: Sim?

Madeleine: Qual é o centro do mundo para você?

[Paul está olhando para Madeleine.]

Paul: O centro do mundo? Acabamos de nos conhecer, e você já faz perguntas difíceis.

[Paul revela uma expressão facial tensa.]

Madeleine: Penso que é uma pergunta absolutamente normal.

Paul: É verdade.

Madeleine: Vamos, me responda.

Paul: É o amor, eu acho.

[Paul olha para baixo, ainda tenso.]

Madeleine: Engraçado. Eu teria dito “eu”.

[Paul olha para Madeleine e sorri. Leva o cigarro à boca.]

Madeleine: Parece estranho pra você.

[Paul olha para baixo novamente.]

Madeleine: Você não pensa que é o centro do mundo?

[Paul olha para Madeleine.]

Paul: De certa forma, sim, claro.

Madeleine: De que forma?

Paul: Bem, eu vivo, sou, vejo com meus próprios olhos… falo com minha própria boca, penso com minha própria cabeça.

[Paul olha fixamente para Madeleine, por alguns segundos, e depois olha para baixo.]

Madeleine: Acha que as pessoas podem vivier sozinhas? Sem mais ninguém?

Paul: Acho que não. Não, não podem. É como eu disse: não se pode viver sem ternura. Seria mortal.

[Paul bebe água.]

Madeleine: Me olha nos olhos.

[Paul olha fixamente para Madeleine. Depois, leva o cigarro à boca.]

Madeleine: Se algum dia eu dissesse que o amo, isso o deixaria feliz?

Paul: Claro que sim.

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