“O Brasil na rua (5): coronel Ibis é retirado da Academia de Polícia Militar, mas vê bem nova missão”

Texto de Alexandra Lucas Coelho publicado em seu blog, Atlântico-Sul:

Até fim do ano haverá uma mudança na polícia que está nas ruas do Rio de Janeiro, garante o coronel Ibis. O comando da PM acaba de o tirar da direcção da Academia. Ele encara com optimismo a mudança para o QG.

O coronel Ibis Silva Pereira tem uma visão positiva dos próximos tempos no Rio de Janeiro: “Eu ousaria dizer que até ano que vem vamos assistir a uma grande transformação na polícia que está nas ruas, te garanto, pode me cobrar.” Soube há 48 horas que a 23 de Agosto deixará a direcção da Academia de Polícia Militar (PM), onde liderava uma formação inovadora, e irá coordenar a Direcção de Ensino da PM, no Quartel General (QG), como sub-director. Uma surpresa, para ele e para os alunos, mas que Ibis está a encarar como “promoção”.

Esta conversa ao telefone aconteceu ontem à tarde. De manhã, saíra no PÚBLICO o texto sobre a visão de Ibis como formador da nova polícia do Rio. Logo depois a repórter recebia a informação de que o coronel fora retirado do cargo na terça-feira, dia em que estreava na academia um inédito ciclo de palestras com 12 pensadores convidados pelo curador Adauto Novaes, e proposto pela FLUPP (festa literária nas favelas com UPP, Unidades de Polícia Pacificadora).

A notícia de que Ibis fora chamado ao QG correu entre os oficiais e praças que ouviam o filósofo francês Francis Wolff, na primeira palestra. O ambiente era de apreensão, conta ao PÚBLICO Júlio Ludemir, da FLUPP. “Percebi que a resposta à palestra não fora tão participada. Quando perguntei porquê ao coronel Ibis, ele respondeu que todos estavam sabendo que ele iria ao QG, que quando se vai ao QG é para subir ou descer, e que todos os cargos acima dele já tinham sido preenchidos pelo novo comando.” Há 10 dias, no meio de múltiplas críticas à acção da polícia, foi nomeado um novo comandante-geral da PM no Rio de Janeiro, o coronel José Luís Castro Menezes.

Quarta à noite, quando Ludemir conseguiu falar com Ibis para saber o que acontecera no QG, ele estava “abatido” com o afastamento da academia: “Mas o tempo inteiro preocupado em garantir o ciclo de palestras, garantindo que o sucessor era um seu amigo de escola e que iria trabalhar [na Direcção de Ensino] com uma pessoa por quem tem imenso respeito.”

Ontem, quando o PÚBLICO falou com o coronel, Ibis confirmou que lhe custará o afastamento. “Confesso que demorou a cair a ficha [tomar consciência]. Tenho uma ligação muito afectuosa com os meus alunos. Acredito numa pedagogia do amor. Cuido daqueles meninos como se fossem meus filhos, então o meu coração ficou estremecido. Senti como um pai que se vai separar dos filhos.” Mas quando a ficha caiu, a sua conclusão foi: “É uma chance que o comando está dando de a gente transformar a polícia militar, implementar esse processo de pacificação [nas favelas].”

O que ouviu no QG?: “Que o meu trabalho era muito reconhecido e me convidavam para a Direcção de Ensino. Como é a cúpula nessa área, eu não estava preparado, não esperava um convite tão honroso.” Será sub-director do coronel Antonio Carballo, oficial com quem tem “uma afinidade há 30 anos”. Em suma, crê que a sua visão para uma nova polícia será reforçada? “Sem dúvida. E a sociedade vai verificar isso concretamente nas ruas. Pensamos ampliar a formação actuando na cultura policial: os símbolos, o ideário, repensar o próprio papel da instituição.”

Não teme que estar no QG o afaste do terreno? “Não. Nunca me afasto da sala de aula. Serei um sub-director muito presente na academia.” Onde o novo director será outro parceiro seu, o coronel Cristiano Gaspar. “É um dos oficiais mais brilhantes que conheço, há 28 anos, um dos grandes amigos que tenho, formado em Direito, espírito democrático, brilhante orador, um intelectual. Na quarta-feira vou apresentá-lo ao Adauto, ao pessoal da FLUPP. A escola não vai perder com a minha saída. É só a questão dos afectos.”

O ciclo de pensadores “é um compromisso da instituição”, o próprio comando o encarregou de continuar à frente desse projecto, até Outubro. “A intelectualidade dentro da polícia é uma coisa que a gente precisa de espalhar.” E no novo cargo terá outra amplitude: “Dialogamos com as direcções de ensino de outros estados.” Em Dezembro sai para a rua a primeira leva de 167 oficiais formados por ele, “com um currículo que já dialoga com uma filosofia de polícia de proximidade”.

Entretanto, Ibis continuará a ser o presidente do inquérito sobre as nove pessoas mortas pelo BOPE (tropa de elite da PM) na favela da Maré durante as manifestações de Junho.

 

A ascensão do BOPE

Nas movimentações que neste momento acontecem dentro da PM, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, grande conhecedor de segurança pública, alerta para o “deslocamento de oficiais do BOPE para posições-chave na nova estrutura”. Esse é um dos factores que o leva a manter um “cepticismo”. Outro é “o deslocamento de um ex-porta-voz, o coronel Frederico Caldas, para uma posição central, a de comandante das UPP”. Este antropólogo vê-o como “uma figura identificada com a instituição, incapaz de palavras contrárias à orientação oficial”, uma espécie de “político da PM”, que traduzirá uma visão das UPP como “marketing e relações públicas”.

Ou seja há sinais contrários à visão de Ibis. Entretanto, Ibis declara-se optimista. “Vamos ver se o optimismo vai se justificar”, acautela Luiz Eduardo. “Se há um respaldo político sufiente. Tomara que sim. O Ibis e o Carballo são as duas estrelas do pensamento crítico na PM. Mas eu conheço a marca conservadora da instituição, que é muito forte. É prudente mantermos uma reserva de cepticismo. E a gente não deve iludir-se quanto a isto: os avanços no Rio não substituem uma profunda transformação da polícia em todo o Brasil, o que implica mudanças na Constituição.”

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