“Brasil na rua (3): como os ninja vão sobreviver à convulsão” – Alexandra Lucas Coelho

Texto de Alexandra Lucas Coelho extraído de seu blog, Atlântico-Sul:

Caloteira? Ditatorial? Seita? Quando a Mídia NINJA, canal online dos protestos no Brasil, teve destaque nos media brasileiros, a Fora do Eixo, sua base, foi alvo de denúncias. Segunda parte da história iniciada ontem

 São Paulo, 1 de Agosto. Sem aviso, a repórter vai à Casa Fora do Eixo (base da Mídia NINJA, fenómeno dos protestos no Brasil, 170 mil seguidores no Facebook). A porta está literalmente aberta. O líder Pablo Capilé foi em missão ao Rio de Janeiro. Quem fala em nome da casa é Gabriel Ruiz. No episódio de ontem, ele acabava a dizer que a eleição de Lula permitiu um colectivo como o Fora do Eixo (FdE), no começo dedicado à música alternativa. Mas “o advento” desse “governo popular” não foi factor único, a crise da indústria fonográfica e a massificação da Internet foram decisivos, ressalva. E sem Internet não haveria Mídia NINJA a transmitir as manifestações.

Já vamos ao quintal onde está a base-ninja. Antes, a ideia é ver algo da casa onde 25 pessoas de várias partes do Brasil vivem e trabalham, a mais nova com 20, a mais velha com 34 (Capilé). Há algumas vagas por concurso. “No último tivemos 400 inscritos, a gente seleccionou seis.” Existe um estágio em que se é “vivente”. Quem chega pode trazer móveis, objectos, roupas, para somar ao colectivo. “Menos a roupa interior, ou uma ou outra peça que a pessoa goste mais. Mas 95 por cento todo o mundo pode usar.” E os computadores? “A maioria já tem o seu.” Ninguém recebe salário, as despesas são pagas com a caixa colectiva dos projectos FdE.

Neste momento, 55 por cento dos moradores são homens, diz Gabriel. Houve nascimentos? “Sim, o Benjamim, nosso bebé colectivo.” Entretanto os pais “mudaram para a casa FdE de Brasília e não há outras crianças aqui”. Mas alguns moradores têm filhos de relações anteriores, há grávidas em outras casas FdE e por tudo isso foi criada “uma frente para a gurizada”.

Continuando, átrio com escada: em cima, quartos; em baixo, casa de banho e copa-cozinha. As casas de banho são unisexo, os quartos não — só quando recebem hóspedes ou há casais na casa. De resto, concluíram que era mais eficaz separar homens e mulheres. Não há gays na casa? Gabriel parece surpreendido, como se precisasse de pensar. “Tem, tem. Mas a maioria é hetero, com certeza. Tem… dois gays.”

A repórter pede para ver o guarda-roupa colectivo. Gabriel vai verificar se o espaço está livre. Nas escadas, um vitral. À direita, um quarto com armário de parede. Lá dentro, tudo organizado em cabides e gavetas. “Cada um escolhe o que quer.” Horários diferentes não são um problema? “Não, todo o mundo levanta entre 9h e 11h e vai dormir depois das 2h.” A vida amorosa e sexual não fica limitada? Surpresa de novo, como se a questão fosse remota: “Não.” Pausa. “Não é uma preocupação. Estou mais preocupado com o momento.” E não é passageiro, garante. “Encaro isto como a minha vida. Não me imagino fora do FdE. Todos os dias são ‘inputs’ novos. Isso me estimula.”

Descemos. Além dos graffiti, há intervenções artísticas pela casa, e a cozinha-copa está coberta de autocolantes, ímans, cartazes. Uma babel visual entre restos do almoço: arroz, feijão, carnes, farofa, lasagna. Dois cartazes por cima: “Lave os utensílios usados por você em cada refeição.” E “Antes de repetir certifique-se de que todos já comeram.”

Um grupo cuida de “logística, hospedagem, alimentação, manutenção”, mas existe um “cronograma de revezamento” e “todo o mundo cozinha, ou a maioria”. Além disso, “tem uma faxineira, duas vezes por semana, das 8h às 17h, para limpar, cozinhar”. Contíguas, ficam “a sala da TV e a sala do rap”, Gabriel abre as portas. “Tem vários rappers na casa.”

E a roupa? “Quando sai o sol a gente faz uma força-tarefa para lavar tudo, em turnos.” No pátio das traseiras estão duas máquinas, tão grafitadas como as paredes. O pátio abre para o quintal, plantinhas, espaço para o Domingo na Casa, com concertos e debates.

E, finalmente, num anexo, o “estúdio” base da Mídia NINJA: alto pé direito; uma parede branca com um sofá para cenário; uma parede coberta por fotos dos protestos; outra cheia de panfletos (“Não haverá retorno ao normal”, “Nossa confiança é explosiva”, “Estamos na rua porque os políticos estão no ar condicionado”); outra com um ninja pintado, máscara negra, olhos de fora; a agenda da semana num quadro; duas mesas-cavalete cobertas de cartazes, dois rapazes e uma rapariga de capuz iluminados pelo écrã dos portáteis, totalmente imersos. Reflexo da casa, onde a repórter só viu gente a trabalhar.

A FdE já fundara a Pós-TV, também online, quando criou a Mídia Fora do Eixo, depois Mídia NINJA, co-idealizada com um conhecido jornalista de São Paulo, Bruno Torturra, 34 anos. Tudo isso serviu os ninja, mas hoje é arqueologia, porque eles simplesmente ficaram maiores.

 

Fogo sobre o eixo

Dias depois, uma doutoranda de Columbia que pesquisou a FdE, Shannon Garland, escreve online que será “um erro muito grande” achar “que um jornalista ou qualquer um possa chegar lá, observar, até passar umas semanas, e sair conhecendo como funciona” a FdE. É um dos testemunhos críticos que “pipocam” nas redes desde que o “Roda Viva”, clássico da TV Cultura, convidou Pablo Capilé e Bruno Torturra para falarem da Mídia NINJA, a 5 de Agosto.

A maior parte das perguntas do programa incidia no financiamento e ligações políticas da FdE, e por inerência da Mídia NINJA. Não era novo: há músicos insatisfeitos com falta de pagamento da FdE há anos e, à direita, acusações de aparelhagem ao PT. Mas o que se segue ao “Roda Viva” é uma catarse, curto-circuito entre um Brasil em convulsão e a cacofonia global, nunca tendo sido tão verdade que uma verdade são muitas.

O primeiro depoimento com impacto no Facebook é o de Beatriz Seigner, autora de um filme que a FdE fez circular: acusa a rede de lhe dever dinheiro, absorver patrocínios sem dizer ao autor, estar obcecada em se alimentar como rede, não consumir cultura.

A jornalista Laís Bellini prossegue, também no Facebook, com um longo e vívido relato da sua experiência a viver com a FdE. Se o colectivo “fosse pagar tudo o que deve poderia fatalmente decretar falência”, diz. Mas o “escravismo” da FdE também é “mental”: “Quando se está lá dentro, você tem medo, medo de responder, de questionar e acaba acreditando que fazer o que estão te pedindo será melhor para o coletivo.” Os moradores, diz, são encorajados a cortar laços: “Não queira estar lá dentro e se relacionar amorosamente com qualquer outra pessoa que esteja fora da rede.” A não ser como “ferramenta”, de “catar e cooptar”, porque acontecem reuniões “dentro da cúpula” para definir “quem é a pessoa que tem mais perfil para dar em cima de você e te fisgar pra dentro da rede”. O “sexismo” é “forte”: as meninas tratam da universidade, os meninos da política. A horizontalidade um mito: Laís nunca viu Pablo Capilé lavar um prato. A cobrança do trabalho é “24h”, tal como partilhar “o que o Pablo e mais outros por lá escrevem no facebook é demanda diária”. Entretanto, “ninguém na casa lê livro algum, porque não dá tempo”. Em suma: “Fora do Eixo é uma das estruturas mais engessadas que eu conheço na minha vida, ditatorial diria eu. Com seus ministros e seu presidente muito bem auto-intitulado rei-mor da bancada.” Noutra passagem ela usa mesmo o termo “seita”. E explica que não é tão fácil sair pela porta: “Tem que ter algum recurso financeiro para recomeçar a vida do zero e muitos, que eu sei, ainda enfrentam longas sessões de terapia.”

Seguem-se outros testemunhos emotivos, a que se contrapõem moradores FdE. Entretanto, à esquerda, surgem críticas básicas de direito do trabalho na FdE: jornadas excessivas, ausência de salário, de contrato, de segurança social, de plano de saúde. Há quem aponte a FdE como novo modelo de negócio que extrai a mais-valia em vez de ser alternativa à exploração.

“Eles começaram a articular formas independentes e acabaram a criar um eixo paralelo, uma máquina de ganhar editais [concursos]”, resume André Aquino, 23 anos, finalista de Geografia da USP. A repórter entrevistou-o no bairro de Butantã, em São Paulo, onde André e camaradas têm no ar, em 107.1 FM, a rádio pirata Várzea Livre, exemplo de mídialivrismo que incentiva comunidades a fazerem a sua própria rádio. Simpatizante do Movimento Passe Livre, responsável pelos primeiros protestos de Junho, André é da “esquerda libertária”, cita o presidente Mujica do Uruguai como inspiração e não confia na FdE: “A [ministra da Cultura] Marta Suplicy tem gente da FdE como assessor. São eles que escrevem os editais e sabem como ganhá-los. Então, toda a grana para a mídia independente acabou centralizada na FdE.” Que pensa de Capilé? “Começou numa posição difícil por ser fora do eixo Rio-SP [do Mato Grosso], mas hoje tudo passa por ele. Então esse cara controla a arte independente.” E a Mídia NINJA? “Eles foram superimportantes nas manifestações”, reconhece André. “Mas se têm o aparato técnico é por causa da FdE. Sabem usar as redes sociais. Surgiram num momento carente de alternativa à grande mídia. Tinha um vácuo muito grande que souberam preencher.”

Quanto à direita brasileira, que alimenta a pior revista do mundo em português, a “Veja”, “catou e cooptou” as críticas da esquerda que convinham e arremessou contra o PT, manipulando fotos de Capilé com Dilma, Lula e Dirceu.

Defensores da FdE citaram esse aproveitamento para desqualificar as críticas, o que só irritou os críticos. Capilé reconheceu erros (pagamentos a acertar, falhas na horizontalidade, experiências individuais que não funcionaram), mas insistiu que não tem uma política de calote, que não é contra cachê para artistas, que a FdE é uma experiência inédita em processo, que dialoga com todos os partidos interessados em movimentos sociais, que nenhuma organização é tão transparente. Abriu um portal para mostrar contas. E garantiu que a Mídia NINJA vai caminhar pelo próprio pé.

 

A vida fora da FdE

Bruno Torturra, que é co-fundador da Mídia NINJA mas vive fora da FdE, já elencou os meios de autonomia para os ninja: crowdfunding (equipamento, estúdios, um site), assinatura mensal (custos do dia-a-dia), doações (reportagens específicas) e micro-doações (por texto, foto, vídeo). O momento é de despedimentos na imprensa brasileira. Há 1500 inscritos de mais de 150 cidades. Torturra vai montar equipas.

Entretanto, quem pesquisar sobre os últimos meses nas ruas já encontra nos ninja um arquivo crucial. Só estarem na rua fez diferença, revelando o quanto o jornalismo brasileiro está fora da rua. De resto, os ninja não visam a imparcialidade, antes “um mosaico de parcialidades”. Não há dúvida que fazem informação. Mas essa informação é jornalismo?

“É pré-jornalismo, é pós-jornalismo, é jornalismo militante”, atalha o decano Alberto Dines, director do Observatório da Imprensa. A repórter entrevistou-o por telefone no dia a seguir ao “Roda Viva”, em que ele, com os seus 81 anos, fez a Capilé e Torturra as perguntas mais interessantes. “É um uso muito inventivo das novas plataformas. E eles vêem isso não como um modelo de negócio mas de convivência, algo que me toca muito. Também participei de colectivos socialistas no Brasil e de repente encontro esses jovens, com esse projecto de viverem juntos, de uma nova relação com o trabalho, os meios de produção.”

Onde irá dar? “Acho que não se vão deixar levar pela ideologia, sabem que têm a perder. E o PT não vai querer se entregar a um grupo realmente autónomo. Eles [ninja] estão muito abertos. São um pouco marginais mas não são arrogantes. Querem ouvir, pedem conselhos, muitos. Nesses anos todos não vi surgir um projecto tão interesssante.”

Houve aquele momento em que o sistema se curvou: quando o “Jornal Nacional” da Globo “reproduziu informação que a Mídia NINJA tinha veiculado”, lembra Dines. “Isso é um dos saltos mais extraordinários. Um bando de Flintsones com um carrinho de supermercado [onde os ninja levam a estrutura mínima] consegue produzir informação que evitou uma tremenda injustiça.” A polícia detivera um manifestante, acusando-o de atirar “cocktails molotov”. As imagens fora do eixo mostravam outra verdade.

1 comentário

Arquivado em Manifestações

Uma resposta para ““Brasil na rua (3): como os ninja vão sobreviver à convulsão” – Alexandra Lucas Coelho

  1. Cacetada! Que texto bem escrito!
    Há muito tempo que me desinteressei pelos jornais e telejornais. Simplesmente pelo fato de que ando a pé e vejo as ruas, algo que a imprensa oficial parece não fazer. Além disso, principalmente nos telejornais, os apresentadores falam de um jeito infantilizado, como se estivesse fazendo um jogral, é uma lástima.
    A continuar assim, a imprensa oficial se tornará cada vez menos significativa e menos necessária, o que é um perigo muito grande.
    Mas agora que a imprensa oficial reconheceu a existência de organizações como Fora do Eixo e Mídia Ninja, haverá, certamente, a tentativa de desqualificar ou mesmo destruir estas duas coisas. Quem sabe não teremos agora o embate da força irresistível e do objeto irremovível? E qual deles será a imprensa oficial e qual deles será a mídia ninja?
    Ótimo texto!

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