“Brasil na rua (2): o canal que nasceu Fora do Eixo” – Alexandra Lucas Coelho

Texto de Alexandra Lucas Coelho extraído de seu blog, Atlântico-Sul:

Ao transmitir os protestos pela Net, a Mídia NINJA tornou-se um fenómeno, mostrando como os media brasileiros estavam aquém da realidade. Entretanto, a sua base, a Fora do Eixo, ficou sob fogo. Hoje, a primeira parte da história.

Já não há uma cadeira livre quando o rapaz ao fundo começa a falar: “O momento que estamos vivendo é de mais perguntas que respostas. Nunca na história desse país tanta gente fez análise de conjuntura. Tem muita gente querendo produzir conteúdo e muita gente querendo absorver.” A voz é gutural, rápida, incisiva, e todo o corpo a reforça, braços, mãos, caracóis em desalinho, mancha vermelha na cara, algo singular na boca. Uma figura imediatamente magnética, mesmo avistada da última fila.

Os jovens mais próximos da repórter nem sabem como ele se chama mas parecem tão captados como os que enchem as filas da frente. Estamos em pleno Inverno carioca, noite de chuva e neblina no terreiro do palácio que já foi um hospício e hoje é campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Um corropio de vultos continua a atravessar os portões oitocentistas, em busca deste pré-fabricado da Escola de Comunicação (ECO), porque é aqui que acontece a reunião aberta da Mídia NINJA, maior fenómeno mediático dos protestos no Brasil.

Quando o chão fica cheio ainda sobram caras na janela, lá fora: toda uma plateia de estudantes, pelo meio curiosos, activistas, membros da Ordem dos Advogados que acabam de conseguir a libertação de manifestantes. É terça-feira, 23 de Julho, noite seguinte à da carga policial contra o protesto junto ao palácio do governo do Rio, depois do Papa sair da recepção em sua homenagem.

“Se alguém perdeu a pouca credibilidade que tinha, foi a grande imprensa”, diz o orador. Está a sintetizar o que aconteceu desde Junho, quando as manifestações contra o aumento nos transportes explodiram em reivindicações pelo Brasil, levando um milhão à rua.

Em “streaming”, horas a fio na Net, a Mídia NINJA mostrou no chão, entre os manifestantes, o que não estava na grande media: a emoção em tempo real, o engrossar do levantamento, a repressão da polícia, as consequências. A esmagadora maioria da classe média nunca levara com gás lacrimogéneo, bala de borracha, cassetete e quem nem estava na rua nunca vira gente assim apanhar. Em geral concentrada sobre a favela e a periferia, a violência agora acontecia entre brancos, jovens, desarmados, com a polícia a lançar gás em becos, em bares, até dentro de hospitais.

 

Revolta contra os media

Ao longo das semanas, a página da Mídia NINJA no Facebook ganhou dezenas de milhares de seguidores, e a revolta contra o jornalismo tradicional, simbolizado pela Globo, associado a valores conservadores, com passado de apoio à ditadura, somou-se à revolta geral, incluindo cercos a jornais e televisões. Quando manifestações partiram lojas e bancos nas ruas chiques do Leblon — bairro do governador Sérgio Cabral, responsável pelo comando policial e por isso alvo de protestos —, os media relevaram os actos de vandalismo, o que reforçou a indignação dos manifestantes. É que entretanto nove moradores da favela da Maré eram mortos a eito pela polícia, que também levara um ajudante de pedreiro da Rocinha, Amarildo, nunca mais visto. A pergunta passou a ser: os vidros do Leblon valem mais do que as vidas dos Amarildos? Do ponto de vista de quem estava na rua, a media tradicional era o Leblon, a Mídia NINJA era o Amarildo.

E para muitos a reunião de hoje, convocada pelo Facebook, será a revelação do líder por trás dos ninja: Pablo Capilé. Ele está a explicar agora que a origem de tudo isto tem 10 anos, lá em Cuiabá, capital do Mato Grosso, centro geodésico da América Latina, o “lugar mais longe de tudo”, onde ele próprio nasceu, há 34 anos.

Só ouvi-lo uns minutos já dá um glossário, pontuado a cada frase pelo tique “saca?” Uma das novas palavras é mídialivrismo, ou seja, o exercício de meios independentes. Não é invenção dos ninja, tem anos de prática, mas nunca com o impacto que eles ganharam.

“Já não precisamos de veículos, somos os veículos”, dizia o manifesto inicial no Facebook, meses antes da grande convulsão, a 26 de Março de 2013. Uma “tropa de comunicadores independentes”, “reduzindo os filtros entre os fatos e o público”, “contrariando, na guerrilha, a narrativa oficial”, “transformando a audiência passiva em difusores de informação”. NINJA em caixa alta por ser uma sigla: Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. A primeira missão em directo pelo Facebook foi cobrir o Fórum Social Mundial na Tunísia, com os enviados Felipe Altenfelder e Bruno Torturra, também presentes na reunião desta noite.

Mas não há como contar a história dos ninja sem contar a da casa-mãe, que é a Fora do Eixo (FdE). E é o que Capilé está a fazer, dando ao Rio de Janeiro um contexto até agora mais conhecido noutros pontos do Brasil: a de um colectivo que começou como uma rede alternativa de festivais de música e hoje conta com 2000 pessoas no país, espalhadas por casas colectivas, mistura rara de vida e trabalho.

A FdE é a estrutura que permitiu o impacto da Mídia NINJA, base, meios e gente, e tornar-se-á o seu maior problema nas semanas que se seguem. No fecho desta edição, poucas figuras estarão a ser tão discutidas no Brasil urbano como Pablo Capilé.

 

Vida colectiva

São Paulo é a base central da FdE. As casas colectivas FdE definem-se como permanentemente abertas. Por isso, a 1 de Agosto a repórter atravessa o bairro paulistano da Liberdade sem ter marcado visita. A morada que estava na Net revela-se um casarão grafitado. No portão, um papel diz “Aqui tem amor”. Não há cão, alarme, nem porteiro. Pondo a mão na maçaneta, é simples: o portão abre.

Assim, sem pré-aviso, qualquer visitante desce o pátio, entra na porta, também aberta, que dá para uma sala de entrada cheia de cartazes e pinturas nas paredes. A estética é “hip hop”, mas a organização é de escritório criativo: estantes com CD’s e livros catalogados; um organigrama de post-its com a estrutura de funcionamento do FdE em vários círculos de cores, do núcleo para as radiais; um cartaz com a Universidade Fora do Eixo, projecto nacional do colectivo; uma mesa de trabalho com cadeiras avulso; um aviso a dizer que os vasos de flores não são cinzeiros; outro a pedir que cada um leve a loiça que trouxer e limpe o que sujar; uma rapariga a recortar papéis vestindo a t-shirt de um festival de cinema independente em Minas Gerais.

A repórter apresenta-se, ela vai chamar o líder que neste momento responde pela casa. Capilé e Altenfelder moram ambos aqui, mas continuam em missão no Rio de Janeiro. Na sala contígua, dezenas de post-its enumerando festivais de música alternativa no Brasil, mais mobiliário avulso, impressora e scanners junto à janela, cores alegres nas paredes, computadores portáteis com jovens a trabalhar, ao som do rapper Criolo, que se tornou conhecido nos festivais FdE.

O líder-no-momento é um rapaz de fato de treino e barba, casaco Adidas como Capilé na reunião do Rio. Chama-se Gabriel Ruiz, tem 29 anos, como todos deixou tudo para morar-trabalhar aqui. “Esta casa é o bunker da rede”, resume, a abrir. Porquê bunker? “A gente utiliza toda a linguagem que se aproxima da guerrilha. Já tinhamos experiência de colectivos em cidades de médio porte, e a gente sabia que se decifrasse São Paulo decifrava todas.”

Assim nasceu esta casa, em 2011, na sequência já de “15 ou 20 colectivos” FdE, incluindo o de Bauru, interior do estado de São Paulo, fundado por Gabriel. “Há uma política desterritorial, a gente entende que pode se formar e ir para outro lugar, então esta casa reuniu lideranças muito fortes: Cuiabá, Recife, Uberlândia, São Carlos, São Paulo.”

Gabriel estudou comunicação em Bauru. “Foi essa faculdade que me deu as bases para eu escolher uma vida alternativa. Conheci a rede [FdE] em festivais de música, comecei a mandar mensagens, dizendo que queria trabalhar com eles.” Um rapaz de calções, barba e caracóis vem tirar uma dúvida sobre como vai agir “no acto”. O acto é a manifestação desta noite (ver reportagem ontem).

“Num espaço muito curto a gente cresceu muito, começou a fazer parcerias com o poder público, no sector cultural, música, teatro, dança, artes, economia criativa, hip hop”, retoma Gabriel, que mora na casa de São Paulo há ano e meio. Por ela, pagam entre “quatro a cinco mil reais de renda”, o que seria o aluguer de um pequeno apartamento, não de um enorme casarão como este, com pátio e quintal. “O dono gosta da gente, vem sempre aqui, se identifica”, explica Gabriel. Não é um japonês, como se podia esperar neste bairro tradicionalmente japonês, mas um chinês.

“A gente se preparou durante um ano, cobrindo ocupações, Marcha da Maconha, Marcha das Vadias, Passeata Gay, bicicletadas, sem saber que tudo isso eclodir.” Os protestos de Junho. E isso fez com que toda a casa passasse a trabalhar para isso. “Estamos exclusivamnente voltados para as ruas, acompanhando assembleias, movimentos, gente que está produzindo conteúdos.” Dito de outra forma: “Todo o mundo agora virou ninja. Eu que sou do núcleo da música comecei a montar som, estruturas, para que assembleias aconteçam. A gente vive como se fosse a equipe de produção da revolução.”

Então trata-se de uma revolução?

“Não no sentido de tomar o poder, mas no sentido de mudar as coisas, tomando consciência de que as ruas são para ser ocupadas, que têm um poder de negociação muito forte.” Uma nova etapa depois das ditaduras latino-americanas dos anos 60 e 70, e da transição democrática que se seguiu. “Nos anos 90 houve um movimento muito grande de liberalização, de entrada do capital, de abertura do mercado. O Brasil vendeu tudo o que era nosso. Depois a partir dos anos 2000 temos o advento de governos populares. No Brasil isso é claro com Lula e o PT, que foi muito inteligente ao colocar o Gilberto Gil e o Juca Ferreira no Ministério da Cultura. Foi um avanço muito forte: o programa de cultura digital, colocar na mão das pessoas a maquinaria para fazerem elas, políticas com Pontos de Cultura. Foi isso que permitiu o surgimento do FdE.”

E no fogo cruzado que vai chover sobre o FdE, uma das questões é o quanto eles, e consequentemente a Mídia NINJA, são um braço do PT, sendo que eles negam qualquer filiação partidária, e têm diálogo com vários movimentos, dos pós-comunistas do PSOL à rede de Marina Silva.

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