“Entre todas as presenças, eu esperei”, de Fiama Hasse Pais Brandão

O livro Cenas vivas, de Fiama Hasse Pais Brandão, é um dos mais belos livros de poesia que já li. Agradeço aos professores e amigos Jorge Fernandes da Silveira, especialista entre especialistas em sua obra, e Carlos Mendes de Sousa, que me ofereceu o referido livro. A eles devo esta forma eterna de alegria, a beleza, como descreveu John Keats. Abaixo, um fragmento da seção “Elegíacos”:

 

Entre todas as presenças, eu esperei
a do leitor. Quis ver-lhe os cílios
tremerem com a mancha poética.
Na cena doméstica que hoje vi,
a pequena cria abocanhada pelo cachaço,
levada pela gata, se puder, até ao Infinito,
é como o poema que o autor prende na boca.
Mas quem até aqui virá condoído da tortura
de ter um peso morto entre os meus dedos,
poemas que não existem, autor sem som?

 

4 Comentários

Arquivado em Poesia

4 Respostas para ““Entre todas as presenças, eu esperei”, de Fiama Hasse Pais Brandão

  1. jorge

    Eduardo, como se Fiama assistisse no seu blog ao desejado “leitor único”, cito-lhe os versos finais de “Homenagem à Literatura”:

    Olhara o rectângulo da ravina que está sobre o teu corpo
    para dizer que é a metáfora que constitui a língua pátria
    e que cada metáfora é na sua íntegra incompreensível,
    o que a torna o fundamento de toda a diferença.
    Que à medida que os anos e os vocábulos de acumulam
    mais incompreensível me torno para os detentores de outras técnicas
    e que só deve ler-me quem não tema reconhecer-se como leitor único.

    “Homenagemàliteratura”, 1976

    • Eduardo Coelho

      Jorge, querido, que lindo este poema. Muito obrigado!

      • jorge

        Eduardo, querido: “Em outras palavras” – quem o diz é Hannah Arendt – “a essência humana – não a natureza humana em geral (que não existe), nem a soma total das qualidades e imperfeições do indivíduo, mas a essência de quem alguém é – só pode passar a existir depois que a vida se acaba, deixando atrás de si nada além de uma estória. Assim, quem pretender conscientemente ser “essencial”, deixar atrás de si uma estória e uma identidade que conquistará “fama imortal”, deve não só arriscar a vida, mas também optar expressamente, como o fez Aquiles, por uma vida curta e uma morte prematura. (…) É verdade que até mesmo Aquiles permanece dependente do contador de estórias, do poeta ou historiador, sem os quais tudo o que ele fez teria sido em vão; mas ele é o único “herói”, e, portanto, o herói por excelência, que põe nas mãos do narrador o pleno significado do seu feito, de sorte que é como se ele houvesse não apenas encenado, mas também “feito”, a estória de sua vida.”
        “A Condição Humana”. Trad. Roberto Raposo. Forense Universitária. 2012. p. 242.

      • Eduardo Coelho

        Jorge, querido, Fiama e Hannah Arendt. Que dupla! O trecho que você transcreveu é lindo!

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