“Fingidores”, de Rodrigo Rosp

Convite-Fingidores

Primeira revelação: Rodrigo Rosp não é Rodrigo Rosp. Na verdade, ele é o Rodrigo Spinelli. Juro. E mais: ele, que anda por aí se dizendo editor, é escritor na verdade. Só mais uma: desconfie toda vez que Rodrigo (Spinelli) Rosp disser Bah, que tri. Aviso: ele não é gaúcho, é carioca. Sim, Rosp é um fingidor, até porque escreve, alma do ofício. Mas, apesar das várias fontes autobiográficas ao seu dispor, Fingidores não é sobre Rosp (Spinelli), não é autobiografia, autoficção. Ou será? Acho que não. Mas é um livro que finge e dissimula.

Pode olhar a ficha catalográfica: o livro se finge de contos, mas a gente abre as primeiras páginas e vê ele disfarçado de teatro. E talvez aí esteja a chave: Fingidores é um texto-ator, se mostra como comédia, se mostra como nonsense, tem o disparate de nos convencer que é leitura leve, dominical. Mas aí o protagonista, o Caio, espécie de anti-humano na sua ojeriza com comportamentos pré-concebidos, salta assim como quem não quer nada, com frases como “Parem com isso, não há nada mais insensato do que querer dar sentido a vida” ou “Ora, gravidez deveria ser recebida de preto, é mais uma pessoa que vai morrer”, e nós, eu pelo menos, ficamos com a “Expressão séria de uma esposa que sabe o que está acontecendo com o casamento”. Por dois motivos (no mínimo): um, nos damos conta de que talvez (talvez, uma ova) o título do livro seja uma acusação, pelo menos um lembrete: fingidores, somos nós e talvez o próprio Caio e seu hiperbólico ceticismo, criando nossos personagens e certezas pra encarar a vida. E, dois: quando a gente se dá conta, aquela comediazinha prometida já nos fez pensar sobre a “utopia da felicidade conjugal”, o sem sentido de viver e, ele, o maior dos fingimentos contemporâneos: a babaquice do politicamente correto, posta em causa dezenas de vezes durante a leitura.

Fingidor aqui só não pode ser tu, leitor. Ler depressa, fingindo prestar atenção, é perder muitos dos segredos que o mentiroso do Rodrigo (Spinelli) Rosp jura que não estão ali.


Reginaldo Pujol Filho

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