“Morrer e nascer – Duas passagens na vida de Eduardo Coutinho” – João Moreira Salles

Extraído do blog da editora Cosac & Naify:

* O texto a seguir é um trecho de ensaio de João Moreira Salles que integra o livro O olhar no documentário: Eduardo Coutinho (org. Milton Ohata), que será vendido exclusivamente durante a FLIP 2013. Coutinho participa do evento em Paraty no dia 6 de julho ao meio-dia.

Como se sai do fundo do poço? A pungência não só da pergunta, mas de uma eventual resposta, ajuda a explicar o afeto de Eduardo Coutinho pelo personagem que encerra Peões — o metalúrgico Geraldo —, cuja fala, cheia de decência e melancolia, é uma lenta progressão rumo à consciência de um impasse. Geraldo viveu o período das grandes greves do abc. Aquilo não voltará mais, as condições históricas agora são outras. Não tendo mais emprego certo, ele roda pelas fábricas do país em busca de trabalho temporário. É uma existência dura, na contramão da felicidade. Geraldo é forçado a se afastar da família para poder sustentá-la em lides que já não forjam laços duradouros de solidariedade e luta.

Esse é o quadro que descrevia quando Coutinho lhe pergunta se tem saudade da fábrica. Ele esboça um sorriso: apesar de todo o sofrimento, às vezes tem, sim. “Quer que teus filhos sigam a profissão?” (a edição eliminou a pergunta de Eduardo). “Não, espero que eles não passem o que eu passei, não”, responde, caindo no poço. Ele desvia o rosto, seus olhos marejam: “Espero que não.” A câmara segue rodando, num silêncio cada vez mais pesado. Para quem assiste, a sensação é a de um homem que se afoga.

Se Geraldo parasse aí, se não repicasse, seria a derrota. Mas então ele se salva. Triste, vira-se para Coutinho: “O senhor já foi peão?” De um golpe — e é disto que se trata —, o impasse já não é só dele. Agora é também do inquisidor, responsável involuntário por atirá-lo no buraco. É como se Geraldo dissesse: “Por favor, não julgue o meu silêncio porque você nunca saberá o que eu passei.” Com cinco palavras, ele afirma a singularidade de sua vida. A desolação que se segue comove e suscita respeito, nunca piedade. Geraldo não lamenta sua vida, antes a enfrenta com uma coragem muda.

Renascimentos sempre me interessaram, e eu com frequência me lembro de Geraldo, que para mim foi sempre o personagem central de Peões. Coutinho o entrevistou em 27 de outubro de 2002, no dia em que Lula se elegeu presidente da República. A alegria hesitante, sem um pingo de triunfalismo, com que celebrava a chegada ao poder do antigo líder de sua categoria indicava uma lucidez muito distante do estado de espírito que se manifestaria na avenida Paulista horas mais tarde, quando milhares de pessoas festejaram o que lhes parecia uma refundação do país. Àquela altura, por exemplo, Sarney já subira a bordo, mas a euforia das multidões não tirava daí maiores consequências. Geraldo, não — ele sabia. Passados os anos, sua presença, para mim, é tão forte quanto em 2002 e continua a iluminar as esperanças e ilusões daquele momento, mas agora é outra coisa que prende minha atenção. Cada vez mais, penso nele por causa de Eduardo Coutinho.

Imagino que o impacto da cena sobre Coutinho tenha sido de duas ordens. A primeira, mais à flor da pele, diz respeito ao próprio personagem e à potência de sua fala. A segunda, mais profunda, remete ao que a cena revelou sobre os limites do cinema documental, em particular sobre a crença ingênua de que todas as pontes podem ser cruzadas — existindo disposição sincera para estender a mão, o outro estará ao alcance. Estará, sim, mas restritamente: a parte que se furta à câmera será maior do que a que se revela; prevalecerá sempre o que não se pode saber do personagem.

Hoje, ao menos para mim (mas também para Eduardo, quem sabe?), a cena interessa principalmente porque o impasse de Geraldo reproduz, em espantosa concentração, duas passagens cruciais da vida de Coutinho. Ali, diante dele, um homem se viu encurralado. Foi preciso sustentar a agonia de 23 segundos de silêncio filmado — simbólica e emocionalmente, anos de vida vivida — para que uma saída se apresentasse.

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