“Projeto de Niemeyer à espera de cuidado”

Matéria de Gabriel Paiva publicada no jornal O Globo de 19 de maio de 2013:

A importância arquitetônica da Casa das Canoas, em São Conrado, é sentida em cada metro quadrado, entre as linhas finas do concreto do piso, antes de pedra São Tomé, que levam à piscina da área externa. O projeto é de Oscar Niemeyer, que desenhou o imóvel para morar em 1953, antes de partir para o Cerrado, alguns anos depois, a convite do então presidente Juscelino Kubitschek, e dar formas ao que viria a se chamar Brasília. A casa foi aberta ao público há 15 anos, tornando-se protegida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2007, em um tombamento coletivo de 35 obras do arquiteto em comemoração aos seus cem anos. Apesar da experiência marcante de entrar na casa onde morou Oscar Niemeyer, as marcas do tempo têm voz própria: o imóvel clama por uma boa reforma. Esse foi um dos motivos do fechamento para visitas, em junho do ano passado. Em pequenos detalhes, como esquadrias descascando, partes da estrutura de sustentação das belas estátuas do escultor Alfredo Ceschiatti enferrujadas, pisos escorregadios por causa das chuvas e do musgo, rachaduras e infiltração nas paredes dos cômodos do andar de baixo – local que Niemeyer não gostava que fosse visitado, por não mostrar a beleza arquitetônica da parte externa – entende-se o porquê da decisão. – A casa é no meio da floresta, precisa de manutenção diária. A última reforma foi feita há 13 anos, tem que fazer tudo de novo. Ela não está em perfeitas condições, por isso resolvemos fechar. Abrir para o público exige uma infraestrutura, para que a experiência seja produtiva. Se não, é só um tiro no pé – explica Carlos Ricardo Niemeyer, bisneto de Oscar e diretor da área de licenciamento da Fundação Niemeyer. A maior reclamação dos visitantes é que não há informações na internet sobre o fechamento da casa. No site da fundação, nem mesmo o endereço está disponível. Antônia de Lima, funcionária que cuida da casa desde 1973, conta que a procura de visitantes é diária e que muitos pulam a cerca para conhecer o local. Foi o caso do dinamarquês Marius Jeppesen, estudante de arquitetura que tentou agendar a visita antes mesmo de chegar ao Rio, em março deste ano: – Tentei planejar, mas foi difícil achar informações na internet. Eu estava muito empolgado para visitar a casa onde morou Niemeyer, mas fiquei desapontado com o estado precário em que a encontrei. Tentei ir uma vez, e estava fechada. Voltei no dia seguinte, de novo fechada, então resolvi pular o muro, já que tinha vindo de tão longe. Ao entrar, encontrei um grupo de espanhóis que tinha feito a mesma coisa. E qual seria o cenário ideal para os herdeiros de Niemeyer? Reabrir a Casa das Canoas em perfeito estado, mas a grande demanda, essa avalanche de turistas e brasileiros amantes de arquitetura, fez com que eles repensassem o plano inicial: – A ideia é fazer pequenos ajustes e reabrir a casa em junho, às quintas e sextas-feiras, e talvez em mais um dia do fim de semana. A visitação vai ser gratuita, porque a casa ainda não está nas condições ideais, por isso não acho válido cobrar entrada – explica o diretor da Fundação Niemeyer. O custo mensal de manutenção do espaço, mesmo fechado, é de R$ 10 mil – incluído o pagamento de pessoal (faxineira, caseiro e jardineiro) e pequenas obras feitas anualmente, como pintura do portão, da sinuosa laje branca e das esquadrias. O valor é desembolsado pela família. O desejo do clã Niemeyer é fazer um acordo dando carta branca para a fundação tomar conta oficialmente das visitas. Mas, com a morte do arquiteto e de sua única filha, Anna Maria Niemeyer, a Casa das Canoas entrou em processo de inventário.

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