“Jonas”, de Zbigniew Herbert

E Deus fez que aparecesse um grande peixe que engoliu Jonas

Jonas filho de Amitai
fugindo de uma missão perigosa
embarcou num navio que se dirigia
de Jopa para Tarquish

toda a gente conhece o que aconteceu depois
um tufão uma tempestade
a tripulação atira Jonas ao abismo
o mar de súbito fica calmo
o peixe previsto aproxima-se nadando
durante três dias e três noites
Jonas reza nas entrenhas do peixe
que por fim o vomita na terra seca

o Jonas moderno
afunda-se como uma pedra
se encontra uma baleia
nem tempo tem de suspirar

uma vez salvo
age com mais astúcia
que o seu colega bíblico
não volta a envolver-se
em missões perigosas
deixa crescer a barba

e longe do mar
longe de Nínive
sob um nome falso
lança-se no comércio
de gado e antiguidades

os agentes de Leviatã
são venais
não têm o sentido do destino
são funcionários da fortuna

num hospital limpo
Jonas morre de cancro
sem mesmo ele saber
quem era na realidade

a parabólica
aplicada na sua cabeça
expira
e o bálsamo da lenda
não se agarra à sua carne

(Escolhido pelas estrela. Tradução de Jorge Sousa Braga. Lisboa: Assírio & Alvim)

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