“Lembranças de Patna”, de Cecília Meireles

Tudo era humilde em Patna:

torneiras secas,

cortinados tristes,

salas sonolentas.

 

Mas as flores de ervilha cheiravam com a violência

de um pássaro que dá todo o seu canto.

 

As ruas, modestas.

O campo, submisso:

as batatas pareciam apenas torrões mais duros.

 

As casas, simples,

as pessoas, tímidas.

Tudo era só bondade e pobreza.

 

Mas as flores de ervilha cheiravam com a violência

de uma cascata despenhada.

 

As flores de ervilha enchiam com o seu perfume toda a cidade,

penetravam no museu, animavam os velhos retratos,

dançavam pelas ruas, frescas e policromas,

alegravam o céu e a terra,

coroavam a tarde com seus ramos apaixonados.

 

As flores de ervilha mandavam mensagens

até o fundo do rio

para as afogadas, saudosas grandezas remotas de Patna.

 

[De Poemas escritos na Índia, 1961]

1 comentário

Arquivado em Poesia

Uma resposta para ““Lembranças de Patna”, de Cecília Meireles

  1. jorge

    Belo poema. Belíssimo livro.

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