Primeira mostra individual de Cao Guimarães no Itaú

Matéria de Antonio Gonçalves Filho para o Estadão:

Artista consagrado no circuito internacional e representado em coleções como a do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), o mineiro Cao Guimarães, 48, ganha sua primeira individual numa instituição brasileira, o Itaú Cultural, que será aberta hoje para convidados (e amanhã para o público). A mostra Ver É Uma Fábula, com curadoria de Moacir dos Anjos e arquitetura expositiva de Marta Bogéa, reúne seus oito filmes de longa- metragem, além de 21 vídeos e fotografias apresentadas em slide show. A exposição é a maior já feita do artista e ocupa três andares do instituto, onde também será realizado um workshop com Cao e os músicos do Grivo, grupo formado por Marcos Moreira Marcos e Nelson Soares, que assina as trilhas de quase todos os filmes do realizador.

Inspirado numa passagem do livro Catatau, do poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989), que fala do poder que tem a fábula de suscitar novas histórias a partir da narrativa original, o título da mostra define a proposta de diálogo de Cao Guimarães com os espectadores de suas obras. Ver imagens produzidas pelo autor filtradas pelo repertório subjetivo corresponde à sensação de refazer o percurso desse cineasta sempre em busca do insólito. Nesse sentido, sua obra mais radical talvez seja mesmo a série Histórias do não Ver, que começou em 1996 e agora vira livro publicado pela Editora Cobogó, lançado durante a exposição.

O artista, na série, submetia-se voluntariamente a um sequestro e, de olhos vendados, era levado a lugares desconhecidos, registrando suas sensações em fotografias cegas que depois formaram uma videoinstalação (em 2001). Cao conta que a série acabou quando ainda estava casado com a também artista mineira Rivane Neuenschwander. Hospedado na casa de um amigo em Madri, acordou sobressaltado com o toque da campainha e, ao abrir a porta, teve um revólver apontado para sua cabeça, levado a uma casa no subúrbio madrilenho, obrigado a ficar nu e fazer inscrições no corpo de uma desconhecida, também nua, como no filme de Peter Greenaway (O Livro de Cabeceira).

Cinema sempre foi a referência máxima de Cao, que tinha um avô fotógrafo e herdou dele o equipamento com os quais fez suas primeiras experiências. “Era um rato de cineclube, via todos os filmes da nouvelle vague francesa e do Tarkovski”, conta, definindo o russo como seu guru. De fato, há nos filmes do cineasta a mesma tentativa de esculpir o tempo com a imagem, como no curta Quarta-Feira de Cinzas (2006), em que a câmera acompanha o movimento de formigas após o carnaval, levando os restos da folia para o formigueiro. “Tenho essa fixação nas vidas minúsculas, o que fica explícito em Nanofania.” Nesse curta, bolhas de sabão explodem enquanto insetos saltam, acompanhados por uma pianola de brinquedo.

Cao, que nunca estudou música, toca ao piano uma composição sua em Concerto para Clorofila (2004), dedicado a explorar o contraste entre luz e sombra na natureza. Mais uma vez, ele penetra num mundo liliputiano de teias de aranha e gotas de orvalho. No mundo dos homens, ele prefere filmar os solitários. É o caso de A Alma do Osso (2004), que acompanha o cotidiano do eremita Dominguinhos, morador numa caverna da montanha (ele morreu num asilo).

Em busca de seres isolados o cineasta acabou encontrando um personagem de Edgar Allan Poe e fez dele o protagonista de seu novo filme, O Homem das Multidões, dirigido em parceria com o pernambucano Marcelo Gomes. No conto de Poe, um londrino do século 19 segue um decrépito flâneur na rua e descobre que ele nunca volta para casa, dirigindo-se sempre a lugares com muita gente. Cao conta que fez dele um mineiro de Belo Horizonte. Quase um doppelgänger, como no premiado Otto – Eu Sou Um Outro (1998), que lhe abriu as portas de Sundance.

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