“‘Todos os poemas’ expõe faceta pouco conhecida do escritor Paul Auster

Matéria de Lucas Ferraz para o site da Folha de S. Paulo, a 2 de março de 2013:

O ano de 1979 marcou uma virada na vida do escritor americano Paul Auster, 66. Com o primeiro casamento em crise e quebrado financeiramente, ele encerrava a década em que se dedicou à poesia em crise existencial e literária.

Sem conseguir escrever desde o ano anterior, ele se arriscava novamente na prosa com o texto experimental “Espaços em Branco”, que coincidentemente concluiu na mesma noite em que seu pai morreu.

Para Auster, foi seu renascimento como escritor e ponto de partida para tornar-se um dos mais importantes nomes da literatura contemporânea dos EUA.

Toda sua produção literária até esse período, que marca os anos de formação do autor, acaba de chegar às livrarias.

“Todos os Poemas” (Companhia das Letras) expõe uma faceta pouco conhecida de Auster até mesmo por seu público nos EUA: a reunião de sua obra poética, escrita na década de 1970 – as exceções são “Espaços em Branco” e as reflexões “Anotações de um caderno de rascunhos”, de 1967, compostas quando ele tinha 20 anos.

“Foi a fundação de tudo o que fiz nos 30 anos seguintes”, disse o escritor em entrevista à Folha.

Fragmentos dos romances que tentou escrever nessa época foram usados anos depois na novela “Cidade de Vidro”, que compõe um de seus mais famosos livros, “A Trilogia de Nova York”.

“Nunca estava satisfeito com o que escrevia. Quando tinha 22 ou 23 anos, decidi que não poderia mais escrever ficção. Então me dediquei apenas à poesia”.

Parte dos poemas foram escritos no período em que viveu na França, entre 71 e 74. Na segunda metade daquela década, algumas de suas coletâneas foram publicadas em revistas de poesia, mas sem transformá-lo em um nome conhecido.

Há em seus poemas elementos que, mais tarde, ele desenvolveria em sua obra ficcional, como o existencialismo.

O último poema ele escreveu em 1979. “Descobri que estava me repetindo, a poesia me abandonou”, conta. “Talvez algum dia eu ressuscite e escreva [poesia] novamente”.

Sobre os diferentes gêneros em que transitou, ele faz uma comparação: “Poesia é como tirar fotografia, enquanto escrever ficção é como dirigir um filme, com imagens e muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo”.

Auster não tem dúvida de que “Espaços em Branco” foi um trabalho seminal para sua transição entre poesia e prosa.

Inspirado em um espetáculo de dança, ele tentou traduzir a experiência da performance coreográfica. O autor trabalhou no texto por duas semanas. O ponto final foi dado na madrugada do dia 15 de janeiro de 1979, mesma noite em que perdeu o pai.

“Foi algo cruel e estranho, que ainda me machuca. Justo no momento em que voltei à vida, meu pai morre. Foi terrível”, recordou Auster.

Após a morte do pai, o escritor começou a trabalhar no que seria seu primeiro romance, “A Invenção da Solidão”, em que mescla recordações pessoais, tendo como base a figura paterna, com imagens literárias e artísticas.

A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu à Folha, em Nova York, na última quinta.

*

Folha – Seus primeiros anos como poeta o influenciaram depois sua prosa?
Paul Auster – Na minha adolescência e quando eu tinha 20 e poucos anos, eu estava fazendo os dois, ficção e poesia. Eu comecei duas ou três novelas antes de fazer 20 anos, eram centenas de páginas. Mas eu nunca estava satisfeito com o resultado. Depois, fragmentos desses livros tornaram parte da novela “Cidade de Vidro” [uma das três histórias narradas no livro “A Trilogia de Nova York”]. Eu comecei a trabalhar em esse projeto cedo, mas eu ainda não estava pronto como escritor.

Em um acerto ponto, quando eu tinha 22 ou 23 anos, eu disse, “não escrevo mais ficção, não posso fazer isso”. Eu apenas podia escrever poesia, e foi o que fiz durante todo os anos 70. Eventualmente eu escrevia ensaios, mas não ficção.

Então, veio um momento de crise, quando eu não estava conseguindo escrever nada. Isso durou um ano. Quando eu recomecei de novo, era prosa. Eu comecei 10 anos depois a escrever ficção, como eu fazia no início. Naquele momento, eu tinha muito mais material e enfoque para fazer o que queria.

Durante um momento de sua vida o sr. queria ser poeta. Por que não conseguiu mais escrever poesia?
Eu descobri que estava me repetindo. E talvez a maneira que eu abordava a poesia era muito limitada. Estava muito limitado com o vocabulário e as referências.

Não foi apenas eu que decidi parar, mas também porque a poesia me abandonou. A única coisa que tinha a fazer era voltar à minha prosa.

Esse livro reúne dez anos de trabalho, e suponho que aí está a fundação de tudo o que fiz depois.

Você viveu na França durante um período de sua vida de poeta. Qual a influência daqueles anos em sua poesia?
Eu realmente não sei. Eu traduzi poetas franceses, trabalho que eu realmente gostava de fazer. Não penso que a França influenciou muito em meu trabalho. Por muitas razões, minhas influências vieram de outros lugares. Primeiro de todos, EUA, mas também Inglaterra, Irlanda, Alemanha, Itália, mas não muitos franceses.

Eu amo a França e meu francês é bom. Eu me mudei para lá no início de 1971, fiquei três anos e meio. Quando eu decidi ir para a França, eu queria mais era estar fora dos EUA. Decidi ir porque gostava do país e falava a língua.

Lembre-se, eram tempos da guerra do Vietnã, uma época de muito tumulto nos EUA. Senti que precisava estar fora por um tempo, para respirar outros ares e poder me tornar escritor.

“Espaços em Branco” é um texto experimental, escrito num momento em que o sr. não se dedicava mais aos poemas. Qual a importância desse trabalho para sua transição entre poesia e prosa?
Foi o primeiro trabalho de prosa que escrevi depois de passar um ano incapacitado, sem conseguir escrever nada. E claro, foi a primeira coisa que escrevi depois de parar com a poesia.

À época eu fui a um ensaio de dança em Nova York e aquilo me marcou muito, eu tentei repassar aquela experiência para o papel. Eu escrevi “Espaços em Branco” em duas semanas.

E o sr. concluiu o texto na noite que o seu pai morreu…
Exatamente. Eu terminei o texto na noite em que meu pai morreu. Foi algo muito cruel e estranho, que ainda me machuca. Justo no momento em que voltei à vida, meu pai morre. Foi uma coisa estranha, muito terrível. E depois de sua morte, eu comecei a trabalhar no que se transformou no meu primeiro livro [“A Invenção da Solidão”].

Qual é a diferença entre escrever poesia e prosa?
Fazer poesia é como tirar fotografias com uma câmera, enquanto escrever novelas é como dirigir um filme, há muito mais imagens e coisas acontecendo ao mesmo tempo. Uma fotografia pode ser mais colorida que uma imagem de um filme, por exemplo, mas é diferente. A intensidade é diferente e também a maneira de desenvolver as histórias.

Que tipo de sentimento o sr. tem quando revê sua obra poética?
É um trabalho de um jovem muito apaixonado, que estava vivendo inteiramente em um mundo que ele criou para si. Essa poesia explora a subjetividade, os limites da linguagem, o que significa ser humano… Foi um momento intensamente importante em minha vida. Eu realmente acredito que foi a fundação de tudo que fiz nos 30 anos seguintes.

O sr. escreveu seu último poema em 1979. Você morreu como poeta?
Eu não sei, talvez algum dia eu ressuscite e escreva poesia novamente. Não sei o que vai acontecer no futuro. Mas há um longo tempo eu estou morto como poeta, com exceção de algumas coisas em aniversários ou festas de família, por exemplo, quando eventualmente posso escrever algum poema, mas nada sério.

Eu fiz algumas letras de música…

O sr. compôs para sua filha, Sophie Auster, que é cantora. Essas composições não podem ser consideradas uma nova incursão à poesia?
Eu fiz algumas, para ela, uma grande cantora, e para uma banda do Brooklyn chamada One Ring Zero. Uma delas era uma canção contra George W. Bush. E fiz uma música para um filme que dirigi.

Letras para canções são diferentes de poesia, mas é claro que você usa formas poéticas. Você precisa ser mais simples do que em um poema.

1 comentário

Arquivado em Poesia

Uma resposta para ““‘Todos os poemas’ expõe faceta pouco conhecida do escritor Paul Auster

  1. António

    Só um à parte: em português é necessário escrever tantas vezes «eu»?

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