Paulo Leminski: “À vontade entre o erudito e o popular”

Artigo de Antonio Gonçalves Filho publicado no site do Estadão:

A obra poética do curitibano Paulo Leminski (1944-1989), de difícil classificação, já foi associada à herança passadista dos românticos – no sentido de tentar unir vida e arte num só pacote – e à vanguarda concreta dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos. No entanto, Leminski segue desafiando os teóricos. Não é nem mainstream nem underground. Trata-se de um poeta genuinamente mestiço, filho de pai polonês e mãe negra, mais conhecido por ter escrito um livro igualmente inclassificável, Catatau (1975), em que René Descartes desembarca em Pernambuco durante o período do Brasil holandês e perde a razão ao tentar entender o País, não sem antes fumar uma erva esquisita. A exemplo de seu Cartésio, o Descartes imaginário de Catatau, Leminski, também um erudito, passou a vida sem entender o Brasil. Bem que tentou, seja como professor ou autor de letras de canções populares, mas principalmente como poeta, como comprova a edição de Toda Poesia, com lançamento previsto para o dia 28.

Descoberto pelo poeta Haroldo de Campos em 1963, na Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, Leminski era, então, um judoca de 19 anos que escrevia “versos homéricos”, segundo o concretista. Seriam necessários mais 13 anos para que seu primeiro livro aparecesse, Quarenta Clics em Curitiba (1976), que reúne uma pequena parte de sua produção poética inicial ao lado de fotos de Jack Pires. Publicados por uma pequena editora independente paranaense, alguns desses poemas seriam depois reunidos em Caprichos & Relaxos (Editora Brasiliense, 1983), primeiro êxito editorial de Leminski. Nos seis anos seguintes até sua morte, Leminski foi celebrado como um poeta que, embora ligado à contracultura, deixou seu nome inscrito no panteão dos eruditos, ao traduzir textos clássicos de Petrônio (Satyricon) e modernos (Samuel Beckett, James Joyce e Yukio Mishima, entre outros).

Toda essa atividade começou após a publicação de Caprichos & Relaxos. Os anos 1980 mal haviam começado. A Brasiliense era a editora que abarcava a nova geração de autores brasileiros, publicando ainda “malditos” estrangeiros (de Radiguet a Bukowski, passando pelos autores da beat generation). Catatau já fora publicado numa edição independente, de forma precária, circulando apenas entre amigos, como lembra a poeta Alice Ruiz, mulher de Leminski por 20 anos, na apresentação de Toda Poesia. Em 1983, quando saiu Caprichos & Relaxos pela Brasiliense, Leminski já tinha três livros de poesia publicados, além de Catatau. Produções independentes, restritas ao mercado curitibano, os livros se empilhavam pela casa do poeta à espera de compradores, até que as novas edições pela editora paulistana chamaram a atenção de músicos populares.

Caetano Veloso foi um deles. O cantor e compositor baiano acabou gravando Verdura, abrindo um novo mercado para a poesia do curitibano, que viria a ser parceiro de Arnaldo Antunes e outros músicos. O professor de Literatura e compositor José Miguel Wisnik diz, no posfácio de Toda Poesia, que Leminski “sonhava também com a cadência espraiada do refrão em massa”, encontrando em Antunes “a sua perfeita tradução, isto é, a correspondente aliança da poesia e do livro – marginal e de vanguarda, informal e formalista – com a linguagem da canção pop”.

Principalmente devido a essa aliança, Leminski foi duramente criticado por intelectuais conservadores, entre eles o também poeta Bruno Tolentino, que, definindo-o como um “poeta-piada”, de “dicção rala e ideias curtas”, acusou-o ainda de “macaquear a gagueira de toda uma leva de quase-autores”, ao seguir a rota dos modernistas da Semana de 22 e rezar pela cartilha dos concretistas. A dicção poética de Leminski, atesta Wisnik, pode estar relacionada à tradição moderna oswaldiana ou ter bebido na fonte da poesia concreta, deglutindo ainda o coloquialismo da poesia marginal. Entretanto, para entender o poeta curitibano é preciso não sucumbir ao estereótipo como o fez Tolentino – ao chamar Leminski de tocador de “berimbau de barbante”, dando a entender que seu arco e sua lira eram frouxos.

Tolentino não reconheceu em Leminski aquilo que Haroldo de Campos identificou no jovem poeta: uma poesia lírica rigorosamente construída e amalgamada com a canção trovadoresca. A professora de Literatura Leyla Perrone-Moisés, num texto republicado em Toda Poesia, que reúne todos os livros de poesia de Leminski, parte igualmente em defesa do poeta ao destacar que o “samurai malandro” (como ela o chamava carinhosamente) não produz jogos de palavras por simples graçola metaconcreta. Ele foi, sim, um formalista, embora não um poeta de gabinete, diz ela. Um poeta “mestiço e antropófago”, que sonhou ser Rimbaud e acordou como um provinciano a fazer haicais na terra da saúva gorda, como ele mesmo previra no poema Dança da Chuva.

Morto poucos meses antes de completar 45 anos, de cirrose hepática, Leminski sempre preferiu escrever poemas breves, especializando-se no haicai, forma poética surgida no século 16 e intimamente ligada ao taoismo e à filosofia espiritualista dos mestres zen-budistas. Forma concisa de poesia, o haicai também se adaptava perfeitamente às publicações alternativas dos anos 1970, artesanais e típicas da contracultura, movimento do qual participou Leminski sem, contudo, manter contato com poetas marginais, embora sempre evocasse o nome do tropicalista Torquato Neto como referência.

A filosofia e a poesia orientais, porém, ocupavam o centro de suas preocupações. Estudioso da língua japonesa, ele escreveu uma biografia de Bashô, o grande criador de haicais. Leminski era também fascinado pela figura de Trotski, de quem foi biógrafo (Leon Trotski – A Paixão Segundo a Revolução), e admirador do líder sindicalista polonês Lech Walesa (seu grande bigode, também parecido como o de Nietzsche, foi adotado por Leminski). Poliglota, ele falava e escrevia em polonês, além de outras línguas, inclusive latim e grego. Mas não ostentava publicamente essa erudição. Era, sim, falante, divertido e seu discurso, às vezes confuso, parecia desestruturado por misteriosa intervenção de um monstro como Occam, o primeiro personagem semiótico da ficção brasileira, que destrói a lógica cartesiana do herói de Catatau. Leminski foi professor de cursinho pré-vestibular. Estava acostumado a falar pelos cotovelos e seus interlocutores mal o acompanhavam. Foi, aliás, durante uma aula sobre a invasão holandesa de Pernambuco que lhe veio a ideia de colocar Descartes no horto tropical do palácio de Maurício de Nassau em Olinda, estupefato diante da fauna e da flora brasileiras.

À meditação zen ele contrapôs a verborragia filosófica que transborda em Catatau. Na poesia, Leminski encontra a síntese, o equilíbrio necessário para abordar fatos dramáticos de sua vida pessoal – como a morte de seu primeiro filho, Miguel, ainda jovem, ou sua inclinação para o álcool. Em desequilíbrio, ele se vê no interior de um táxi, com o corpo encharcado por dez conhaques, a atravessar uma São Paulo invernal à espera da primavera – como no poema Mallarmé Bashô, no qual revela outro ramo de sua filiação literária além de Joyce (Finnegans Wake) e Haroldo de Campos (Galáxias): o simbolista francês Stéphane Mallarmé. Ao contrário deste, Leminski não aspirava ser a explicação órfica da condição humana, mas a força de sua melodia tem, sim, a premonição do hipertexto da condição internética, outro ponto de contato com a poesia visionária de Mallarmé, que chegou a trabalhar visualmente seus poemas, como o curitibano faria mais tarde (no poema Lua na Água, por exemplo).

De todas as observações feitas por especialistas em sua obra na edição de Toda Poesia, chama a atenção a da viúva do poeta, Alice Ruiz, sobre a ressonância da formação religiosa de Leminski em sua vida intelectual. Seminarista no Mosteiro de São Bento, a clausura não durou muito, mas o amor pelo conhecimento permaneceu por toda a vida, lembra a poeta no texto de apresentação. Ao deixar o mosteiro, como o monge do livro de Hermann Hesse (Narciso e Goldmund), ele partiu em busca da experiência mundana para traduzir a angústia da vida moderna numa ficção que, antes de ser vanguardista, é o puro retrato desse impasse em forma poética. Como Petrônio, ele foi buscar nas ruas as palavras que faltavam para elaborar sua vingança retórica contra o modelo clássico.

No rastro da poesia, editoras relançam biografia e romance

O lançamento da reunião, num único volume, dos livros de poemas de Paulo Leminski deve despertar o interesse dos leitores pela história do escritor. Publicada em 2001 pela Record, a biografia Paulo Leminski – O Bandido Que Sabia Latim, de Toninho Vaz, ainda está à venda, mas sua quarta edição – com fotos novas e outras mudanças – sairá entre junho e julho pela Nossa Cultura. Outros gêneros experimentados por ele também devem merecer atenção. Catatau, romance lançado em 1975, cuja importância rivaliza com sua obra poética, foi reeditado pela Iluminuras em 2010 e segue disponível em algumas poucas livrarias. Mas uma nova tiragem será distribuída até o fim do mês. Reeditado em 2011 também pela Iluminuras, Agora É Que São Elas – romance de 1984 – pode ser encontrado nas principais livrarias. (Colaborou Maria Fernanda Rodrigues)

Leia poemas do livro
Poema de Paulo Leminski (Do livro Toda Poesia, Companhia das Letras)

sim
eu quis a prosa
essa deusa
só diz besteiras
fala das coisas
como se novas
não quis a prosa
apenas a ideia
uma ideia de prosa
em esperma de trova
um gozo
uma gosma
uma poesia porosa

(in: caprichos & relaxos , p. 80)

aviso aos náufragos
Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida,
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não é assim que é a vida?

(in: distraídos venceremos , p.175)

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser minha última obra

(in: la vie en close , p. 284)

a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que bruma
uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos como se
se faz essa história
que se chama eu e você
1988

(in: o ex-estranho, 352)

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