“O Municipal precisa ser capaz de projetar o seu futuro e comunicá-lo à sociedade”, afirma John Neschling

Matéria de João Luiz Sampaio publicada no Estadão:

Uma senhora caminha em direção do Teatro Municipal, olha rapidamente para o interior do prédio, senta-se na escadaria. “Olha lá”, diz John Neschling. “Ela provavelmente não tem ideia do que acontece aqui dentro. Deve passar aqui diariamente, mas não sabe. Se eu pedir a ela R$ 1 para o teatro, não vai me dar. O Municipal tem de ser como o Itaquerão. Você nunca vai me ver pisando lá dentro. Mas eu quero saber do projeto, eu olho as notícias sobre sua construção. Eu tenho orgulho do estádio. Sei que lá vai jogar um time da cidade, um time que é campeão mundial. Por isso, se me pedirem ajuda, eu ajudo. Mesmo eu, que não ligo para futebol e jamais irei lá assistir a um jogo.”

A comparação com o Itaquerão, diz Neschling, lhe ocorreu durante uma conversa, no começo da semana, com uma equipe contratada para trabalhar a imagem do teatro – uma de suas primeiras medidas como novo diretor artístico da casa. “O Municipal precisa ser capaz de projetar o seu futuro e comunicá-lo à sociedade. Ele precisa ser uma realidade sociocultural do paulistano e não um palácio distante”, explica. A palavra de ordem parece ser “reaproximação”. E, para tanto, o maestro fala em uma “política permanente de transparência”. A partir do dia 18, fará visitas abertas ao teatro, de três em três meses, destinadas à imprensa e ao público em geral. “Vamos mostrar tudo o que estamos fazendo, o estado do teatro, das obras da Praça das Artes. Isso é muito importante. Nos últimos 20 anos, o teatro ficou fechado seis anos para reformar, é quase um terço do tempo, é muita coisa. As pessoas precisam voltar a tê-lo como referência.”

Nesse sentido, diz, há alguns pontos a serem considerados. “Vou te dar um exemplo. O Municipal tem história e precisa recuperá-la. A Semana de Arte Moderna, o marco que fez São Paulo deixar de ser uma província para se transformar em uma metrópole, aconteceu aqui. Então, de um lado você tem uma tradição enorme e, de outro, precisa olhar com responsabilidade para o futuro. É interessante até entender a Praça das Artes nesse contexto, porque ela também sugere essa dicotomia entre tradição e modernidade, teremos lado a lado um prédio de 1911 e um outro, de 2012, trabalhando juntos.”

E o que dizer sobre esse trabalho – e as características que o Municipal terá sob a égide de John Neschling? “O paradigma principal é a qualidade. Se você tem qualidade, tem o fundamental para começar a negociar o papel do teatro em um contexto mais amplo na vida da sociedade. Vale o mesmo para o orçamento (o de 2012 será de R$ 64 milhões). As pessoas perguntam: é muito, é pouco? Eu não sei. Antes, preciso saber o que o Municipal quer fazer, qual seu plano, sua função. E minha função aqui é essa.”

Para Neschling, não há mágica nem “rodas novas a serem reinventadas”. “O Municipal tem de ter ópera, concerto, balés, em uma temporada que faça tudo isso dialogar. O que me espantou ao chegar aqui é que ninguém conversava com ninguém, o diretor de um corpo estável não fala com o do outro, que não se dá com não sei quem. Eram feudos. É claro que a ópera é a vocação natural do teatro. Mas o Municipal tem de ser pensado como uma usina cultural e, para isso, precisa de coisas que não existiam, como um departamento unificado de produção, que eu criei agora. Deixa eu contar uma coisa que acontecia aqui. Você fazia uma ópera e precisava de bailarinos. Então, em vez de usar os artistas do Balé da Cidade, ia contratar gente lá fora. Não faz o menor sentido”, diz, e continua, com a certeza de que este caso é simbólico do antigo Municipal – e do teatro que ele pretende criar. “É indiscutível a importância do Balé da Cidade na dança contemporânea brasileira, é um grupo que viajou pelo mundo. Essa é uma característica a ser lembrada, preservada, estimulada. Mas a companhia faz parte do Teatro Municipal e essa ligação precisa existir de fato. Não queremos podar o Balé da Cidade. Por isso, chegamos e dissemos: do que vocês precisam para fazer isso acontecer? Mais bailarinos? E vamos trabalhar para oferecer isso a eles. Da mesma forma, em um espetáculo importante da temporada deles, vamos ter a orquestra do teatro no fosso, fazendo música ao vivo.”

A temporada de 2013 só será anunciada oficialmente no dia 18. Mas Neschling adianta alguns títulos. O Municipal terá sete óperas. “Não dá para você ir de não produzir nada para produzir tudo de uma hora para outra”, ele ressalta, fazendo referência ao fato de que nos dois últimos anos as produções foram terceirizadas a profissionais e empresas de fora do Municipal. “Por isso optei por não ter óperas logo de cara.” A exceção é Ça Ira, de Roger Waters, que sobe ao palco em maio. “Não é um título que eu escolheria, mas herdei ele já todo contratado e resolvi honrar esse compromisso.”

A temporada lírica de Neschling começa em junho, com The Rake’s Progress, de Stravinski, produção da Experimental de Repertório e Jamil Maluf. Em agosto, Aida, de Verdi, a primeira ópera a ser regida pelo novo diretor, em uma produção do Maggio Musicale de Florença. Na sequência, aparecem Don Giovanni, de Mozart (montagem do Municipal de Santiago, regência de Yoram David); Cavalleria Rusticana, de Mascagni, e Jupyra, de Francisco Braga (regência de Victor Hugo Toro); O Ouro do Reno, de Wagner (regência de Luiz Fernando Malheiro), e La Bohème, de Puccini, (montagem do Teatro Real de Madri, regência de Neschling). No primeiro semestre, concertos: 14 programas da Sinfônica Municipal, 10 da Experimental e a integral dos quartetos de Beethoven pelo Quarteto da Cidade de São Paulo. Os primeiros concertos de Neschling, nos dias 23 e 24 de fevereiro, terão obras de Wagner, Guarnieri e Verdi.

Ao todo, o teatro vai ter cerca de 120 funções ao longo do ano. “Mas o horizonte com o qual trabalhamos é o de 5 espetáculos por semana. Em 2014, por exemplo, eu quero de 10 a 15 títulos de ópera no palco. E ainda mais em 2015, época em que pretendo já ter instituído um elenco fixo do Municipal, que servirá de base a esta programação.” Ainda sobre elencos, ele anuncia que, de 18 a 31 de março, vai abrir o teatro para audições com cantores brasileiros e latino-americanos. “É para vir mostrar os papéis das óperas que vamos fazer. Não quero ninguém dizendo que eu não ouvi cantores, que não dei oportunidades.”

Para concretizar seus planos, Neschling depende da finalização da Praça das Artes. “Até 2014, queremos ter o segundo prédio, com salas de ensaio, pronto. E, em 2015, o terceiro, com uma sala de concertos de 900 lugares. Isso vai liberar o palco para espetáculos, dando ao teatro uma rotina de produção.” Para os próximos anos, estão no horizonte títulos como Carmen, de Bizet, Siegfried, de Wagner, e O Diálogo das Carmelitas, de Poulenc. E Neschling diz estar estudando um formato ideal para a encomenda de novas óperas. “Pensei em pedir a quatro compositores um trecho de 20 minutos de uma nova ópera. Faço os quatro e o que funcionar melhor ganha a encomenda para uma ópera completa.”

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