Uma fala de Helena em “Fanny e Alexander”, de Ingmar Bergman

Em uma cena de Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman, Helena conversa com seu filho já morto, Oscar:

Helena: Sim, Oscar, é assim mesmo. Uma pessoa pode ser velha e jovem ao mesmo tempo. O que houve com aqueles longos anos que pareciam tão importantes na época? Sento-me aqui alimentando a melancolia, pensando como o tempo foi curto. Seu pai costumava dizer que eu era sentimental. Ele não era conhecido por ser um homem particularmente sensível. Ele estava bravo e resignado quando morreu. Ele nunca achou que a vida fosse cruel ou injusta ou bela. Ele apenas vivia e não comentava. Ele deixava isso para mim. E quando eu falava da vida ele ria e me chamava de sentimental. Mas eu era artista. Como artista, eu tinha o direito de ser emotiva. […] Posso pegar a sua mão? Lembro-me de sua mão, quando criança. Ela era pequena, firme e seca. E seu pulso era extremamente fino. Eu gostava de ser mãe. Gostava de ser atriz também, mas preferia ser mãe. Gostei de ter um barrigão e não estava nem me lixando para o teatro naquela época. Agora atuar é tudo. Alguns papéis são bons, outros nem tanto. Eu representei uma mãe. Eu representei Julieta e Margarida. Depois repentinamente interpretei uma viúva ou uma avó. Um papel atrás do outro. O que importa é não se diminuir diante deles. Mas o que restou de tudo? Pode me dizer, meu garoto? Você é um bom garoto para escutar o monólogo de sua velha mãe, como diria Isak. Sim, você é um bom garoto, Oscar… e eu lamentei muito quando você se foi. Esse foi um papel estranho de interpretar. Meus sentimentos vieram das profundezas de meu corpo. E mesmo que pudesse controlá-los… eles dilaceraram a realidade, se entende o que eu digo. A realidade permanece dilacerada desde então… e, estranhamente, parece mais real assim. Então me importo em restaurá-la. Eu apenas não ligo mais quando todo o resto não faz sentido. Oscar, meu querido?

Oscar: Sim, mamãe.

Helena: Você está triste?

Oscar: Estou preocupado.

Helena: Com as crianças?

[Com olhar desolado, Oscar acena afirmativamente com a cabeça.]

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