“O som ao redor”, de Kleber Mendonça Filho

Desde os primeiros minutos do filme O som ao redor, do crítico de cinema e diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, senti vontade de levantar da poltrona e sair da sala de exibição. A primeira cena já traz uma série de ruídos urbanos – uma epidemia nas principais capitais brasileiras. Dentro da sala, com os alto-falantes, os ruídos reproduziam em alta escala um incômodo cotidiano. A trilha sonora de DJ Dolores (excelente, por sinal) em muitos momentos pontua o filme com batidas regulares. Uma sonoridade que desponta como o anúncio de uma fatalidade ou mesmo como o ritmo de marcha fúnebre. É de arrepiar!

Aos poucos, o ruído vai criando, de modo muito perturbador, uma expectativa de irrupção de violência, marcada também em diálogos econômicos que concentram uma tensão quase insuportável. Dessa maneira, a minha vontade de levantar da poltrona se intensificava. A angústia se dilatava aos poucos, à medida que o cotidiano de vários personagens de uma rua era retratado secamente, embora, em certas cenas, os expectadores cheguem a rir. Porém, trata-se de um humor que não desfaz a angústia crescente.

Portanto, a vontade de levantar da poltrona e sair do cinema nada mais é do que um sintoma do quanto o filme é potente e vibrante, do quanto é incômodo observar a classe média que dispensa tanto de sua energia para resistir ao “som” ao redor. Um som de muitos sentidos, sem dúvida alguma, em que prevale o “som” do medo.

Os sonhos de alguns personagens e algumas presenças “fantasmagóricas” ampliam o retrato do medo gerado pela cidade em seus habitantes. São pesadelos que superam qualquer filme de terror, como os homens que pulam o portão enquanto os moradores dessa rua dormem. O som do portão, os passos dos homens, a insistência dessa repetição são desorientadores.  

A paisagem está igualmente afetada por diversos ruídos: estes arquitetônicos, em edifícios horríveis, altos, inexpressivos, de um mal gosto hediondo, que apagam a presença do mar. Eis mais uma epidemia das grandes cidades: seu crescimento desordenado, a falta de um planejamento urbano, a incapacidade de fazer da casa uma “máquina de comover”.

O filme é igualmente grandioso em função do desempenho dos atores. Todos extraordinários, de uma naturalidade impressionante, sem afetação. Todas as frases que saem de suas bocas soam no ponto certo. De tão reais, nenhum de seus atores parece representar um papel: como se houvesse uma câmera escondida registrando fatos do cotidiano de uma grande cidade.

Ao fim de O som ao redor, ouvi dois expectadores afirmando: “É o pior filme que já assisti em minha vida!” Não estou de acordo, mas entendo perfeitamente quem sentiu dessa maneira. Aí se revela uma incapacidade de perceber que o “pior” desse filme é parte do “pior” do Brasil. Trata-se de um filme sobre o medo cotidiano, real, vivido, presente em tantas cidades. O medo que no filme está tão bem marcado pela quantidade de grades nas janelas e nas portas. O som ao redor não conforta e talvez por causa disso alguns expectadores tenham se decepcionado tanto com ele  e não tenham conseguido perceber seu alcance crítico.

1 comentário

Arquivado em Cinema

Uma resposta para ““O som ao redor”, de Kleber Mendonça Filho

  1. Tatiana Salem Levy

    Muito boa a sua crítica, Eduardo.O filme é isso mesmo, o pior do Brasil, e maravilhoso.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s