Barba em discussão – sobre o romance de Daniel Galera

Não estou de acordo com a análise de Elvira Vigna a respeito de Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, mas é sempre bom ler um artigo sério, de quem examina uma obra sem medir esforços. Foi publicado no blog Estudos Lusófonos [via Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea]. Em seguida, reproduzo o artigo de Bruno Kümmer (também publicado no blog Estudos Lusófonos), que discute o de Elvira Vigna. E meus cumprimentos ao blog referido, que tem feito um excelente trabalho em torno dos estudos de literatura. Apesar das divergências, um romance contemporâneo gerar tal tipo de discussão é sintoma, ao mínimo, que se trata de uma obra complexa.

BARBAS POUCO CONFIÁVEIS
Tive um problema na minha leitura de Barba ensopada de sangue de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2012). Fiquei com vontade de pular páginas, ler outras na diagonal. Não no começo, mas já passando do meio, quase no fim. Ou seja, não era uma incompatibilidade minha em relação ao texto. Foi me dando. O que se segue é minha tentativa de explicar a razão disso.
A primeira frase do livro é brilhante:
“Vê um nariz batatudo, reluzente e esburacado como uma casca de bergamota.”
(Isto é, primeira frase tirando a descrição, em itálico e entre páginas em branco, do suposto fato real que gerou a ficção, mas sobre isso volto mais tarde.)
Digo que é brilhante porque determina de imediato o que devo esperar do livro: um discurso regional (“bergamota” é regionalismo de Santa Catarina e Rio Grande do Sul), realista, com narrador-câmera (a primeira palavra é “vê”) na terceira pessoa. Devo esperar, principalmente, uma determinada distância emocional entre narrador e narrado: pouca. O narrador está bem próximo do narrado. A ponto de ver buracos em uma pele de nariz.
Acabo de descrever o narrador em situação clássica de catarse. Alguém comum (a escolha de um nariz como ponto de partida determina o banal) que, por conta de uma decisão ou escolha, se vê em meio a emoções violentas, catárticas, que o “salvam” – e ao leitor, de cambulhada. Uma maneira de apresentar tais emoções violentas é justamente descrever detalhes, mesmo os que nenhuma importância têm, mas que se imprimem na memória de quem passa por elas.
E foi esse o problema.
O texto é frio.
Nada contra. Poderia ser um excelente texto frio. O problema é que há uma falsidade básica nas técnicas narrativas realistas e detalhistas a prometer uma catarse que não está lá. E não está lá porque a proximidade emocional prometida inexiste. O narrador é emocionalmente distante do narrado e, portanto, do leitor, em que pesem as técnicas de proximidade usadas. São várias: 1) o detalhamento minucioso, típico do emocionalmente impactante, mas usado de forma indiscriminada como, por exemplo, na descrição de uma tarde no circo, nem um pouco impactante; 2) o narrador-câmera que só vê , mas que não é um narrador-câmera já que entra na cabeça de todo mundo; 3) um linguajar “oral”, com palavras grafadas como se fala e sempre no presente do indicativo, mas em frases que seguem um padrão regular, não importando quem e quando fala.
Além disso, outras coisas que, não sendo exatamente técnicas narrativas, sugerem um estar mais à vontade no longe do que no perto: 4) a escolha de um balneário turístico, local por definição fora-do-mundo-real, como base do presente narrativo; 5) as dualidades claras, dicotômicas, só possíveis quando vistas de forma esquemática, isto é, de longe; 6) a profissão do herói: um atleta, isto é, alguém que busca ativamente, através de limites físicos, seus impactos emocionais, em vez de sofrê-los, com tudo o que isso significa em termos de tentativa de controle – sendo que impactos emocionais minguam na exata razão inversa de tentativas de controle.
 
Mergulha, passeia um pouco entre as pedras marcando o tempo no relógio e só emerge quando começa a sentir atrás dos olhos aquela pressão desesperadora da falta de oxigênio. Um minuto e cinco segundos.( 203)
 
E, 7), há ainda a questão da decisão ou escolha que precipitaria a jornada catártica. Não há decisão. O distanciamento emocional do herói é tal que ele não participa daquilo que é dado como sendo a razão inicial de seu distanciamento emocional: a mulher da vida dele para sempre perdida (“Viviane”) o abandonou para ficar com o irmão dele. Ela vai, ele não faz nada:
 
Eu não podia ir contigo naquele momento porque tava treinando pro mundial de Iron man no Havaí. Que era o sonho da minha vida. (414)
 
A decisão ou escolha, o fator de mudança, o gatilho da ação, é de Viviane, não dele. Ele continua a fazer o que já estava fazendo antes de o livro começar e que continuará fazendo depois que o livro acaba, isto é, sendo atleta.
De todos os itens que listei, incluindo esse da ausência da decisão deflagradora da ação, só vou me estender aqui em dois deles: o 2) do narrador cuja proximidade emocional é prometida mas não existe; e o 5) das dualidades dicotômicas, com um certo destaque para um aspecto que me é caro, o da dualidade dicotômica de gênero.
 
O falso falso narrador onipotente, onisciente e ubíquo
 
Primeiro, uma dificuldade de definição. Existe o falso narrador onipotente, onisciente e ubíquo. Aquele que, na terceira pessoa, acompanha de perto um determinado personagem, mas só ele. Vê tudo que ele vê e até entra na cabeça dele, sabe de seus pensamentos, mas só os dele. Ou seja, é um “eu” disfarçado de “ele”. Achei que era o caso.
Mas não. Aqui é um falso falso narrador onipotente, onisciente e ubíquo. Ou seja, ele é de fato onipotente, onisciente e ubíquo. Só disfarça que não é. Segue um determinado personagem, o herói, mas na verdade entra na cabeça de todo mundo, personagens secundários como Dália (sua companhia na ida ao circo) ou um surfista que nunca mais vai aparecer no livro:
 
Dália repara que os assistentes de palco que montam e desmontam a cena em quase todos os números são ninguém menos que Los Bacaras. Ela suspeita que são todos da mesma família. (146)
 
É um dia de inverno que parece de verão. Sentado em cima da prancha, ele mexe os dedos dos pés dentro da água gelada e imagina que não há mundo do outro lado dos morros.(321)
 
Ao não se assumir como onipotente, onisciente e ubíquo, o narrador também não se assume como pensador. Discussões filosóficas, assim, são colocadas na boca de personagens que não as sustentam, ficando, eles também, falsos. Um bebum de beira de praia providencialmente teve no passado uma namorada muito culta que o introduziu ao pensamento de Nietzsche. Uma recepcionista de lojinha para turista disserta sobre a diferença entre mito e ídolo graças a um curso na universidade local. Ela também sabe tudo sobre a época da colonização da região, porque leu muitos livros e pode, inclusive, emprestá-los ao herói.
 
Isso tá nos livros de história de Garopaba, posso te emprestar um.( 260).
 
E ela também sabe o que é prosopagnosia.
 
Jasmim é a primeira pessoa que ele conhece que já sabia o que era prosopagnosia. É o tipo de coisa que ela estudou na faculdade e que fica lendo em sites de internet com um interesse insaciável. ( 268)
 
Esse narrador – distante emocionalmente do narrado, embora finja estar perto; que usa os personagens para expor ideias que não podem ser dos personagens – terá mais uma dubiedade: um curioso momento em primeira pessoa, o único do livro, sobre o qual falarei junto com a questão de gêneros, no item das dualidades dicotômicas.
 
As dualidades dicotômicas
 
Permeiam todo o livro.
A primeira é a do destino versus livre-arbítrio:
É uma discussão da época do existencialismo e que não teria mais muita relevância em nosso capitalismo tardio. Mas o ponto não é esse. É que é uma falsa dualidade mesmo dentro do escopo do livro. Quero dizer, é falsa no livro. Porque embora se apresente como uma discussão, ou seja, dois pontos de vista antagônicos que precisam se encontrar como tese, antítese e síntese, o que vem primeiro é a síntese. É o destino quem comanda o mundo, fico sabendo desde o início. Só que, para evitar dilemas morais, o herói – que é moralista – conclui que, mesmo apenas obedecendo ao que determina o destino, é preciso agir como se houvesse responsabilidade pessoal.
 
Ninguém escolhe nada e mesmo assim a responsabilidade é nossa. É assim. Não sei explicar por quê. (419)
 
Digo que sei desde o começo que é o destino quem ganha essa falsa dualidade porque há referências a “purezas de origem”, sonhos premonitórios, lendas que se comprovam, personagens misteriosos a anunciar o que pode vir.
 
Levanta um pouco mais tarde sem saber ao certo se cochilou. Algo importante mudou na atmosfera mas é difícil dizer o quê. (…) O fim do mundo se aproximando em silêncio. (132/133)
 
De repente não há nada para fazer nem pensar e nesse hiato ele tem um vislumbre de como e onde irá morrer. A visão não surge em detalhes.(179)
 
Sua figura tem uma pureza ancestral. (191)
 
Não lembra de ter chegado à praia mas consegue evocar fragmentos vívidos de toda a noite anterior. Parece um pouco um sonho (…). (375)
 
A mulher começa a relatar outro sonho que teve com ele, mas ele a interrompe e diz que já sabe. (399)
 
A segunda dualidade dicotômica é a do homem versus natureza:
Haveria outros exemplos, a começar por um elogio à vida não urbana ou “em contato com a natureza” da casinha virada para o mar e não para a rua. Mas vou me ater à barba que dá título ao livro e que passa de um homem a outro homem (uma fantasia de procriação sem participação feminina, em que pese a anamorfose possível a transformar barba em pelos púbicos e sangue guerreiro em menstruação).
Essa segunda dualidade, homem versus natureza, se liga à primeira, a do destino. A barba passa de homem para homem para que um destino se cumpra, o destino da integração com a natureza, tentada pela primeira barba, mas só conseguida pela segunda. A barba intermediária, a do pai, nega sua presença. Ela é raspada (“Barba feita”) até o suicídio de seu portador, que colabora no entanto com o dilema ao ofertar uma cachorra, a Beta (é uma fêmea, portanto do segundo sexo), para o embate final.
O atleta, em sua fisicalidade, é um ser superior ao avô e consegue passar de um mundo, o dos homens, ao outro, o da natureza – o que o avô não conseguiu, não totalmente. Talvez não seja graças à fisicalidade superior do herói. Afinal, o avô também tinha seus dotes físicos: sobreviveu a facadas múltiplas, nadava muito bem e ficava um tempo grande debaixo d’água. Talvez o sucesso de um e fracasso de outro se dê por causa da presença feminina, tolerada pelo avô (desde que em estado de submissão) e descartada pelo herói. De todo modo, ele consegue: o elo com a cachorra não se abate apesar de quilômetros e reveses. E uma baleia fica “a vinte, trinta metros de distância” do herói, sendo – tanto quanto a cachorra – uma cúmplice, uma irmã de destino:
 
Ela transmite calma e cumplicidade. ( 320)
 
É como uma fábula. Tu vê que a vida do cara e a vida da garoupa tavam ligadas de alguma forma, como a tua vida e a dessa cachorra. (124/125)
 
O livro tem um final feliz. O herói consegue ser um com a natureza, e tal calma e cumplicidade excluem a violência – e também, talvez, mudanças perturbadoras e a própria passagem do tempo.
 
Dentro das dualidades dicotômicas, a dos gêneros
As mulheres do livro. Estão no âmbito de “família” e não de “companheirismo”, entendido sempre como algo possível apenas entre homens, ainda que seja entre um adulto (o herói) e um menino (o filho de uma ficante ocasional).
Como “família”, mulheres se opõem ao “mundo” e o herói precisa escolher entre essas duas coisas, não havendo possibilidade de ter as duas:
 
Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. (399)
 
Não há gays.
 
Do tabu do homossexualismo e o monte de problemas que isso traz. Pessoas sofrendo na vida privada (263)
 
É o único momento do livro em que a homossexualidade é referida. Eu poderia analisar um por um os sintagmas escolhidos. Mas vou ficar só com “tabu”, deixando de lado o reducionismo da “vida privada”. Deixo de lado também a escolha de “homossexualismo” e seu sufixo denotador de anormalidade.
Tabu então. Tabu está no campo semântico do religioso, do sagrado. O narrador considera que a atitude antigay da comunidade de pescadores não é um preconceito, uma violência social e uma ignorância, mas uma consequência do sagrado. Posso colar esse comentário àquele da responsabilidade pessoal que as pessoas devem ter, mesmo quando sabem que apenas seguem seu destino.
Com gays e mulheres mantidos à distância, o herói pode se dedicar ao companheirismo masculino, inclusive no momento transcrito a seguir, o único em que o narrador assume uma primeira pessoa, ausente em todo o resto do livro:
 
Trocaram um abraço forte. Pedrão tinha se aproximado e dito Oi, é o Pedrão. Eram dois homens que se respeitavam. Tinham passado centenas de horas juntos, correndo, pedalando e nadando longas distâncias, se incentivando, se distraindo, puxando o ritmo do outro, tentando acompanhar o ritmo do outro, compartilhando o estado mental semimeditativo do exercício prolongado. Pedrão tem a mesma idade que ele, trinta e quatro anos, mas ele sabe que os dois parecem um pouco mais velhos que isso. Esforço demais, sol demais, radicais livres demais no sangue se somando aos percalços físicos e emocionais que afligem todo mundo e que carregamos no corpo (…). (206)
 
Voltando às mulheres.
A mãe. Não é confiável. Tem um namorado, ou seja, “trai” o pai na equação básica edipiana. Também trai o herói porque tem preferência pelo seu irmão. Trai o passado (que é algo que o narrador tem em alta conta embora não se saiba a razão para isso) ao fazer plástica. E está definitivamente do lado “errado” na dualidade dicotômica homens versus natureza, pois maltrata a cadela Beta. Além disso, a mãe usa o pejorativo “negrinha” para se referir à namorada do herói, a Jasmim, ofendendo, assim, sua masculinidade.
Viviane. A mulher da vida dele para sempre perdida. Acho mesmo que é a mulher da vida dele porque para sempre perdida, já que o herói, obedecendo a um romantismo muito em voga na literatura moderna (e não na contemporânea), só se entende sozinho.
 
Imaginou variações consecutivas dessa história por anos a fio. Em todas ele terminava sozinho. (403)
 
Jasmim. Faz compras, faz sopinha. E faz faxina. E, além de tudo, não espera ligação emocional. É a encarnação de uma fantasia masculina de mulher, a que doa de comida a afeto, sem necessidades emocionais ou materiais. Diz ela:
 
Sobre a gente ter se conhecido e qualquer coisa que acontecer daqui pra frente. Vamos tentar simplesmente não falar a respeito. Não perguntar se tá acontecendo mesmo, se a gente tem motivos, se vai ser assim ou assado. Querer saber o que um tá sentindo, o que o outro tá sentindo. Sei que devo parecer louca mas falar sobre as coisas avacalha tudo para mim. Falar estraga. (pg. 268)
 
***
 
Uma nota sobre o início do livro, com a explicitação do “fato real”, gerador da ficcionalização.
Paulo Scott fez a mesma coisa em seu último romance, (O habitante irreal, Alfaguarra, 2011), também resenhado por mim. Gosto do recurso. Mas acho que melhor seria se em vez de separar “fato” e “ficção” os autores expusessem seu processo de ficcionalização enquanto ele se dá. Isso permitiria ao leitor uma maior entrada, um diálogo que, deste modo, fica impedido. Ao separar as duas coisas os autores obliteram suas falhas e hesitações, não deixam brechas para que autoria e leitura se deem de igual para igual.
Outra coisa de que gostei: a rememoração de uma trepada distante no tempo, nas pgs.81/82. É belíssimo.
Então é isso, achei o livro bem escrito paca, mas fingindo ser o que não é. Ou melhor, finge porque é bem escrito paca.
Há uma frase do livro que eu gostaria de ter escrito:
 
Dizem que a vida vista de perto é mais fascinante. ( 264)
 
Eu acho.
 
Elvira Vigna

Novembro de 2012

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BARBA ENGANADA?

Eu gostei do romance e a Elvira não gostou. Parece que a prática cabível seria de dar os ombros e ignorar a existência ou qualquer validade do texto ou tentar escrever uma resposta furiosa-nas-entrelinhas dos porquês ela estaria errada. Afinal, o campo literário seria feito de disputas, não? É, não sei se acredito tanto nisto, ou pelo menos que eu teria interesse em participar desta maneira. O texto é bem escrito, bem argumentado, cita as coisas com pertinência. Certamente tem bem mais propriedade do que as primeiras impressões que postei aqui umas semanas atrás. Conversei brevemente com ela pelo twitter hoje, esbarrando toda hora no limite dos 140 caracteres, então resolvi fazer um post aqui, já que seus comentários inspiraram algumas ideias novas.
(tenho como certeza de que os livros não terminam quando a gente lê a última página; quando a obra não é imediatamente esquecível, a gente vai relendo mentalmente, usando nossa memória faltosa, pelo resto da vida. Por isso é acho a resenha-de-lançamento é um desafio interessante porém bizarro, quase artificial, como um violonista tocando sem certas cordas)
(spoilers abstratos: não digo o que acontece no final da história mas vou esmiuçando o que vejo nas entrelinhas)
(Não vou escrever necessariamente para rebater o que a Elvira disse, este post é meio que escrito pensando em voz alta.)
Vi no twitter os primeiros comentários da Elvira sobre a leitura do livro do Galera e já imaginei que ela não fosse gostar. O livro de Galera não é um livro intelectual, crítico, como Elvira Vigna é (e não dou valor de “qualidade desejável” automático a essas duas palavras). É um livro de historinha, bem quadrado, e quem leu qualquer livro da Elvira sabe que não é bem este o caminho que ela trilha.
Acho que um obstáculo central é a deliberada (ou aparentemente deliberada) falta de vontade de crítica em Galera. O que há é uma vontade de simplesmente ver, em vez de ver defeitos, construir, no lugar de refazer (melhor, diferente). Não é uma postura tão popular nos meios acadêmicos, ainda mais brasileiros. O intelectual no Brasil sempre se fez pela vontade de mudança diante da realidade tétrica do país (talvez um pouco menos hoje já que dá pra pobre comprar iPhone). Iniciativas intelectuais precisariam pautar por caminhos de mudança, ou crítica apontada e delineada, como quem sempre pergunta “o que há de errado?”
Vejo inteligência e sensibilidade na literatura de Galera, mas pelo que vejo ele não negocia com este repertório. Este caminho consagrado é um que conseguiria responder sem titubear a pergunta “no fim das contas, o que é que você está dizendo com este livro”, e imagino o Galera meio perplexo se alguém chegasse a ele com esta pergunta. O livro simplesmente é.
Como exemplo deste aspecto de sua obra, acho que é possível citar a questão do sexo, sempre presente em seus livros mas sempre (pelo que consigo lembrar) sem qualquer libertação do cristianismo púdico. As mulheres no livro de Galera não aparecem gloriosamente libertas das amarras de casar virgens, ou de só fazer sexo por amor, depois de vários encontros “para ver se o cara é mesmo sério”. Elas só trepam. Não são elogiadas como inteligentes /libertas/certas por fazer isto. Elas só fazem, com amor, sem amor, gozando e às vezes não. É algo que existe.
O método da obra dele é como se a todo tempo o autor falasse “olha”.
(claro que não defendo que o autor é isento, imparcial, e “mostra a realidade como ela realmente é”, etc etc, Não estou falando que é errado criticar as escolhas do livro ou o método do autor, só acho interessante notar o que há de diferente de muito que foi feito em literatura e crítica no Brasil)
É meio estranho lidar com um método estético como este. Posso citar como referência o reverenciado  (por mim e pelo Galera) Cormac McCarthy. Como dá pra perceber, gosto de falar de literatura, de tentar destrinchar um pouco o que acho de interessante, etc etc. Fico (se me deixarem)  horas e horas falando sobre o David Foster Wallace, sobre o Coetzee, sobre o Machado de Assis, sobre o Sérgio Sant’Anna. Com o Cormac McCarthy, só posso dizer que o cara é foda[3]. É outro cara que ressalta o que há de material, de plástico, (só que em um nível bem superior ao de Galera.
Não que seja demérito a Galera estar aquém do Cormac, estaríamos (quase) todos fodidos se isto fosse um xingamento. Blood Meridian, por exemplo, é um livro sobre chacina contínua, genocídio mesmo, sangue e ossos e cadáveres, sem qualquer  dicção do medo ou do nojento, e em nenhum momento vemos qualquer crítica, explícita ou implícita, na narrativa. O All the Pretty Horses passa um tempão falando de coisas que decorreram da revolução mexicana, e o tratamento da coisa é quase como se tivesse sido um evento do clima.

Não vejo o Galera como um seguidor/copiador do Cormac (existe um interesse pela oralidade bem diferente do laconismo quase bizarro dos diálogos do Cormac, por exemplo, e também uma vontade de registro de contemporaneidade e pequenas banalidades que não são as banalidades-levado-ao-grau-cósmico tudo-é-banal/genocídio-é-banal do Cormac. Quase tudo no Cormac é no grau cósmico), e sim como dois autores de sensibilidade produtiva semelhante. A obra de Galera é como uma foto (proposital, sim, autoral, sim, escolhida, sim) daquilo que ele viu. Uma foto muito bem escrita.

Mencionei este aspecto não-intelectual do livro para Elvira como indicativo de que ela não fosse gostar e ela falou que o novo livro do Lísias, sobre suicídio, não é um livro intelectual mas que ela gostou. A questão que vejo aí é que o livro de Lísias é pessoal, e o livro de Galera é impessoal. Quase tão impessoal quanto o Mãos de Cavalo (e tenho dificuldade em pensar em um livro mais frio na literatura brasileira, tirando os poemas do Cabral). O problema é que vejo como sendo os momentos mais pessoais do Barba como os piores, em que  se fala (em vez de se encenar) sobre o budismo, personagens conversando só para o Galera falar pro leitor a opinião dele (não muito comum, não desprovida de interesse, mas falada, meio achatada), e os mais distanciados, descrições de cenário e etc, da ação, como sendo os melhores. Como falei antes, um autor que me parece mais produtivo no caminho da especificação/especialização do que na vontade de abarcar todas as possibilidades presentes no texto.
(achei meio maldoso chamar a Jasmim de “recepcionista de lojinha de turismo que fala sobre mito” , o que dá a ideia de algo meio artificial/incomum/idiossincrático -como me parece a prostituta que lê Nietzsche-, quando o que vi foi uma mestranda que tira uma grana naquele servicinho turístico. Gostei da composição da personagem dela)
No final do texto da Elvira há um certo pedido/vontade de explicitação do processo ficcional, de abertura para o diálogo, e de fato isto não existe.
Pelo que transitei e transito pelo mundo acadêmico/intelectual, vejo que esta é outra constante. O intelectual quer falar, quer discutir. Sim, isto é valoroso (e este post é uma vontade de conversa), mas de novo é uma ausência em Galera que me parece deliberada, proposital. Há uma ideia meio difundida no meio intelectual que diz que um livro hoje em dia que não explicita seus quês de artifício tem algo de mentiroso (sem qualquer conotação lúdica à palavra), que haveria aí uma vontade de objetividade, imparcialidade, superioridade implícita em procedimentos narrativos “naturais” ou “naturalizados”. Que mostrar os andaimes é como que a coisa honesta a ser feita.

Será mesmo assim? A metalinguagem me parece interessante para enxergar os procedimentos e reconhecê-los como tal, mas seu encenamento artístico nem sempre é produtivo, não vejo que ela deve ser tomada como método contínuo. Os trechos sobre literatura no Cordilheira são os mais fracos do livro, a conversa do escultor em Cachalote eu achei um saco. Como postei anteriormente, é um autor do material, e não do abstrato. É uma coisa valorosa de se ter em consideração, mas nem sempre presente de forma explícita. E o que dessa predominância dos andaimes (no meio intelectual, nos romances literários, metalinguísticos, lidos no mundo acadêmico) expostos não teria de mera repetição?

Acho que este encobrimento é uma característica importante do texto: o livro é cheio de silêncios implícitos, meio fora de moda diante de tantos silêncios explícitos em outros textos.No lugar de falar tanto sobre a dificuldade de falar, sobre as imposições do falar, simplesmente se deixa os silêncios em silêncio, e achei eles suficientemente fortes desta forma, diria até mesmo perfeitamente cabível.
O romance todo é uma coisa que não quer conversa (apesar de ter tantos diálogos) porque a enxerga como não sendo possível, não é só o pai do início do livro que acha que é impossível convencer alguém de qualquer coisa (um publicitário premiado, vale lembrar). O personagem ao fim chega a explicitar: não temos escolha, mas precisamos agir/pensar como se tivéssemos. É o radicalismo de um personagem radicalista, mas o que se sobressai do espírito da obra (e do Mãos de Cavalo, que narra uma tentativa fracassada de construção pessoal) é a de que os principais eventos de nossa vida estão fora de nosso controle, que somos arremessados para a existência com muito de nossas vidas já decidido por nós (raça, sexo, início social, impedimentos neurológicos, mundo com o qual temos que negociar). Temos um espaço de movimentação para não sermos sufocados (alguns de nós, pelo menos, e no livro nem isto é uma certeza), mas as questões e impasses que nos são impostos não são de escolha nossa. Não é tanto um destino que em algum lugar está traçado para nós (embora o livro negocie de forma incomum com o mítico…) quanto o reconhecimento de uma fraqueza inescapável. É um livro de desespero tranquilo.
Um livro que se mostrasse como construção seria um enfraquecimento destas entrelinhas (e linhas, quando o personagem fala). Construção não implica escolha?
Encerrando, vou rebater de forma mais pontual uma crítica da Elvira: é verdade que o livro é construído em dualismos, mas a meu ver eles não são “falsos no livro”, e sim borrados: há a separação da vida urbana em relação a “vida afastada”, mas qualquer paraíso possível de Garopaba é minado por uma corrente subterrânea de sinistro que permeia o livro, de segredos que ninguém fala, de cochichos que comentam todo movimento numa vígila incômoda. O próprio protagonista com sua condição neurológica ficaria bem mais bem servido no anonimato da urbe. O duelo do homem versus a natureza é feito, para nós, de vitórias sucessivas e derrotas aleatórias, que tiram o caráter definitivo das vitórias mas que não as destrói: o protagonista é exímio nadador e morre afogado. Continua tendo sido grande nadador. Não há lado que se sobressai, certo e errado claros, e sequer vejo uma tentativa de equilíbrio. A do destino, por exemplo, devemos reconhecer o destino e fingir que ele não existe. Qual a solução? A solução é que não existe solução.
(sobre a questão de gênero, no livro, claramente pertinente, não tenho o que dizer. Acho o livro curioso neste aspecto, mas não tenho leituras no assunto para falar muito. Talvez um dos privilégios de ser homem-branco é que o guideline genérico “don’t be an asshole” me pareceu suficiente para lidar com questões assim. O que um homem heterossexual pode falar disso? A resposta não é “nada”, mas eu não sei o que é. O livro parece ser algo neste sentido, mas não sei ainda se acho ele bom ou ruim por este lado)
Post-scriptum mal escrito: Ah, se alguém se interessou em ler o Cormac, leia em inglês. Estou lendo “The Road” (bom, mas não é dos melhores) e por curiosidade abri a tradução brasileira e me desagradou logo no primeiro parágrafo. É uma história pós-apocalíptica, e a abertura do livro escreve como cada dia é mais cinza e frio que o anterior escrevendo “like the onset of some cold glaucoma dimming away the world”. Não lembro exatamente das palavras da tradução, mas sei que foi colocado a palavra “progressivamente” no meio. “Progressivamente”, pelo menos pra mim, ressoa como uma palavra do mundo moderno, da técnica, e a linguagem do Cormac é toda bíblica, mítica, épica (e todas essas coisas fora-de-moda “impossíveis hoje em dia”). E no Cormac a linguagem é só quase tudo.
Breno Kümmel nasceu em 1986, em Brasília. Em 2006, publicou um livro de contos, Estrada de Espelhos. Graduou em Letras pela UnB em 2007 e em 2012 terminou seu mestrado em literatura brasileira sobre a ditadura militar como tema literário, pela UFMG. Consulte o seu blog : http://asordensdadesordem.blogspot.com.br/

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