Uma canção terrena

Na edição de novembro de 2012 da revista portuguesa Ler, Carlos Vaz Marques fez uma de suas melhores entrevistas, com Alberto Manguel. Transcrevo aqui um trecho dessa conversa:

O seu ioga matinal – como dizia aqui há tempos – continua a ser a leitura de Dante?

Para mim, a leitura de Dante é essencial como uma espécie de lavagem mental, para começar o dia.

[…]

D’A divina comédia lê principalmente o “Inferno”, o “Purgatório” ou o “Paraíso”?

Tudo. As pessoas detêm-se geralmente no “Inferno” mas o “Purgatório” e o “Paraíso” continuam essa aventura extraordinária. Por exemplo, no princípio do “Purgatório”, Dante e Virgílio chegam à praia do Monte Purgatório, estão a tentar perceber o que vão fazer, como vão poder subir, encontram-se com Catão – o censor, o filósofo, que é o guardião do Purgatório – e acontecem várias coisas muito divertidas. O momento mais emocionante, para mim, é justamente no início do “Purgatório”, quando chega uma barca das almas – chegam constantemente como uma espécie de ferry, de meia em meia hora, com o seu carregamento de almas, como os ferries com o seu carregamento de turistas. Entre as almas que chegam, Dante reconhece a do seu amigo Casella, o músico. Quer abraçá-lo mas, claro, não pode porque ele é apenas uma sombra. O que também tem algo de muito comovente: encontrar-se com um amigo a quem não pode abraçar. Então, em memória dessa amizade que tiveram, Dante pede a Casella que cante. Imagine a situação: estão à beira do Purgatório, vão subir, sabem que é o momento da salvação e Casella põe-se a cantar, ali, na praia. E canta de uma forma tão bela – e ainda por cima um verso de Dante, ou seja Dante está a citar-se a si próprio – que todas as almas se reúnem, inclusive Virgílio, e escutam embevecidas o que Casella está a cantar. Aí, chega Catão e pergunta: “Mas o que é que vocês estão aqui a fazer?” No momento mais importante das suas vidas, que é o da salvação das suas almas, já com a salvação prometida porque quem vai para o Purgatório já não pode pecar, quando têm de passar por essa purga para chegarem ao Éden e para poderem subir ao Paraíso, estão ali a ouvir alguém a cantar uma canção terrena. O que é que se passa ali? Dante sabe que mesmo dentro do dogma cristão, rígido, sob o qual ele está a trabalhar, a arte continua a ser importante, que ele continua a ser um ser humano; que mesmo depois da morte, a arte, a criação literária, a poesia, o canto continuam a ser essenciais. E diz-nos que mesmo no momento mais importante das nossas vidas ela continua a contar. Como é que uma pessoa pode não se emocionar com esta passagem?

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