“Niels Lyhne”, de Jens Peter Jacobsen

Trecho de Niels Lyhne, romance de Jens Peter Jacobsen. Tradução de Pedro Octáveio Carneiro da Cunha, edição Cosac & Naify:

Enfim casaram-se.

O primeiro ano assemelhou-se muito ao tempo do noivado, mas à medida que a vida em comum envelhecia, Lyhne sentia maior dificuldade em dissimular a si próprio sua fadiga: estava cansado de procurar sempre novas expressões para o seu amor; cansado de, sempre revestido da plumagem da poesia, manter as asas alçadas para a fuga pelos céus de todas as emoções e pelas profundezas de todos os pensamentos; ansiava pelo bem-estar de uma paz contemplativa, sentar-se muito quieto no seu galho e dormitar, a cabeça oculta na morna penugem sob a asa. Não concebia o amor como chama sempre desperta, crepitante, que fulgidamente iluminasse os menores incidentes da existência, fantasticamente tornando tudo maior e mais estranho. Antes era o amor, para ele, como a brasa que arde na calma, que irradia de suas brandas cinzas um calor sempre igual, que no aconchego do crepúsculo faz esquecer suavemente a distância e acende no que está ao redor um brilho mais próximo, mais familiar.

[…]

Havia muito que ela percebera, com desgosto, como minguava a opinião que fizera do marido, e como ele descia das alturas vertiginosas em que ela o colocara ao tempo do noivado. Ainda não duvidava que ele fosse, como ela costumava chamar, uma natureza poética; mas tinha se tornado inquieta: já muitas vezes a vida parecia apenas prosaica. Tanto mais fervorosamente lançou-se ela no caminho da poesia e procurou reconstituir o estado anterior, afogando o marido numa torrente de emoções ainda mais extraordinárias, de maiores entusiasmos; encontrou, porém, tão fraca ressonância, que quase passou a sentir-se ela mesma sentimental e afetada. Ainda algum tempo procurou arrastar o recalcitrante Lyhne; não queria acreditar no que pressentia; mas à medida que, pouco a pouco, a inutilidade dos seus esforços despertou-lhe dúvidas sobre suas próprias qualidades de espírito e de coração, passou a deixá-lo tranquilo, tornou-se fria, silenciosa e meditativa, procurou a solidão para chorar em paz as suas ilusões.

Pois agora ela verificava que se tinha enganado amargamente e que Lyhne, a rigor e no íntimo, não era diferente das pessoas que sempre conhecera, e que aquilo que a enganara era a coisa mais comum: o amor simplesmente o envolvera por algum tempo numa fugitiva auréola de espírito e nobreza, como acontece tantas vezes às naturezas inferiores.

Lyhne tornou-se tão aflito quanto apreensivo com essa alteração nas suas relações, e esforçou-se em tentativas infelizes para reatar o antigo voo apaixonado; o que apenas serviu para provar mais claramente a Bartolina a extensão do seu erro.

1 comentário

Arquivado em Romance

Uma resposta para ““Niels Lyhne”, de Jens Peter Jacobsen

  1. É um tema intemporal! Lá dizia o Flaubert:” Madame Bovary, c´est moi!
    E a solidão habitada do Hooper é veemente e silenciosamente gritante.
    A Luisa do Basilio, a Anna Karenine do Vronsky são de carne e osso(helás
    mais carne que osso!)e estão entre e dentro de nós.
    Li na Ler A Voz do Brasil sempre cheia de notícias de autores infelizmente,
    na sua maioria ainda não editados em Portugal.
    Procurarei alguns,entre eles o romance de que enviou o “isco”.
    Obrigada.

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