“Os irmãos”, de Eucanaã Ferraz

Felicidade, era o que era.
Após uns poucos dias fora

de casa, retornar e correr
em direção ao ipê, abraçá-lo

como se abraça um amigo
alto e áspero, um avô.

E era como se ramos e flores
os reconhecessem, eu imagino,

e sabe-se lá o que pensavam
àquele instante os dois meninos,

ou se não pensavam nada
e sentissem apenas a pele rude

daquele carinho imóvel. Montanhas
moviam-se lentamente na luz,

lagartos iam e vinham rápidos
como raios. Era mais certo

que os dois meninos não pensavam
coisa alguma, embora àquela hora

fechassem os olhos como quem pensa.
Ou por isso mesmo não pensavam,

porque fechavam os olhos como quem
apenas descansa. Além disso,

eram crianças, e ainda mais inconscientes
quando abriam os olhos para o alto

e viam
a copa derramar-se convexa

em milhões de júbilos, vozerio
de lâminas, estrelas e dragões.

A árvore enlaçada, nem percebiam
que seus pés

esmagavam os morangos selvagens
que se estendiam rasteiros, miúdos

em torno do imperador amarelo.
E gritavam, e riam, selvagens

eles também, selvagens o cheiro,
a sombra, a alegria,

o sol
muito azul de Friburgo.

De Cinemateca

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