“Por esses e outros motivos”, de Manuel de Freitas

[para o José Miguel Silva]

Essência? Só se for a gasolina.
Para Heidegger, Leibniz ou Espinoza
era eu na altura demasiado novo
e agora (devo confessá-lo) demasiado
velho. O mundo, estou em crer,
não passa ou não quer passar
por esses solenes alçapões do sentido.
Sistemas, teorias, relógios tão parados.

Nascemos (é um azar comum),
envelhecemos mal, temos dúvidas
e dívidas sobre as quais ninguém
– mesmo que se lhe chame Deus –
responde. Ou até filhos parecidos,
emblemas da matéria que provisoriamente
nos devolvem o nariz adunco,
um sinal, a morte tatuada e certa.
Coisas que remendem o melhor dos mundos.

Eu (devo confessá-lo?) tenho passado bem
sem filosofia e sem emprego. Não corro
aos púlpitos disponíveis, não protesto
– e prefiro passar fome de gin quando o restaurante
que me espera se traduz em várias línguas.

É por esses e outros motivos
que não gosto assim tanto
dos poetas meus contemporâneos.

 

De [sic], Lisboa, Assírio & Alvim, 2002

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